O perp DEX virou cadeia: HIP-3, HYPE e a guerra dos perpétuos
O perpétuo é hoje o produto mais negociado do cripto e o perp DEX deixou de ser uma app para virar cadeia. Da HIP-3 da Hyperliquid à CFTC e à CMVM, o mapa de uma guerra por infraestrutura.
Há pouco mais de um ano, a 10 de outubro de 2025, o mercado de derivados cripto viveu o pior dia da sua história. Em 24 horas, mais de 19 mil milhões de dólares em posições alavancadas foram forçadas a fechar e cerca de 1,6 milhões de contas ficaram sem margem, segundo os dados citados pela CoinGecko. O open interest dos contratos perpétuos caiu 43% num único dia, de 217 para 123 mil milhões de dólares, depois de o Presidente Trump anunciar tarifas de 100% sobre as importações chinesas, uma onda de choque dissecada ao detalhe pelos fundos que a viveram por dentro.
Passado o aniversário desse colapso, fica uma constatação incómoda para quem gosta de arrumar o setor em gavetas: o contrato perpétuo é hoje o produto mais transacionado de todo o universo cripto, e a corretora descentralizada que o oferece, aquilo a que o mercado chama perp DEX, deixou de ser uma aplicação para passar a ser infraestrutura. Já não falamos de um site onde se abre uma posição; falamos de cadeias inteiras construídas de raiz para esse fim.
Esta é a história dessa mudança. De como a Hyperliquid transformou um livro de ordens numa blockchain própria e, com a atualização HIP-3, numa fábrica onde qualquer pessoa pode criar o seu mercado. De como o token HYPE recicla quase todas as comissões em recompras. De como a Aster, apadrinhada por gente da órbita Binance, a Lighter, a edgeX e a Jupiter, na Solana, disputam não um produto, mas a camada base das finanças on-chain. E de como, enquanto os Estados Unidos abrem a porta aos perpétuos regulados pela CFTC, a Europa, através da ESMA e, em Portugal, da CMVM, aperta o retalho a uma alavancagem de 2:1.
De corretora a cadeia: a mudança estrutural
Para perceber o que mudou, convém recuar. Na primeira vaga de perp DEX, entre 2021 e 2023, nomes como a dYdX e a GMX eram aplicações instaladas por cima de blockchains já existentes, a Ethereum, a Arbitrum, a Avalanche. O contrato vivia dentro de um smart contract; a cadeia por baixo era alugada, partilhada com milhares de outras aplicações e sujeita às suas congestões e às suas taxas de gás.
A segunda vaga inverteu a relação. Em vez de a corretora ser inquilina de uma cadeia, a corretora passou a ser a cadeia. A Hyperliquid é o exemplo paradigmático: corre numa blockchain de camada 1 desenhada à medida do seu motor de negociação, onde o livro de ordens não é um contrato entre muitos, mas o próprio coração do protocolo. Quem controla a cadeia controla a ordenação das transações, a latência, o custo e, sobretudo, quem mais pode construir ali em cima.
A diferença não é cosmética. Ao deter a camada base, o perp DEX deixa de competir apenas por funcionalidades (mais pares, menos comissões, mais alavancagem) e passa a competir por algo muito maior: ser o sítio onde outras pessoas constroem produtos financeiros. É a diferença entre ser uma loja e ser o centro comercial inteiro. O mercado explica a urgência: o volume mensal dos perpétuos descentralizados ultrapassou pela primeira vez um bilião de dólares no final de 2025 e, de acordo com a DL News, somou 1,8 biliões de dólares num único trimestre de 2026, mais do que todo o setor negociou em 2024. A guerra dos perpétuos, que à superfície parece uma disputa de volumes, é no fundo uma disputa por território.
O que é um perpétuo (e porque é que o funding manda)
Um contrato perpétuo é um futuro sem data de vencimento. No mercado tradicional, um futuro de petróleo ou de ouro expira num mês concreto, obrigando quem o detém a renovar a posição. O perpétuo elimina esse incómodo: a posição pode ficar aberta indefinidamente. O problema é que, sem vencimento, nada obriga o preço do contrato a convergir com o preço à vista do ativo subjacente.
