A máquina de carry: quem ganha o funding dos perpétuos
O funding não é uma comissão, é uma transferência entre traders. Fica a saber quem colhe esse juro, a máquina de carry delta-neutral por trás da Ethena, e porque não é dinheiro grátis.
Sempre que um contrato perpétuo paga funding, esse dinheiro não desaparece nem fica com a corretora. Passa de um lado do livro de ordens para o outro: dos comprados (longs) para os vendidos (shorts), ou ao contrário. É uma transferência entre traders, não uma comissão. Logo, se a cada oito horas mudam de mãos milhões de euros em pagamentos, há sempre alguém, do outro lado, a receber de forma sistemática. Este artigo é sobre esse alguém: a máquina de carry que colhe o funding dos perpétuos, quem a opera e a que custo.
O tema é tudo menos teórico neste momento. Depois de um short squeeze histórico a meio de agosto de 2026, o Bitcoin voltou a negociar acima dos 68 mil euros (cerca de 79.195 dólares, segundo a CoinGecko a 28 de agosto), e a funding rate reaqueceu com ele. O índice KFRI da CF Benchmarks, que mede a funding anualizada do perpétuo de Bitcoin na Kraken, marcava 7,78% a 27 de agosto (CF Benchmarks). Positivo quer dizer uma coisa simples: os longs pagam aos shorts. A pergunta que quase ninguém faz é quem está do lado que recebe, e porque é que esse juro sequer existe. Para a mecânica da taxa e a forma como ela chegou às mesas reguladas de Wall Street, ver o nosso artigo sobre o funding que chegou a Wall Street.
O funding é uma transferência, não uma comissão
O primeiro erro de quem começa a negociar perpétuos é tratar a funding rate como uma taxa que se paga à plataforma, ao lado das comissões de negociação. Não é. A funding é um pagamento entre traders. Quando é positiva, quem está comprado paga a quem está vendido; quando é negativa, o fluxo inverte-se. A corretora limita-se a calcular o valor e a movê-lo de umas contas para outras. Nenhum euro de funding entra no cofre da bolsa.
Foi assim que a BitMEX desenhou o produto em 2016. Arthur Hayes, cofundador da empresa, descreveu o problema que queria resolver: «is there a way to create one product with no expiry so we can concentrate liquidity onto one contract?» (BitMEX). A resposta foi o swap perpétuo, um contrato sem vencimento mantido colado ao preço à vista por um pagamento periódico. Hayes explicou o mecanismo com um exemplo que continua exato: «if the perp traded at an average 1% premium to spot over the last eight hours, if you held a position at the funding period timestamp, longs would pay 1% to shorts.» O objetivo era que o produto se parecesse com negociação com margem: «A product that looked and felt like margin trading would remove the need to answer many questions from confused clients.»
A consequência prática é que o funding é um jogo de soma zero entre os dois lados, descontadas as comissões. Cada euro que sai do bolso de um comprado entra no bolso de um vendido. E, ao longo de meses e anos, um dos lados tende a pagar muito mais vezes do que recebe. Perceber quem é esse pagador estrutural, e quem se posiciona do lado oposto para colher o fluxo, é perceber como funciona grande parte do rendimento «neutro ao mercado» que a indústria cripto vende hoje aos seus clientes.
A base dos perpétuos: de onde vem o juro
Para saber quem colhe, convém recordar de onde nasce o valor. A funding rate tem, na maioria das corretoras, duas componentes. A primeira é o índice de prémio: mede quanto o preço do perpétuo se afasta do preço à vista. Se o perpétuo negoceia acima do spot, há mais procura compradora do que vendedora, e o prémio é positivo. A segunda é uma taxa de juro fixa (tipicamente 0,01% por período de oito horas na Binance e na Bybit, cerca de 11% ao ano), que reflete o custo de financiar a posição na moeda de cotação. O valor final é o prémio mais essa taxa, dentro de uma banda que impede saltos extremos.
