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● Culture & Long-reads

Do retrato à cotação: a reputação do builder à venda

A reputação de quem constrói cripto deixou de ser um texto e passou a ser um número que se mede, se paga e se negoceia. Do mindshare ao caso $JESSE, a anatomia de um mercado novo.

Durante anos, um perfil de builder foi um texto. Uma entrevista, uma thread comprida, um artigo que explicava quem estava por detrás de um protocolo e porque valia a pena confiar-lhe dinheiro. Em 2026, esse texto encolheu até caber num único número. A reputação de quem constrói cripto deixou de ser algo que se lê e passou a ser algo que se mede, se ganha, se cotiza e, no limite, se negoceia num livro de ordens. Este perfil não é sobre uma pessoa em particular. É sobre a máquina que passou a pôr um preço nas pessoas.

A reputação deixou de ser um retrato e passou a ser uma cotação

A cripto tem um hábito antigo: pega em algo qualitativo e transforma-o num mercado. Já o fez ao custo de manter uma posição aberta, que virou um juro negociável de minuto a minuto, como explicámos na máquina de carry dos perpétuos. Fê-lo à probabilidade de um acontecimento, que virou uma cotação em plataformas de previsão. Em 2026, apontou a mesma engrenagem à coisa mais difícil de medir de todas: a atenção que uma pessoa ou um projeto conseguem captar, e a reputação que daí resulta.

O resultado tem quatro andares. Primeiro, a atenção passou a ser medida, através de um indicador a que a indústria chama mindshare. Depois, essa medição passou a ser paga: publicar sobre um projeto tornou-se uma forma de rendimento. A seguir, a reputação individual ganhou preço próprio, através das chamadas creator coins. E, por fim, tornou-se negociável por terceiros, em mercados onde se aposta na atenção alheia como quem aposta no preço do petróleo. Cada andar acrescentou liquidez, e cada andar acrescentou uma nova forma de manipular o número.

Vale a pena separar isto de um tema vizinho. Não falamos aqui do construtor que se esconde atrás de um pseudónimo, um tema vizinho mas distinto. Falamos de algo quase oposto: da reputação exposta, quantificada e cotada, mesmo quando tem cara e nome. O anonimato tirava a identidade da equação; o mindshare fez o inverso, transformou a identidade num instrumento financeiro.

O que é «mindshare» e porque passou a valer dinheiro

Comecemos pela unidade de medida. Mindshare, em tradução livre, é a quota de atenção: de todo o volume de conversa sobre um determinado tema, que fatia é dedicada a um projeto, a um protocolo ou a uma pessoa. A par disso mede-se o sentiment, o tom dessa conversa, se é elogiosa ou hostil. Nada disto é novo enquanto conceito de marketing; a novidade é ter passado a ser calculado em tempo real, projeto a projeto, e afixado num marcador público que qualquer pessoa pode consultar.

O instrumento que popularizou este número chama-se Kaito. A empresa foi fundada em 2022, em Seattle, por Yu Hu, antigo gestor de carteira na Citadel e engenheiro de machine learning. Em junho de 2023 já tinha uma avaliação de cerca de 75 milhões de euros (87,5 milhões de dólares) numa ronda liderada pela Dragonfly, com a Sequoia Capital China e a Jane Street, segundo a CoinDesk. A promessa era simples de enunciar e difícil de executar: usar modelos de linguagem para ler tudo o que se publica sobre cripto na X, no YouTube, no TikTok e no Instagram, e destilar isso num ranking de atenção.

Convém sublinhar o que isto tem de frágil. O cálculo exato do mindshare é proprietário: os pesos que a plataforma dá a cada rede, a cada tipo de conta ou a cada formato de publicação não são públicos nem auditáveis por terceiros. O leitor vê o resultado, uma posição num ranking, mas não a fórmula que a produziu. É uma inversão curiosa face ao ideal da cripto, que nasceu a prometer regras verificáveis e abertas: aqui, a medida que decide quem é reputado é, ela própria, uma caixa fechada.

O Kaito tem também um token, o KAITO, emitido sobre a Base, a rede da Coinbase. Vale hoje cerca de 0,30 euros (0,35 dólares), com uma capitalização à volta dos 66 milhões de euros (77 milhões de dólares), de acordo com a CoinGecko, bem abaixo do máximo histórico, perto dos 2,88 dólares, que registou no início de 2025, no rescaldo do seu airdrop. O acesso profissional à ferramenta, o Kaito Pro, é vendido por subscrição a centenas de equipas de projetos, que a usam para saber se estão a ganhar ou a perder a guerra da atenção. Um número que começou como painel de marketing tornou-se, em poucos meses, uma bússola que move capital.