A solução é a chamada taxa de financiamento, o funding rate. De poucas em poucas horas, dependendo da plataforma, quem está do lado mais popular do mercado paga a quem está do lado contrário. Se há mais gente comprada (long) do que vendida (short), o preço do perpétuo tende a subir acima do spot e os longs pagam aos shorts, um custo que os desincentiva e puxa o preço de volta. É um elástico económico que mantém o contrato colado ao mercado à vista. Para quem negoceia, o funding deixou de ser um detalhe técnico para se tornar um custo de carrego que pode decidir a rentabilidade de uma estratégia inteira.
Junte-se a isto a alavancagem. Um perpétuo permite controlar uma posição muitas vezes superior ao capital depositado como margem. Quando o mercado se move contra essa posição além de um certo limite, o motor de liquidação fecha-a à força para proteger a contraparte. É esta combinação, exposição sem validade e alavancagem elevada, que torna os perpétuos tão populares e, como o 10 de outubro de 2025 demonstrou, tão perigosos em cascata.
Como se constrói um perp DEX
Por baixo da experiência do utilizador, há essencialmente três arquiteturas, e a escolha entre elas define o perfil de risco de cada plataforma.
A primeira é o livro de ordens central (central limit order book, ou CLOB), o mesmo modelo das bolsas tradicionais e das grandes corretoras centralizadas. Compradores e vendedores colocam ordens a preços-limite e o motor cruza-as. É o modelo da Hyperliquid e da dYdX. Exige um desempenho altíssimo, milhares de ordens por segundo e finalidade quase instantânea, razão pela qual quem o adota tende a querer a sua própria cadeia.
A segunda é o modelo de pool com oráculo, usado pela GMX e pela Jupiter. Não há livro de ordens; os traders negoceiam contra uma pool de liquidez fornecida por investidores, e o preço de execução vem de um oráculo externo que agrega os mercados à vista. É simples e eficiente em capital, mas transfere o risco para os fornecedores de liquidez e torna o oráculo um ponto crítico: se o preço que ele reporta for manipulado, a pool sangra.
A terceira, hoje mais rara, é o AMM virtual (vAMM), que simula uma curva de preços sem liquidez real depositada, popularizado pela Perpetual Protocol. Cada modelo troca eficiência por robustez de maneiras diferentes, e grande parte dos incidentes que veremos adiante nasce precisamente nessas escolhas de arquitetura.
Hyperliquid: o livro de ordens que se tornou um L1
A Hyperliquid é, à data desta publicação, o centro de gravidade do setor. A arquitetura divide-se em duas camadas: a HyperCore, que aloja o livro de ordens e o motor de liquidação, e a HyperEVM, uma máquina virtual compatível com Ethereum lançada em mainnet no início de 2025, onde terceiros podem instalar aplicações usando o HYPE como gás. Segundo a 21Shares, a HyperCore oferece finalidade inferior a um segundo (na ordem dos 0,2 segundos) e uma capacidade anunciada próxima das 200 000 ordens por segundo.
Esta separação é o que permite à Hyperliquid oferecer uma experiência de corretora centralizada, rápida e com livro de ordens profundo, sem custódia centralizada dos fundos. O resultado fala por si: depois de a Aster lhe ter roubado momentaneamente a liderança no final de 2025, a Hyperliquid recuperou e voltou a concentrar cerca de 44% de todo o volume de perpétuos on-chain, segundo a Yellow, uma quota que nenhum concorrente isolado chega perto de igualar e que a DefiLlama acompanha em tempo real.
O token nativo, o HYPE, negociava a rondar os 77 euros em meados de outubro de 2026, com uma capitalização de mercado próxima dos 17 mil milhões de euros (cerca de 19 mil milhões de dólares) e um máximo histórico perto dos 98 dólares, ou cerca de 87 euros, de acordo com a CoinGecko. Tudo isto construído por uma equipa que o cofundador, Jeff Yan, descreve como tendo cerca de uma dúzia de pessoas e nenhum financiamento de capital de risco.
