A Fed subiu, a cripto encaixou: agora decide dezembro
A Fed subiu os juros pela primeira vez desde 2023 e a cripto não caiu: o Bitcoin defendeu os 75 mil dólares e disparou para lá dos 85 mil. Anatomia da reação ao FOMC e porque dezembro decide.
A 16 de setembro, a Reserva Federal dos Estados Unidos fez aquilo que não fazia desde julho de 2023: subiu a taxa diretora. O aumento de 25 pontos base, para o intervalo de 3,75% a 4,00%, foi aprovado por unanimidade e foi a primeira subida sob a presidência de Kevin Warsh. Durante semanas, a tese dominante nas mesas de negociação era simples: se a Fed apertasse, a cripto apanhava. Não foi o que aconteceu.
Seis dias depois, o retrato é quase o oposto do guião pessimista. O Bitcoin cedeu para a zona dos 65 mil euros no dia da decisão, defendeu o patamar que já tinha segurado em julho e, na semana seguinte, disparou para lá dos 74 mil euros, com uma entrada recorde de capital nos fundos cotados norte-americanos. Este artigo é a autópsia dessa reação: o que a Fed decidiu, porque é que o mercado encaixou o golpe, o que os pontos do gráfico dizem sobre o resto do ano e porque é que dezembro, e não setembro, é a reunião que interessa.
O que a Fed decidiu a 16 de setembro
O comunicado não deixou margem para interpretações dúbias. O Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC) elevou o intervalo dos fundos federais em 25 pontos base, de 3,50%-3,75% para 3,75%-4,00%, numa votação unânime de doze a favor e zero contra. Foi a primeira subida desde julho de 2023 e encerrou um ciclo curto de três cortes no final de 2025 (setembro, outubro e dezembro) seguido de uma série de pausas ao longo de 2026, como confirma o comunicado oficial da Fed e a cobertura da CNBC.
A justificação estava nos dados. A inflação, nas palavras do próprio comunicado, mantinha-se elevada, e a subida serviria para apoiar um regresso mais atempado à meta de 2%. Os números de agosto tinham deixado a Fed sem álibi: o índice de preços no consumidor subiu 0,4% em cadeia e 3,4% em termos homólogos, com o núcleo (que exclui energia e alimentação) a acelerar para 2,4%, segundo o Bureau of Labor Statistics; os preços no produtor dispararam 5,4% em termos homólogos, o valor mais alto do ano; e o mercado de trabalho criou 162 mil postos em agosto, muito acima do esperado, com o desemprego nos 4,1%.
A decisão não foi um acontecimento isolado. Seis dias antes, o Banco Central Europeu já tinha subido as suas três taxas em 25 pontos base, colocando a taxa de depósito em 2,50%, num movimento que Christine Lagarde classificou como óbvio, de acordo com o Banco Central Europeu. Pela primeira vez em muito tempo, os dois maiores bancos centrais do Ocidente apertavam ao mesmo tempo, em vez de divergirem. Para a cripto, um ativo que respira liquidez, esta sincronia importa: não há um banco central generoso a compensar outro restritivo.
O recado estava nos pontos, não na subida
Para quem negoceia cripto, a subida em si quase não era notícia. À entrada da reunião, os mercados de futuros da CME já atribuíam mais de 90% de probabilidade a um aumento de 25 pontos base, como se pode acompanhar na ferramenta FedWatch da CME. O que verdadeiramente importava era o resumo de projeções económicas, o chamado dot plot, o gráfico de pontos onde cada membro do FOMC assinala onde vê os juros nos próximos anos. E foi aí que estava o recado.
Dos dezoito responsáveis, dezasseis projetaram pelo menos mais uma subida ainda em 2026: doze apontam para mais um aumento e quatro para dois, com apenas dois a considerarem que o trabalho está feito. O agregado de fim de ano ficou algalgures entre 3,9% e 4,4%, com a mediana das projeções a apontar para cerca de 4,1% até ao final de 2027, segundo o apuramento da Cointelegraph. Por outras palavras: não só a Fed subiu, como sinalizou que não terminou.
