Restaking em 2026: mais rendimento e mais risco na DeFi
O restaking promete rendimento extra sobre Ethereum, mas o ataque à Kelp DAO mostrou o risco. Vemos os números em euros, os protocolos e as regras europeias que aí vêm.
O restaking foi a grande narrativa da DeFi entre 2024 e 2025, com milhares de milhões de euros a entrar em protocolos que prometiam um rendimento extra sobre Ethereum que já estava bloqueada. Em 2026, a história ganhou um tom mais sóbrio. O valor total bloqueado recuou face aos máximos, um ataque de 292 milhões de dólares à Kelp DAO abalou a confiança de todo o setor e os reguladores europeus começam a olhar para estes serviços com outra atenção.
Este artigo explica, em linguagem acessível, o que é o restaking, como funciona a EigenLayer (o protocolo que criou a categoria), quanto vale hoje o setor em euros, que alternativas surgiram em Bitcoin e Solana e que riscos, técnicos e regulatórios, os investidores em Portugal devem ter em conta antes de mover um único euro.
O que é o restaking, em termos simples
Para perceber o restaking, convém recordar o staking. Numa rede como a Ethereum, os validadores bloqueiam ETH como garantia para validar transações e produzir blocos. Em troca recebem recompensas mas, se agirem de forma desonesta ou negligente, podem perder parte do capital bloqueado, num mecanismo chamado slashing.
O restaking dá um passo adicional: permite reutilizar essa mesma ETH (ou um token que represente ETH em staking) para garantir, ao mesmo tempo, outros serviços para lá da própria Ethereum. É como usar o mesmo imóvel como garantia de mais do que um empréstimo. O atrativo é claro, mais uma fonte de rendimento sobre o mesmo capital; o reverso também, mais uma forma de o perder. A documentação técnica da EigenLayer descreve em detalhe como esta garantia partilhada é construída.
Como funciona a EigenLayer, os AVS e os operadores
A EigenLayer foi o protocolo que transformou o restaking numa categoria própria. O modelo assenta em três peças. Primeiro, os restakers, que depositam ETH ou tokens de staking líquido. Segundo, os operadores, que gerem a infraestrutura e a quem os restakers delegam o capital. Terceiro, os AVS (Actively Validated Services), serviços que precisam de segurança económica mas não querem montar de raiz o seu próprio conjunto de validadores.
Um AVS pode ser uma bridge entre redes, um oráculo de preços, uma camada de disponibilidade de dados (data availability) ou uma rede de provas. Em vez de arrancar com uma comunidade de validadores do zero, aluga a segurança já acumulada na EigenLayer. Os restakers ganham recompensas por garantirem esses serviços; em troca, aceitam ficar sujeitos às regras de slashing de cada AVS que apoiam.
Esse slashing, durante muito tempo apenas teórico, passou a estar ativo na mainnet em abril de 2025. A mudança tornou o risco real e mensurável e ajuda a explicar a forte correção do capital bloqueado ao longo do ano passado. Já em 2026, a Eigen Foundation avançou com uma revisão profunda da tokenomics: a proposta ELIP-12 cria um Comité de Incentivos e um modelo de comissões que canaliza cerca de 20% das recompensas dos AVS, mais as receitas de serviços como EigenAI, EigenCompute e EigenDA, para recompras do token EIGEN. A própria fundação detalhou o plano, que a Reuters resumiu como uma aposta em premiar os utilizadores mais ativos.
Os liquid restaking tokens e a corrida ao rendimento
Bloquear ETH diretamente na EigenLayer tem uma desvantagem óbvia: o capital fica imobilizado. Foi para resolver isso que nasceram os liquid restaking tokens (LRT). O utilizador deposita ETH num protocolo como a ether.fi, a Renzo ou a Kelp e recebe em troca um token (eETH, ezETH ou rsETH, respetivamente) que continua a render recompensas de restaking, mas pode ser negociado ou usado como garantia noutras aplicações DeFi.
