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● DeFi & On-chain

MEV às escuras: encriptar o mempool para travar o sandwich

Em 2026, a luta contra o MEV deixou de catalogar estratégias e passou a esconder o mempool. O BAM da Jito e o ePBS da Ethereum redesenham quem controla a ordem das transações.

Em abril de 2026, um dos endereços mais conhecidos da Ethereum caiu numa armadilha tão antiga como as próprias finanças descentralizadas. Vitalik Buterin, co-fundador da rede, submeteu uma troca de poucos euros numa exchange descentralizada e viu-a ser entalada pelo bot conhecido como JaredfromSubway, que cercou a operação com cerca de 1 milhão de dólares (perto de 930 mil euros) em volume para tentar lucrar com a diferença de preço, como noticiou a CoinDesk. O ataque acabou por não compensar, porque a troca era pequena de mais, mas a mensagem ficou: se nem quem desenhou a Ethereum escapa, ninguém escapa.

A cena resume a primeira década do MEV (Maximal Extractable Value), o valor que quem ordena as transações consegue extrair ao reordenar, inserir ou excluir operações dentro de um bloco. Durante anos, o setor limitou-se a catalogar as estratégias: arbitragem, liquidações, sandwich, backrunning. Em 2026, a conversa mudou de rumo. Em vez de perseguir cada bot, as maiores redes atacaram a raiz do problema: o mempool visível, a sala de espera pública onde cada transação fica exposta antes de ser confirmada. A ideia nova é fácil de enunciar e difícil de executar: esconder o mempool, encriptando as transações até ao instante em que são executadas.

Duas das maiores redes seguem o mesmo destino por caminhos diferentes. Na Solana, a Jito pôs em produção o Block Assembly Marketplace (BAM), que corre dentro de enclaves de hardware e já ordena cerca de um terço do stake da rede, segundo o relatório trimestral compilado pela Solana Compass. Na Ethereum, o próximo grande upgrade, Glamsterdam, leva a separação entre proposer e builder para dentro do protocolo, e o plano de longo prazo de Buterin aponta para mempools encriptados. Os primeiros dados sugerem que a estratégia resulta: a extração por sandwich está em queda acentuada. Este artigo explica o que mudou, quem ganha, quem perde e onde a CMVM e a MiCA entram, ou não, na equação.

A floresta escura ficou mesmo mais escura

Em 2020, os investigadores Dan Robinson e Georgios Konstantopoulos, da Paradigm, descreveram a Ethereum como uma «floresta escura»: um espaço onde qualquer transação exposta no mempool é presa fácil para predadores automatizados que a copiam, ultrapassam e exploram em milissegundos. A metáfora colou porque era literal. O mempool é público por desenho, e essa transparência, virtude para a verificação, é uma fraqueza para o utilizador comum, cuja intenção fica visível antes de ser executada.

A resposta de 2026 é quase poética: se a floresta é perigosa porque se vê tudo, apaguem-se as luzes. Encriptar o mempool significa que o predador deixa de conseguir ler a presa. Um bot de sandwich precisa de ver a ordem de compra da vítima para colocar uma ordem à frente e outra atrás; se essa ordem estiver cifrada até ao momento da execução, o ataque perde o alvo. Não é uma defesa opcional montada pelo utilizador, como um RPC privado, mas uma mudança na própria infraestrutura que produz os blocos.

A viragem é importante porque desloca o campo de batalha. Até há pouco, defender-se do MEV era responsabilidade de quem negoceia: usar um agregador, ativar proteção, encaminhar a ordem por um canal privado. A partir de 2026, a defesa passa a estar embutida na camada que constrói os blocos, o que muda quem tem poder, quem lucra e quem fica de fora. Para perceber o que a encriptação trava e o que deixa passar, convém primeiro arrumar as estratégias.

Um mapa rápido das estratégias de MEV

Nem todo o MEV é predatório. Alguns tipos são o lubrificante que mantém os preços alinhados entre plataformas; outros são um imposto silencioso cobrado ao retalho. A documentação da própria Ethereum divide o fenómeno em famílias que convém distinguir, porque a encriptação do mempool não as afeta a todas da mesma maneira.

