h hoge.gg
Subscribe
BTC$67,432.18+2.34%ETH$3,521.44+1.08%SOL$178.62-0.62%BNB$612.30+0.41%XRP$0.6234-0.18%ADA$0.4521+3.12%DOGE$0.1623+1.86%AVAX$38.71-1.24%LINK$17.84+0.92%HOGE$0.00004120+4.21%
BTC$67,432.18+2.34%ETH$3,521.44+1.08%SOL$178.62-0.62%BNB$612.30+0.41%XRP$0.6234-0.18%ADA$0.4521+3.12%DOGE$0.1623+1.86%AVAX$38.71-1.24%LINK$17.84+0.92%HOGE$0.00004120+4.21%
● DeFi & On-chain

O perp DEX virou cadeia: HIP-3, HYPE e a guerra dos perpétuos

O perpétuo é hoje o produto mais negociado do cripto e o perp DEX deixou de ser uma app para virar cadeia. Da HIP-3 da Hyperliquid à CFTC e à CMVM, o mapa de uma guerra por infraestrutura.

Há pouco mais de um ano, a 10 de outubro de 2025, o mercado de derivados cripto viveu o pior dia da sua história. Em 24 horas, mais de 19 mil milhões de dólares em posições alavancadas foram forçadas a fechar e cerca de 1,6 milhões de contas ficaram sem margem, segundo os dados citados pela CoinGecko. O open interest dos contratos perpétuos caiu 43% num único dia, de 217 para 123 mil milhões de dólares, depois de o Presidente Trump anunciar tarifas de 100% sobre as importações chinesas, uma onda de choque dissecada ao detalhe pelos fundos que a viveram por dentro.

Passado o aniversário desse colapso, fica uma constatação incómoda para quem gosta de arrumar o setor em gavetas: o contrato perpétuo é hoje o produto mais transacionado de todo o universo cripto, e a corretora descentralizada que o oferece, aquilo a que o mercado chama perp DEX, deixou de ser uma aplicação para passar a ser infraestrutura. Já não falamos de um site onde se abre uma posição; falamos de cadeias inteiras construídas de raiz para esse fim.

Esta é a história dessa mudança. De como a Hyperliquid transformou um livro de ordens numa blockchain própria e, com a atualização HIP-3, numa fábrica onde qualquer pessoa pode criar o seu mercado. De como o token HYPE recicla quase todas as comissões em recompras. De como a Aster, apadrinhada por gente da órbita Binance, a Lighter, a edgeX e a Jupiter, na Solana, disputam não um produto, mas a camada base das finanças on-chain. E de como, enquanto os Estados Unidos abrem a porta aos perpétuos regulados pela CFTC, a Europa, através da ESMA e, em Portugal, da CMVM, aperta o retalho a uma alavancagem de 2:1.

De corretora a cadeia: a mudança estrutural

Para perceber o que mudou, convém recuar. Na primeira vaga de perp DEX, entre 2021 e 2023, nomes como a dYdX e a GMX eram aplicações instaladas por cima de blockchains já existentes, a Ethereum, a Arbitrum, a Avalanche. O contrato vivia dentro de um smart contract; a cadeia por baixo era alugada, partilhada com milhares de outras aplicações e sujeita às suas congestões e às suas taxas de gás.

A segunda vaga inverteu a relação. Em vez de a corretora ser inquilina de uma cadeia, a corretora passou a ser a cadeia. A Hyperliquid é o exemplo paradigmático: corre numa blockchain de camada 1 desenhada à medida do seu motor de negociação, onde o livro de ordens não é um contrato entre muitos, mas o próprio coração do protocolo. Quem controla a cadeia controla a ordenação das transações, a latência, o custo e, sobretudo, quem mais pode construir ali em cima.