O resultado é que a funding é, na prática, a base dos perpétuos: o análogo, para contratos sem vencimento, do prémio que os futuros datados exibem sobre o spot. Quando o mercado está otimista e alavancado no sentido comprador, a base dos futuros alarga e a funding dos perps sobe; quando há tensão e desalavancagem, ambas comprimem ou passam a negativo. Aqui interessa menos o cálculo até à última casa decimal e mais o que a taxa faz: identifica, em tempo real, qual dos lados está a pagar. E se há um lado a pagar, há um lado a receber. É essa a matéria-prima da máquina de carry.
O carry trade que fabrica um rendimento
A ideia central de quem colhe funding é simples e antiga: se um lado paga de forma sistemática, posiciona-te do outro e cobra. O problema é que ficar apenas short num perpétuo é uma aposta direcional. Se o preço sobe, perde-se no contrato aquilo que se recebe em funding, e provavelmente muito mais. A solução é neutralizar o preço.
Chama-se cash-and-carry, ou trade delta-neutral. Compra-se o ativo à vista e vende-se um perpétuo de nocional igual. Se o Bitcoin sobe 5%, ganha-se 5% no spot e perde-se 5% no short: o resultado direcional é zero. O que fica é o funding, que o vendido recebe enquanto a taxa for positiva. É o mesmo princípio da arbitragem de base entre spot e futuros datados, com uma diferença crucial: o perpétuo não vence, por isso a colheita não termina numa data de vencimento. Continua enquanto a posição estiver aberta e a funding for favorável. A base dos futuros datados acordou em agosto de 2026 depois de meses adormecida, e a sua prima perpétua obedece à mesma lógica.
Vale a pena fazer as contas de cabeça para ver a atração. Imagine-se um funding de 11% anualizados, um valor moderado para padrões cripto. Quem detiver 100.000 euros de Bitcoin à vista e vender o equivalente em perpétuos recebe, em teoria, cerca de 11.000 euros ao ano em pagamentos de funding, sem exposição à direção do preço. É mais do que rende a dívida pública de muitos Estados. O senão é que esses 11% não são garantidos: dependem de a funding se manter positiva, de a execução ser limpa e de nenhuma das pontas do trade rebentar pelo caminho. É rendimento condicional, não um cupão fixo.
Este é o motor. Fundos quantitativos, mesas de market making e protocolos inteiros existem para o operar à escala industrial. Mas antes de perceber quem o faz, vale a pena saber quanto rende, e porque é que o rendimento não se evapora à medida que mais gente tenta colhê-lo.
Quanto rende a colheita: o que diz o BIS
A melhor referência independente sobre o tamanho deste rendimento não vem de um fundo cripto, vem do Banco de Pagamentos Internacionais. No Working Paper n.º 1087, «Crypto carry», os investigadores Maik Schmeling, Andreas Schrimpf e Karamfil Todorov mostram que o carry cripto, o rendimento de manter esta posição neutra, foi em média superior a 10% ao ano, com picos por vezes acima de 40% (BIS). É um valor que, segundo o próprio estudo, excede largamente o carry disponível em ações, obrigações, divisas ou matérias-primas.
Porque é que um rendimento tão generoso persiste, em vez de ser competido até desaparecer? O BIS aponta duas causas. A primeira é a procura: «demand from smaller, trend-chasing investors seeking leveraged exposure», ou seja, pequenos investidores que perseguem a tendência e pagam para estar alavancados no sentido comprador. A segunda é a oferta limitada de capital do outro lado: «the limited deployment of arbitrage capital due to regulatory and margin frictions». Por outras palavras, há muito comprado disposto a pagar, e pouco capital sofisticado e disponível para absorver esse pagamento, porque a arbitragem cripto é operacionalmente cara e regulatoriamente complicada.
Há um aviso importante no mesmo estudo, e é ele que separa a colheita séria da ingénua: «a high crypto carry predicts future price crashes». Um funding muito alto não é só rendimento fácil; é um sinal de que o mercado está sobre-alavancado no sentido comprador, e portanto vulnerável a uma cascata de liquidações. Quem colhe carry está, em parte, a ser pago por assumir o risco de estar do lado errado quando essa cascata acontece. O rendimento existe porque o risco existe.
