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● DeFi & On-chain

Crédito à velocidade da Solana: Jupiter Lend passa a Kamino

A 6 de outubro, a Jupiter Lend ultrapassou a Kamino como maior protocolo de crédito da Solana. Por trás da troca está um modelo de dinheiro on-chain que não é o da Ethereum.

A 6 de outubro de 2026 aconteceu na Solana uma coisa que poucos esperavam tão cedo: a Jupiter Lend, um protocolo com pouco mais de um ano de vida, ultrapassou a Kamino e tornou-se o maior mercado de crédito da rede. Pela métrica que conta, o valor total depositado líquido (TVL), a diferença era mínima, cerca de 1,411 mil milhões de dólares contra 1,403 mil milhões, segundo o CryptoBriefing. Oito milhões de dólares a separar o primeiro do segundo. Mas o simbolismo foi grande.

Durante quase toda a história recente da Solana, crédito on-chain queria dizer Kamino. A troca de liderança obriga a olhar para uma realidade que o leitor europeu, habituado a ouvir falar de Aave e Morpho na Ethereum, raramente vê de perto: existe um segundo grande polo de crédito descentralizado, corre noutra rede, com outra arquitetura, outros oráculos e outros riscos. Este artigo explica como funciona o dinheiro on-chain na Solana, porque é que a Jupiter Lend cresceu tão depressa e o que um investidor em Portugal deve saber antes de lá pôr um cêntimo.

A Solana mudou de líder a 6 de outubro

Os números da ultrapassagem contam uma história mais rica do que o simples placar. No dia da troca, a Jupiter Lend somava cerca de 2,6 mil milhões de dólares em depósitos e 1,08 mil milhões em empréstimos ativos; a Kamino tinha cerca de 1,007 mil milhões em empréstimos, de acordo com os dados citados pelo CryptoBriefing. A Jupiter Lend crescera 28,1% em trinta dias. E, no entanto, nos mesmos trinta dias a Kamino gerou mais comissões, cerca de 4,82 milhões de dólares contra 3,77 milhões da rival. Quem lidera em tamanho não lidera necessariamente em receita.

O pano de fundo do mercado também ajudava a Jupiter. No dia 8 de outubro, a SOL valia cerca de 97,05 euros, em queda de 6,2% nas 24 horas, segundo a CoinGecko, enquanto o token JUP subia mais de 10% no mesmo período. Um token a subir 10% no dia em que a rede principal cai 6% é um sinal de que o mercado estava a precificar a notícia. Não convém ler mais do que isso numa única sessão, mas a divergência é real.

Porque é que o crédito saiu da Ethereum

O crédito descentralizado nasceu e cresceu na Ethereum. Em junho de 2025, o conjunto dos protocolos de empréstimo atingiu um recorde de 55,69 mil milhões de dólares em TVL, com a Aave v3 a representar sozinha 26,09 mil milhões, segundo o The Block. A Ethereum continua a dominar: no total da DeFi, que rondava os 71,77 mil milhões de dólares em 2026, a rede de Vitalik Buterin valia cerca de 53,1% do mercado, de acordo com a Coinlaw.

A Solana é hoje o segundo grande ecossistema de crédito on-chain, e é um ecossistema diferente. A DeFi da rede valia cerca de 6,5 mil milhões de dólares no início de outubro, dos quais cerca de 2,589 mil milhões em protocolos de empréstimo, ou seja, perto de 40% de toda a atividade DeFi da Solana estava no crédito, segundo dados agregados pela Coinfomania. O que atrai capital e utilizadores é conhecido: blocos sub-segundo, comissões de poucos cêntimos e uma experiência pensada para retalho. O que muda, e é o que interessa a quem empresta, está por baixo do capô.

O crescimento não caiu do céu. A Solana tornou-se, ao longo de 2025 e 2026, um dos principais destinos de stablecoins e de atividade de retalho, e esse capital procura rendimento. Depositar USDC a render num cofre é o primeiro passo natural de quem já usa a rede para trocar tokens; a partir daí, pedir emprestado contra SOL ou contra um token de staking é apenas o passo seguinte. A proximidade entre a bolsa, a carteira e o mercado de crédito, tudo no mesmo ambiente, é precisamente o que o super-app Jupiter oferece, e ajuda a explicar a rapidez da ultrapassagem.