A diferença não é cosmética. Ao deter a camada base, o perp DEX deixa de competir apenas por funcionalidades (mais pares, menos comissões, mais alavancagem) e passa a competir por algo muito maior: ser o sítio onde outras pessoas constroem produtos financeiros. É a diferença entre ser uma loja e ser o centro comercial inteiro. O mercado explica a urgência: o volume mensal dos perpétuos descentralizados ultrapassou pela primeira vez um bilião de dólares no final de 2025 e, de acordo com a DL News, somou 1,8 biliões de dólares num único trimestre de 2026, mais do que todo o setor negociou em 2024. A guerra dos perpétuos, que à superfície parece uma disputa de volumes, é no fundo uma disputa por território.

O que é um perpétuo (e porque é que o funding manda)

Um contrato perpétuo é um futuro sem data de vencimento. No mercado tradicional, um futuro de petróleo ou de ouro expira num mês concreto, obrigando quem o detém a renovar a posição. O perpétuo elimina esse incómodo: a posição pode ficar aberta indefinidamente. O problema é que, sem vencimento, nada obriga o preço do contrato a convergir com o preço à vista do ativo subjacente.

A solução é a chamada taxa de financiamento, o funding rate. De poucas em poucas horas, dependendo da plataforma, quem está do lado mais popular do mercado paga a quem está do lado contrário. Se há mais gente comprada (long) do que vendida (short), o preço do perpétuo tende a subir acima do spot e os longs pagam aos shorts, um custo que os desincentiva e puxa o preço de volta. É um elástico económico que mantém o contrato colado ao mercado à vista. Para quem negoceia, o funding deixou de ser um detalhe técnico para se tornar um custo de carrego que pode decidir a rentabilidade de uma estratégia inteira.

Junte-se a isto a alavancagem. Um perpétuo permite controlar uma posição muitas vezes superior ao capital depositado como margem. Quando o mercado se move contra essa posição além de um certo limite, o motor de liquidação fecha-a à força para proteger a contraparte. É esta combinação, exposição sem validade e alavancagem elevada, que torna os perpétuos tão populares e, como o 10 de outubro de 2025 demonstrou, tão perigosos em cascata.

Como se constrói um perp DEX

Por baixo da experiência do utilizador, há essencialmente três arquiteturas, e a escolha entre elas define o perfil de risco de cada plataforma.

A primeira é o livro de ordens central (central limit order book, ou CLOB), o mesmo modelo das bolsas tradicionais e das grandes corretoras centralizadas. Compradores e vendedores colocam ordens a preços-limite e o motor cruza-as. É o modelo da Hyperliquid e da dYdX. Exige um desempenho altíssimo, milhares de ordens por segundo e finalidade quase instantânea, razão pela qual quem o adota tende a querer a sua própria cadeia.

A segunda é o modelo de pool com oráculo, usado pela GMX e pela Jupiter. Não há livro de ordens; os traders negoceiam contra uma pool de liquidez fornecida por investidores, e o preço de execução vem de um oráculo externo que agrega os mercados à vista. É simples e eficiente em capital, mas transfere o risco para os fornecedores de liquidez e torna o oráculo um ponto crítico: se o preço que ele reporta for manipulado, a pool sangra.

A terceira, hoje mais rara, é o AMM virtual (vAMM), que simula uma curva de preços sem liquidez real depositada, popularizado pela Perpetual Protocol. Cada modelo troca eficiência por robustez de maneiras diferentes, e grande parte dos incidentes que veremos adiante nasce precisamente nessas escolhas de arquitetura.

Hyperliquid: o livro de ordens que se tornou um L1

A Hyperliquid é, à data desta publicação, o centro de gravidade do setor. A arquitetura divide-se em duas camadas: a HyperCore, que aloja o livro de ordens e o motor de liquidação, e a HyperEVM, uma máquina virtual compatível com Ethereum lançada em mainnet no início de 2025, onde terceiros podem instalar aplicações usando o HYPE como gás. Segundo a 21Shares, a HyperCore oferece finalidade inferior a um segundo (na ordem dos 0,2 segundos) e uma capacidade anunciada próxima das 200 000 ordens por segundo.