Este é o coração da leitura de mercado. Uma coisa é uma subida isolada, encarada como o último aperto de um ciclo; outra é uma subida acompanhada de um mapa que promete mais restrição. A mensagem, em três palavras, foi «higher for longer» (mais alto durante mais tempo). E é essa mensagem, muito mais do que o quarto de ponto, que reprecifica ativos de duração longa e sem fluxo de caixa, categoria onde a cripto se inclui. Quando o dinheiro sem risco rende mais durante mais tempo, o valor presente das promessas futuras encolhe, e os ativos que vivem de expectativa de valorização são os primeiros a sentir a conta.
A reação imediata: a pancada que não veio
Se havia expectativa de sangue, ela não se materializou. O Bitcoin entrou na terça-feira acima dos 78 mil dólares, escorregou para baixo dos 75 mil à medida que a decisão se aproximava e, no momento do comunicado, chegou a saltar para perto dos 76,3 mil, num alívio momentâneo. A conferência de imprensa de Warsh, dura no tom, apagou o salto, e o preço assentou perto dos 75,6 mil dólares, cerca de 65 mil euros ao câmbio da altura. No dia seguinte, recuperava 1,35%, para lá dos 76,6 mil, e, sobretudo, tinha segurado a linha dos 75 mil dólares, o mesmo patamar defendido em julho, como notou a CoinDesk.
O Ethereum comportou-se ainda melhor do que o Bitcoin, subindo mais de 1% no dia da decisão apesar de os fundos cotados ligados ao ativo terem registado saídas, segundo o Cryptonomist. Onde houve dor foi na cauda mais especulativa do mercado: fichas como JUP, XLM e ICP cederam cerca de 10% cada, o lembrete habitual de que, quando a maré macro assusta, é nos ativos de beta alto que o susto se sente primeiro. As liquidações forçadas ficaram em cerca de 455 milhões de dólares nas 24 horas em torno da decisão, um número contido para um evento desta natureza. Comparado com os episódios de pânico de outros ciclos, foi quase um bocejo.
O quadro seguinte resume a reação ativo a ativo no dia da decisão. Os movimentos são aproximados e servem de leitura direcional, não de registo ao cêntimo.
| Ativo | Reação no dia da decisão (16 set) | Leitura |
|---|---|---|
| Bitcoin (BTC) | Cedeu para a zona dos 65 mil euros, defendeu os 75 mil dólares | Encaixou o golpe, sem capitulação |
| Ethereum (ETH) | Subiu mais de 1% apesar das saídas de ETF | Resiliência relativa |
| Altcoins de beta alto (JUP, XLM, ICP) | Quedas próximas de 10% | O susto sente-se na cauda |
| Ouro | Praticamente descolado do movimento cripto | Correlação partida |
| Dólar (DXY) | Firme, mas sem disparo | Subida já refletida no preço |
A semana seguinte: do encaixe ao ímpeto
A verdadeira história não foi o dia da decisão, foi a semana que se seguiu. Depois de defender os 75 mil dólares, o Bitcoin não se limitou a estabilizar: ganhou balanço. Entre 18 e 21 de setembro, o preço rompeu resistências e ultrapassou os 85 mil dólares, provocando a liquidação de mais de 648 milhões de dólares em posições curtas, ou seja, apanhando em contrapé quem apostava na queda, segundo o balanço de mercado da Investing News.
O combustível veio dos fundos cotados. Os ETF de Bitcoin à vista nos Estados Unidos registaram uma entrada diária de quase mil milhões de dólares (cerca de 999 milhões), o valor mais alto de todo o ano de 2026, com o preço a tocar os 86 mil dólares, algo como 74 mil euros, de acordo com a news.bitcoin.com. Foi o terceiro dia consecutivo de entradas e o sinal mais claro de que, ao contrário do que o guião macro previa, o comprador institucional não fugiu da subida de juros; comprou-a.