Mercado monetário on-chain: uma revisão em trinta segundos

Antes de entrar nas diferenças, vale recordar o essencial, comum a qualquer rede. Um mercado monetário on-chain é uma pool de liquidez: quem deposita (o credor) recebe juro; quem pede emprestado (o devedor) deixa colateral e paga juro. Como não há banco nem análise de crédito, o empréstimo é sobrecolateralizado: para tirar 70 euros tem de deixar, por exemplo, 100 euros em ETH ou SOL. A taxa de juro sobe com a utilização da pool. Cada ativo tem um rácio máximo de empréstimo e um limiar de liquidação; se o valor do colateral cai e o health factor passa abaixo de 1, um bot liquida a posição, vendendo o colateral com um desconto que premeia quem executa.

O que distingue estes mercados uns dos outros é sobretudo a forma como gerem o risco. A maioria dos mercados na Solana é isolada: cada par de colateral e dívida vive numa caixa própria, de modo que um colapso num ativo exótico não contamina a pool de SOL ou de USDC. A taxa de juro resulta de uma curva de utilização: quanto maior a fração da liquidez emprestada, mais caro fica pedir e mais rende depositar, até um ponto de inflexão a partir do qual a taxa dispara para forçar o reequilíbrio. É um mecanismo idêntico ao da Ethereum, mas que corre mais depressa e mais barato, o que muda a experiência sem mudar a matemática.

Tudo isto depende de um número que vem de fora da blockchain: o preço do colateral. Esse número chega através de um oráculo. É aqui que a Solana e a Ethereum começam a divergir, e é aqui que o crédito on-chain ganha ou perde dinheiro.

Kamino: o banco que a Solana construiu

A Kamino foi, durante quase toda a corrida de 2025 e 2026, o maior protocolo de crédito da Solana. Não é só um mercado monetário: junta num só produto o crédito (K-Lend), estratégias de rendimento alavancado (Multiply) e cofres de liquidez concentrada que gerem posições em pools de troca. O modelo é de mercados isolados, com SOL, USDC, USDT, JUP, PYUSD e tokens de staking líquido como o JitoSOL. A The Defiant descreveu-a como o maior protocolo de crédito DeFi da Solana, com mais de 2 mil milhões de dólares em TVL agregado.

A ascensão da Kamino deveu-se tanto à engenharia como ao momento. Ao oferecer num só sítio depósito, empréstimo, alavancagem e gestão de liquidez, captou o utilizador que não queria saltar entre aplicações. Mas a função Multiply, que automatiza o looping (pedir emprestado para comprar mais do mesmo colateral e repetir o ciclo), é uma faca de dois gumes: amplifica o rendimento quando o mercado sobe e amplifica as perdas quando desce, encurtando a distância até à liquidação. Numa rede rápida, uma posição alavancada pode passar de confortável a liquidada em segundos, e foi essa combinação de conveniência e risco que fez a casa crescer.

A obsessão da Kamino sempre foi o risco. O cofundador Marius Ciubotariu vem do mundo dos derivados exóticos, e a casa construiu em abril de 2025 um sistema multi-oráculo que cruza várias fontes de preço, entre elas os Chainlink Data Streams, que fornecem cotações sub-segundo ao mercado PRIME da Kamino e às suas listagens de ações tokenizadas (os chamados xStocks). A ideia é simples de enunciar e difícil de executar: manter o mercado solvente significa precificar o colateral bem, e depressa. O token de governação KMNO valia cerca de 0,0323 euros a 8 de outubro, com uma capitalização em torno dos 184 milhões de euros, segundo a CoinGecko; subira 45% no mês, mesmo depois de ceder perto de 12% na semana da ultrapassagem.

Jupiter Lend: o motor da Fluid dentro do super-app

A Jupiter Lend não nasceu do zero. É a primeira implementação fora do mundo EVM da Fluid, o protocolo de crédito e troca criado pela Instadapp, acoplada ao super-app Jupiter, o maior agregador da Solana. A divisão de trabalho resume-se bem: a Jupiter traz os utilizadores, a Fluid traz o motor, e a economia reparte-se aproximadamente a meio. Lançada a 27 de agosto de 2025, a Jupiter Lend atingiu 500 milhões de dólares em TVL nas primeiras 24 horas, segundo o comunicado publicado via PR Newswire, e ultrapassou mil milhões ao fim de oito dias.