Esta separação é o que permite à Hyperliquid oferecer uma experiência de corretora centralizada, rápida e com livro de ordens profundo, sem custódia centralizada dos fundos. O resultado fala por si: depois de a Aster lhe ter roubado momentaneamente a liderança no final de 2025, a Hyperliquid recuperou e voltou a concentrar cerca de 44% de todo o volume de perpétuos on-chain, segundo a Yellow, uma quota que nenhum concorrente isolado chega perto de igualar e que a DefiLlama acompanha em tempo real.

O token nativo, o HYPE, negociava a rondar os 77 euros em meados de outubro de 2026, com uma capitalização de mercado próxima dos 17 mil milhões de euros (cerca de 19 mil milhões de dólares) e um máximo histórico perto dos 98 dólares, ou cerca de 87 euros, de acordo com a CoinGecko. Tudo isto construído por uma equipa que o cofundador, Jeff Yan, descreve como tendo cerca de uma dúzia de pessoas e nenhum financiamento de capital de risco.

Yan transformou essa recusa numa filosofia. Em entrevistas, classificou o modelo das rondas milionárias como «falso progresso» e afirmou ter recusado uma avaliação de mil milhões de dólares para preservar a neutralidade do protocolo, defendendo que o objetivo da Hyperliquid é «alojar todas as finanças» numa cadeia que sobreviva a qualquer empresa. É uma ambição que ajuda a explicar a atualização seguinte.

HIP-3: a fábrica de mercados

A 13 de outubro de 2025, a Hyperliquid ativou em mainnet a HIP-3 e, com ela, mudou de natureza. Até aí, era a equipa que decidia que mercados listar. Com a HIP-3, qualquer pessoa que bloqueie 500 000 HYPE em staking (dezenas de milhões de dólares ao preço atual) pode implantar o seu mercado de perpétuos sobre a infraestrutura da Hyperliquid, definindo o ativo, os parâmetros de risco e as comissões. São os chamados builder-deployed perpetuals, ou perpétuos implantados por construtores.

O efeito foi imediato e é a prova mais clara da tese «cadeia, não aplicação». Segundo a FalconX, em poucos meses os mercados criados ao abrigo da HIP-3 passaram a representar mais de 35% de todo o volume da plataforma. O primeiro mercado a arrancar foi um índice listado pela Unit, mas a lógica aponta para muito além dos criptoativos: a documentação acompanhada pela CoinGecko descreve propostas sucessoras, associadas a ações tokenizadas e a mercados de previsão, que transformariam a Hyperliquid numa espécie de bolsa universal sem autorização prévia.

Esta abertura tem o reverso que já conhecemos de outras experiências de governação descentralizada. Quem fica responsável por um mercado mal desenhado, ou deliberadamente tóxico, listado por um terceiro? A resposta, para já, assenta no staking como garantia e na capacidade de os validadores intervirem, um equilíbrio delicado entre abertura e responsabilidade que ecoa o debate mais amplo sobre quem guarda os guardiões nas organizações autónomas.

A economia do HYPE: quando a taxa virou recompra

Se a HIP-3 é o motor de crescimento, o mecanismo do token é o que fecha o círculo económico. A Hyperliquid encaminha entre 97% e 99% das comissões geradas pelos seus mercados para um fundo, o Assistance Fund, que compra HYPE no mercado aberto e retira-o de circulação, segundo os dados compilados pela BeInCrypto a partir da DefiLlama.

Os números dão escala ao mecanismo. Segundo a 21Shares, a Hyperliquid gerou cerca de 800 milhões de dólares de receita em 2025 e canalizou perto de 715 milhões para recompras. A BeInCrypto estimava, em 2026, mais de mil milhões de dólares em HYPE já readquirido e retirado de circulação, a um ritmo próximo de 7% da capitalização do token por ano. É um modelo que converte atividade de negociação diretamente em pressão compradora sobre o token, aquilo a que o mercado passou a chamar, com propriedade, o momento em que a taxa virou recompra.

Convém, ainda assim, não confundir recompra com dividendo. A recompra não distribui fluxo de caixa ao detentor; aumenta a escassez e, com ela, o preço, desde que haja procura do outro lado. É um mecanismo reflexivo: funciona esplendidamente enquanto os volumes sobem e pode inverter-se com a mesma rapidez se a atividade secar. A tabela seguinte resume como os principais protocolos ligam comissões a recompra.

