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● Predictions & Forecasts

Oferta de ETH em 2026: emissão, queima e o plano para a travar

A narrativa do dinheiro ultrassónico complicou-se: desde a Dencun, o ETH voltou a emitir mais do que queima. Vemos a emissão, a queima e a EIP-8361, a proposta que quer travar o staking.

Durante quase dois anos, os defensores da Ethereum tiveram um argumento simples e sedutor: sempre que alguém usava a rede, uma parte do ETH pago em taxas era destruída, e num dia de grande movimento a oferta chegava a encolher. Nasceu assim o «dinheiro ultrassónico» (ultrasound money), a ideia de que a segunda maior criptomoeda podia tornar-se mais escassa do que o próprio Bitcoin. Em agosto de 2026, essa narrativa está de pernas para o ar: desde a atualização Dencun, a rede voltou a emitir mais ETH do que aquilo que queima, a oferta cresce devagar e o contador da ultrasound.money passa a maior parte do tempo perto de zero.

E, no entanto, o assunto nunca esteve tão quente. A 4 de agosto, seis investigadores próximos da Ethereum Foundation submeteram a EIP-8361, uma proposta que voltaria a colocar a queima no centro da política monetária da rede, desta vez atada ao staking. Este artigo faz a análise completa da oferta do ETH em 2026: de onde vem a emissão, como funciona a queima, porque é que o «ultrassónico» emudeceu e o que a nova proposta pode mudar até 2027. Todos os valores foram verificados a 13 de agosto de 2026 e cada estatística remete para a respetiva fonte.

O que é a «oferta de ETH» e porque não se parece com a do Bitcoin

Quem chega da lógica do Bitcoin traz um modelo mental errado. No Bitcoin, a oferta é um horário: existe um teto rígido de 21 milhões de moedas, a emissão cai para metade a cada halving e ninguém, nem sequer os programadores, pode alterar isso sem partir a rede. A escassez é uma constante gravada no código, previsível ao satoshi.

A Ethereum funciona de outra maneira. Não há teto máximo. A oferta de ETH é um saldo em movimento, resultado de duas forças opostas: a emissão (novo ETH criado a cada bloco para pagar aos validators que protegem a rede) e a queima (o ETH destruído sempre que se pagam taxas de base). Quando a emissão supera a queima, a oferta aumenta; quando a queima supera a emissão, a oferta diminui. Não existe um número final pré-definido, existe uma equação que corre a cada doze segundos.

Essa diferença tem uma consequência enorme: a escassez do ETH é uma questão de política, não de calendário. Depende de quanta gente usa a rede (que determina a queima) e de quanto ETH está em staking (que determina a emissão). É por isso que uma proposta técnica como a EIP-8361 consegue reacender um debate quase filosófico sobre o que a Ethereum quer ser: uma reserva de valor deflacionária, um ativo produtivo que paga rendimento, ou as duas coisas em tensão permanente. Para o investidor, esta indefinição é a diferença entre comprar uma matéria-prima de oferta fixa e comprar uma participação numa economia cuja política monetária ainda está a ser escrita.

Os números a 13 de agosto de 2026

Comecemos pelo retrato atual. O ETH transaciona a cerca de 1.639 euros, com uma capitalização de mercado na ordem dos 198 mil milhões de euros, segundo a CoinGecko. Está aproximadamente 61% abaixo do máximo histórico em euros, de 4.229,76 euros, registado em agosto de 2025. É um dado importante para enquadrar todo o debate sobre escassez: a oferta pode até estar quase estável, mas o preço em euros continua muito longe do pico, sinal de que a procura, e não a mecânica da oferta, tem sido o fator dominante do último ano.

Vale a pena um aviso sobre os números da oferta, porque geram confusão. Os vários rastreadores não concordam ao milhão. A CoinGecko mostra cerca de 120,68 milhões de ETH em circulação, enquanto agregadores como a ultrasound.money, que somam saldos da camada de execução e da beacon chain com metodologias ligeiramente diferentes, apresentam totais um pouco superiores. As diferenças são de casas decimais percentuais, não alteram a análise, mas convém citar sempre a fonte e não misturar números de rastreadores distintos na mesma frase. A tabela seguinte reúne o essencial num só lugar.