O salto de 2026 veio da versão 2. A atualização de agosto introduziu o Smart Collateral e o Smart Debt, segundo a KuCoin: o colateral depositado continua a render (por exemplo, o juro de um token de staking) e a dívida pode captar comissões de troca, de modo que o mesmo dólar trabalha em duas frentes. Por baixo, tudo corre numa camada de liquidez partilhada com a Fluid, o que reduz a fragmentação e melhora a utilização. É a mesma filosofia de eficiência de capital que tem estado no centro da guerra de desenho dos AMM, agora aplicada ao crédito. Samyak Jain, cofundador e CEO da Fluid, não foi modesto: «Construímos o protocolo de crédito mais avançado, com parametrização de risco discreta, desenhos de oráculo avançados e limites dinâmicos que não existem em nenhuma outra plataforma», afirmou no mesmo comunicado da PR Newswire.

O JUP, o token da Jupiter, valia cerca de 0,31 euros a 8 de outubro, com uma capitalização próxima de 1,044 mil milhões de euros, segundo a CoinGecko. Note-se a diferença de escala entre protocolos e tokens: a Jupiter Lend já é maior do que a Kamino em depósitos, mas o valor de mercado dos respetivos tokens reflete negócios muito mais amplos (uma bolsa agregadora, no caso da Jupiter) do que apenas o crédito.

O mapa do dinheiro na Solana

Jupiter Lend e Kamino concentram a maior parte do crédito, mas não esgotam o mapa. A par das duas líderes corre uma geração de protocolos que está, nas palavras da CryptoNews, a repensar o crédito na Solana: a Loopscale com livro de ordens e taxa fixa, a Save com a sua herança de pioneira e a antiga MarginFi, hoje relançada como Project 0. A tabela que se segue reúne um retrato do início de outubro de 2026; as posições mudam depressa, e os valores de depósitos e de TVL líquido nem sempre coincidem.

ProtocoloTVL / empréstimosModeloNotas
Jupiter Lend~1,41 mil milhões $ TVL; ~1,08 mil milhões $ em empréstimosMotor Fluid, liquidez partilhada, Smart Collateral e Smart DebtMaior da Solana desde 6 out 2026
Kamino~1,40 mil milhões $ TVL (~2 mil milhões $ agregado); ~1,0 mil milhões $ em empréstimosK-Lend + Multiply + cofres de liquidezSistema multi-oráculo; mais comissões/30 dias
Drift~5,4 mil milhões $ TVLPerpétuos (CLOB + JIT + vAMM) com crédito integradoExecução sub-400 ms; mais derivados do que crédito puro
Loopscale~90,6 milhões $ TVLLivro de ordens, taxa e prazo fixosExplorado em abril de 2025, fundos recuperados
Save (ex-Solend)~85,8 milhões $ TVLMercado clássico, tokens de cauda longaPioneiro da Solana, rebranding em 2024
Project 0 (ex-MarginFi)Linha de crédito agregadaCorretora prime cross-venuePede emprestado contra carteira em Kamino, Drift e Jupiter
Fontes: CryptoBriefing (6 out 2026, Jupiter e Kamino), Coinfomania (2 out 2026, Loopscale e Save) e CryptoNews. Depósitos brutos e TVL líquido são métricas distintas.

Duas observações. Primeiro, a Drift é sobretudo um mercado de perpétuos, não um banco de crédito; a sua versão 3 juntou derivados e empréstimo num só motor, com execução abaixo dos 400 milissegundos, mas o leitor que vem dos mercados de derivados deve tratá-la como tal. Segundo, o Project 0 representa a fronteira seguinte: em vez de uma pool isolada, oferece uma linha de crédito única que lê a carteira inteira do utilizador em vários protocolos ao mesmo tempo. É a Solana a importar o conceito de corretora prime.