Boa parte da euforia de 2024 veio daqui, alimentada por campanhas de pontos (points) que prometiam futuros airdrops a quem depositasse cedo. O problema é que cada LRT acrescenta uma camada: o utilizador confia no emissor do token, que confia na EigenLayer, que confia nos operadores, que respondem perante os AVS. Quando uma dessas camadas falha, o efeito propaga-se por todas as outras, como se viu em abril.
Convém ter presente uma diferença importante face ao staking simples. No staking tradicional, o pior cenário é o validador falhar e sofrer um slashing limitado. No restaking com LRT, o capital fica exposto a vários AVS, a contratos inteligentes de mais do que um protocolo e, muitas vezes, a bridges entre redes. A soma destes pontos de falha é precisamente o que torna o rendimento mais alto e o risco menos transparente.
Os números do setor, em euros
A conjuntura de mercado não ajuda. A 26 de junho de 2026, a Ethereum negociava perto dos 1 400 EUR (cerca de 1 530 dólares), depois de uma queda superior a 27% num mês, segundo dados da CoinGecko. Como quase todo o valor do restaking está denominado em ETH, esta desvalorização reduz, só por si, o capital bloqueado quando medido em euros.
Ainda assim, a EigenLayer continua a dominar a sua rede de origem. De acordo com a DefiLlama, o protocolo mantém cerca de 4 mil milhões de euros em valor bloqueado, bem longe dos mais de 15 mil milhões de dólares que chegou a somar no verão de 2024. A tabela seguinte compara os principais protocolos de restaking, com valores aproximados de finais de junho de 2026 e conversão a cerca de 0,93 euros por dólar.
A queda não se ficou pelo capital. O token EIGEN perdeu a maior parte do valor face aos máximos e o número de operadores ativos, que chegou a rondar os 1 900, reflete um setor que cresceu depressa de mais e agora arruma a casa. Mesmo assim, continuam a delegar-se milhões de ETH, sinal de que a procura por rendimento adicional não desapareceu.
| Protocolo | Rede base | TVL aprox. (EUR) | Token nativo |
|---|---|---|---|
| EigenLayer | Ethereum | ~4,0 mil milhões | EIGEN |
| Babylon | Bitcoin | ~5,2 mil milhões | BABY |
| Symbiotic | Ethereum | ~276 milhões | sem token público |
| Karak | Multi-cadeia | ~95 milhões | sistema de pontos |
| Solayer | Solana | ~16 milhões | LAYER |
Para lá da Ethereum: Bitcoin e Solana entram no jogo
O dado mais surpreendente da tabela é o líder. A Babylon, que trouxe o staking nativo para Bitcoin, ultrapassou a EigenLayer em valor bloqueado. O protocolo permite a quem detém BTC colocá-lo a garantir cadeias de prova de participação sem abdicar da autocustódia, recorrendo a contratos com bloqueio temporal (timelock). Reúne hoje cerca de 56 800 BTC, perto de 5,6 mil milhões de dólares, o equivalente a aproximadamente 78% de todo o Bitcoin colocado em DeFi.
Na Solana, a Solayer foi o primeiro protocolo de restaking nativo e chegou a superar os 500 milhões de dólares em depósitos, com mais de 295 000 carteiras, antes de redirecionar a estratégia para a sua própria cadeia acelerada por hardware, a InfiniSVM. Na Ethereum, a Symbiotic afirma-se como a principal alternativa à EigenLayer, com uma arquitetura mais modular e sem necessidade de autorização, embora a uma escala bem menor, na ordem dos 276 milhões de euros.
O ataque à Kelp DAO e o risco de contágio
Se faltava uma demonstração prática dos perigos de empilhar camadas, ela chegou no fim de semana de 18 de abril de 2026. Um atacante explorou a bridge da Kelp DAO, assente no protocolo LayerZero, e cunhou 116 500 rsETH, cerca de 292 milhões de dólares, no maior roubo em DeFi do ano. Segundo a CoinDesk, a raiz do problema foi uma configuração de verificação com uma única assinatura, e a autoria foi atribuída ao grupo Lazarus, ligado à Coreia do Norte.