ProtocoloTokenMecanismo de recompraFonte da receita
HyperliquidHYPE97% a 99% das comissões via Assistance FundPerpétuos e spot
AsterASTERA larga maioria das comissões para recompra a favor de quem faz stakingPerpétuos
dYdXDYDXParte significativa das comissões em recompra no mercado abertoPerpétuos
GMXGMXComissões partilhadas com fornecedores de liquidez (GLP) e stakersPerpétuos e swaps

Aster: o desafiante com sotaque Binance

Se há plataforma que provou que a liderança da Hyperliquid não é um direito adquirido, é a Aster. Nascida da fusão de projetos anteriores (Astherus e APX Finance) e a operar em várias cadeias, a começar pela BNB Chain, a Aster realizou a emissão do seu token a 17 de setembro de 2025, com uma oferta máxima de 8 mil milhões de unidades, das quais mais de metade destinadas a distribuição pela comunidade.

O catalisador, porém, teve nome e rosto. Changpeng Zhao, o cofundador da Binance, apadrinhou publicamente o projeto. Numa publicação no X, limitou-se a escrever «Well done! Good start. Keep building!» (algo como «Bem feito! Bom começo. Continuem a construir!»), e o ASTER disparou. Zhao viria a esclarecer que atua apenas como consultor de produto e tecnologia, e não como membro da equipa, mas o impulso estava dado: durante alguns dias de setembro de 2025, a Aster chegou a concentrar cerca de 70% do volume de perpétuos on-chain, empurrando a quota da Hyperliquid para perto dos 10%.

A Aster diferencia-se pela amplitude. Lista mais de 550 mercados, a seleção mais vasta de qualquer perp DEX, e dirige a quase totalidade das suas comissões para recompra do token a favor de quem faz staking. Mas foi precisamente a velocidade da sua ascensão que levantou suspeitas, como veremos, sobre quanto desse volume é real.

O mapa da guerra: Lighter, edgeX e os retadores

Por trás dos dois gigantes, uma coorte de retadores aposta em modelos distintos. A Lighter, fundada por antigos engenheiros da Citadel e apoiada pela a16z, construiu um rollup com provas de conhecimento zero (zk) que oferece comissões zero no retalho e lançou a mainnet por convite a 2 de outubro de 2025. A edgeX, com um livro de ordens dedicado, acumulou mais de 161 mil milhões de dólares em volume, segundo a DL News. E a dYdX, pioneira do setor, migrou para uma cadeia aplicacional própria no ecossistema Cosmos e encaminha agora uma fatia significativa das suas comissões para recompra, numa tentativa de travar a fuga de fluxo para plataformas mais rápidas.

Há um fio comum a unir muitos destes nomes: os pontos. Antes de distribuírem um token, estas plataformas recompensam a atividade com pontos que prometem converter mais tarde num airdrop. O incentivo atrai liquidez a uma velocidade impressionante, mas também encoraja a negociação repetitiva com o único fim de somar pontos, o que distorce as métricas de volume. O quadro seguinte compara as principais arquiteturas em confronto.

PlataformaBaseModelo de execuçãoTokenDestaque
HyperliquidL1 próprio (HyperCore e HyperEVM)Livro de ordens on-chainHYPECerca de 44% do volume de perpétuos on-chain
AsterMultichain (BNB Chain e outras)Livro de ordens com oráculoASTERMais de 550 mercados; pico de cerca de 70% em setembro de 2025
LighterRollup zk (Ethereum)Livro de ordens com provas zkPontos (por emitir)Comissões zero no retalho
edgeXHíbrida (matching dedicado)Livro de ordensPontos (por emitir)Mais de 161 mil milhões de dólares de volume acumulado
JupiterSolanaPool de liquidez (JLP) com oráculoJUPCerca de 80% do volume de perpétuos da Solana
dYdXApp-chain CosmosLivro de ordensDYDXRecompra com parte das comissões
GMXArbitrum e AvalanchePool (GLP) com oráculoGMXAlvo de um ataque de 42 milhões de dólares em julho de 2025

A frente da Solana: Jupiter e os perpétuos

A guerra não se trava só nas cadeias próprias. Na Solana, os perpétuos tornaram-se um dos motores de atividade da rede. No segundo trimestre de 2026, as plataformas de perpétuos da Solana registaram um volume recorde de 147 mil milhões de dólares, segundo a Crypto Briefing, com o setor a crescer a um ritmo muito superior ao dos rivais.