Quem paga a conta: o comprado alavancado
Do lado que paga está, quase sempre, o mesmo perfil: o investidor de retalho comprado e alavancado. Não por ser ingénuo, mas porque a estrutura do produto o incentiva. Um perpétuo permite exposição de 10x, 20x ou mais com pouco capital, e a maioria dos utilizadores usa-o para apostar na subida. Essa procura empurra o preço do perp acima do spot, o prémio sobe, e a funding com ele. O comprado paga esse prémio a cada oito horas, quer o preço suba ou não.
A BitMEX quantificou este perfil no seu relatório do segundo trimestre de 2026. Shang Wu, analista sénior de investigação da casa, descreve os traders da Hyperliquid, a maior corretora de perpétuos on-chain, como «retail, on-chain and long-biased», «degen traders that are happy to pay up for leverage», um comportamento que, nas palavras do relatório, «pushes its funding higher» (BitMEX). Traduzindo: um público mais retalhista e teimosamente comprado paga funding mais alto do que a média.
O custo acumula-se de forma silenciosa. Uma posição comprada com funding de 15% anualizados perde 15% ao ano só em pagamentos, antes de qualquer movimento de preço. Se o preço não colaborar, ou se uma cascata de liquidações apanhar a posição, o resultado combina o custo de carregar com a perda direcional. Foi exatamente isso que se viu na cascata de liquidações de agosto, quando a alavancagem acumulada em silêncio se descarregou de uma vez. Para este trader, o funding é o aluguer do risco que ele escolheu correr, cobrado ao harvester do outro lado.
Os quatro colhedores do funding
Do lado que recebe não está uma única figura, mas quatro tipos de participante, com motivações e riscos diferentes. A tabela resume-os.
| Quem colhe | Como se posiciona | O que ganha | Risco principal |
|---|---|---|---|
| Mesas de arbitragem e fundos quant | Spot longo mais perp curto (delta-neutral) | A funding, líquida de custos | Base, execução, contraparte |
| Market makers | Fornecem liquidez nos dois lados, inventário coberto | Spread mais a funding do lado que o mercado sobrecarrega | Inventário, gap de preço |
| Protocolos de dólar sintético (Ethena) | Colateral em staking mais short perp, à escala | Funding mais rendimento de staking, distribuído a quem detém o token | Funding negativo, depeg, oráculo |
| Shorts estruturais (hedgers) | Cobrem exposição já existente (ETF, mineiros, tesourarias) | Recebem funding enquanto cobrem | Custo se a funding inverter |
Os dois primeiros são os suspeitos do costume: profissionais que fazem disto um negócio. As mesas de arbitragem correm o cash-and-carry puro; os market makers colhem funding quase por acidente, porque ao equilibrar o livro ficam frequentemente do lado que o mercado sobrecarrega. Os dois últimos são mais interessantes, e é neles que vale a pena parar. Um transformou o carry num produto de retalho embrulhado num token. O outro nem sequer está a apostar: está apenas a cobrir-se, e recebe funding como efeito colateral.
Ethena: o carry trade que virou stablecoin
Nenhum exemplo ilustra melhor a industrialização da colheita do que a Ethena. O seu dólar sintético, o USDe, é, na essência, um trade de carry embrulhado num token. O protocolo detém colateral (Ether em staking e outros ativos) e vende um nocional equivalente de perpétuos para neutralizar o preço (Ethena). O resultado é um instrumento que não sobe nem desce com o Bitcoin ou o Ether, mas que gera rendimento de duas fontes: o staking do colateral (uns pontos percentuais ao ano) e a funding recebida nas posições curtas (que, em fases de funding positivo, pode chegar aos dois dígitos). Esse rendimento é distribuído a quem faz staking do USDe, no chamado sUSDe.
À escala, o USDe tornou-se um dos maiores dólares sintéticos do mercado, com uma oferta na ordem dos milhares de milhões de dólares, bem abaixo do pico que atingiu antes da desalavancagem de outubro de 2025. A dimensão importa porque a Ethena é, hoje, um dos maiores colhedores de funding do planeta: quando compra Ether em staking e vende perps, coloca-se do lado que recebe sempre que os compradores de retalho pagam. É a máquina de carry do BIS, mas aberta a qualquer detentor do token, sem que ele precise de operar nada.