O sentimento acompanhou o preço. O índice Fear & Greed, que mede o pulso emocional do mercado, voltou a instalar-se em terreno de ganância, perto dos 71 pontos, longe do medo que dominara os dias anteriores à reunião, conforme os dados agregados de mercado. Nas mesas, falava-se já de alvos nos 90 mil e até nos 98 mil dólares caso o suporte aguentasse.
Vale a pena travar aqui o entusiasmo com um aviso. Um «squeeze» de posições curtas alimentado por alavancagem é, por natureza, um movimento frágil: tão rápido a subir como a corrigir. O que torna esta recuperação diferente é a companhia que traz, a procura por ETF à vista, que é dinheiro de facto e não uma aposta emprestada. É essa combinação, e não o quarto de ponto da Fed, que define o tom de curto prazo do mercado.
Os ETF: primeiro amortecedor, depois motor
Para perceber porque é que 2026 não se parece com 2022, é preciso olhar para o fluxo dos fundos cotados, o produto que não existia no ciclo anterior. A sequência das últimas semanas conta a história toda. A 4 de setembro, ainda antes da reunião, os fundos de Bitcoin tinham captado cerca de 731 milhões de dólares num único dia, a maior entrada desde 14 de janeiro, um sinal de apetite que a crypto.news destacou como prova de resiliência da procura.
No dia da decisão, o pêndulo inverteu-se: os ETF de Bitcoin e de Ethereum à vista somaram saídas combinadas de cerca de 520 milhões de dólares, e na sessão seguinte os de Bitcoin perderam mais 296 milhões, com o IBIT da BlackRock a responder por 144 milhões desse total. Foi o amortecedor a funcionar ao contrário: houve resgates, mas ordenados, sem a espiral de vendas forçadas que marcou outros episódios de aperto monetário.
Depois, o pêndulo voltou a inverter-se, e com força. A entrada recorde de quase mil milhões de dólares a 21 de setembro mostrou que os resgates da semana da reunião foram uma pausa, não uma debandada. O ETF passou de amortecedor a motor: primeiro absorveu a venda, depois puxou o preço. É uma dinâmica nova, e é a razão estrutural pela qual a mesma família de más notícias (Fed dura, dólar firme) já não produz o mesmo desfecho.
Um parêntesis importante para o leitor europeu: estes fluxos recorde referem-se a produtos norte-americanos, que o investidor de retalho na União Europeia não pode comprar diretamente. Na Europa, o acesso faz-se sobretudo através de ETP (exchange-traded products) de emitente único, uma vez que a moldura UCITS não permite fundos de índice com exposição direta a uma só criptomoeda à vista. Ainda assim, os fluxos americanos são o melhor barómetro disponível da procura institucional global, e essa procura, por agora, fala mais alto do que a Fed.
Alavancagem e derivados: a autópsia
Por baixo do preço, o mercado de derivados conta uma história mais fina. No momento do anúncio, o fluxo nos perpétuos foi de venda líquida, cerca de 82 milhões de dólares em Bitcoin e 68 milhões em Ethereum, enquanto o mercado à vista registava compras líquidas. Traduzido: quem estava alavancado reduziu risco, quem tinha dinheiro comprou. É a assinatura de um mercado sustentado por participação à vista e não por especulação a crédito, precisamente o oposto do que costuma preceder as grandes cascatas de liquidações.
Essa leitura foi posta à prova poucos dias depois. A rutura acima dos 85 mil dólares liquidou mais de 648 milhões em posições curtas, e um curto-circuito de «shorts» é o reverso da mesma moeda alavancada: tão violento a subir como a descer. O custo de manter uma posição alavancada, o «funding», tornou-se a variável central desta fase, e a sua mecânica está detalhada na nossa análise sobre o novo preço da alavancagem. Para a radiografia das posições que rebentaram ao longo do mês, fica a autópsia dos derivados de setembro.