Da veneração à métrica: o retrato virou tabela

Para perceber o que mudou, convém olhar para o que um perfil de builder era antes e para o que é agora. O retrato clássico era um objeto lento: alguém escrevia, alguém editava, e o texto durava. Premiava a substância porque havia tempo para a verificar. O perfil-cotação é o oposto: atualiza-se ao segundo, não tem autor identificável, e premeia aquilo que gera conversa, que nem sempre é o mesmo que gera valor.

DimensãoO retrato de outroraO perfil-cotação de 2026
FormatoTexto, entrevista, threadNúmero, ranking, gráfico
Quem o produzUm jornalista ou o próprioUm algoritmo sobre dados da X
RitmoPublicado e estávelAtualizado ao segundo
O que premeiaSubstância verificávelVolume de conversa
Principal riscoEnviesamento do autorManipulação da métrica

Esta tabela esconde uma troca que raramente é dita em voz alta: ganhámos objetividade aparente e perdemos contexto. Um número dispensa argumentação, e é precisamente por isso que é tão fácil de vender e tão perigoso de acreditar. Ninguém discute uma posição num ranking da mesma forma que discute uma frase de um artigo.

Yaps: quando falar de cripto passou a ser um emprego

O salto de medir para pagar deu-se com um produto chamado Yaps. A lógica: se o mindshare é valioso para os projetos, então quem o gera merece uma fatia. Os Yaps recompensavam os utilizadores por publicarem conteúdo sobre determinados projetos, atribuindo pontos com base na qualidade e no alcance aparentes das publicações. Esses pontos convertiam-se depois em airdrops de tokens. Nascia assim o post-to-earn, primo direto do play-to-earn dos jogos: em vez de jogar para ganhar, escrevia-se para ganhar.

Funcionou depressa demais. O modelo atraiu centenas de milhares de participantes, com uma comunidade particularmente forte na Coreia do Sul, e deu origem a uma categoria inteira a que a indústria chamou InfoFi, ou financiamento da informação. O problema é que, quando se paga por publicar, o incentivo não é publicar bem, é publicar muito. As redes encheram-se de threads quase idênticas, elogios encomendados e respostas geradas por inteligência artificial. A métrica que devia captar a atenção genuína passou a captar, sobretudo, o esforço de a simular. Um sistema desenhado para premiar a qualidade do sinal acabou por subsidiar o ruído.

O mecanismo tinha o formato de um jogo. Cada projeto tinha a sua tabela classificativa, cada utilizador um lugar, e subir dependia de publicar cedo, publicar muito e ser citado por contas já bem posicionadas. Formaram-se equipas dedicadas apenas a acumular pontos, muitas vezes com recurso a dezenas de contas coordenadas. O que começara como forma de recompensar quem explicava bem um protocolo transformou-se numa corrida de produção em série de conteúdo, em que o mérito editorial contava menos do que a cadência. A reputação, medida assim, premiava a persistência e não a lucidez.

15 de janeiro: o dia em que a X fechou a torneira

O aviso chegou de onde toda a máquina se alimentava: a própria X. A 15 de janeiro de 2026, o responsável de produto da rede, Nikita Bier, anunciou que a plataforma deixava de autorizar aplicações que pagam aos utilizadores para publicar. A justificação foi direta: segundo a Protos, Bier escreveu que essas aplicações tinham gerado «uma quantidade tremenda de lixo de IA e de spam de respostas» na plataforma, e que o acesso programático, a API, já tinha sido revogado.

O rastilho era visível nos dados. A 9 de janeiro, num único dia, tinham sido publicadas cerca de 7,75 milhões de mensagens sobre cripto, um aumento de mais de 1200% face ao normal, quase tudo movido pela caça a pontos. A reação do mercado foi imediata. O KAITO caiu cerca de 17% no dia, noticiou a CoinDesk; o COOKIE, token de um concorrente, perdeu perto de 15%; e o setor InfoFi no seu conjunto evaporou cerca de 34 milhões de euros (40 milhões de dólares) em poucas horas. Horas depois do anúncio de Bier, o fundador do Kaito, Yu Hu, confirmou o fim dos Yaps.

