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● DeFi & On-chain

O MEV saiu do mempool: sequenciadores, solvers e intents

O mempool público esvaziou-se, mas o MEV não desapareceu. Migrou para os sequenciadores das L2, os solvers de intents e as próprias aplicações; eis o mapa de onde vive agora.

O mempool esvaziou-se, e o MEV não desapareceu

Durante anos, a imagem do MEV no Ethereum foi a de uma «floresta escura»: um mempool público onde cada transação ficava à vista e onde bots predadores esperavam para a copiar, antecipar ou cercar. A metáfora, cunhada por Dan Robinson e Georgios Konstantopoulos, da Paradigm, em 2020 («Ethereum is a Dark Forest»), ainda descreve bem o risco. Só que a floresta, hoje, está quase vazia.

Mais de 90% dos blocos do Ethereum são montados através do MEV-Boost, fora do mempool público (github.com/flashbots/mev-boost). A maior parte da ordem de fluxo com valor já não passa pela praça pública: vai por RPC privados, por leilões de ordem e por carteiras que a encaminham diretamente para quem constrói o bloco. O predador continua lá; mudou apenas de terreno de caça.

Este artigo é um mapa desse novo terreno. O MEV (Maximal Extractable Value, o valor que quem ordena um bloco extrai ao escolher que transações entram e por que ordem) não morreu com o esvaziamento do mempool. Migrou. E migrou para três sítios muito concretos: o sequenciador das redes L2, os solvers que executam «intents» e as próprias aplicações, que começaram a ficar com a ordem que antes deixavam escapar. O valor acumulado em MEV no Ethereum já passou de 1,2 mil milhões de dólares, mais de metade por sandwich, segundo a DEXTools; nada disso parou, apenas mudou de morada.

O momento é oportuno. Na próxima segunda-feira, 26 de outubro, a atualização Glamsterdam será testada na rede Hoodi, trazendo a separação proposer-builder para dentro do protocolo (blog.ethereum.org). É a tentativa mais séria até hoje de arrumar a camada base. Mas, como se verá, não toca em quase nenhum dos três novos destinos. Enquanto escrevo, o ETH vale cerca de 2.165 euros (CoinGecko), mas o custo que aqui interessa não aparece em nenhum ticker: é a comissão invisível que se paga a cada troca, prémio de quem não controla a ordem em que a sua transação vai entrar. Tal como a comissão de um fundo não é o seu custo verdadeiro, como mostrámos a propósito do preço real dos ETF de cripto, o preço de uma troca on-chain raramente é o número que aparece no ecrã.

O que é o MEV, em duas frases

Para quem chega agora: numa blockchain, quem monta o bloco decide a ordem das transações, e essa ordem tem valor. Reordenar, inserir ou deixar de fora transações permite capturar lucro, por arbitragem entre mercados, por liquidações de posições, ou à custa direta de quem está a negociar. A esse lucro chama-se MEV. O exemplo canónico da ethereum.org é simples: se o mesmo token vale 1.000 ETH numa exchange descentralizada e o equivalente a 1.045 noutra, quem conseguir ordenar as duas trocas no mesmo bloco embolsa a diferença sem risco.

O termo nasceu em 2020, no artigo «Flash Boys 2.0», de Philip Daian e coautores, que descreveu como os bots competiam em leilões de gas para se anteciparem a trocas em exchanges descentralizadas. Era então «Miner» Extractable Value; depois da passagem do Ethereum a proof-of-stake, passou a «Maximal». A cadeia que o produz é conhecida: um «searcher» encontra a oportunidade, um «builder» monta o bloco mais lucrativo, um «relay» entrega-o e o «proposer» (o validador) assina-o. O que mudou em 2026 não foi esta linha de montagem. Foi o sítio onde a oportunidade nasce.