Vale a pena desarmar a aritmética. Depósitos brutos medem tudo o que entrou; o TVL líquido desconta o capital que, uma vez emprestado, regressa ao sistema e voltaria a ser contado em dobro. Por isso a Jupiter Lend pode exibir 2,6 mil milhões de dólares em depósitos e um TVL líquido de 1,41 mil milhões: a diferença é capital em rotação. E é também por isso que a Kamino, com menos TVL, ainda gera mais comissões; a receita depende da utilização e do tipo de mercado, não apenas do tamanho do balcão. Em crédito on-chain, maior nem sempre é melhor negócio.

A velocidade é a vantagem, o oráculo é o campo de batalha

A grande promessa da Solana para o crédito é a velocidade. Blocos sub-segundo significam que, quando o preço de um ativo se move, o protocolo repreça o colateral quase em tempo real e um liquidador age antes de a posição ficar a descoberto. Na Ethereum, com blocos de cerca de doze segundos, há sempre uma janela de atraso que já custou centenas de milhões em dívida malparada. A Solana fecha essa janela, pelo menos em teoria.

Essa promessa depende do oráculo. Na Solana, o oráculo dominante é a Pyth, que a própria rede usa para a maioria das aplicações. A Pyth é um oráculo de tipo pull: os fornecedores de dados publicam preços agregados com um intervalo de confiança, e cada protocolo escolhe como reagir a essa incerteza, exigindo confiança apertada para disparar liquidações, por exemplo, ou rejeitando preços demasiado vagos, como explica a própria Pyth Network. A Kamino acrescentou os Chainlink Data Streams e um sistema multi-oráculo precisamente para não depender de uma única fonte. O ponto é delicado: um oráculo mais rápido só ajuda se também for difícil de manipular.

A lição que a Ethereum pagou cara aplica-se aqui. Vários desastres de crédito on-chain não vieram de código mal escrito, mas de oráculos que marcavam um ativo a um preço que o mercado já não reconhecia. Um oráculo que publica um intervalo de confiança, como a Pyth, permite ao protocolo recusar-se a liquidar quando a incerteza é demasiado grande, em vez de agir sobre um preço duvidoso. Não é uma bala de prata; é uma defesa a mais. E na Solana, onde tudo acontece depressa, essa margem de prudência pode ser a diferença entre uma liquidação ordeira e uma cascata.

Que não é uma preocupação teórica, prova-o a própria Solana. A 26 de abril de 2025, a Loopscale foi explorada em cerca de 5,8 milhões de dólares (perto de 39 474 SOL) através de uma falha no seu sistema interno de preços, que permitiu manipular os termos dos empréstimos, segundo a crypto.news. O protocolo suspendeu os mercados, contactou o atacante por mensagem on-chain e recuperou a totalidade dos fundos ao fim de poucos dias, em troca de um prémio de 10%. Foi o mesmo guião de muitos episódios na Ethereum: o preço do colateral é o alvo, e a liquidez concentrada dos liquidadores atrai, inevitavelmente, estratégias de MEV. Quem acompanha a segurança das pontes e dos oráculos reconhece o padrão: o contrato pode estar correto e o perímetro falhar.

O reverso da velocidade: quando a rede congestiona

A mesma arquitetura que dá velocidade ao crédito da Solana tem um reverso conhecido: a congestão. Em 2024, durante a febre das meme coins, a rede chegou a falhar entre 75% e 80% das transações, segundo reportou a CoinDesk. Para quem empresta, isto não é um detalhe técnico: numa queda brusca, o devedor que quer reforçar o colateral pode não conseguir que a transação passe, e o liquidador que tenta fechar a posição também não. O resultado é uma cascata de liquidações agravada pela própria rede, não só pelo mercado.

A Solana melhorou muito desde então, mas os sobressaltos não desapareceram. Em agosto de 2026, uma falha deixou dezenas de validadores fora de linha durante cerca de meia hora, ainda que a rede principal tenha continuado a processar transações. O grande objetivo técnico, o cliente Firedancer, aponta para um milhão de transações por segundo e promete pôr a congestão no passado. Até lá, o risco de congestão é um fator que a Ethereum, mais lenta mas mais previsível, simplesmente não tem da mesma forma. Emprestar na Solana é trocar a janela do oráculo lento pela possibilidade de a estrada entupir no pior momento.