Yan transformou essa recusa numa filosofia. Em entrevistas, classificou o modelo das rondas milionárias como «falso progresso» e afirmou ter recusado uma avaliação de mil milhões de dólares para preservar a neutralidade do protocolo, defendendo que o objetivo da Hyperliquid é «alojar todas as finanças» numa cadeia que sobreviva a qualquer empresa. É uma ambição que ajuda a explicar a atualização seguinte.
HIP-3: a fábrica de mercados
A 13 de outubro de 2025, a Hyperliquid ativou em mainnet a HIP-3 e, com ela, mudou de natureza. Até aí, era a equipa que decidia que mercados listar. Com a HIP-3, qualquer pessoa que bloqueie 500 000 HYPE em staking (dezenas de milhões de dólares ao preço atual) pode implantar o seu mercado de perpétuos sobre a infraestrutura da Hyperliquid, definindo o ativo, os parâmetros de risco e as comissões. São os chamados builder-deployed perpetuals, ou perpétuos implantados por construtores.
O efeito foi imediato e é a prova mais clara da tese «cadeia, não aplicação». Segundo a FalconX, em poucos meses os mercados criados ao abrigo da HIP-3 passaram a representar mais de 35% de todo o volume da plataforma. O primeiro mercado a arrancar foi um índice listado pela Unit, mas a lógica aponta para muito além dos criptoativos: a documentação acompanhada pela CoinGecko descreve propostas sucessoras, associadas a ações tokenizadas e a mercados de previsão, que transformariam a Hyperliquid numa espécie de bolsa universal sem autorização prévia.
Esta abertura tem o reverso que já conhecemos de outras experiências de governação descentralizada. Quem fica responsável por um mercado mal desenhado, ou deliberadamente tóxico, listado por um terceiro? A resposta, para já, assenta no staking como garantia e na capacidade de os validadores intervirem, um equilíbrio delicado entre abertura e responsabilidade que ecoa o debate mais amplo sobre quem guarda os guardiões nas organizações autónomas.
A economia do HYPE: quando a taxa virou recompra
Se a HIP-3 é o motor de crescimento, o mecanismo do token é o que fecha o círculo económico. A Hyperliquid encaminha entre 97% e 99% das comissões geradas pelos seus mercados para um fundo, o Assistance Fund, que compra HYPE no mercado aberto e retira-o de circulação, segundo os dados compilados pela BeInCrypto a partir da DefiLlama.
Os números dão escala ao mecanismo. Segundo a 21Shares, a Hyperliquid gerou cerca de 800 milhões de dólares de receita em 2025 e canalizou perto de 715 milhões para recompras. A BeInCrypto estimava, em 2026, mais de mil milhões de dólares em HYPE já readquirido e retirado de circulação, a um ritmo próximo de 7% da capitalização do token por ano. É um modelo que converte atividade de negociação diretamente em pressão compradora sobre o token, aquilo a que o mercado passou a chamar, com propriedade, o momento em que a taxa virou recompra.
Convém, ainda assim, não confundir recompra com dividendo. A recompra não distribui fluxo de caixa ao detentor; aumenta a escassez e, com ela, o preço, desde que haja procura do outro lado. É um mecanismo reflexivo: funciona esplendidamente enquanto os volumes sobem e pode inverter-se com a mesma rapidez se a atividade secar. A tabela seguinte resume como os principais protocolos ligam comissões a recompra.