MétricaValor (13 ago 2026)Fonte
Preço do ETH1.639,22 EURCoinGecko
Capitalização de mercado~197,8 mil milhões EURCoinGecko
Oferta em circulação~120,68 milhões ETHCoinGecko
Máximo histórico (EUR)4.229,76 EURCoinGecko
ETH em staking~41,9 milhões (34,4% da oferta)ValidatorQueue
Validators ativos~898.000ValidatorQueue
APR base de staking~2,6%ValidatorQueue
Fila de entrada de validators~2,28 milhões ETH (~40 dias)ValidatorQueue
ETH queimado desde a EIP-1559mais de 4,6 milhõesThe Block

Da inflação do proof-of-work à «emissão mínima viável»

Para perceber a oferta de hoje é preciso recuar até setembro de 2022. Antes da fusão (The Merge, a 15 de setembro de 2022), a Ethereum funcionava em proof-of-work e pagava recompensas generosas aos mineiros: emitia na ordem dos 13.000 ETH por dia. Era um regime francamente inflacionário, herdado da necessidade de subsidiar hardware e eletricidade.

A fusão trocou os mineiros por validators e cortou a emissão em cerca de 88% de um dia para o outro, sem alterar a segurança da rede, segundo os dados de emissão da ethereum.org. Foi a maior redução de emissão da história das grandes criptomoedas, muito mais brusca do que qualquer halving do Bitcoin, e fez-se sem cerimónia num único bloco. A partir daí, a Ethereum passou a reger-se por um princípio explícito: a «emissão mínima viável» (minimum viable issuance). A ideia é pagar aos validators apenas o suficiente para garantir segurança, e nem um ETH a mais.

Há aqui uma subtileza que se torna central mais à frente. A emissão da Ethereum não é fixa: escala com a raiz quadrada da quantidade de ETH em staking. Quanto mais ETH entra em staking, maior é a emissão total anual da rede, mas menor é o rendimento individual de cada validator. Foi desenhada assim para nunca deixar de recompensar a segurança, mas o efeito colateral é que não existe um travão natural para o rácio de staking. Guardem esta frase, porque é exatamente o problema que a EIP-8361 tenta resolver: uma curva que continua a pagar rendimento mesmo quando metade da oferta já está bloqueada a proteger a rede.

A EIP-1559 e a mecânica da queima

A outra metade da equação chegou um ano antes da fusão. Em agosto de 2021, a atualização London introduziu a EIP-1559 e mudou a forma como se pagam taxas na Ethereum. Cada transação passou a ter uma «taxa de base» (base fee), calculada pelo protocolo em função da procura por espaço no bloco, mais uma gorjeta opcional (priority fee) para o proposer. O detalhe decisivo é este: a taxa de base não vai para ninguém, é destruída, retirada de circulação para sempre.

Na prática, a rede ganhou um mecanismo deflacionário embutido. Quanto mais gente competia por espaço nos blocos, mais alta ficava a taxa de base e mais ETH era queimado. Desde a ativação da EIP-1559, já foram destruídos mais de 4,6 milhões de ETH, segundo os dados de queima acumulada do The Block, o equivalente a vários milhares de milhões de euros aos preços atuais. É ETH que existiu e deixou de existir, sem qualquer possibilidade de recuperação.

Há um pormenor contraintuitivo que muita gente confunde: a queima da EIP-1559 não depende do preço do ETH, depende da procura por espaço no bloco. Podem existir mil transações caras a pagar taxas altas, ou um milhão de transações baratas que mal mexem na taxa de base. É a congestão, e não o volume, que aciona o mecanismo. Foi por isso que o desvio da atividade para as L2, onde a congestão da mainnet praticamente desaparece, teve um efeito tão desproporcionado sobre a queima.

A combinação era poderosa: emissão baixa graças à fusão, mais queima proporcional ao uso. Quando as duas se cruzavam, a oferta encolhia em termos líquidos. Foi essa aritmética, simples de explicar e fácil de vender, que deu origem à promessa mais ambiciosa de toda a comunidade Ethereum, e também à deceção que se seguiu.

«Ultrasound money»: a promessa e o que correu mal

Entre finais de 2022 e o início de 2024, a aposta pareceu ganha. Com emissão reduzida e queima constante, a oferta de ETH esteve genuinamente em contração durante longos períodos. Os defensores adotaram o emoji do morcego e o slogan do dinheiro ultrassónico: se o Bitcoin era «dinheiro forte» com inflação a cair, o ETH seria «ultrassónico», capaz de encolher com o uso. Havia dados a sustentar o entusiasmo, e por algum tempo a tese pareceu autoevidente.