Save e a lição de 2022: quando a governação tentou apreender uma carteira

Para perceber a cultura de risco da Solana convém recuar a junho de 2022, ao episódio que ainda hoje assombra o crédito da rede. A Solend, pioneira dos mercados monetários da Solana e hoje rebatizada Save, tinha um único utilizador gigante: uma baleia que depositara 5,7 milhões de SOL e levantara cerca de 108 milhões de dólares em stablecoins, conta a CoinDesk. Se a SOL caísse até 22,30 dólares, a posição seria liquidada em massa, e a equipa temia que a venda forçada fizesse ruir a rede inteira. A baleia não respondia.

A solução proposta foi explosiva: a SLND1, votação que concedia à equipa poderes de emergência para tomar conta da carteira da baleia e liquidá-la fora do mercado. Passou com 97,5% dos votos em apenas seis horas, com um quórum de 1% em que um único eleitor forneceu um milhão dos 1,15 milhões de votos a favor, segundo a Decrypt. A comunidade reagiu com fúria: tomar a carteira de um utilizador era o oposto daquilo que a DeFi prometia. Um dia depois, a SLND2 revertia a decisão com 99,8% dos votos e alargava para 24 horas o tempo de votação. O cofundador, conhecido pelo pseudónimo Rooter, admitiu o erro: «Temos estado a ouvir as vossas críticas ao SLND1 e à forma como foi conduzido», escreveu, citado pela BeInCrypto.

A lição foi dura e continua atual. Um protocolo de crédito que depende de uma governação apressada para evitar o desastre não é assim tão descentralizado, e a concentração de risco numa única posição é um perigo tanto para o devedor como para todos os credores da pool. É exatamente o tipo de tensão que exploramos a propósito de quem guarda os guardiões nas DAO. A Save sobreviveu, mudou de nome e ocupa hoje um nicho de tokens de cauda longa; mas a Solana aprendeu cedo que velocidade sem governação sólida é uma armadilha.

Os curadores chegam à Solana

Há um fio que liga a Solana ao que se passa na Ethereum: o modelo dos curadores. Na Morpho, são gestores externos que desenham cofres, escolhem colaterais e definem parâmetros de risco em troca de uma comissão. A Jupiter Lend importou a ideia. Em maio de 2026, a gestora de ativos Bitwise tornou-se a primeira curadora institucional da plataforma, responsável por um mercado dedicado e isolado de USDe, o dólar sintético da Ethena, pensado para capital de escala institucional, segundo a PR Newswire.

O enquadramento foi dado por Kash Dhanda, diretor de operações da Jupiter: «Agora mais do que nunca, é imperativo levarmos o risco da DeFi a sério», afirmou, acrescentando que a parceria com a Bitwise trazia a credibilidade institucional necessária para levar o crédito on-chain de um nicho à forma predefinida de fazer finanças. Jonathan Man, responsável de estratégias DeFi da Bitwise, elogiou a infraestrutura da Jupiter e da Fluid pela liquidez profunda e pelos mecanismos de mitigação de risco. A retórica é sedutora; mas o modelo dos curadores traz o mesmo problema que já custou caro na Ethereum, a concentração de decisões de risco em poucas mãos. Importar o modelo é importar também a sua fragilidade.

A disputa do contágio zero

A rivalidade entre as duas líderes já tinha dado um episódio revelador. Em dezembro de 2025, quando a Jupiter Lend ainda era a aspirante, a plataforma promoveu-se com a promessa de risco de contágio zero entre os seus mercados. A afirmação não se aguentou. Kash Dhanda acabou por reconhecer que a publicação, entretanto apagada, não estava 100% correta e classificou o lapso de lamentável, segundo a Yellow.

A crítica mais afiada veio da concorrência. Marius Ciubotariu, cofundador da Kamino, reagiu à ideia de que os cofres da Jupiter eram verdadeiramente isolados: «Não podia estar mais longe da verdade», e insistiu que o ponto era essencial: «Esta é informação material e devia ser divulgada com toda a clareza», citado pela Yellow. O cerne da disputa é a rehypothecation: quando um utilizador deposita SOL e pede emprestado USDC, fica exposto ao comportamento de ativos como o JupSOL, de modo que um problema num mercado pode contaminar outro. A Kamino chegou a bloquear a ferramenta de migração da Jupiter, por considerar que os utilizadores estavam a ser induzidos em erro quanto à segurança dos cofres.