A arbitragem entre exchanges descentralizadas corrige diferenças de preço e é, em geral, benigna: aproxima o preço de um par ao do resto do mercado. As liquidações mantêm os protocolos de crédito solventes ao fechar posições subcolateralizadas, uma função necessária que já analisámos a propósito das arquiteturas de crédito on-chain como a da Morpho e das cascatas de liquidação em derivados. O sandwich, esse, é o vilão da história: coloca uma ordem imediatamente antes da vítima para empurrar o preço, deixa a vítima executar pior e vende logo a seguir, embolsando a diferença. É o candidato número um a desaparecer com o mempool encriptado.

EstratégiaO que fazImpacto no utilizadorA encriptação trava?
Arbitragem entre DEXCompra num mercado e vende noutro mais caroNeutro; alinha preçosNão
LiquidaçõesFecha posições de crédito subcolateralizadasNecessário ao sistemaNão
SandwichCerca a ordem da vítima para piorar o preçoNegativo; imposto diretoSim; é o alvo principal
JIT liquidityInjeta e retira liquidez no mesmo blocoAmbíguoParcial
BackrunningColoca-se logo a seguir a uma transação relevanteBaixo ou neutroNão diretamente
Long-tail e cross-domainExplora eventos raros ou várias cadeias em simultâneoVariávelDepende do desenho

A distinção interessa porque a indústria não quer eliminar todo o MEV. A arbitragem e as liquidações continuam úteis, e várias das novas arquiteturas procuram redistribuir esse valor em vez de o apagar. O alvo declarado é o MEV tóxico, sobretudo o sandwich, que transfere dinheiro do utilizador para o bot sem qualquer contrapartida.

O sandwich está a definhar: o que dizem os dados

Se a tese da encriptação estivesse errada, os números não a acompanhariam. Acontece que acompanham. Dados da EigenPhi, a plataforma que rastreia extração on-chain, mostram que a receita mensal dos ataques sandwich na Ethereum caiu de perto de 10 milhões de dólares no final de 2024 para cerca de 2,5 milhões em outubro de 2025, segundo uma análise divulgada pela Cointelegraph. O lucro líquido, depois de descontar o gás, rondou os 260 mil dólares por mês em 2025, e mesmo esse valor foi inflacionado por um único ataque em janeiro que rendeu mais de 800 mil dólares.

O detalhe que torna esta queda convincente é o pano de fundo. O número de ataques manteve-se elevado, entre 60 mil e 90 mil por mês, e o volume das exchanges descentralizadas subiu de cerca de 65 mil milhões de dólares por trimestre para mais de 100 mil milhões. Por outras palavras: mais transações, mais tentativas, mas muito menos valor extraído por cada uma. A margem do sandwich está a ser espremida, não por falta de vítimas, mas porque a proteção melhorou.

IndicadorFinal de 2024Outubro de 2025
Extração mensal por sandwichCerca de 10 milhões USDCerca de 2,5 milhões USD
Ataques por mês60 mil a 90 mil60 mil a 90 mil
Volume trimestral das DEXCerca de 65 mil milhões USDMais de 100 mil milhões USD

A EigenPhi aponta uma explicação provável: mais traders estão a usar ferramentas de proteção contra o MEV. A mesma análise menciona inovações de encriptação de limiar, como as da Shutter, que cifram as transações antes de entrarem no bloco. A leitura é clara: as defesas construídas nos últimos anos, dos agregadores aos leilões de fluxo de ordens, começaram a morder. A encriptação do mempool é o passo seguinte, e mais radical, dessa mesma trajetória.

Vale a pena recordar como se chegou aqui. Antes da encriptação, a defesa contra o sandwich montou-se em três camadas: RPC privados, que retiram a transação do mempool público e a entregam diretamente a um builder; leilões de fluxo de ordens, como o MEV Blocker e o MEV-Share, que devolvem ao utilizador a maior parte do valor que um backrunner estaria disposto a pagar; e desenhos de execução em lote, como os da CoW, que liquidam várias ordens ao mesmo preço e tornam o sandwich matematicamente inútil. A encriptação, por hardware ou por limiar, é a evolução natural desta linha, porque protege por omissão, sem exigir que o utilizador saiba sequer que o perigo existe.