Depois veio a atualização Dencun, em março de 2024, e a lógica inverteu-se. A Dencun introduziu os blobs (via EIP-4844, o chamado proto-danksharding), um espaço de dados barato e temporário desenhado para as redes de camada 2. O objetivo era nobre e cumpriu-se: as taxas das L2 desabaram depois dos blobs, tornando a Ethereum utilizável para o utilizador comum. Só que houve um efeito secundário que poucos anteciparam na sua dimensão.

Ao mudarem os seus dados dos calldata caros para os blobs baratos, as L2 deixaram de pressionar a taxa de base da camada principal. Menos pressão significa taxa de base mais baixa, e taxa de base mais baixa significa menos ETH queimado. A atividade não desapareceu, apenas migrou para camadas onde quase não alimenta a queima da mainnet. O motor deflacionário que sustentava o dinheiro ultrassónico ficou, de repente, a funcionar em ralenti. A ironia é cruel: as melhorias que tornaram a rede utilizável foram as mesmas que lhe retiraram a escassez.

O balanço de 2026: uma rede levemente inflacionária

O resultado é o quadro que temos hoje. A queima diária tornou-se episódica: em condições normais, o gás na camada principal transaciona bem abaixo de 1 gwei e a ultrasound.money mostra o contador quase parado. Para a rede voltar a ser deflacionária de forma sustentada, seria preciso um regresso persistente da procura por blockspace na mainnet, com taxas de base na casa dos 15 gwei ou mais, algo que só acontece em picos pontuais e de curta duração.

Do lado da emissão, os validators continuam a receber alguns milhares de ETH novos por dia, um valor que sobe à medida que mais ETH entra em staking. Com a queima reduzida a um fio, a conta líquida virou ligeiramente positiva. Segundo a ultrasound.money, o rastreador de referência para a oferta e a queima, a inflação líquida anual do ETH ronda hoje as duas a três décimas de ponto percentual. Não é hiperinflação, longe disso, mas também não é o ativo em contração que a narrativa prometia.

Vale a pena sublinhar que, para muitos na Ethereum Foundation, isto não é um fracasso, é um sinal de saúde. Taxas baixas significam que a rede se tornou utilizável para pagamentos, jogos e aplicações do dia a dia, exatamente o objetivo do roteiro centrado em rollups. A deflação nunca foi um objetivo declarado do protocolo; foi um efeito colateral bem-vindo de um período de taxas altas. O problema, para os investidores que compraram a narrativa da escassez, é que essa moldura confortável não os ajuda a justificar uma tese de investimento assente em oferta decrescente.

A oferta total está, por isso, acima do nível em que se encontrava na fusão. Alguns críticos resumem a situação com uma frase provocadora: as atualizações que tornaram a Ethereum mais eficiente e mais barata foram exatamente as que a tornaram menos escassa. É um paradoxo real, e é o pano de fundo de tudo o que se segue. A pergunta que a rede tem de responder é se a escassez deve vir das taxas (o modelo antigo, agora avariado) ou da emissão (o modelo novo, que a EIP-8361 propõe).

O staking tornou-se o verdadeiro motor da oferta

Se a queima adormeceu, o staking acordou. A camada de consenso é hoje a principal fonte de novo ETH, e a dinâmica do staking passou a ser a variável mais importante para prever a oferta. Os números do ValidatorQueue a 13 de agosto de 2026 são eloquentes: cerca de 898 mil validators ativos, aproximadamente 41,9 milhões de ETH em staking (34,4% da oferta), uma fila de entrada de cerca de 2,28 milhões de ETH com uma espera na ordem dos 40 dias, e uma fila de saída praticamente vazia. O APR base ronda os 2,6%, a que o MEV e as gorjetas acrescentam mais 10% a 30%, colocando o rendimento total de um validator solo entre os 3% e os 4%.