A conclusão prática é que a alavancagem, desta vez, não foi o motor do movimento, foi o passageiro. Quando é o dinheiro à vista a liderar, uma correção tende a ser mais rasa, porque não há uma cadeia de margens a rebentar em efeito dominó. É uma diferença técnica que separa um mercado maduro de um casino, e explica parte da calma com que a subida foi digerida.
As correlações partiram-se e a CLARITY falhou
Um dos dados mais reveladores da semana não foi um preço, foi uma correlação. Nos dias que antecederam a decisão, a ligação estatística entre o Bitcoin e os mercados tradicionais praticamente evaporou. A correlação a 15 dias com o S&P 500 caiu para cerca de 0,43 (vinha de 0,75 a 30 dias), com o índice Nasdaq recuou para perto de 0,30, com o ouro para 0,28, e com o dólar tornou-se ligeiramente positiva depois de meses em terreno negativo, segundo os dados compilados pela CoinDesk.
| Correlação do Bitcoin com | Antes (30 dias) | Depois (15 dias) |
|---|---|---|
| S&P 500 | ~0,75 | ~0,43 |
| Nasdaq | ~0,60 | ~0,30 |
| Ouro | ~0,69 | ~0,28 |
| Dólar (DXY) | ~ -0,54 | ~ +0,08 |
A explicação tem nome: naquela semana, a cripto estava a negociar a sua própria história, não a macro. A 15 de setembro, um dia antes da Fed, a moção para avançar com o CLARITY Act, a lei que definiria a fronteira de competências entre a SEC e a CFTC na regulação dos ativos digitais nos Estados Unidos, chumbou no Senado por 49 votos contra 50, aquém dos 60 necessários. O quadro de regulação do mercado ficou por resolver, e essa incerteza pesou tanto ou mais do que o quarto de ponto de juro.
Alice Liu, responsável de análise na CoinMarketCap, resumiu bem o dilema em declarações à CoinDesk: a cobertura clássica, usar a cripto como proteção de beta contra as ações, tinha deixado de ser fiável, e a reação ao FOMC corria o risco de ser ofuscada pelo desfecho regulatório. Por outras palavras, quem esperava que o Bitcoin se movesse ao ritmo do Nasdaq ficou a olhar para o gráfico errado.
Porque é que 2026 não foi 2022
A pergunta que paira sobre tudo isto é simples: porque é que uma subida de juros, num ciclo anterior sinónimo de queda, foi encaixada com tanta calma? A resposta tem duas partes.
A primeira é a regra de ouro das reações a bancos centrais: o que move o preço não é o desfecho, é a diferença entre o desfecho e a expectativa. Uma subida de 25 pontos base com mais de 90% de probabilidade já embutida no preço não é uma surpresa; é uma confirmação. Cooper Duschang, da Talos, notou precisamente, em declarações citadas pela crypto.news, que a decisão já estava, em larga medida, antecipada pelos mercados de cripto.
A segunda parte é estrutural. Em 2022, a cripto enfrentou o ciclo de subidas mais agressivo em décadas sem qualquer amortecedor institucional: sem ETF à vista, sem tesourarias empresariais de peso, com um mercado dominado por retalho alavancado. O resultado foi uma queda de mais de 75%. Em 2026, o comprador marginal mudou. Os fundos cotados e as empresas com Bitcoin em balanço absorvem a oferta de forma metódica, e é por isso que a mesma família de notícias produz um resultado tão diferente.
Nem todos veem a fotografia cor-de-rosa. Martin Lee, da DWF Labs, avisa que um mundo de juros mais altos durante mais tempo obriga os ativos de risco a reprecificar essa nova realidade, e que o encaixe de curto prazo não anula a gravidade de um custo do dinheiro estruturalmente mais elevado. Esse é, no fundo, o verdadeiro campo de batalha: enquanto a Fed pagar juros reais generosos, cada euro parado em cripto tem um custo de oportunidade que não existia na era do dinheiro barato, um tema que explorámos em detalhe a propósito da fasquia que decide dezembro.