Foi a primeira vez que a reputação-cotação levou uma correção brutal por uma decisão que não controlava. A infraestrutura sobre a qual toda a indústria da atenção assentava pertence a uma empresa privada, que pode mudar as regras num sábado à tarde. Quem tinha transformado o mindshare no seu rendimento descobriu, da pior forma, o que significa depender de uma única API alheia. Não foi um problema de mercado; foi um problema de dependência.

A prova de impacto: como o Kaito renasceu com o Katalyst

A resposta do Kaito não foi desistir, foi mudar aquilo que conta. Yu Hu admitiu que «um sistema de distribuição totalmente sem permissões deixou de ser viável, nem está alinhado com aquilo de que as marcas de qualidade precisam», por outras palavras, pagar por qualquer publicação tinha sido um erro. Primeiro veio o Kaito Studio, um mercado mais fechado entre criadores e marcas. Depois, a 29 de julho de 2026, chegou o Katalyst.

O Katalyst troca a vaidade pela conversão. Em vez de recompensar impressões, recompensa ações mensuráveis: cliques, registos, depósitos, atividade real dentro das plataformas dos clientes. Para provar que essas ações aconteceram sem expor os dados privados dos utilizadores, o Kaito assenta em três pilares, descreve a Metaverse Post: um acordo de dados restabelecido com a X, uma arquitetura de verificação com provas de conhecimento-zero desenvolvida com a Brevis, e infraestrutura própria de atribuição. Dos fundos de cada campanha, 80% vão para os criadores e 20% para quem faz staking de KAITO.

O mercado gostou. Impulsionado pelo lançamento e por uma vaga de compra de retalho, o KAITO subiu cerca de 120% ao longo de julho, calculou o Crypto Times. A leitura importante não é o preço, é a direção. A indústria da atenção percebeu que medir barulho não chega e começou a tentar medir resultado. É um progresso, mas também é uma admissão de que a métrica original media a coisa errada.

Quando a reputação ganha livro de ordens: os mercados de atenção

Se a atenção é um número, então pode ter um mercado. Foi essa a conclusão a que chegaram o Kaito e a Polymarket, a maior plataforma de mercados de previsão, quando anunciaram, a 10 de fevereiro de 2026, os chamados mercados de atenção. A ideia: em vez de apostar em eleições ou em resultados desportivos, aposta-se na evolução do próprio mindshare, avançou a Forbes. Quanto vai subir a quota de atenção de um tema até certa data? A reputação passou a ter livro de ordens.

Os primeiros mercados abriram a 11 de fevereiro. Um deles, sobre a própria quota de atenção da Polymarket até 31 de março, movimentou mais de 1,1 milhões de euros (1,3 milhões de dólares). No início de junho já havia mais de 150 contratos ativos neste segmento, com um volume acumulado acima dos 4,6 milhões de euros (5,4 milhões de dólares). É a mesma lógica que levou os mercados de previsão a anteciparem preços de fim de ano, tema que analisámos quando o mercado já tinha votado, aplicada agora à atenção.

Yu Hu resumiu a ambição à Forbes: será uma experiência completamente nova quando as pessoas puderem percorrer as redes sociais, perceber que podem exprimir a sua opinião sobre o que estão a ver e tomar posição sobre isso nestes mercados. O problema apareceu quase de imediato: se se pode ganhar dinheiro a mover um número de atenção, então há incentivo para o mover artificialmente. Os bots foram, desde o início, um problema reconhecido nestes mercados. Quando a medida vira aposta, manipulá-la deixa de ser vaidade e passa a ser estratégia financeira.

A moeda do próprio nome: creator coins e o caso $JESSE

Entre o pagar-por-publicar e o apostar-na-atenção existe um andar intermédio, ainda mais literal: dar um preço direto ao próprio nome. As creator coins são tokens associados a uma pessoa, cujo valor sobe e desce com a sua reputação percebida. O nome, o handle, o histórico de entregas de um builder deixam de ser reputação difusa e passam a ser um ativo com gráfico, algo que aproxima este tema do construtor cuja marca é apenas um handle.

Tecnicamente, uma creator coin costuma assentar numa curva de emissão automática: o preço sobe à medida que mais pessoas compram e desce quando vendem, sem livro de ordens tradicional. Isso torna o lançamento barato e instantâneo, mas também extremamente sensível aos primeiros segundos, quando há pouca liquidez e cada compra move muito o preço. O nome de uma pessoa passa a comportar-se como um pequeno mercado ilíquido, exposto a quem tiver a infraestrutura mais rápida. Comprar uma dessas moedas deixou de ser um voto de confiança para passar a ser, muitas vezes, uma aposta de curtíssimo prazo.