A leitura importante é a direção. A fila de entrada continua cheia e a de saída vazia, o que significa que o rácio de staking sobe mês após mês. Cada novo ETH em staking aumenta a emissão total da rede, porque, recorde-se, a emissão escala com a raiz quadrada do total em staking. Por outras palavras, o próprio sucesso do staking alimenta a oferta que os defensores da escassez gostariam de ver a cair. O protocolo limita a velocidade a que os validators entram e saem (um mecanismo pensado para a estabilidade), mas não limita o destino final: nada, na regra atual, impede o rácio de staking de continuar a subir em direção a 40%, 50% ou mais.

Convém aqui desfazer um equívoco. Dizer que 41,9 milhões de ETH estão «fora de circulação» é meia verdade. Uma boa parte desse valor está em liquid staking, ou seja, os depositantes recebem um token derivado (como o stETH) que continua a circular, a ser negociado e a servir de garantia em toda a DeFi. O ETH subjacente está bloqueado a proteger a rede, mas a sua representação líquida move-se livremente. Esta é uma das razões pelas quais o staking cresce sem parar: não obriga a abdicar de liquidez, e é também por isso que a concentração em poucos emissores de derivados preocupa tanto os investigadores.

Há ainda a questão de quem controla esse ETH. A Lido, o maior protocolo de liquid staking, detém hoje cerca de um quarto de todo o ETH em staking, uma descida face ao pico de cerca de um terço em finais de 2023, à medida que rivais e produtos institucionais lhe roubaram quota, segundo dados compilados pela CCN. A concentração continua a ser um risco central da rede: quanto mais ETH em staking se acumula em poucos operadores e derivados líquidos, maior a preocupação com a descentralização. É esse duplo problema, oferta a crescer e staking a concentrar-se, que a proposta seguinte tenta atacar de uma só vez.

EIP-8361: a proposta para zerar a emissão

A 4 de agosto de 2026, seis investigadores próximos da Ethereum Foundation, incluindo Justin Drake e o francês Jérôme de Tychey, submeteram a EIP-8361, batizada de «tapered issuance burn» (queima progressiva da emissão). A ideia é engenhosa e polémica em igual medida: em vez de pagar aos validators e destruir apenas a taxa de base das transações, o protocolo passaria a queimar uma fração crescente das próprias recompensas dos validators, à medida que o rácio de staking sobe.

O desenho, tal como foi reportado pela CoinDesk, funciona por escalões. Com pouco ETH em staking, quase nada muda. À medida que o total em staking cresce, a percentagem de recompensa queimada aumenta de forma linear, até atingir os 100% quando estiverem em staking cerca de 60,25 milhões de ETH, aproximadamente metade da oferta e algo na ordem dos 100 mil milhões de euros aos preços atuais. Nesse ponto, a emissão líquida da camada de consenso seria zero: os validators continuariam a ganhar as gorjetas e o MEV, mas o novo ETH criado seria integralmente destruído. As taxas e as gorjetas das transações não são tocadas pela proposta. A transição seria gradual, faseada ao longo de cerca de 18 meses (mais uns seis de preparação), justamente para evitar uma corrida à saída dos validators.

Qual é o raciocínio por trás de tudo isto? A curva de emissão atual garante rendimento aos validators mesmo com níveis de staking muito elevados, o que, como vimos, não impõe qualquer teto ao rácio de staking. Jérôme de Tychey, coautor da proposta, alertou à CoinDesk que, sem mudanças, poderá haver «mais de 70 milhões de ETH em staking até janeiro de 2028». Para os autores, deixar o staking crescer sem limite empurra cada vez mais ETH para os grandes fornecedores custodiais e para os derivados de liquid staking, agravando o problema de centralização. A EIP-8361 é a «emissão mínima viável» levada à sua conclusão lógica: se a segurança já está mais do que garantida, porquê continuar a pagar por ela?

Convém temperar as expectativas quanto ao calendário. A proposta chegou mesmo antes do prazo de inclusão na atualização Hegotá, a 6 de agosto, e é amplamente esperado que escorregue para um fork posterior. É um rascunho inicial, sem cronograma definido, e terá de sobreviver a meses de discussão entre os core devs antes de ser sequer considerada para implementação. Ninguém deve tratar a emissão nula como um facto consumado; deve tratá-la como uma direção de viagem que a liderança técnica da rede está a testar em voz alta.

O debate: castigar a rede pelo seu próprio sucesso?