O mais revelador foi o contágio. Nos dois dias seguintes, mais de 13 mil milhões de dólares saíram de plataformas de restaking e de protocolos relacionados. A Aave congelou os mercados de rsETH nas versões 3 e 4, e o mesmo fizeram a SparkLend e a Fluid. O rsETH estava a ser usado como garantia em meio ecossistema, por isso um problema num único emissor obrigou boa parte da DeFi a travar a fundo. É a outra face da composabilidade: a mesma propriedade que multiplica o rendimento também multiplica o choque.
O slashing e o aviso de Vitalik Buterin
Nada disto apanha de surpresa quem leu Vitalik Buterin. Ainda em maio de 2023, num texto intitulado «Don’t overload Ethereum’s consensus», o cofundador da Ethereum traçou uma linha clara. Para ele, o duplo uso da ETH em staking, apesar de ter riscos, é fundamentalmente aceitável; já tentar «recrutar» o consenso social da Ethereum para os fins de uma aplicação concreta é que não. O aviso completo mantém-se atual.
O risco que ele antecipava tem nome técnico: falhas correlacionadas. Se muitos operadores garantem os mesmos AVS e algo corre mal, o slashing pode atingir vários em cadeia, com perdas que se reforçam umas às outras. Junte-se a isto o hábito de usar LRT como garantia para pedir empréstimos e voltar a depositar, e cria-se alavancagem escondida, difícil de medir até ao momento em que tudo é testado ao mesmo tempo.
O enquadramento regulatório em Portugal e na UE
Do lado das regras, o restaking vive numa zona cinzenta. O regulamento europeu MiCA está plenamente em vigor desde 30 de dezembro de 2024, mas não menciona o restaking nem o staking como serviço de forma específica. A ESMA, autoridade europeia dos mercados, tem vindo a clarificar o perímetro do MiCA; ainda assim, produtos que prometem rendimento sobre criptoativos podem cair em categorias diferentes consoante a forma como são oferecidos.
Em Portugal, a CMVM é a autoridade nacional competente para o MiCA e tem repetido os alertas sobre a volatilidade e o risco de perda total em criptoativos, enquanto o Banco de Portugal supervisiona o registo para efeitos de prevenção de branqueamento de capitais. Em matéria fiscal, importa distinguir mais-valias de rendimentos de capitais, e as recompensas de staking e restaking podem ter tratamento próprio. Antes de declarar seja o que for, o mais prudente é consultar um contabilista certificado.
O que esperar dos próximos meses
O restaking está a passar da fase do entusiasmo movido a pontos para uma fase de utilidade e receita. Os AVS começam a especializar-se em nichos concretos, da disponibilidade de dados à verificação para inteligência artificial, e os protocolos competem agora por receitas reais, não apenas por promessas de airdrop. A revisão da tokenomics da EigenLayer aponta nessa direção.
É provável que se assista também a alguma consolidação. Depois do susto de abril, ganham espaço os protocolos com auditorias independentes, mecanismos de seguro e governação transparente, enquanto os projetos mais frágeis perdem depósitos. A diferença entre um rendimento sustentável e uma armadilha passará, cada vez mais, pela qualidade da gestão de risco e não pela promessa de números maiores.
Para o investidor europeu, ficam três conclusões práticas:
- Perceber quantas camadas separam o seu euro do risco final, porque cada camada cobra uma taxa e acrescenta um ponto de falha.
- Lembrar que o slashing deixou de ser hipótese e passou a ser uma perda possível e automática.
- Dimensionar cada posição como quem aceita poder perder a totalidade, porque, como 2026 já mostrou, é exatamente isso que pode acontecer.
O restaking continua a ser uma das ideias mais interessantes da DeFi; é também uma das que exige mais cuidado, ainda mais depois do ano que estamos a atravessar.
Por Tiago Marques, editor de mercados on-chain na HOGE Wire.