O exemplo mais falado teve como protagonista, ironicamente, um dos maiores construtores da cripto ocidental. No final de novembro de 2025, Jesse Pollak, o criador da Base, lançou a sua própria creator coin, a $JESSE. Nos primeiros segundos, bots especializados aproveitaram a velocidade da rede para comprar antes de todos os outros e arrecadaram cerca de 1,1 milhões de euros (1,3 milhões de dólares), documentou a CoinDesk. Foi um caso de manual de MEV, o valor extraível pela ordenação de transações que analisámos quando defendemos encriptar o mempool. A lição foi desconfortável: quando se cotiza a reputação, os primeiros a lucrar não são os admiradores, são as máquinas.

O reverso do culto: Pollak e a aposta falhada na atenção

A história da $JESSE ganha outra dimensão quando se sabe o que veio a seguir. A 15 de julho de 2026, o próprio Pollak deu um passo atrás na liderança da aplicação Base e fez uma admissão rara na cripto. À CoinDesk, reconheceu que a estratégia de transformar a Base numa rede social onchain, apostada em creator coins e em conteúdo, tinha falhado: «fizemos a aposta certa nos builders, mas obviamente a aposta errada no social.» O que venceu, disse, foram outros usos: os mercados de previsão, os perpétuos e as stablecoins.

A ironia é difícil de exagerar. O construtor que mais longe levou a financeirização da atenção, ao ponto de cotizar o próprio nome, foi também quem publicamente declarou que a aposta na atenção não tinha resultado. Meses antes, em fevereiro, a Base já tinha desligado o seu feed social e encerrado o programa Creator Rewards, que ao longo de seis meses tinha pago centenas de milhares de dólares a milhares de criadores. A liderança da aplicação passou para Cobie, e a Base reorientou-se para negociação, pagamentos e agentes de IA. O culto ao construtor sobreviveu; a tese de que a atenção era o produto, não.

Para a tese da reputação-cotação, o episódio funciona como um aviso vindo de dentro. Se nem o construtor com mais recursos, mais distribuição e mais capital conseguiu fazer da atenção o produto central de uma rede, é razoável duvidar de que a atenção, por si só, sustente valor. O mindshare continua a mover preços no curto prazo, mas o caso Base sugere que aquilo que fica, no fim, é o uso real: pessoas a negociar, a pagar e a transacionar. A atenção é o anzol; raramente é o peixe.

A lei de Goodhart e o «Master of Anons»

Há uma lei que assombra qualquer sistema que transforme uma medida num alvo. Chama-se lei de Goodhart e diz o seguinte: quando uma medida se torna um objetivo, deixa de ser uma boa medida. O mindshare é um caso de estudo. No momento em que ganhar atenção passa a valer tokens, contratos e cotações, o esforço deixa de ir para construir e passa a ir para parecer que se constrói: contas-fantasma, redes de bots, threads escritas por IA, campanhas coordenadas de elogio.

A cripto já tinha visto este filme, à escala industrial. Em 2022, a CoinDesk revelou como um único programador, Ian Macalinao, tinha inventado onze identidades falsas de developers para inflacionar artificialmente o valor total bloqueado da Solana através de protocolos que fingiam ser independentes. Na sua própria confissão, escreveu que tinha concebido um esquema para maximizar o TVL da Solana, no qual «um dólar podia ser contado várias vezes.» Se um nome pode ser inventado, um número de reputação também pode ser fabricado.

Isto devolve o problema à velha pergunta do jornalismo: quem verifica? Quando o perfil era um texto, havia um editor a quem pedir contas, como discutimos a propósito de quem fiscaliza o entrevistador. Quando o perfil é um número gerado por um algoritmo sobre dados de uma rede social, a cadeia de responsabilidade dissolve-se. Confia-se no ranking porque parece objetivo, não porque foi auditado. E o que parece objetivo é, muitas vezes, apenas opaco.

O motor antigo continua a travar: grants, tokens e agora atenção

Nada disto substituiu, ainda, as formas mais antigas de pagar a quem constrói, mas é sintomático que essas formas estejam em recuo precisamente quando a atenção ganha mercado. O financiamento retroativo de bens públicos da Optimism, o RetroPGF, que já distribuiu mais de 100 milhões de dólares em várias rondas, foi colocado em pausa em janeiro de 2026 por, pelo menos, doze meses, com cerca de 775 milhões de tokens OP reservados mas sem novas rondas à vista. As bolsas da Gitcoin, que canalizaram dezenas de milhões de dólares para milhares de projetos ao longo dos últimos anos, também abrandaram.