O protagonista é a Jupiter. O seu produto de perpétuos concentra cerca de 80% de todo o volume de perpétuos da Solana e ultrapassou os 294 mil milhões de dólares em volume acumulado. Ao contrário da Hyperliquid, a Jupiter não usa livro de ordens: adota o modelo de pool, em que os fornecedores de liquidez da pool JLP funcionam como contraparte dos traders e lucram, ou perdem, com o desempenho agregado destes. É um desenho que casa bem com a filosofia da Solana, de execução barata e integração profunda com o resto do ecossistema, incluindo o crédito on-chain que analisámos quando o Jupiter Lend passou a disputar terreno à Kamino.

A lição da frente Solana é que não há um único modelo vencedor. A pool com oráculo sacrifica alguma sofisticação de execução em troca de simplicidade e de composability; o livro de ordens oferece o inverso. O trader escolhe, e o mercado, por agora, premeia a diversidade.

O volume que mente

Chegamos ao ponto mais incómodo. Os números de volume que estas plataformas exibem são, em boa parte, suspeitos. Quando uma corretora recompensa a atividade com pontos convertíveis em tokens, cria um incentivo direto para o wash trading: abrir e fechar posições contra si próprio apenas para inflacionar o volume e capturar a recompensa. O custo (comissões e funding) é baixo; o prémio (um airdrop futuro) pode ser enorme.

Há uma forma simples de farejar o problema: comparar o volume com o valor total depositado (TVL) ou com o open interest. A 21Shares notou que a Aster chegou a exibir um rácio de volume para TVL acima de 70 para 1, quando um valor saudável se situa entre 3 e 7, e descreveu os saltos de volume de dez vezes numa semana como difíceis de reconciliar com crescimento orgânico. O open interest, que mede as posições efetivamente em aberto, é bem mais difícil de falsificar do que o volume, que é apenas a soma das transações.

Para o leitor que investe, a implicação é prática: o ranking de volume não é um ranking de qualidade. Antes de confiar numa plataforma pela sua posição numa tabela, vale a pena perceber quanto desse número é liquidez real e quanto é a miragem do open interest inflacionado. É a mesma disciplina que se aplica, já há muito, ao volume reportado pelas corretoras centralizadas.

Quando o código e os oráculos falham

A promessa de autocustódia dos perp DEX tem uma contrapartida: quando algo corre mal, não há balcão de reclamações. 2025 ofereceu dois estudos de caso que todo o investidor deveria conhecer.

O primeiro é técnico. A 9 de julho de 2025, a GMX sofreu um ataque que drenou cerca de 42 milhões de dólares da versão 1 do seu protocolo na Arbitrum. A causa, dissecada pela Halborn, foi uma vulnerabilidade de reentrância na função que processava o fecho de posições: o atacante conseguiu manipular o preço médio das posições curtas e, com ele, inflacionar o valor calculado da pool GLP. A história teve um final invulgarmente feliz: o atacante devolveu a maior parte dos fundos em troca de uma recompensa de 10% como white-hat.

O segundo é estrutural e tocou na própria Hyperliquid. A 26 de março de 2025, um trader abriu uma posição curta sobre a memecoin de baixa liquidez JELLYJELLY e depois bombeou o preço à vista, forçando o cofre HLP da Hyperliquid, que absorve as posições liquidadas, a herdar a posição perdedora. As perdas não realizadas chegaram a rondar os 12 a 13,5 milhões de dólares e, segundo a CoinDesk, os validadores votaram pela retirada do contrato e chegaram a sobrepor-se ao preço do oráculo para limitar as perdas, liquidando todas as posições a um preço fixado. O episódio salvou o cofre, mas expôs a tensão de fundo: uma plataforma que se diz descentralizada interveio de forma centralizada para se proteger.