| Protocolo | Token | Mecanismo de recompra | Fonte da receita |
|---|---|---|---|
| Hyperliquid | HYPE | 97% a 99% das comissões via Assistance Fund | Perpétuos e spot |
| Aster | ASTER | A larga maioria das comissões para recompra a favor de quem faz staking | Perpétuos |
| dYdX | DYDX | Parte significativa das comissões em recompra no mercado aberto | Perpétuos |
| GMX | GMX | Comissões partilhadas com fornecedores de liquidez (GLP) e stakers | Perpétuos e swaps |
Aster: o desafiante com sotaque Binance
Se há plataforma que provou que a liderança da Hyperliquid não é um direito adquirido, é a Aster. Nascida da fusão de projetos anteriores (Astherus e APX Finance) e a operar em várias cadeias, a começar pela BNB Chain, a Aster realizou a emissão do seu token a 17 de setembro de 2025, com uma oferta máxima de 8 mil milhões de unidades, das quais mais de metade destinadas a distribuição pela comunidade.
O catalisador, porém, teve nome e rosto. Changpeng Zhao, o cofundador da Binance, apadrinhou publicamente o projeto. Numa publicação no X, limitou-se a escrever «Well done! Good start. Keep building!» (algo como «Bem feito! Bom começo. Continuem a construir!»), e o ASTER disparou. Zhao viria a esclarecer que atua apenas como consultor de produto e tecnologia, e não como membro da equipa, mas o impulso estava dado: durante alguns dias de setembro de 2025, a Aster chegou a concentrar cerca de 70% do volume de perpétuos on-chain, empurrando a quota da Hyperliquid para perto dos 10%.
A Aster diferencia-se pela amplitude. Lista mais de 550 mercados, a seleção mais vasta de qualquer perp DEX, e dirige a quase totalidade das suas comissões para recompra do token a favor de quem faz staking. Mas foi precisamente a velocidade da sua ascensão que levantou suspeitas, como veremos, sobre quanto desse volume é real.
O mapa da guerra: Lighter, edgeX e os retadores
Por trás dos dois gigantes, uma coorte de retadores aposta em modelos distintos. A Lighter, fundada por antigos engenheiros da Citadel e apoiada pela a16z, construiu um rollup com provas de conhecimento zero (zk) que oferece comissões zero no retalho e lançou a mainnet por convite a 2 de outubro de 2025. A edgeX, com um livro de ordens dedicado, acumulou mais de 161 mil milhões de dólares em volume, segundo a DL News. E a dYdX, pioneira do setor, migrou para uma cadeia aplicacional própria no ecossistema Cosmos e encaminha agora uma fatia significativa das suas comissões para recompra, numa tentativa de travar a fuga de fluxo para plataformas mais rápidas.
Há um fio comum a unir muitos destes nomes: os pontos. Antes de distribuírem um token, estas plataformas recompensam a atividade com pontos que prometem converter mais tarde num airdrop. O incentivo atrai liquidez a uma velocidade impressionante, mas também encoraja a negociação repetitiva com o único fim de somar pontos, o que distorce as métricas de volume. O quadro seguinte compara as principais arquiteturas em confronto.
| Plataforma | Base | Modelo de execução | Token | Destaque |
|---|---|---|---|---|
| Hyperliquid | L1 próprio (HyperCore e HyperEVM) | Livro de ordens on-chain | HYPE | Cerca de 44% do volume de perpétuos on-chain |
| Aster | Multichain (BNB Chain e outras) | Livro de ordens com oráculo | ASTER | Mais de 550 mercados; pico de cerca de 70% em setembro de 2025 |
| Lighter | Rollup zk (Ethereum) | Livro de ordens com provas zk | Pontos (por emitir) | Comissões zero no retalho |
| edgeX | Híbrida (matching dedicado) | Livro de ordens | Pontos (por emitir) | Mais de 161 mil milhões de dólares de volume acumulado |
| Jupiter | Solana | Pool de liquidez (JLP) com oráculo | JUP | Cerca de 80% do volume de perpétuos da Solana |
| dYdX | App-chain Cosmos | Livro de ordens | DYDX | Recompra com parte das comissões |
| GMX | Arbitrum e Avalanche | Pool (GLP) com oráculo | GMX | Alvo de um ataque de 42 milhões de dólares em julho de 2025 |
A frente da Solana: Jupiter e os perpétuos
A guerra não se trava só nas cadeias próprias. Na Solana, os perpétuos tornaram-se um dos motores de atividade da rede. No segundo trimestre de 2026, as plataformas de perpétuos da Solana registaram um volume recorde de 147 mil milhões de dólares, segundo a Crypto Briefing, com o setor a crescer a um ritmo muito superior ao dos rivais.