A ideia que muda tudo: esconder o mempool

Como se esconde um mempool sem deixar de o poder processar? Há duas escolas. A primeira é a encriptação de limiar (threshold encryption): as transações são cifradas e só um conjunto distribuído de operadores, agindo em conjunto, as consegue decifrar depois de a ordem estar fixada. A segunda, a que ganhou tração em 2026, usa Trusted Execution Environments (TEE), enclaves de hardware dentro do processador que isolam o código e os dados de toda a gente, incluindo o dono da máquina.

Num TEE, as transações entram cifradas, são ordenadas dentro do enclave e só aí são reveladas, já sem margem para as reordenar de forma hostil. O enclave produz uma prova criptográfica (uma attestation) de que executou o código prometido, para que qualquer pessoa possa confirmar que ninguém espreitou o fluxo. É a diferença entre confiar na palavra do operador e confiar na matemática do chip.

Buterin resumiu a lógica numa frase que vale por um artigo inteiro. «Se uma transação estiver encriptada até ao momento em que é incluída, ninguém tem a oportunidade de a ’embrulhar’ de forma hostil», afirmou em março de 2026, referindo-se diretamente ao sandwich, que consiste precisamente em embrulhar a ordem da vítima. A frase pesa porque vem de quem menos precisaria de defender esta solução: o mempool público foi, durante anos, um dogma da transparência da Ethereum.

A aposta da Solana: o BAM da Jito

A Solana nunca teve um mempool global como a Ethereum, mas nem por isso escapou ao MEV. Cada validador detinha autoridade total sobre a ordem das transações no seu slot, com pouca transparência sobre a forma como o bloco era montado, o que abriu espaço a mercados cinzentos e a acordos fora da cadeia. Já em 2024 a Jito tinha desligado o seu fluxo de mempool público, precisamente por alimentar ataques sandwich contra utilizadores de retalho, como noticiou a CoinDesk na altura.

O BAM, anunciado em julho de 2025 e em produção na mainnet da Solana desde setembro desse ano, é a resposta estrutural. Na descrição técnica publicada pela Helius, o sistema separa funções: os nós BAM tratam de receber, filtrar e ordenar as transações, enquanto os validadores se concentram na execução e no consenso. Tudo isto acontece dentro de TEE assentes em processadores AMD com SEV-SNP, que a Helius diz introduzirem apenas 2 a 5 por cento de sobrecarga, rápido o suficiente para o ritmo da Solana. As transações permanecem cifradas dentro do enclave até serem executadas, e cada nó emite uma attestation que prova a ordem escolhida.

A parte mais ambiciosa é o quadro de plugins, a que a Jito chama Application-Controlled Execution. Permite que um protocolo defina a sua própria lógica de ordenação no momento em que o bloco é construído: proteção nativa contra slippage, tipos de ordem programáveis ou atualizações de oráculo just-in-time, em que um feed de preços como o da Pyth é atualizado exatamente quando é preciso. Este último ponto liga-se a um problema recorrente da DeFi, o da manipulação de oráculos e do crédito malparado: controlar quando o preço entra no bloco fecha a porta a uma classe inteira de ataques.

A adoção não foi acidental. O BAM avança por fases, do arranque com nós operados pela Jito à entrada progressiva de operadores externos, e a Jito comprometeu-se a abrir o código para que a rede não dependa de um único responsável. É uma resposta direta a uma crítica óbvia: trocar a opacidade de milhares de validadores pela opacidade de um só sistema não seria progresso nenhum. A aposta é que a combinação de enclaves, attestations e plugins abertos entregue privacidade sem recriar um ponto único de controlo.

A visão de quem lidera a Jito é explícita. Lucas Bruder, co-fundador e CEO da Jito Labs, tem defendido que a construção de blocos deve ser transparente e verificável, em vez de depender da boa vontade de um único validador. Ao lançar o JTX, a camada de trading que assenta na mesma infraestrutura, resumiu a estratégia: «o JTX pega nessa mesma infraestrutura e coloca-a diretamente nas mãos dos traders», disse, citado no relatório da Solana Compass.