Warsh e a subida de credibilidade
O tom de Kevin Warsh foi, talvez, o verdadeiro acontecimento do dia. O presidente da Fed, nomeado por Donald Trump e visto por muitos como uma escolha que traria juros mais baixos, entregou exatamente o contrário. Na conferência de imprensa foi direto: a inflação, disse, «é demasiado alta, e há demasiado tempo». Recusou descrever as condições financeiras como restritivas e afirmou que o banco central se tinha limitado a «remover uma dose de acomodação», segundo o relato da conferência de imprensa.
Chegou a enquadrar a inflação como uma escolha de política, sinalizando que combatê-la era, agora, a prioridade inegociável. Foi, no fundo, uma subida de credibilidade tanto quanto uma subida de juros: um banco central a dizer ao mercado que não vai tolerar inflação acima da meta, mesmo à custa de um susto no crescimento. É uma mensagem que remove da mesa, para já, a ideia de que a Fed viria em socorro dos ativos de risco ao primeiro tropeção.
Por trás do estilo está uma filosofia: Warsh quer um banco central mais silencioso, que abdicou da «forward guidance» (a prática de telegrafar os próximos passos) e que não quer ser a pista para a próxima negociação dos investidores. Para a cripto, a implicação é subtil mas importante. Se a Fed fala menos e surpreende mais, o prémio de risco de cada reunião sobe, e a leitura dos dados de inflação e emprego volta a ser o que verdadeiramente move o mercado entre reuniões. Menos guião, mais dados.
O dólar, os juros e a transmissão à cripto
Como é que uma decisão tomada em Washington chega à carteira de um investidor em Lisboa? Através de três canais.
O primeiro é o dólar. Juros mais altos tendem a atrair capital para a moeda americana, e um dólar forte é, historicamente, um travão para o Bitcoin, cotado em dólares. Desta vez, porém, o índice do dólar manteve-se firme mas sem disparar, um dos motivos pelos quais o golpe foi absorvido. O segundo são os juros reais. Com a taxa das Treasuries a 10 anos de novo a aproximar-se dos 5%, e a de 2 anos perto de 4,6%, o rendimento livre de risco tornou-se um concorrente sério. Quando se pode obter juro real positivo em dívida pública, o custo de oportunidade de deter um ativo que não paga cupão sobe, e é essa fasquia que os ativos de risco têm de superar. O mesmo fenómeno derreteu o prémio de risco de estratégias como o restaking, que analisámos à parte.
O terceiro canal é a liquidez global. A Fed continua a reduzir o seu balanço, e menos liquidez no sistema significa menos combustível para os ativos mais especulativos. É o canal mais lento, mas o mais poderoso a médio prazo, e o que melhor explica porque é que a cripto e a liquidez em dólares andam, ciclo após ciclo, de mãos dadas.
Para o leitor português, há uma distinção que convém não baralhar. Quem tem crédito à habitação não deve olhar para a Fed, mas para o BCE: são as decisões de Frankfurt, refletidas nas Euribor, que mexem na prestação da casa. A subida do BCE a 10 de setembro, para uma taxa de depósito de 2,50%, é que importa para o orçamento familiar. A Fed atua sobre a cripto por via indireta, através do dólar, dos juros reais americanos e da liquidez global. E há um efeito cambial que corta nos dois sentidos: como o Bitcoin se transaciona em dólares, a força ou fraqueza do euro face ao dólar amplia ou amortece os ganhos quando convertidos para a moeda europeia.
Dezembro é a verdadeira decisão
Se setembro já foi, porque é que ainda importa? Porque a Fed disse, em pontos, que não terminou, e o mercado sabe-o. A próxima reunião, a 27 e 28 de outubro, é vista sobretudo como uma paragem para reunir dados; a decisão que interessa é a de 8 e 9 de dezembro, acompanhada de um novo quadro de projeções. A probabilidade em tempo real de mais uma subida pode seguir-se na ferramenta FedWatch da CME.