DestinoOnde vive a ordemQuem a controlaExemplos
Sequenciador da L2Um operador único ordena antes de publicar na L1O operador do sequenciador (ou um leilão que ele gere)Arbitrum, Base, Optimism, Timeboost
Solvers e intentsFora da cadeia, num leilão entre solversO solver que ganha a intençãoUniswapX, CoW Protocol, 1inch Fusion
AplicaçãoDentro da própria aplicação, por desenhoA app e a sua governaçãoAngstrom, Unichain, UNIfication

Porque é que o mempool público deixou de ser o campo de batalha

Até há pouco, o sítio óbvio para caçar MEV era o mempool público, a sala de espera onde as transações ficam antes de entrar num bloco. Era aí que acontecia o sandwich clássico: cercar a troca de uma vítima com uma ordem à frente e outra atrás, para lhe piorar o preço e embolsar a diferença. Foi o que sucedeu ao próprio Vitalik Buterin em abril, quando o bot «JaredFromSubway» cercou uma troca sua, movendo mais de um milhão de dólares em volume para ganhar uns cêntimos, segundo a CoinDesk.

O problema, para os predadores, é que o mempool público deixou de ser onde está a comida. As carteiras e os agregadores passaram a encaminhar as ordens por RPC privados; os leilões de ordem (order-flow auctions) interpõem-se entre o utilizador e o builder, devolvendo-lhe parte do valor; e mais de nove em cada dez blocos chegam já montados via MEV-Boost. O MEV-Share da Flashbots, lançado em 2023, popularizou este modelo de «matchmakers» que partilham o ganho com quem origina a ordem (CoinDesk). Quando a ordem com valor deixa de passar pela praça pública, o sandwich clássico fica sem alvos. Não porque o MEV tenha sido resolvido, mas porque se mudou para onde a ordem passou a ser decidida. A ironia não escapou a ninguém quando, em junho, o próprio bot «JaredFromSubway» foi esvaziado de cerca de 7,5 milhões de dólares num exploit (CoinDesk).

Primeiro destino: o sequenciador das L2

A maior parte da atividade de retalho já não acontece na camada base do Ethereum, mas nas L2: Arbitrum, Base, Optimism e companhia. E quase todas elas têm, hoje, um único sequenciador, a peça central que recebe as transações e decide a sua ordem antes de as comprimir e publicar na L1.

Um único sequenciador é um monopólio de ordenação. Quem o opera escolhe a regra: por ordem de chegada (first-come, first-served, como no Arbitrum clássico) ou por comissão de prioridade (quem paga mais entra primeiro, como na Base e na Optimism). Seja qual for a regra, o MEV que antes se disputava no mempool público concentra-se agora num ponto só. Não há leilão de builders a competir; há um porteiro. Isto muda a natureza do problema: na L1, o MEV é um mercado caótico e competitivo; na L2, é uma decisão de desenho de quem corre o sequenciador. A mesma concentração que vimos a encolher e juntar-se em dois operadores no restaking repete-se aqui por outra via: a eficiência de ter um só sequenciador paga-se com um único ponto a controlar a ordem.

Há um efeito secundário perverso. Quando a regra é por ordem de chegada, instala-se uma corrida de latência: os bots inundam o sequenciador de transações a toda a velocidade, na esperança de chegar primeiro, o que entope a rede com spam. Quando a regra é por comissão de prioridade, o utilizador comum vê o preço do gas subir sempre que há valor em jogo. Nenhuma das duas protege o retalho; apenas decide quem fica com a renda. É por isso que várias L2 prometem descentralizar o sequenciador, mas, em 2026, quase todas continuam a operá-lo a partir de uma única entidade.

Timeboost: o sequenciador que leiloa a dianteira

E se, em vez de esconder esse poder, o sequenciador o vendesse em leilão? É exatamente o que o Arbitrum faz desde abril de 2025 com o Timeboost. O mecanismo põe a leilão uma «via expresso»: um leilão selado de segundo preço, realizado ao minuto, em que o vencedor compra uma breve dianteira (na ordem das poucas centenas de milissegundos) sobre todos os outros durante esse período. A receita vai, quase na totalidade (97%), para a tesouraria do Arbitrum DAO.