Por cima destes riscos específicos paira o risco sistémico, aquele que o 10 de outubro de 2025 tornou impossível de ignorar. Quando uma notícia macro, nesse caso o anúncio de tarifas, atinge um mercado saturado de posições longas e alavancadas, as liquidações alimentam-se umas às outras numa cascata. Não foi uma falha de um protocolo; foi uma falha de toda a estrutura de alavancagem, do género que tende a repetir-se nos momentos de viragem do calendário, como discutimos a propósito da sazonalidade cripto contra a Fed de Warsh.

Os EUA abrem a porta: a CFTC e os perpétuos regulados

Durante anos, o perpétuo foi um produto de exílio: proibido aos residentes norte-americanos, florescia em plataformas offshore. Isso mudou. A 21 de julho de 2025, a Coinbase anunciou o arranque de futuros de estilo perpétuo regulados pela CFTC para Bitcoin e Ethereum, com alavancagem até 10x, sem vencimento mensal e com liquidação do funding a cada doze horas, adaptando o formato às exigências regulatórias dos Estados Unidos.

Em 2026, a porta abriu-se mais. Segundo a CoinDesk, a CFTC aprovou a listagem de um contrato perpétuo de Bitcoin na Kalshi, o primeiro numa bolsa regulada em solo norte-americano, ao mesmo tempo que abriu caminho para a Coinbase oferecer acesso aos mercados globais através da Deribit, a bolsa de opções que adquiriu por 2,9 mil milhões de dólares. O presidente da CFTC, Mike Selig, enquadrou a decisão em termos políticos: «Ter verdadeiros contratos perpétuos nos Estados Unidos é um grande passo em frente para cumprir o objetivo do Presidente Trump de fazer dos Estados Unidos a capital mundial das criptomoedas.»

O detalhe jurídico é crucial e muitas vezes mal compreendido. Nos Estados Unidos, um perpétuo sobre Bitcoin ou Ethereum é tratado como um derivado sobre uma mercadoria (commodity) e cai, por isso, sob a alçada da CFTC, e não da SEC. É uma distinção que define quem regula, com que regras e com que apetite, e que ajuda a perceber por que razão foi a CFTC, e não o regulador dos valores mobiliários, a destravar o produto.

A Europa aperta: ESMA, os CFD e a CMVM

Do outro lado do Atlântico, o movimento é o inverso. A 24 de fevereiro de 2026, a Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados (ESMA) emitiu uma declaração pública a avisar que os derivados comercializados como «perpetual futures» tendem a cair no âmbito das medidas de intervenção sobre os contratos por diferenças (CFD), independentemente do nome comercial que lhes seja dado. Por outras palavras: chamar-lhe perpétuo não o isenta das regras dos CFD.

As consequências para o investidor de retalho europeu são concretas. Sob o regime dos CFD, um cliente não profissional está limitado a uma alavancagem de 2:1 em criptoativos, beneficia de proteção contra saldo negativo e de fecho automático por margem, recebe um aviso de risco padronizado e as plataformas ficam proibidas de oferecer incentivos. É um universo a anos-luz dos 40x ou 50x que um perp DEX offshore disponibiliza com três cliques.

Em Portugal, quem faz cumprir estas regras é a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), que aplica as medidas da ESMA a qualquer intermediário que sirva clientes de retalho portugueses. O resultado é uma assimetria desconfortável: a lei protege o investidor na porta da frente, limitando-o a 2:1 nas plataformas reguladas, enquanto a porta das traseiras, a de um protocolo descentralizado sem sede nem licença, continua aberta e com alavancagem máxima. Fechar essa assimetria, sem empurrar os utilizadores para terrenos ainda menos protegidos, é o verdadeiro dilema do regulador europeu.