O contraste é revelador. As rampas antigas, subsídios e tokens de protocolo, premiavam trabalho já feito ou utilidade futura. As rampas novas, creator coins e mercados de atenção, premeiam a expetativa de atenção, que é uma coisa muito mais fácil de fabricar. A tabela seguinte separa os quatro caminhos pelos quais a reputação de um builder se converte em dinheiro.

RampaComo funcionaQuem pagaRisco principal
Grants retroativosRecompensa impacto já comprovadoTesourarias de protocolosPolitização e pausa dos programas
Tokens de protocoloValoriza o token que o builder detémO mercado do tokenEmissão e diluição
Creator coinsCotiza diretamente o nome da pessoaCompradores especulativosSnipers, MEV e volatilidade
Mercados de atençãoAposta na evolução do mindshareOutros apostadoresBots e manipulação da métrica

Lidas em conjunto, as quatro rampas contam a mesma história de fundo: quanto mais líquida se torna a reputação, mais depressa se afasta daquilo que era suposto representar. A liquidez que torna um número negociável é a mesma que o torna fácil de falsear.

Construtores lusófonos: quem constrói longe do ruído

Vale a pena olhar para casa. A história de construção mais sólida do ecossistema português não nasceu de rankings de atenção, nasceu de código entregue e de licenças obtidas. A Utrust foi fundada por volta de 2017, em Portugal, para permitir pagamentos em cripto com proteção do comprador. Em janeiro de 2022 foi comprada pela Elrond, hoje MultiversX, confirmou a CoinDesk; pouco depois obteve registo junto do Banco de Portugal e acabou por se transformar na xMoney, com o token UTK a migrar para a MultiversX. Um dos fundadores, Nuno Correia, andava em cripto desde 2011, muito antes de existir um número que medisse a sua quota de atenção.

Lisboa entretanto tornou-se um íman de construtores: recebe edições do ETHGlobal, semanas onchain e, em novembro, o Web Summit. Essa concentração cria uma tentação óbvia, a de confundir presença em palco com progresso técnico. A cultura portuguesa tem, aliás, uma expressão para o contrário disto: construir sem dar nas vistas. O paradoxo de 2026 é que o mercado da atenção pune exatamente essa discrição. Quem constrói em silêncio, entrega e não alimenta o marcador do mindshare tende a aparecer mal cotado num sistema que confunde ruído com valor. A reputação-cotação favorece o performativo e penaliza o discreto, e isso é uma escolha de design, não uma lei da natureza.

O eixo lusófono não se esgota em Lisboa. O Brasil, e São Paulo em particular, concentra uma das maiores bases de utilizadores de cripto do mundo de língua portuguesa, com programadores a contribuir para protocolos globais sem grande visibilidade nos rankings anglófonos de atenção. É um lembrete útil: os mapas de mindshare, alimentados sobretudo por conversa em inglês, medem mal quem constrói noutras línguas. Um número que se diz global mas que lê apenas uma parte da conversa não é uma medida neutra, é uma medida enviesada que se apresenta como objetiva.

O que a lei portuguesa vê quando a reputação vira aposta

Toda esta engenharia levanta uma pergunta que a maioria dos rankings ignora: o que é, juridicamente, uma reputação cotada? A resposta depende do andar. Uma creator coin como a $JESSE é, com grande probabilidade, um cripto-ativo na aceção do regulamento europeu MiCA, o que a coloca sob as regras de conduta da CMVM e de registo junto do Banco de Portugal, e sujeita quem a promove ao regime europeu de abuso de mercado. Emitir um token sobre o próprio nome não é, por si só, ilegal, mas também não é terreno livre.

Já uma aposta num mercado de atenção é outra coisa. O MiCA cobre cripto-ativos à vista e os prestadores de serviços; uma aposta na evolução do mindshare não é um cripto-ativo, pelo que cai fora do MiCA. Se for uma aposta pura, aproxima-se do jogo, matéria do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos; se for estruturada como um derivado, entra no âmbito da diretiva europeia dos instrumentos financeiros, a DMIF II, sob supervisão da CMVM. A fronteira é ténue e ainda está por testar em tribunal, o que deixa muito destes produtos numa zona cinzenta confortável para quem os lança e desconfortável para quem os compra.