No papel, é uma ideia elegante: em vez de o valor da ordenação escapar para bots numa corrida de latência, é internalizado e devolvido à comunidade que governa a rede. No primeiro dia, o Timeboost gerou 2.491 dólares de receita para o DAO (Blockworks); em três meses, cerca de 2 milhões de dólares em comissões (The Block). Entre 20% e 30% do volume de DEX do Arbitrum passou a usar a via expresso, que se tornou uma das maiores linhas de receita própria do DAO, o tipo de ordenação que, literalmente, virou mercado.

Mas um estudo empírico de setembro, «The Express Lane to Spam and Centralization» (arXiv 2509.22143), de Johnnatan Messias e Christof Ferreira Torres, desmonta a promessa. Analisando mais de 48,5 milhões de transações da via expresso e cerca de 494 mil leilões entre janeiro de 2025 e abril de 2026, os autores encontram quase o oposto de um campo nivelado:

  • Três entidades ganharam 99,74% de todos os leilões: a via expresso é um clube fechado, não um mercado aberto.
  • A via é usada sobretudo para arbitragem CEX-DEX, não para proteger o utilizador comum do sandwich.
  • Cerca de 30% das transações com prioridade acabam revertidas, sinal de spam e desperdício, não de eficiência.
  • A concorrência nos leilões caiu ao longo do tempo, reduzindo de forma constante a receita que chega ao DAO.

A conclusão dos autores é direta: o Timeboost falha «nos seus objetivos declarados de equidade, descentralização e de internalizar receita de longo prazo para o DAO». Por outras palavras, o leilão não eliminou o oligopólio da ordenação; passou-lhe uma fatura. E a arbitragem CEX-DEX que domina a via expresso é prima direta da velha rolagem de carry nos futuros: a mesma mecânica de capturar o desvio entre o preço de uma exchange centralizada e o de um mercado on-chain, agora com prioridade comprada no sequenciador.

O padrão deve soar familiar. É o mesmo oligopólio que já descrevemos na camada base, a repetir-se um andar acima: poucos atores com infraestrutura de baixa latência e ligações a exchanges centralizadas capturam a quase totalidade do valor, enquanto a promessa de abertura serve de folheto. A L2 rima com a L1, e o leilão, por mais transparente que seja, não cria concorrência onde a vantagem é estrutural.

Segundo destino: solvers e intents

O segundo destino é mais subtil, porque muda a própria forma de negociar. Em vez de assinar uma transação que diz exatamente o que fazer (trocar X por Y nesta pool, por este caminho), o utilizador assina uma «intent»: uma declaração do resultado desejado («quero pelo menos 3.200 USDC por este ETH»). Quem resolve o «como» são os «solvers», agentes especializados que competem para preencher a intenção, procurando a melhor rota entre DEX, inventário próprio, exchanges e liquidez noutras cadeias.

A diferença é decisiva para o MEV. Numa transação clássica, o caminho está exposto e pode ser atacado. Numa intent, o utilizador fixa apenas o pior preço aceitável; é o solver que assume o risco de execução e, ao competir com os outros, é empurrado a devolver-lhe grande parte do valor que de outro modo escaparia para um sandwich. As margens dos searchers tendem para zero à medida que a concorrência aperta, e é o utilizador que, em teoria, fica com a diferença.

Três sistemas dominam esta camada em 2026.

SistemaMecanismoComo trata o MEVEscala em 2026
UniswapXLeilão holandês mais rede de fillers, pools da v4 como rede de segurançaArbitragem devolvida no preço; fills com inventário não podem ser sandwichadosDos três maiores sistemas de intents
CoW ProtocolLeilão em lote, preço de compensação uniforme, coincidência de vontadesOrdens opostas compensam-se sem tocar num AMM; mata o sandwich por desenhoCerca de 23,3 mil milhões de dólares liquidados
1inch FusionPedido de cotação (RFQ) mais leilão holandêsSolvers competem; o utilizador não paga gasMil milhões por mês, com os pares

O CoW Protocol é o caso mais citado: liquidou cerca de 23,3 mil milhões de dólares em 2026, o grosso na Ethereum, e opera com um conjunto de 15 a 25 solvers que têm de depositar uma garantia e provar execuções competitivas antes de serem admitidos (Bitquery). O UniswapX usa leilões holandeses e uma rede de fillers, com as pools da v4 como rede de segurança (Uniswap). O 1inch Fusion combina pedidos de cotação (RFQ) com leilão holandês. Juntos, CoW, UniswapX e Across são os três maiores sistemas de intents, a mover milhares de milhões por mês.