Poucas propostas técnicas geraram uma reação tão imediata da indústria. A crítica mais dura veio de Stani Kulechov, fundador da Aave, o maior protocolo de crédito da DeFi. Kulechov argumentou que empurrar as recompensas de staking para perto de zero tornaria as estratégias de empréstimo com ETH «praticamente inviáveis»: se o ativo não rende nada, desaparece o incentivo económico para o depositar como garantia produtiva, e a única razão para pedir ETH emprestado passaria a ser vendê-lo a descoberto. Para um ecossistema em que o crédito on-chain se prepara para receber capital institucional, mexer no rendimento base do colateral mais usado não é um detalhe menor.

De um ângulo diferente veio o aviso de Mike Silagadze, fundador da ether.fi, uma das maiores plataformas de restaking. Silagadze afirmou à CoinDesk que a proposta «travaria qualquer novo ETH a entrar em staking» e poderia empurrar «dezenas de milhares de milhões» de dólares de volta para a circulação, à medida que o rendimento deixasse de compensar o risco e o custo de oportunidade. A ether.fi tem sido, aliás, um caso de estudo das próprias tensões do setor, como mostrou o seu recuo recente face à EigenLayer.

Os proponentes respondem que estas objeções são, na verdade, o objetivo. Se o rendimento cair a ponto de desincentivar mais staking, então o rácio de staking estabiliza abaixo de metade da oferta, que é precisamente o resultado desejado: menos concentração, menos ETH bloqueado em derivados líquidos e uma emissão que finalmente para de crescer. O que uns veem como castigar o crescimento, outros veem como impor o travão que a curva de emissão nunca teve. É um debate genuinamente sobre valores, não apenas sobre números, e vai marcar a governação da Ethereum durante meses.

Fusaka, Glamsterdam e o futuro incerto da queima

Enquanto a EIP-8361 ataca o lado da emissão, o resto do roteiro técnico continua a empurrar na direção contrária no lado da queima. A atualização Fusaka, que entrou em mainnet a 3 de dezembro de 2025, trouxe o PeerDAS (EIP-7594), uma forma de amostragem de dados que aliviou drasticamente a carga dos validators domésticos e abriu caminho para muito mais capacidade de blobs. Mais capacidade de blobs significa L2 ainda mais baratas e, previsivelmente, ainda menos pressão sobre a taxa de base da mainnet, ou seja, ainda menos queima.

Os programadores não ignoraram este efeito. A Fusaka incluiu a EIP-7918, um piso para a taxa de base dos blobs, precisamente para impedir que o preço dos blobs colapsasse a ponto de a queima associada desaparecer por completo. É um reconhecimento tácito de que a economia da queima se tornou frágil e precisa de amparos artificiais.

O próximo grande marco é a Glamsterdam, prevista pela ethereum.org para o final de 2026 (embora o calendário seja notoriamente fluido e possa deslizar para 2027). Traz a separação entre proposer e builder ao nível do protocolo (ePBS) e listas de acesso ao nível do bloco, com o objetivo de escalar a camada principal e melhorar a equidade do MEV. Nada disto foi desenhado para aumentar a queima; pelo contrário, quase todo o roteiro de escalabilidade da Ethereum move a atividade para fora da mainnet. É esta a tensão de fundo: a estratégia de crescimento reduz estruturalmente a queima, e a EIP-8361 surge como o contrapeso do lado da emissão. Uma rede que aposta em ser barata dificilmente será, ao mesmo tempo, deflacionária pela via das taxas. A tabela seguinte resume como cada grande atualização mexeu na oferta.

AtualizaçãoDataEfeito na oferta
London (EIP-1559)Ago 2021Introduz a queima da taxa de base
The MergeSet 2022Corta a emissão em ~88% (PoW para PoS)
ShapellaAbr 2023Permite levantamentos de staking
Dencun (blobs)Mar 2024Colapsa a queima ao mover dados das L2
Pectra2025Eleva o limite por validator (EIP-7251)
Fusaka (PeerDAS)Dez 2025Mais blobs, menos queima na mainnet
Glamsterdam~Final 2026Escala a L1 (ePBS), pouco impacto na queima

ETFs de staking e a nova procura institucional

Há uma terceira força a moldar a oferta efetiva do ETH, e vem de Wall Street. A 17 de março de 2026, a SEC e a CFTC emitiram uma interpretação conjunta que classificou as recompensas de staking como não sendo valores mobiliários, removendo o obstáculo legal que atrasara durante mais de um ano os ETF de staking. A porta abriu-se, e os grandes gestores entraram.