O que vem a seguir para os perp DEX

Se a primeira fase foi provar que os perpétuos podiam viver on-chain, e a segunda foi provar que podiam escalar, a terceira será provar que podem ser a base de algo maior do que eles próprios. A direção já se adivinha. Com a HIP-3 e as suas sucessoras, a Hyperliquid quer listar não só criptoativos, mas ações tokenizadas e mercados de previsão, invadindo o terreno das bolsas tradicionais.

Em paralelo, cresce a especulação institucional. A hipótese de um ETF indexado ao HYPE, o modelo de recompra que se assemelha a um programa de recompra de ações e a entrada de mesas de negociação profissionais sugerem que a fronteira entre cripto e finança tradicional, neste segmento, se está a dissolver. É a mesma força que se vê quando se olha para a forma como o capital rota entre ativos e produtos ao longo do ciclo.

Mas o maior teste é o da confiança. A promessa de Jeff Yan, de «alojar todas as finanças» numa cadeia neutra, só se cumpre se essa cadeia resistir ao próximo 10 de outubro sem precisar de sobrepor oráculos a meio da noite. A guerra dos perpétuos decidir-se-á menos por quem tem a comissão mais baixa ou a listagem mais exótica, e mais por quem construir a infraestrutura que instituições e reguladores possam, um dia, levar a sério. Para já, uma coisa é certa: o perp DEX já não é uma aplicação. É uma cadeia, e começa a comportar-se como uma bolsa nacional.

Perguntas frequentes

O que é um perp DEX?

Um perp DEX é uma corretora descentralizada especializada em contratos perpétuos, ou seja, futuros sem data de vencimento. Ao contrário de uma corretora centralizada, não tem custódia dos fundos do utilizador: as posições e as liquidações são geridas por smart contracts ou por uma blockchain dedicada, como acontece na Hyperliquid. O trader mantém o controlo da sua carteira enquanto negoceia com alavancagem.

Qual é o maior perp DEX em 2026?

A Hyperliquid é, com larga margem, o maior perp DEX, concentrando cerca de 44% de todo o volume de perpétuos on-chain em meados de 2026, segundo vários agregadores. A Aster chegou a ultrapassá-la pontualmente no final de 2025, após o apadrinhamento de Changpeng Zhao, mas a Hyperliquid recuperou a liderança. Na Solana, a Jupiter domina com cerca de 80% do volume de perpétuos da rede.

É legal negociar perpétuos cripto em Portugal?

Negociar não é ilegal, mas está fortemente limitado no retalho. A ESMA considera que os perpétuos caem no regime dos contratos por diferenças (CFD), o que impõe um limite de alavancagem de 2:1 em criptoativos para clientes não profissionais, aplicado em Portugal pela CMVM. As plataformas reguladas que servem residentes portugueses têm de respeitar esse limite; os protocolos descentralizados offshore operam fora dessa supervisão, com os riscos legais e de proteção que isso acarreta.

O que é a taxa de financiamento num contrato perpétuo?

A taxa de financiamento (funding rate) é um pagamento periódico trocado entre quem está comprado e quem está vendido, concebido para manter o preço do perpétuo próximo do preço à vista do ativo. Quando há mais procura do lado longo, os longs pagam aos shorts, e vice-versa. Para quem mantém posições abertas durante muito tempo, o funding é um custo de carrego que pode corroer os ganhos.

O que é o HIP-3 e os builder codes da Hyperliquid?

A HIP-3 é a atualização, ativada em outubro de 2025, que permite a qualquer pessoa com 500 000 HYPE em staking criar e operar o seu mercado de perpétuos sobre a infraestrutura da Hyperliquid. Transforma a plataforma de uma corretora com mercados escolhidos pela equipa numa fábrica de mercados aberta a terceiros, os chamados builder-deployed perpetuals, que já representam mais de um terço do volume total.

Por Tiago Marques, editor de mercados da HOGE Wire. Este artigo é análise informativa e não constitui aconselhamento financeiro.

Share 𝕏 Post Telegram