Não é uma guerra de marketing qualquer. A questão (os cofres são mesmo isolados ou partilham risco por baixo?) é a mesma que separa, na Ethereum, o modelo da Morpho do da Aave. Que ela ressurja na Solana entre os dois maiores protocolos, precisamente na semana em que um ultrapassa o outro, mostra que a liderança em tamanho não resolve o problema de fundo. O risco de contágio não desaparece porque o painel diz contágio zero; desaparece quando a arquitetura o impede, e isso exige escrutínio, não slogans.

Para quem investe em Portugal: acesso e impostos

Um investidor em Portugal chega à Solana de duas formas: por autocustódia, com uma carteira como a Phantom ou a Solflare, ou passando por uma plataforma licenciada (CASP) para converter euros em SOL ou em stablecoins. É importante não confundir os dois planos. O protocolo de crédito (Jupiter Lend, Kamino) não é um banco nem uma instituição de crédito: não há Fundo de Garantia de Depósitos, não há supervisão prudencial do Banco de Portugal sobre a pool e não existe um balcão a quem reclamar se o colateral for liquidado. O que a MiCA regula é o prestador de serviços (a corrente que troca euros por cripto), e em Portugal a conduta de mercado cabe à CMVM, enquanto o registo de CASP e as regras de stablecoins passam pelo Banco de Portugal. A Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, transpôs o quadro nacional, e o regime transitório para os antigos VASP terminou a 1 de julho de 2026.

Na prática, chegar a estes mercados a partir da Europa costuma envolver uma ponte. Quem tem fundos na Ethereum ou em stablecoins europeias precisa de os transferir para a Solana, e é aí que entra uma camada de risco que nada tem a ver com o crédito em si: a segurança da ponte. Num setor onde os ataques a pontes já custaram milhares de milhões de dólares, a regra prudente é simples: usar pontes consolidadas, mover montantes de cada vez e não deixar aprovações de gasto abertas na carteira depois de concluir a operação.

As stablecoins que circulam nestes mercados (USDC da Circle, USDT, PYUSD, USDe) são, do ponto de vista europeu, fichas de moeda eletrónica ou equivalentes, sujeitas às regras da MiCA para emissores. Já os perpétuos da Drift, por serem instrumentos financeiros, caem sob a DMIF II e não sob a MiCA. No plano fiscal, vale a regra portuguesa dos 365 dias: pôr cripto como colateral não é, em si, uma alienação (não gera imposto), mas uma liquidação é uma venda e pode ser tributada; mais-valias de ativos detidos menos de 365 dias são tributadas a 28% na categoria G, enquanto os ativos detidos há mais de um ano continuam isentos. A diretiva DAC8, de troca de informação, está em marcha. O contexto de taxas não é despiciendo: a facilidade de depósito do BCE estava em 2,50% desde 16 de setembro de 2026, segundo o BCE, e a referência do dólar (SOFR) rondava os 3,90%, de acordo com o SOFR Rate. Render 6% ou 8% num cofre de USDC paga-se, portanto, com um risco muito maior do que a taxa sem risco em euros.

Solana contra Ethereum: dois modelos de crédito

Posto tudo lado a lado, não há um vencedor absoluto, há compromissos diferentes. A Ethereum oferece maior profundidade, mais capital institucional e uma previsibilidade que a torna o terreno natural dos grandes protocolos; a Solana oferece velocidade e custo, ao preço de uma rede que ainda tropeça e de oráculos cuja robustez é o verdadeiro campo de batalha. A diferença de escala dos tokens ilustra-o: a AAVE valia cerca de 148,85 euros e a MORPHO cerca de 2,08 euros a 8 de outubro, segundo a CoinGecko, capitalizações de mercado muito acima das do crédito nativo da Solana.