Porque é que os intents matam o sandwich (e o que trocam por isso)

A razão pela qual este modelo trava o sandwich é estrutural, não cosmética. No CoW, as ordens são agrupadas em lotes e liquidadas a um preço de compensação uniforme; se duas pessoas querem lados opostos da mesma troca, há uma coincidência de vontades e as ordens compensam-se sem sequer tocar num AMM. Sem uma transação isolada e exposta numa pool, não há o que cercar. No UniswapX, quando um filler usa inventário próprio para preencher a ordem, não existe uma transação pública intermédia para atacar.

Nada disto é grátis. O que o utilizador troca é transparência por confiança: o solver passa a ser um novo intermediário privado, que vê a intenção antes do resto do mundo e escolhe como a executa. A arbitragem que devolve ao utilizador num caso pode guardá-la noutro. A promessa «sem MEV» é, na prática, «o MEV é internalizado por um solver que compete por ti», e a qualidade dessa competição depende de haver solvers suficientes e honestos. A concentração de solvers é o novo risco, tal como a concentração de builders é o antigo. A lógica estende-se agora para além de uma só cadeia: o padrão ERC-7683, proposto pela Uniswap Labs e pela Across, normaliza intents cross-chain e já é usado por dezenas de projetos (Across, UniswapX, Eco, LI.FI, entre outros). O MEV deixa de ser um fenómeno de um mempool e passa a ser um problema de coordenação entre solvers em várias cadeias ao mesmo tempo.

Terceiro destino: a aplicação fica com a sua própria ordem

O terceiro destino inverte a pergunta. Em vez de deixar o MEV escapar para searchers e builders e depois tentar devolvê-lo, porque não desenhar a aplicação para ficar, à partida, com a sua própria ordem?

É a ideia da «application-specific ordering», a ordenação específica de cada aplicação. O Angstrom, da Sorella Labs, usa os hooks da Uniswap v4 para correr um sequenciador próprio em cada pool, capturando o valor da ordenação e devolvendo-o aos fornecedores de liquidez em vez de o deixar para arbitradores (Sei). A Unichain, a L2 da Uniswap, usa ordenação por prioridade dentro de um ambiente de execução confiável (TEE). E a UNIfication, aprovada pela governação da Uniswap, vende num leilão descontos temporários de comissão e queima as receitas (Uniswap), transformando parte do MEV numa espécie de dividendo para o token.

A lógica é a mesma das L2: quem controla a ordem fica com o valor da ordem. A diferença está em a quem esse valor é devolvido, ao DAO que governa a rede, aos LP que fornecem a liquidez, ou aos detentores do token através da queima. É também uma forma de recuperar o «loss-versus-rebalancing», a perda que os fornecedores de liquidez sofrem para os arbitradores sempre que o preço se move, e que, durante anos, foi a face mais silenciosa do MEV num AMM.

Por baixo de tudo, o mesmo oligopólio de builders

Por mais que o MEV se espalhe por sequenciadores, solvers e aplicações, há uma constante que não se mexe: a construção de blocos na camada base continua nas mãos de meia dúzia de entidades. Os dados ao vivo do relayscan.io, nas últimas 24 horas, contam a história.

BuilderQuota de blocos (24h)
Titan51,71%
Quasar23,03%
BuilderNet14,81%
Eureka5,32%
bombora1,86%

Dois construtores (Titan e Quasar) montam perto de três quartos de todos os blocos; os três maiores passam dos 89%. É a camada que o resto do sistema não consegue contornar: por mais elegante que seja um leilão de intents ou um sequenciador de aplicação, o bloco final é montado por este punhado de builders, vários deles verticalmente integrados (searchers que também constroem). A resposta da indústria tem sido a BuilderNet, uma rede de construção partilhada entre a Flashbots, a Beaverbuild e a Nethermind que corre em hardware confiável e devolve o valor na proporção da ordem de fluxo, para tentar quebrar o duopólio (The Block). Vale hoje cerca de 15% dos blocos.