A Grayscale foi a primeira a distribuir recompensas de staking aos acionistas do seu produto ETHE, tendo começado a fazer staking a 6 de outubro de 2025, segundo os documentos entregues à SEC. A BlackRock lançou o seu iShares Staked Ethereum Trust (ETHB) a 12 de março de 2026, distribuindo mensalmente 82% das recompensas brutas. Os rendimentos brutos do staking rondam os 3,1% a 3,3% anuais, que descem para cerca de 1,9% a 2,6% líquidos depois de comissões e custódia.

Para a análise da oferta, o efeito é indireto mas real: cada ETH que um destes fundos coloca em staking é ETH retirado do mercado líquido e bloqueado a proteger a rede. É procura que se transforma em oferta imobilizada. Como sempre, convém ler o sinal dos fluxos de ETF sem cair no ruído: os fluxos são voláteis e um mês forte não faz tendência. Ainda assim, a existência de um canal regulado que absorve ETH e o coloca em staking é, estruturalmente, mais um fator a apertar a oferta disponível, e também mais uma boca a alimentar-se da emissão que a EIP-8361 quer cortar.

O que muda para o investidor em Portugal

Para quem investe a partir de Portugal, esta análise tem implicações concretas em três frentes: regulação, fiscalidade e custo de oportunidade. Do lado regulatório, o período transitório do MiCA para os prestadores de serviços de criptoativos termina a 1 de julho de 2026. A partir dessa data, só poderão operar as entidades autorizadas ao abrigo do regulamento, num processo conduzido pelo Banco de Portugal em coordenação com a CMVM, conforme a Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro, que estabeleceu o regime nacional (síntese jurídica aqui). A CMVM tem insistido num ponto que vale para qualquer discussão sobre oferta e escassez: mesmo com o MiCA, os criptoativos «mantêm-se ativos de alto risco», e parte desse risco decorre da própria ausência de valor intrínseco, como alertou no seu aviso aos investidores.

Na fiscalidade, o detalhe que interessa a quem faz staking é claro. Em Portugal, as recompensas de staking e de lending são tratadas como rendimentos de capitais (categoria E) e tributadas a 28%, calculadas pelo valor de mercado à data em que são recebidas, salvo opção pelo englobamento. Já as mais-valias na venda seguem a regra dos 365 dias: se vender antes de um ano de detenção, paga 28% (Anexo G); se mantiver mais de um ano, a mais-valia fica isenta (Anexo G1), como explica o portal Saldo Positivo da CGD. Em 2026, com a diretiva DAC8 a obrigar as plataformas a reportar automaticamente, o incumprimento tornou-se muito mais difícil de esconder.

Falta o custo de oportunidade, e é aqui que a EIP-8361 se torna pessoal para o investidor europeu. Com a taxa de depósito do Banco Central Europeu nos 2,25% (taxas oficiais do BCE), um rendimento de staking bruto de 2,6% a 3% já compete de perto com o dinheiro sem risco, e ainda por cima com toda a volatilidade do ETH à mistura. Se uma proposta como a EIP-8361 comprimir esse rendimento para perto de zero, a matemática do staking europeu muda por completo: o ETH deixa de ser um ativo que paga para ser um ativo que se detém apenas pela valorização esperada. Note-se ainda que os ETF de staking norte-americanos não estão facilmente ao alcance do retalho europeu; por cá, os produtos cotados (ETP) são maioritariamente sem staking, pelo que o rendimento continua a exigir exposição direta ou plataformas reguladas.

Em resumo, para o investidor português a oferta do ETH não é um dado técnico distante: liga-se diretamente ao 28% que paga sobre as recompensas, ao registo MiCA da plataforma que usa e ao juro sem risco de que abdica para fazer staking. Antes de bloquear ETH, vale a pena confirmar três coisas: se o prestador estará autorizado após 1 de julho de 2026, se o rendimento bruto ainda compensa a volatilidade face à taxa do BCE, e se está preparado para declarar as recompensas ao valor de mercado do dia em que as recebe. Nenhuma destas contas depende do preço do ETH; todas dependem das regras que este artigo descreve.