O modelo tem, no entanto, uma dependência incómoda. Quando a funding é positiva, a colheita é gorda; quando vira negativa, a Ethena passa a pagar em vez de receber, e o rendimento comprime ou desaparece. É por isso que o protocolo mantém um fundo de reserva para amortecer esses períodos e, à medida que a funding cripto caiu para perto (ou abaixo) da taxa sem risco em fiat, diversificou o colateral para ativos do mundo real e reservas em stablecoins. A autópsia dos modelos de curadores da DeFi mostrou como estas estruturas de rendimento «neutro» podem esconder risco quando a maré vira, e a Ethena não é imune a essa lição, apenas está mais bem capitalizada do que a maioria.
Nem todos colhem o mesmo: a guerra dos dados
Se colher funding fosse tão simples como «vende um perp e recebe», toda a gente o faria e o rendimento desaparecia. A realidade é que a colheita depende muito de onde se opera, e a própria medição do funding é objeto de disputa entre casas de investigação sérias. Vale a pena confrontar dois relatórios que chegam a conclusões aparentemente opostas.
A BitMEX defende que o funding on-chain corre estruturalmente mais quente. Nos seus números, o Bitcoin na Hyperliquid pagou uma funding anualizada de cerca de 14,6%, contra cerca de 7,4% na Binance, praticamente o dobro; o prémio da Hyperliquid foi de 7,17 pontos percentuais no Bitcoin e 5,31 pontos no Ether, e manteve-se do mesmo lado em 95% e 89% dos dias, respetivamente, numa base móvel de 90 dias (BitMEX). Se estes números estivessem sempre certos, o colhedor deveria simplesmente vender perps na Hyperliquid e receber o dobro.
A Coin Metrics chega a uma conclusão que parece contradizê-lo. No seu «State of the Network» n.º 368, o Research Associate Cooper Duschang mostra que, numa média móvel de seis meses, o funding do Bitcoin na Hyperliquid foi na verdade o segundo mais baixo entre Hyperliquid, Binance e Deribit, com uma média de 0,00135%, apenas 0,01 pontos base acima da Deribit (Coin Metrics). O que distingue a Hyperliquid não é o nível médio, é a volatilidade: a sua funding foi 1,95 vezes mais volátil do que a da Binance e 3,32 vezes mais do que a da Deribit. Duschang resume a lição para quem colhe: «Shopping around for perpetual markets with the lowest funding rate can reduce trading costs.»
As duas leituras não são incompatíveis: medem janelas e métricas diferentes (média anualizada contra média de seis meses; nível contra dispersão). Mas convergem numa conclusão prática para o colhedor: o funding on-chain move-se mais depressa e com mais força, o que pode significar colheitas maiores nos picos e prejuízos rápidos quando a taxa vira. Onde se colhe, e em que instante, decide se a máquina de carry dá lucro ou não. O rendimento que parece garantido no papel dissolve-se numa má execução.
Onde se colhe importa: inverse, linear e on-chain
A escolha da corretora não é o único detalhe que muda o resultado. O tipo de contrato também. A BitMEX documenta uma diferença persistente entre os seus perpétuos inverse (liquidados em Bitcoin, o clássico XBTUSD) e linear (liquidados em stablecoin, XBTUSDT): o spread médio de funding entre os dois foi de 3,93% anualizados a favor do linear, e manteve-se negativo em 94% das janelas móveis de 90 dias (BitMEX). Para um colhedor, isto quer dizer que a mesma aposta neutra rende de forma diferente consoante a moeda de liquidação e a mecânica do contrato.