O protagonista é a Jupiter. O seu produto de perpétuos concentra cerca de 80% de todo o volume de perpétuos da Solana e ultrapassou os 294 mil milhões de dólares em volume acumulado. Ao contrário da Hyperliquid, a Jupiter não usa livro de ordens: adota o modelo de pool, em que os fornecedores de liquidez da pool JLP funcionam como contraparte dos traders e lucram, ou perdem, com o desempenho agregado destes. É um desenho que casa bem com a filosofia da Solana, de execução barata e integração profunda com o resto do ecossistema, incluindo o crédito on-chain que analisámos quando o Jupiter Lend passou a disputar terreno à Kamino.
A lição da frente Solana é que não há um único modelo vencedor. A pool com oráculo sacrifica alguma sofisticação de execução em troca de simplicidade e de composability; o livro de ordens oferece o inverso. O trader escolhe, e o mercado, por agora, premeia a diversidade.
O volume que mente
Chegamos ao ponto mais incómodo. Os números de volume que estas plataformas exibem são, em boa parte, suspeitos. Quando uma corretora recompensa a atividade com pontos convertíveis em tokens, cria um incentivo direto para o wash trading: abrir e fechar posições contra si próprio apenas para inflacionar o volume e capturar a recompensa. O custo (comissões e funding) é baixo; o prémio (um airdrop futuro) pode ser enorme.
Há uma forma simples de farejar o problema: comparar o volume com o valor total depositado (TVL) ou com o open interest. A 21Shares notou que a Aster chegou a exibir um rácio de volume para TVL acima de 70 para 1, quando um valor saudável se situa entre 3 e 7, e descreveu os saltos de volume de dez vezes numa semana como difíceis de reconciliar com crescimento orgânico. O open interest, que mede as posições efetivamente em aberto, é bem mais difícil de falsificar do que o volume, que é apenas a soma das transações.
Para o leitor que investe, a implicação é prática: o ranking de volume não é um ranking de qualidade. Antes de confiar numa plataforma pela sua posição numa tabela, vale a pena perceber quanto desse número é liquidez real e quanto é a miragem do open interest inflacionado. É a mesma disciplina que se aplica, já há muito, ao volume reportado pelas corretoras centralizadas.
Quando o código e os oráculos falham
A promessa de autocustódia dos perp DEX tem uma contrapartida: quando algo corre mal, não há balcão de reclamações. 2025 ofereceu dois estudos de caso que todo o investidor deveria conhecer.
O primeiro é técnico. A 9 de julho de 2025, a GMX sofreu um ataque que drenou cerca de 42 milhões de dólares da versão 1 do seu protocolo na Arbitrum. A causa, dissecada pela Halborn, foi uma vulnerabilidade de reentrância na função que processava o fecho de posições: o atacante conseguiu manipular o preço médio das posições curtas e, com ele, inflacionar o valor calculado da pool GLP. A história teve um final invulgarmente feliz: o atacante devolveu a maior parte dos fundos em troca de uma recompensa de 10% como white-hat.
O segundo é estrutural e tocou na própria Hyperliquid. A 26 de março de 2025, um trader abriu uma posição curta sobre a memecoin de baixa liquidez JELLYJELLY e depois bombeou o preço à vista, forçando o cofre HLP da Hyperliquid, que absorve as posições liquidadas, a herdar a posição perdedora. As perdas não realizadas chegaram a rondar os 12 a 13,5 milhões de dólares e, segundo a CoinDesk, os validadores votaram pela retirada do contrato e chegaram a sobrepor-se ao preço do oráculo para limitar as perdas, liquidando todas as posições a um preço fixado. O episódio salvou o cofre, mas expôs a tensão de fundo: uma plataforma que se diz descentralizada interveio de forma centralizada para se proteger.