DimensãoEthereumSolana
Tempo de bloco~12 segundosSub-segundo
Oráculo típicoChainlink (feeds push)Pyth (pull, intervalo de confiança) + Chainlink Data Streams
Velocidade de liquidaçãoMais lenta, janela de atrasoQuase imediata (se a rede não congestionar)
Maiores credoresAave, Morpho, Compound, Fluid, SparkJupiter Lend, Kamino, Drift
Comissões de redeElevadas e variáveisMuito baixas
Risco mais próprioMEV, oráculo lentoCongestão/outage, oráculo manipulável
TVL de créditoDezenas de mil milhões $~2,6 mil milhões $
Comparação qualitativa; valores de TVL do início de outubro de 2026.

A leitura certa não é escolher uma rede e torcer por ela. É perceber que o mesmo ato (emprestar stablecoins contra colateral volátil) tem perfis de risco diferentes consoante a rede, e precificar isso. Um rendimento igual nas duas redes não é o mesmo rendimento ajustado ao risco.

O que verificar antes de emprestar na Solana

Para o investidor que decide testar estes mercados, vale uma lista curta de perguntas antes de aprovar a primeira transação na carteira.

  • Que oráculo alimenta o mercado e como trata a incerteza? Um sistema multi-oráculo ou um oráculo com intervalo de confiança é preferível a uma única fonte.
  • O mercado é mesmo isolado ou há rehypothecation que liga o seu colateral ao risco de outros ativos?
  • Quem é o curador do cofre, e que concentração de decisões de risco existe por trás da taxa anunciada?
  • Qual o rácio de empréstimo e o limiar de liquidação do colateral, e há margem para uma queda de 30% a 40% sem liquidação?
  • Qual o historial de congestão e de exploits do protocolo e da rede? Já houve dívida malparada?
  • Que stablecoin está em jogo (USDC, USDT, PYUSD, USDe) e como está garantida?
  • Há liquidez de saída suficiente para desfazer a posição sem derrapagem num dia de stress?

Nenhuma destas perguntas é exclusiva da Solana, mas todas pesam mais numa rede rápida, barata e ainda jovem. A ultrapassagem da Kamino pela Jupiter Lend é, acima de tudo, um sinal de que o crédito on-chain deixou de ser um assunto só da Ethereum. O capital segue o rendimento, mas o rendimento, como sempre, segue o risco.

Perguntas frequentes

A Jupiter Lend é maior do que a Kamino?

Sim, desde 6 de outubro de 2026. Nesse dia a Jupiter Lend ultrapassou a Kamino em TVL líquido, com cerca de 1,411 mil milhões de dólares contra 1,403 mil milhões, segundo o CryptoBriefing. A diferença é pequena e pode voltar a mudar, e a Kamino continuava a gerar mais comissões no mesmo período.

O que é a Jupiter Lend e como funciona?

A Jupiter Lend é o mercado de crédito do super-app Jupiter, na Solana, movido pela tecnologia da Fluid, da Instadapp. Permite depositar ativos para render juro e pedir emprestado contra colateral sobrecolateralizado, com uma camada de liquidez partilhada e funções como Smart Collateral e Smart Debt que deixam o mesmo capital render em duas frentes.

É seguro emprestar cripto na Solana?

Emprestar na Solana traz os riscos habituais da DeFi (liquidação, falha de oráculo, risco de contrato) e mais dois próprios da rede: a congestão, que pode impedir reforços de colateral e liquidações, e oráculos que precisam de ser difíceis de manipular. Não há Fundo de Garantia de Depósitos, pelo que convém verificar o oráculo, o isolamento do mercado e o historial do protocolo.

Qual é o maior protocolo de crédito da Solana?

Desde 6 de outubro de 2026 é a Jupiter Lend, que ultrapassou a Kamino. As duas concentram a maior parte do crédito da rede, seguidas a distância pela Drift (sobretudo perpétuos), pela Loopscale e pela Save, a antiga Solend.

Como são tributados em Portugal os rendimentos de crédito DeFi?

Pôr cripto como colateral não é, em geral, uma alienação e não gera imposto, mas uma liquidação equivale a uma venda e pode ser tributada. As mais-valias de ativos detidos menos de 365 dias são tributadas a 28% na categoria G, enquanto os ativos detidos há mais de um ano continuam isentos. A diretiva DAC8 reforça a troca de informação.

Por Yuki Tanaka, redação da HOGE Wire.

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