Há ainda o pano de fundo do calendário. O período transitório para os antigos prestadores de serviços de cripto-ativos em Portugal termina a 1 de julho de 2026, ao abrigo da Lei n.º 69/2025, em vigor desde dezembro de 2025. E as regras europeias de combate ao branqueamento, com o registo de rasto das transferências e a futura autoridade europeia AMLA, tornam cada vez mais difícil montar redes de contas anónimas para inflacionar métricas de atenção sem deixar pegada. A reputação pode ser fabricada, mas fabricá-la à escala industrial começa a ter custos legais.

Como ler um perfil de builder sem comprar a cotação

Para o leitor que quer avaliar um construtor sem se deixar arrastar pela cotação, a regra é simples de enunciar e difícil de praticar: separar o que é caro de fabricar do que é barato de fabricar. Código auditado, tempo de atividade, utilizadores reais e receita são caros de simular. Um pico de seguidores, um lugar cimeiro num ranking de atenção ou uma creator coin em alta são baratos. A tabela seguinte resume o que vale a pena valorizar e o que vale a pena descontar.

Sinal a valorizarRuído a descontar
Código público e auditadoPosição num ranking de mindshare
Utilizadores e receita verificáveisPico súbito de seguidores
Histórico de entregas ao longo de ciclosPreço de uma creator coin
Continuidade após o fim dos incentivosVolume numa campanha de pontos
Terceiros independentes que confirmamElogios coordenados e threads iguais

Nenhum destes sinais é infalível, e nem toda a atenção é fabricada; por vezes um projeto é falado porque é mesmo bom. Mas a assimetria é clara. A reputação-cotação foi construída para ser rápida, líquida e vendável, e essas três qualidades são exatamente as que a tornam pouco fiável como guia de confiança. O número serve para negociar. Para decidir em quem confiar, continua a ser preciso ler para lá dele.

No fim, o mercado da reputação não é bom nem mau em abstrato; é uma ferramenta que amplifica aquilo que se lhe pede. Pedir-lhe atenção dá atenção, com todo o ruído que isso arrasta. Pedir-lhe confiança é pedir a coisa errada ao instrumento errado. O leitor que guardar esta distinção terá, sobre a maioria do mercado, uma vantagem simples mas rara: a de ver um número alto e, ainda assim, perguntar o que é que ele mede.

Perguntas frequentes

O que é o mindshare em cripto?

Mindshare é a quota de atenção de um projeto, protocolo ou pessoa: de toda a conversa sobre um tema, que fração lhe é dedicada. Plataformas como o Kaito calculam-no em tempo real a partir de publicações na X e noutras redes, e afixam-no num ranking público. É frequentemente acompanhado do sentiment, que mede o tom, positivo ou negativo, dessa conversa.

O que aconteceu ao Kaito e aos Yaps em 2026?

A 15 de janeiro de 2026, a X proibiu aplicações que pagam aos utilizadores para publicar, alegando excesso de spam e conteúdo gerado por inteligência artificial. O Kaito encerrou o seu programa Yaps e o token KAITO caiu cerca de 17% no dia. A empresa reorientou-se depois para o Katalyst, um modelo que recompensa ações mensuráveis, como cliques e registos, em vez de simples publicações.

O que são mercados de atenção e como funcionam?

São mercados de previsão, criados pela Polymarket em parceria com o Kaito a partir de fevereiro de 2026, nos quais se aposta na evolução do mindshare de um tema em vez de acontecimentos do mundo real. Um dos primeiros contratos, sobre a atenção da própria Polymarket, movimentou mais de um milhão de euros. Os bots foram, desde cedo, um problema, porque manipular a métrica passou a ter valor financeiro.

As creator coins são legais em Portugal?

Uma creator coin, um token associado ao nome de uma pessoa, é com grande probabilidade um cripto-ativo ao abrigo do MiCA, o que a sujeita às regras de conduta da CMVM e de registo no Banco de Portugal. Emiti-la não é ilegal, mas está regulada. Uma aposta num mercado de atenção é diferente: pode cair no âmbito do jogo ou dos instrumentos financeiros, consoante a estrutura.

Como avaliar um builder de cripto sem cair no hype?

Distinga o que é caro de fabricar do que é barato. Código auditado, utilizadores reais, receita e um histórico de entregas ao longo de vários ciclos são difíceis de simular. Um pico de seguidores, um bom lugar num ranking de atenção ou uma creator coin em alta são fáceis. O número de mindshare serve para negociar, não para decidir em quem confiar.

Tomás Vasconcelos escreve sobre cultura, mercados e poder na cripto para a HOGE Wire.

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