O dot plot inclina a balança para mais uma subida de 25 pontos base até ao fim do ano, provavelmente em dezembro. Mas atenção à assimetria, bem identificada por Andrew Melville, da Block Scholes: depois de a Fed ter subido e sinalizado mais aperto, seria uma nova subida, e não uma pausa, a constituir a verdadeira surpresa dura. O risco de mercado está agora enviesado: uma pausa em dezembro seria recebida como alívio; um segundo aperto consecutivo é que poderia doer.
Os analistas ajustaram os alvos a esta nova realidade. A Bernstein, cuja equipa é liderada por Gautam Chhugani, cortou o alvo de fim de ano para cerca de 125 mil dólares (vinha de 200 mil), adiando para meados de 2027 um novo máximo histórico nos 150 mil, segundo o apuramento da CryptoRank; o Standard Chartered baixou a fasquia para os 100 mil; e há vozes, como a de Mark Connors, da Risk Dimensions, que mantêm um objetivo bem mais alto, nos 180 mil dólares, condicionado à melhoria da liquidez. A dispersão é enorme, e é essa dispersão que o mapa completo dos alvos ajuda a ler.
No fundo, o resto de 2026 resume-se a uma disputa: de um lado, a procura institucional via ETF e tesourarias; do outro, uma Fed determinada a manter o dinheiro caro. É a fasquia do juro contra o apetite pelo risco, e é dezembro que dá a sentença.
Três cenários até dezembro
Sintetizando, o caminho até ao fim do ano cabe em três cenários. Nenhum é uma previsão fechada; são molduras para pensar o risco e para não sermos apanhados de surpresa por nenhum deles.
| Cenário | Gatilho provável | Implicação para a cripto |
|---|---|---|
| Alívio (pausa) | Inflação arrefece e a Fed pausa em dezembro | Vento a favor; ETF e squeeze podem levar o Bitcoin a testar os máximos do ano |
| Base (mais um aperto) | Dados resistentes e a Fed sobe uma vez mais, como telegrafado | Encaixe provável se vier antecipado; volatilidade contida |
| Aperto (surpresa dura) | Inflação reacelera e a Fed sinaliza dois apertos | Reprecificação em baixa; juros reais e dólar voltam a pesar |
O cenário base, tendo em conta os pontos, é o do meio: mais um aperto, provavelmente em dezembro, absorvido sem drama se vier bem sinalizado. O que muda o jogo, para melhor ou para pior, é a inflação. Um par de leituras mais frias devolve a hipótese de pausa e liberta a cripto; uma reaceleração dos preços empurra o mercado para o cenário mais duro, e aí o amortecedor dos ETF será testado a sério.
Portugal: enquadramento e fatura fiscal
Para o investidor em Portugal, além do preço, há regras e há impostos. No plano regulatório, o período transitório da MiCA para os prestadores de serviços de criptoativos (CASP) terminou a 1 de julho de 2026; desde então, quem serve clientes portugueses tem de estar autorizado ao abrigo do novo regime. A supervisão de conduta de mercado cabe à CMVM, enquanto o Banco de Portugal trata dos aspetos prudenciais e do registo, num quadro fixado pela Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025.
No plano do acesso, vale a pena repetir: os fundos cotados à vista que batem recordes de entradas são produtos norte-americanos. Na Europa, a exposição faz-se por ETP de emitente único, porque a moldura UCITS não admite fundos com uma única criptomoeda à vista. Não é um detalhe menor: significa que o investidor europeu participa nesta procura, mas por um veículo diferente, com implicações próprias de risco de emitente e de custo.