A concentração tem um segundo custo, menos óbvio: a censura. Depois das sanções dos EUA ao Tornado Cash em 2022, uma parte dos relays passou a filtrar transações para cumprir a lista da OFAC, e a quota de blocos «censurados» é seguida publicamente pelo MEV Watch. Um sistema em que meia dúzia de builders decide o que entra num bloco é, por construção, um sistema em que meia dúzia de builders pode decidir o que não entra.

Based rollups e sequenciadores partilhados: a resposta estrutural

Se o problema das L2 é o sequenciador único, a resposta estrutural é devolvê-lo a muitos. Duas correntes competem por isso. A primeira são os «based rollups», como o Taiko: em vez de um sequenciador próprio, deixam que sejam os proposers da L1 a sequenciar as transações. O MEV volta assim a fluir para a camada base, reaproveitando a sua descentralização em vez de criar um novo ponto de controlo (Four Pillars).

A segunda são os sequenciadores partilhados, como a Espresso ou a Astria: uma camada de sequenciação comum a várias rollups, com consenso próprio, que impede qualquer cadeia de ter o monopólio da sua ordem (Espresso). A Espresso está em produção em 2026, com finalidade na ordem dos segundos. Nenhuma destas vias é ainda dominante, e ambas trazem os seus dilemas (um based rollup herda a latência da L1; um sequenciador partilhado herda o seu próprio risco de concentração). Mas marcam a direção: tirar o poder de ordenação de um único operador.

Solana: sem mempool, mas com leilões de ordem

A Solana mostra que nada disto é exclusivo do Ethereum. A rede não tem um mempool global; as transações vão diretamente aos líderes. Isso não eliminou o MEV, apenas lhe deu outra forma. O cliente Jito-Solana, que corre em mais de 90% do stake, introduziu «bundles» e «tips»: pacotes de transações com uma gorjeta para o validador os incluir por certa ordem (Chainstack). É um leilão de ordem fora da cadeia, e o JitoSOL recicla essas gorjetas no staking líquido. O preço da SOL, a cerca de 94 euros segundo a CoinGecko, pouco diz sobre este mercado paralelo de ordenação.

O mercado de ordem da Solana também se institucionalizou. A Jito lançou o BAM (Block Assembly Marketplace), uma camada de montagem de blocos que, a meio de 2026, já abrangia cerca de um terço do stake (Solana Compass). A mecânica é diferente da do Ethereum, não há relay nem MEV-Boost, mas a economia é a mesma: quem controla a ordem cobra por ela.

A Solana mostra também o limite da autorregulação. Em 2024, a Solana Foundation expulsou mais de 30 validadores do seu programa de delegação por correrem mempools privados para fazer sandwich a utilizadores de retalho. Tim Garcia, responsável das relações com validadores da fundação, descreveu a limpeza como «final» (CryptoSlate). Funcionou enquanto a fundação teve a alavanca da delegação; não é, por si, uma solução de protocolo.

O que a Glamsterdam muda (e o que não muda)

Volto ao gancho. Na segunda-feira, 26 de outubro, a Glamsterdam será testada na Hoodi, no epoch 132.352, com o limite de gas elevado para 200 milhões como teste (blog.ethereum.org). A estrela é o EIP-7732, a separação proposer-builder «enshrined» (ePBS): traz para dentro do protocolo a relação que hoje depende do MEV-Boost e dos relays, removendo o relay de confiança do caminho crítico. O EIP-7928 acrescenta listas de acesso ao nível do bloco. Não há ainda data para a mainnet.

É um avanço real na camada base. Mas repare-se no que não toca: nem no sequenciador de uma L2, nem no solver de um sistema de intents, nem na ordem de uma aplicação. Os três destinos deste artigo ficam todos fora do alcance do ePBS. E mesmo na L1, o próprio Vitalik Buterin avisou, em março, que o ePBS sozinho não chega: propôs juntar-lhe o FOCIL (listas de inclusão por comité, contra a censura), mempools encriptados e encaminhamento anónimo, para evitar que a construção de blocos volte a centralizar-se (CoinDesk). A camada base está a ser arrumada; o novo terreno onde o MEV foi viver, não.