Três cenários para a oferta do ETH até 2027

Juntando as peças, dá para desenhar três trajetórias plausíveis para a oferta do ETH nos próximos 18 meses. Nenhuma é uma previsão de preço; são cenários sobre a mecânica da oferta, o tipo de leitura que se enquadra num calendário de forças e cenários até ao fim do ano.

No cenário base, o mais provável no imediato, tudo continua como está: queima adormecida, emissão a crescer devagar com o rácio de staking, e uma inflação líquida de duas a três décimas de ponto por ano. A EIP-8361 fica presa no debate e não chega a ser implementada em 2026. No cenário deflacionário, um regresso forte da procura por blockspace na mainnet (uma vaga de atividade que os blobs não absorvam, um novo ciclo de aplicações intensivas em L1, ou um evento de mercado) volta a empurrar a taxa de base para cima e faz a queima superar a emissão em vários dias do mês. No cenário EIP-8361, a proposta ou uma variante avança, a emissão começa a ser progressivamente queimada e o rácio de staking estabiliza abaixo dos 50%, com a rede a caminhar para emissão líquida nula na camada de consenso.

CenárioEmissão líquidaRácio de stakingGatilho principalO que observar
Base (continuidade)+0,2% a +0,3%/anoSobe devagar (>34%)Status quo, gás baixoGwei médio, fila de entrada
Regresso deflacionárioNegativa em dias de picoEstávelProcura forte na mainnetTaxa de base acima de 15 gwei
Caminho EIP-8361Tende a zero na consensoEstabiliza abaixo de 50%Aprovação em core dev callInclusão em Glamsterdam/Hegotá

O sinal a vigiar é simples e gratuito: o preço médio do gás e a fila de entrada de validators. Enquanto o gás se mantiver abaixo de poucos gwei e a fila de staking continuar cheia, o cenário base domina e o ETH permanece levemente inflacionário. Uma mudança sustentada em qualquer um destes dois indicadores é o primeiro aviso de que a oferta está a virar. Para o investidor de longo prazo, a conclusão prática é que a oferta do ETH deixou de ser um argumento de escassez automática e passou a ser um processo político em aberto, cujo desfecho depende tanto do código como das pessoas que o escrevem.

Perguntas frequentes

Qual é a oferta total de ETH em 2026?

A oferta em circulação ronda os 120,7 milhões de ETH, segundo a CoinGecko, embora rastreadores como a ultrasound.money apresentem totais ligeiramente diferentes por usarem metodologias distintas. Ao contrário do Bitcoin, o ETH não tem um teto máximo: a oferta sobe ou desce consoante o equilíbrio entre a emissão para os validators e a queima das taxas.

A Ethereum é inflacionária ou deflacionária em 2026?

Levemente inflacionária. Desde a atualização Dencun, em março de 2024, a queima caiu muito porque a atividade migrou para as L2, e a emissão para os validators passou a superá-la. A inflação líquida anual ronda hoje as duas a três décimas de ponto percentual, com deflação apenas em picos pontuais de utilização da mainnet.

O que é a EIP-8361 e o que muda na emissão de ETH?

É uma proposta de agosto de 2026 que queimaria uma fração crescente das recompensas dos validators à medida que o staking aumenta, até zerar a emissão líquida da camada de consenso quando cerca de 60,25 milhões de ETH (metade da oferta) estiverem em staking. O objetivo é travar o crescimento do staking e a concentração. É um rascunho inicial, sem data de implementação.

Como são tributadas as recompensas de staking de ETH em Portugal?

As recompensas de staking são tratadas como rendimentos de capitais (categoria E) e tributadas a 28% sobre o valor de mercado na data de receção, salvo opção pelo englobamento. As mais-valias na venda seguem a regra dos 365 dias: 28% se vender antes de um ano, isenção se mantiver o ativo por mais de um ano.

Porque é que a queima de ETH diminuiu tanto?

Porque a atualização Dencun, em 2024, introduziu os blobs, um espaço de dados barato para as L2. Ao migrarem para os blobs, as redes de camada 2 deixaram de pressionar a taxa de base da mainnet, que é a parte queimada das taxas. Menos pressão significa menos ETH destruído, e o motor deflacionário que sustentava a narrativa do dinheiro ultrassónico ficou quase parado.

Por Miguel Salvado, editor sénior de mercados na HOGE Wire.

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