Depois há a fronteira entre corretoras centralizadas e mercados on-chain. Colher na Binance ou na Deribit implica confiar a custódia à corretora e passar por KYC; colher na Hyperliquid implica operar através de uma carteira própria, sem intermediário, mas expõe o colhedor à mecânica específica do protocolo (preço por oráculo, auto-desalavancagem, concentração de operadores). A tabela abaixo resume o que muda de sítio para sítio, com a ressalva de que estes valores dependem da janela e da metodologia de quem os mede.
| Local de colheita | Funding BTC (indicativo) | Nota |
|---|---|---|
| Binance (linear, CEX) | ~7,4% anualizada | Referência de bolsa centralizada; custódia na corretora |
| Hyperliquid (on-chain) | ~14,6% anualizada, mais volátil | Não custodial; preço por oráculo, ADL |
| Deribit (CEX) | Média mais baixa e estável | Sem componente de juro fixa separada |
| Inverse contra linear (BitMEX) | Spread ~3,93% | O tipo de contrato importa tanto como a corretora |
A lição é sóbria: não existe «a» funding do Bitcoin. Existem dezenas de funding, uma por contrato e por corretora, e o trabalho do colhedor profissional é arbitrar as diferenças entre elas tanto quanto colher o nível absoluto. É por isso que este negócio pertence, na prática, a quem tem infraestrutura para estar em vários sítios ao mesmo tempo.
O funding pode mentir: fluxo estrutural ou sentimento
Há uma armadilha na leitura de quem está de cada lado. É tentador ver funding positivo e concluir «o mercado está ganancioso», ou funding negativo e concluir «o mercado está em pânico». Nem sempre é verdade, porque muitos dos maiores shorts não são apostas direcionais: são coberturas.
No início de 2026, com o Bitcoin a subir cerca de 15%, a funding manteve-se surpreendentemente negativa, com médias perto de 5% negativos a 30 dias quando a norma histórica rondava os 8% positivos. Markus Thielen, fundador da 10x Research, avisou que a leitura óbvia estava errada: «something structural is happening in the futures market, not a sentiment shift», e classificou grande parte desses shorts como «mechanical risk-management trades, not bearish bets» (CoinDesk). Identificou três fontes: coberturas de resgates de fundos, trades de base entre ações da Strategy e o Bitcoin, e coberturas ligadas à migração de mineiros para a inteligência artificial.
Para o colhedor, esta distinção é dinheiro. Se a funding negativa vem de hedgers estruturais e não de baixistas convictos, o lado que paga (os shorts) é composto por gente com boas razões para estar ali, e o rendimento de colher do lado oposto (ficar comprado e receber) pode ser mais seguro do que parece. O inverso também é verdade: quando a funding dispara no positivo por pura euforia de retalho, colher (ficar short coberto) é razoável, mas o risco de uma cascata sobe. Saber quem está do outro lado, e porquê, vale mais do que o número da taxa.
Não é dinheiro grátis: o risco de quem colhe
Delta-neutral não quer dizer sem risco. Quer dizer sem risco de preço, e essa é apenas uma das dimensões. Quem colhe funding assume um conjunto de riscos que, historicamente, já destruíram posições que pareciam seguras. A tabela abaixo mapeia os principais.
| Risco | O que corre mal | Exemplo |
|---|---|---|
| Funding inverte | A taxa passa a negativo e o colhedor deixa de receber para pagar | Sequências negativas de 2022 e início de 2026 |
| Base e execução | Spot e perp não se movem em sincronia; slippage come o rendimento | Mercados finos e horas de baixa liquidez |
| Liquidação da perna curta | Um squeeze empurra o short para liquidação antes de o hedge compensar | Short squeeze de 19 de agosto de 2026 |
| Contraparte e plataforma | A corretora falha, congela levantamentos ou some com o colateral | Colapso da FTX, 2022 |
| Oráculo e depeg | O preço de referência falha ou o token perde a paridade | USDe abaixo da paridade, outubro de 2025 |
O caso de 2022 continua a ser o mais instrutivo. Muitos fundos corriam o trade de base considerado «sem risco», até que a FTX colapsou e o problema deixou de ser o funding e passou a ser recuperar o colateral bloqueado numa corretora insolvente. Em outubro de 2025, uma cascata de liquidações à escala do mercado levou o próprio USDe da Ethena a perder brevemente a paridade, um lembrete de que até o dólar sintético mais bem desenhado depende da integridade dos mercados onde se cobre. E quando o Bitcoin disparou a 19 de agosto de 2026, num short squeeze que liquidou milhares de milhões em posições curtas, muitos dos que se julgavam «neutros» descobriram que a perna curta pode ser liquidada antes de o hedge compensar, sobretudo com alavancagem. O crédito malparado que se acumulou em partes da DeFi ao longo de 2026 tem, na raiz, esta mesma ilusão de segurança: rendimento tratado como garantido quando era, o tempo todo, compensação por um risco de cauda.