Por cima destes riscos específicos paira o risco sistémico, aquele que o 10 de outubro de 2025 tornou impossível de ignorar. Quando uma notícia macro, nesse caso o anúncio de tarifas, atinge um mercado saturado de posições longas e alavancadas, as liquidações alimentam-se umas às outras numa cascata. Não foi uma falha de um protocolo; foi uma falha de toda a estrutura de alavancagem, do género que tende a repetir-se nos momentos de viragem do calendário, como discutimos a propósito da sazonalidade cripto contra a Fed de Warsh.
Os EUA abrem a porta: a CFTC e os perpétuos regulados
Durante anos, o perpétuo foi um produto de exílio: proibido aos residentes norte-americanos, florescia em plataformas offshore. Isso mudou. A 21 de julho de 2025, a Coinbase anunciou o arranque de futuros de estilo perpétuo regulados pela CFTC para Bitcoin e Ethereum, com alavancagem até 10x, sem vencimento mensal e com liquidação do funding a cada doze horas, adaptando o formato às exigências regulatórias dos Estados Unidos.
Em 2026, a porta abriu-se mais. Segundo a CoinDesk, a CFTC aprovou a listagem de um contrato perpétuo de Bitcoin na Kalshi, o primeiro numa bolsa regulada em solo norte-americano, ao mesmo tempo que abriu caminho para a Coinbase oferecer acesso aos mercados globais através da Deribit, a bolsa de opções que adquiriu por 2,9 mil milhões de dólares. O presidente da CFTC, Mike Selig, enquadrou a decisão em termos políticos: «Ter verdadeiros contratos perpétuos nos Estados Unidos é um grande passo em frente para cumprir o objetivo do Presidente Trump de fazer dos Estados Unidos a capital mundial das criptomoedas.»
O detalhe jurídico é crucial e muitas vezes mal compreendido. Nos Estados Unidos, um perpétuo sobre Bitcoin ou Ethereum é tratado como um derivado sobre uma mercadoria (commodity) e cai, por isso, sob a alçada da CFTC, e não da SEC. É uma distinção que define quem regula, com que regras e com que apetite, e que ajuda a perceber por que razão foi a CFTC, e não o regulador dos valores mobiliários, a destravar o produto.
A Europa aperta: ESMA, os CFD e a CMVM
Do outro lado do Atlântico, o movimento é o inverso. A 24 de fevereiro de 2026, a Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados (ESMA) emitiu uma declaração pública a avisar que os derivados comercializados como «perpetual futures» tendem a cair no âmbito das medidas de intervenção sobre os contratos por diferenças (CFD), independentemente do nome comercial que lhes seja dado. Por outras palavras: chamar-lhe perpétuo não o isenta das regras dos CFD.
As consequências para o investidor de retalho europeu são concretas. Sob o regime dos CFD, um cliente não profissional está limitado a uma alavancagem de 2:1 em criptoativos, beneficia de proteção contra saldo negativo e de fecho automático por margem, recebe um aviso de risco padronizado e as plataformas ficam proibidas de oferecer incentivos. É um universo a anos-luz dos 40x ou 50x que um perp DEX offshore disponibiliza com três cliques.
Em Portugal, quem faz cumprir estas regras é a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), que aplica as medidas da ESMA a qualquer intermediário que sirva clientes de retalho portugueses. O resultado é uma assimetria desconfortável: a lei protege o investidor na porta da frente, limitando-o a 2:1 nas plataformas reguladas, enquanto a porta das traseiras, a de um protocolo descentralizado sem sede nem licença, continua aberta e com alavancagem máxima. Fechar essa assimetria, sem empurrar os utilizadores para terrenos ainda menos protegidos, é o verdadeiro dilema do regulador europeu.