E depois há o fisco. Em Portugal, as mais-valias com criptoativos detidos há menos de 365 dias são tributadas à taxa autónoma de 28% (categoria G do IRS), enquanto os ganhos com ativos detidos há mais de um ano estão, em regra, isentos, com exceções para instrumentos com natureza de valores mobiliários. Com a entrada em vigor das regras de reporte automático DAC8 na União Europeia, a era da opacidade fiscal acabou: as plataformas passam a comunicar os dados às autoridades. Traduzido para a semana que passou: quem vendeu no squeeze acima dos 85 mil dólares e detinha as moedas há menos de um ano tem 28% a caminho da declaração.
O que vigiar até ao fim do ano
A reação ao FOMC de setembro fechou um capítulo, mas abriu vários. Estes são os pontos de observação que vão ditar o tom da cripto até dezembro.
- As atas do FOMC de setembro, no início de outubro, para medir quão dividido está o comité e quão firme é a intenção de subir de novo.
- A reunião de 27 e 28 de outubro e, sobretudo, a de 8 e 9 de dezembro, esta última com novo dot plot.
- Os próximos dados de inflação e emprego nos Estados Unidos: são eles que ditam a probabilidade de dezembro.
- Se o Bitcoin continua a defender os 75 mil dólares e se as correlações com as ações voltam a formar-se; uma recorrelação seria mau sinal, porque devolveria a cripto ao sobe e desce do resto do risco.
- A durabilidade das entradas em ETF: um dia recorde não faz uma tendência.
- Uma eventual segunda tentativa de aprovar o CLARITY Act no Senado, que devolveria clareza regulatória ao mercado americano.
- O par euro/dólar, que amplia ou amortece os ganhos para quem investe em euros.
A grande lição de setembro é que a cripto se tornou, de vez, um ativo macro, mas um ativo macro que, por agora, negoceia mais a sua própria história e a sua própria procura institucional do que os humores da Fed. Encaixou a primeira subida de juros em três anos e devolveu-a com juros. Resta saber se aguenta a segunda. É essa a pergunta que dezembro vai responder.
Perguntas Frequentes
A Fed subiu os juros em setembro de 2026? Em quanto?
Sim. A 16 de setembro de 2026, a Reserva Federal subiu a taxa diretora em 25 pontos base, para o intervalo de 3,75% a 4,00%, numa votação unânime. Foi a primeira subida desde julho de 2023 e a primeira sob a presidência de Kevin Warsh.
Porque é que o Bitcoin subiu depois de a Fed subir os juros?
Porque a subida já estava refletida no preço (mais de 90% de probabilidade à entrada da reunião) e porque a procura institucional via ETF à vista, com uma entrada recorde de quase mil milhões de dólares a 21 de setembro, mais do que compensou as saídas do dia da decisão. O que move o preço é a diferença entre o esperado e o concretizado, não o título da notícia.
A Fed vai voltar a subir os juros em dezembro de 2026?
O gráfico de pontos da própria Fed mostra que dezasseis dos dezoito responsáveis esperam pelo menos mais uma subida em 2026, provavelmente na reunião de 8 e 9 de dezembro. Não é uma certeza: depende dos dados de inflação e emprego. A probabilidade em tempo real pode ser seguida na ferramenta FedWatch da CME.
Como é que a subida de juros da Fed afeta quem investe em cripto em Portugal?
De forma indireta, por três canais: um dólar mais forte, juros reais americanos mais altos que aumentam o custo de oportunidade e menos liquidez global. Para o crédito à habitação, o que conta é o BCE e as Euribor, não a Fed. E há um efeito cambial: como o Bitcoin se cota em dólares, o euro/dólar amplia ou reduz os ganhos em euros.
Quanto se paga de imposto sobre ganhos com cripto em Portugal?
As mais-valias com criptoativos detidos há menos de 365 dias são tributadas a 28% (categoria G do IRS); os ganhos com ativos detidos há mais de um ano estão, em regra, isentos, salvo instrumentos equiparados a valores mobiliários. Com as regras DAC8, as plataformas comunicam os dados às autoridades fiscais.
Tomás Albuquerque escreve sobre macroeconomia e mercados de criptoativos para a HOGE Wire.