O sinal por trás da colheita
Mesmo para quem nunca vai operar um trade de carry, o funding é informação. É um termómetro em tempo real de como está posicionado o dinheiro alavancado. Funding muito positivo diz que os compradores estão a pagar caro para estar comprados, sinal de um mercado sobreaquecido e vulnerável; funding negativo persistente diz que são os vendidos que pagam, algo que historicamente coincidiu com fundos de mercado.
A VanEck estudou esta relação. Segundo Matthew Sigel, responsável de investigação de ativos digitais da casa, desde 2020 os períodos de funding negativo foram seguidos de retornos médios do Bitcoin a 30 dias de 11,5%, contra 4,5% na média geral, com uma taxa de acerto próxima de 77% (Bitcoin Magazine). Não é uma bola de cristal, mas é um dos poucos indicadores contrários com histórico consistente, e explica porque é que os colhedores mais frios preferem entrar precisamente quando o retalho está a desistir.
Um aviso sobre a leitura de curto prazo: a funding é ruidosa. Só em agosto de 2026, o índice KFRI oscilou de valores negativos para lá dos 8% anualizados e de volta em poucos dias, ao sabor de cada onda de liquidações e de cada corrida de preço. Um único dia de funding diz pouco; o que informa é a tendência ao longo de semanas, lida em conjunto com o open interest e a base dos futuros datados. Quem colhe leva isto a sério, porque é a diferença entre uma média favorável e um susto pontual que apaga meses de rendimento.
No momento em que escrevemos, o sinal aponta para o lado quente. Depois do squeeze de meados de agosto, a funding reaqueceu: o índice KFRI marcava 7,78% anualizados a 27 de agosto de 2026, o que significa que, neste momento, são os compradores que pagam e os vendidos, incluindo colhedores como a Ethena, que recebem. Ler o regime, e não apenas o número, é a diferença entre usar o funding como bússola ou como miragem.
Portugal e a UE: onde fica o colhedor de retalho
Um investidor em Portugal que queira colher funding esbarra numa realidade regulatória que muda tudo. Do ponto de vista europeu, um perpétuo é um derivado, e a Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados (ESMA) deixou claro, numa declaração de 24 de fevereiro de 2026, que o nome comercial «perpetual futures» é irrelevante: estes contratos alavancados são, para efeitos legais, CFD (contratos por diferença) sob a DMIF II (ESMA). Isso coloca-os fora do MiCA, que só cobre o spot e os prestadores de serviços de criptoativos, e sob a supervisão do regulador de mercados, em Portugal a CMVM.
A classificação tem consequências concretas. Sob o regime de intervenção da ESMA, a alavancagem de retalho em CFD sobre criptoativos está limitada a 2:1, muito longe dos 100:1 disponíveis em plataformas offshore. Há também proteção de saldo negativo, encerramento automático por margem e um aviso de risco obrigatório. Estas regras existem por uma razão medida: dados citados pela CMVM mostram que entre 74% (na Irlanda) e 89% (em França) dos investidores não profissionais em CFD perdem dinheiro, com perdas médias entre 1.600 e 29.000 euros (Jornal Económico).
Para o colhedor de retalho português, a leitura é dupla. Por um lado, a alavancagem baixa torna o trade de carry pouco atrativo dentro do perímetro regulado: com 2:1, o capital imobilizado é grande para o rendimento que se colhe. Por outro, recorrer a uma plataforma offshore de alta alavancagem para o tornar rentável significa sair do perímetro de proteção: sem recurso à CMVM, sem proteção de saldo negativo, e com todo o risco de contraparte que a história de 2022 tornou impossível ignorar. A máquina de carry existe, mas para o pequeno investidor europeu vem com uma etiqueta de risco que raramente aparece nas montras.