O vazio regulatório: CMVM, MiCA e os bots anónimos

Há uma pergunta que um leitor português fará naturalmente: isto é legal? A resposta curta é que depende de quem o faz, e que a maior parte de quem o faz está fora do alcance do regulador. O quadro europeu existe: o MiCA tem um título sobre abuso de mercado (Título VI) que proíbe a manipulação e o uso de informação privilegiada em criptoativos, e a ESMA publicou em 2025 as orientações finais para o aplicar. Em Portugal, a CMVM supervisiona a conduta de mercado e o Banco de Portugal trata do registo dos prestadores de serviços de criptoativos (CASP) e das stablecoins, com a Lei n.º 69/2025 em vigor desde 27 de dezembro de 2025 e o período transitório dos antigos VASP a terminar a 1 de julho de 2026.

O problema é o perímetro. Um CASP registado que se antecipasse às ordens dos seus clientes cairia claramente sob a alçada da CMVM e do MiCA. Mas um solver anónimo, um licitante da via expresso ou um builder integrado não são, na esmagadora maioria dos casos, entidades registadas em lado nenhum: são carteiras pseudónimas a correr software numa rede sem fronteiras. É precisamente essa zona cinzenta que levou aos tribunais o primeiro caso criminal de MEV, que analisámos em MEV em julgamento. Até haver jurisprudência firme, a defesa do utilizador europeu é sobretudo técnica, não jurídica: escolher o RPC privado, o leilão de ordem ou o sistema de intents certo. A lei vai atrás; o código vai à frente.

Perguntas frequentes

O que é o MEV, em termos simples?

O MEV (Maximal Extractable Value) é o lucro que quem monta um bloco consegue extrair ao escolher que transações incluir e por que ordem. Pode vir de arbitragem legítima entre mercados, de liquidações, ou de táticas que prejudicam quem negoceia, como o sandwich. Não é um imposto formal, mas funciona como uma comissão invisível sobre muitas trocas on-chain.

Se o mempool público esvaziou, o MEV acabou?

Não, migrou. A maior parte da ordem de fluxo com valor já não passa pelo mempool público; passou para os sequenciadores das L2, para os solvers que executam intents e para as próprias aplicações. O valor continua a ser extraído, apenas noutros sítios e, muitas vezes, de forma menos visível.

O que é o Timeboost do Arbitrum?

É um leilão que vende uma via expresso de ordenação no sequenciador do Arbitrum: quem ganha o leilão selado de segundo preço obtém uma breve dianteira sobre os outros, e a receita vai quase toda para o Arbitrum DAO. Um estudo de 2026 concluiu que três entidades ganham 99,74% dos leilões e que a via é usada sobretudo para arbitragem CEX-DEX, o que põe em causa a promessa de maior equidade.

Os intents (UniswapX, CoW, 1inch Fusion) protegem mesmo do sandwich?

Em grande medida sim, por desenho. Ao assinar uma intenção em vez de uma rota exata, o utilizador fixa o pior preço aceitável e deixa a execução a solvers que competem por ele; o CoW, por exemplo, liquida ordens em lote a um preço uniforme, o que elimina o alvo isolado de que o sandwich precisa. Em troca, surge um novo intermediário privado (o solver), pelo que o risco passa a ser de concentração e confiança, não de exposição no mempool.

A atualização Glamsterdam resolve o problema do MEV?

Só em parte. O ePBS que a Glamsterdam traz melhora a camada base do Ethereum, removendo o relay de confiança do caminho crítico, mas não toca nos sequenciadores das L2, nos solvers nem na ordem das aplicações, que são hoje os principais destinos do MEV. O próprio Vitalik Buterin defende que o ePBS, sozinho, não chega, e que serão precisos o FOCIL e mempools encriptados.

Por Mariana Osório, editora de DeFi e mercados on-chain da HOGE Wire.

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