O que vem a seguir para os perp DEX
Se a primeira fase foi provar que os perpétuos podiam viver on-chain, e a segunda foi provar que podiam escalar, a terceira será provar que podem ser a base de algo maior do que eles próprios. A direção já se adivinha. Com a HIP-3 e as suas sucessoras, a Hyperliquid quer listar não só criptoativos, mas ações tokenizadas e mercados de previsão, invadindo o terreno das bolsas tradicionais.
Em paralelo, cresce a especulação institucional. A hipótese de um ETF indexado ao HYPE, o modelo de recompra que se assemelha a um programa de recompra de ações e a entrada de mesas de negociação profissionais sugerem que a fronteira entre cripto e finança tradicional, neste segmento, se está a dissolver. É a mesma força que se vê quando se olha para a forma como o capital rota entre ativos e produtos ao longo do ciclo.
Mas o maior teste é o da confiança. A promessa de Jeff Yan, de «alojar todas as finanças» numa cadeia neutra, só se cumpre se essa cadeia resistir ao próximo 10 de outubro sem precisar de sobrepor oráculos a meio da noite. A guerra dos perpétuos decidir-se-á menos por quem tem a comissão mais baixa ou a listagem mais exótica, e mais por quem construir a infraestrutura que instituições e reguladores possam, um dia, levar a sério. Para já, uma coisa é certa: o perp DEX já não é uma aplicação. É uma cadeia, e começa a comportar-se como uma bolsa nacional.
Perguntas frequentes
O que é um perp DEX?
Um perp DEX é uma corretora descentralizada especializada em contratos perpétuos, ou seja, futuros sem data de vencimento. Ao contrário de uma corretora centralizada, não tem custódia dos fundos do utilizador: as posições e as liquidações são geridas por smart contracts ou por uma blockchain dedicada, como acontece na Hyperliquid. O trader mantém o controlo da sua carteira enquanto negoceia com alavancagem.
Qual é o maior perp DEX em 2026?
A Hyperliquid é, com larga margem, o maior perp DEX, concentrando cerca de 44% de todo o volume de perpétuos on-chain em meados de 2026, segundo vários agregadores. A Aster chegou a ultrapassá-la pontualmente no final de 2025, após o apadrinhamento de Changpeng Zhao, mas a Hyperliquid recuperou a liderança. Na Solana, a Jupiter domina com cerca de 80% do volume de perpétuos da rede.
É legal negociar perpétuos cripto em Portugal?
Negociar não é ilegal, mas está fortemente limitado no retalho. A ESMA considera que os perpétuos caem no regime dos contratos por diferenças (CFD), o que impõe um limite de alavancagem de 2:1 em criptoativos para clientes não profissionais, aplicado em Portugal pela CMVM. As plataformas reguladas que servem residentes portugueses têm de respeitar esse limite; os protocolos descentralizados offshore operam fora dessa supervisão, com os riscos legais e de proteção que isso acarreta.
O que é a taxa de financiamento num contrato perpétuo?
A taxa de financiamento (funding rate) é um pagamento periódico trocado entre quem está comprado e quem está vendido, concebido para manter o preço do perpétuo próximo do preço à vista do ativo. Quando há mais procura do lado longo, os longs pagam aos shorts, e vice-versa. Para quem mantém posições abertas durante muito tempo, o funding é um custo de carrego que pode corroer os ganhos.
O que é o HIP-3 e os builder codes da Hyperliquid?
A HIP-3 é a atualização, ativada em outubro de 2025, que permite a qualquer pessoa com 500 000 HYPE em staking criar e operar o seu mercado de perpétuos sobre a infraestrutura da Hyperliquid. Transforma a plataforma de uma corretora com mercados escolhidos pela equipa numa fábrica de mercados aberta a terceiros, os chamados builder-deployed perpetuals, que já representam mais de um terço do volume total.
Por Tiago Marques, editor de mercados da HOGE Wire. Este artigo é análise informativa e não constitui aconselhamento financeiro.