Na prática, para o investidor português que quer exposição sem entrar neste jogo, as alternativas passam por instrumentos regulados: comprar o ativo à vista através de um prestador registado, ou usar produtos cotados em bolsa dentro do perímetro da União Europeia. Nenhum deles colhe funding, mas também não expõe o aforrador ao risco de contraparte de uma plataforma offshore nem à alavancagem que transforma um mau dia numa liquidação total. A colheita de funding é um negócio de profissionais com balanço para aguentar o risco de cauda; para a carteira de longo prazo, raramente compensa o custo escondido.
O que isto significa para o investidor
Recapitulando, ficam três ideias. Primeiro, o funding não é uma comissão, é uma transferência, e está-se sempre de um dos lados: ou se paga para estar alavancado, ou se recebe por assumir o risco de estar do lado oposto. Não há posição neutra em relação à taxa; há apenas quem a percebe e quem a ignora. Segundo, colher funding é um rendimento real e academicamente documentado, mas é compensação por risco, não dinheiro grátis; o próprio BIS mostra que o carry mais alto costuma preceder as maiores quedas. Terceiro, o resultado depende de detalhes que a maioria ignora: a corretora, o tipo de contrato, o instante, a qualidade da execução e a solidez da contraparte.
Para a esmagadora maioria dos investidores de retalho, a posição por defeito não é a do colhedor: é a do pagador. Reconhecê-lo já é meio caminho andado. Quem quiser realmente estar do outro lado precisa de capital, de infraestrutura e de uma tolerância ao risco de cauda que poucos têm. Para todos os outros, o funding é, no mínimo, o melhor termómetro gratuito do apetite alavancado do mercado, e vale a pena aprender a lê-lo mesmo sem nunca o negociar. Na cripto, como em quase tudo, quando não se percebe quem está a pagar o rendimento, o rendimento é-se nós.
Perguntas frequentes
O que é a funding rate de um contrato perpétuo?
É um pagamento periódico, tipicamente a cada oito horas, trocado diretamente entre os traders comprados e os vendidos de um contrato perpétuo, para manter o preço do contrato colado ao preço à vista. Quando é positiva, os longs pagam aos shorts; quando é negativa, os shorts pagam aos longs. A corretora não fica com o valor, apenas o calcula e o transfere de umas contas para outras.
Quem ganha dinheiro com o funding dos perpétuos?
Estruturalmente, quem se posiciona do lado que recebe: mesas de arbitragem e fundos quantitativos que correm trades delta-neutral (spot longo mais perp curto), market makers, e protocolos de dólar sintético como a Ethena. Do lado que paga está sobretudo o investidor de retalho alavancado no sentido comprador. Em ambientes de funding positivo, como o de agosto de 2026, são os compradores que pagam e os vendidos cobertos que colhem.
O trade de carry de funding é sem risco?
Não. É neutro ao preço, mas não sem risco. O colhedor enfrenta o risco de a funding inverter e passar a pagar, risco de base e execução, risco de a perna curta ser liquidada num squeeze, risco de contraparte (como no colapso da FTX em 2022) e, no caso dos dólares sintéticos, risco de depeg (o USDe perdeu brevemente a paridade em outubro de 2025). O BIS mostra ainda que um carry muito alto costuma preceder quedas de preço.
Quanto rende colher funding?
Depende do regime de mercado. O Banco de Pagamentos Internacionais estima que o carry cripto foi, em média, superior a 10% ao ano, com picos acima de 40% em fases de euforia. Mas o rendimento varia muito por corretora e tipo de contrato, e comprime ou fica negativo quando o mercado desalavanca. Não é uma renda estável; é um prémio que só existe enquanto houver compradores alavancados dispostos a pagar por ele.
Posso colher funding a partir de Portugal?
Dentro do perímetro regulado é pouco prático: a ESMA classifica os perpétuos como CFD sob a DMIF II e limita a alavancagem de retalho a 2:1, sob supervisão da CMVM, o que torna o trade de carry ineficiente em capital. Recorrer a plataformas offshore de alta alavancagem devolve a rentabilidade mas retira a proteção regulatória (saldo negativo, recurso, garantias de contraparte), num segmento onde 74% a 89% dos investidores não profissionais em CFD perdem dinheiro.
Escrito por Liam Brennan, editor de mercados da HOGE Wire.