O paradoxo da Jito: mais rede, menos receita

Há uma ironia no centro desta história. Quanto mais eficaz é a infraestrutura a travar o MEV tóxico, menos dinheiro há para extrair, e isso vê-se nas contas de quem a opera. No segundo trimestre de 2026, o BAM chegou a 33 por cento do stake da Solana ponderado pela rede, com 378 validadores e cerca de 10,6 mil milhões de dólares (perto de 9,8 mil milhões de euros) em SOL delegado. E, no entanto, a receita de protocolo da Jito caiu 45 por cento face ao trimestre anterior, para cerca de 1,28 milhões de dólares (à volta de 1,2 milhões de euros), segundo a Solana Compass.

O chamado transaction-ordering value, o valor associado à ordenação de transações que é a matéria-prima do MEV, caiu cerca de 50 por cento, para 9,9 milhões de dólares (perto de 9,1 milhões de euros). Por outras palavras: a Jito ganhou quota e perdeu receita ao mesmo tempo. Parte disso reflete um mercado mais calmo, mas parte reflete o próprio desenho, que redistribui e reduz a extração em vez de a maximizar.

Para o utilizador, é boa notícia. Para o investidor no token, é um lembrete de que os negócios construídos sobre o MEV enfrentam um teto natural: se a promessa é proteger quem negoceia, o sucesso mede-se pela extração que desaparece, não pela que se acumula. É uma tensão que vai definir a economia da camada de ordenação nos próximos anos.

A aposta da Ethereum: ePBS, mempool encriptado e FOCIL

Do lado da Ethereum, a solução não passa (para já) por um enclave único, mas por reescrever as regras do protocolo. O próximo grande upgrade, batizado Glamsterdam e esperado para o final de 2026, traz como peça central o EIP-7732, a chamada separação imposta entre proposer e builder (ePBS), que leva para dentro do protocolo a coordenação que hoje depende de relays externos. Junta-se-lhe o EIP-7928, com listas de acesso ao nível do bloco.

Buterin foi claro sobre os limites do ePBS. «Isto garante que a centralização na construção de blocos não contamina a centralização do staking, mas deixa a pergunta: o que fazemos quanto à centralização na construção de blocos?», escreveu em março de 2026. A resposta que propõe tem duas pernas. A primeira é o FOCIL (listas de inclusão impostas pela fork-choice), que obriga os builders a incluir transações escolhidas por um comité aleatório de validadores. «Mesmo que 100 por cento da construção de blocos seja tomada por um ator hostil, não conseguem impedir que as transações sejam incluídas, porque os FOCILers empurram-nas», explicou.

A segunda perna é o mempool encriptado, o mesmo princípio que a Solana já implementou por hardware. Um pormenor de calendário mostra a prudência dos programadores: o FOCIL ficou de fora do conjunto principal de Glamsterdam, adiado para uma atualização posterior, para não juntar duas mudanças por testar na mesma rede em produção. A Ethereum quer chegar ao mesmo destino da Solana, o mempool às escuras, mas por uma estrada mais lenta e mais descentralizada.

O verdadeiro gargalo: quem constrói os blocos

Encriptar o mempool resolve o problema do utilizador, mas cria outro, mais subtil: concentra poder em quem opera a infraestrutura que faz a encriptação. Na Ethereum, a construção de blocos já é assustadoramente concentrada. Em meados de 2026, dois builders montavam a larga maioria de todos os blocos, e um pequeno grupo concentrava quase toda a produção, uma tendência que a própria Beaverbuild, o maior builder da Ethereum desde 2022, reconheceu ao anunciar que ia mudar de rumo. Quem controla essa camada controla, na prática, a ordem das transações de toda a rede.

A comparação entre as duas redes mostra que estão a resolver o mesmo problema com filosofias opostas. A Ethereum aposta em regras de protocolo e num mercado competitivo de builders; a Solana aposta em enclaves de hardware operados por nós especializados. Uma confia na teoria dos jogos e no consenso; a outra confia no silício.

DimensãoEthereum (ePBS)Solana (BAM)
Como esconde o fluxoMempool encriptado (em desenvolvimento)TEE de hardware (em produção)
Quem ordenaBuilders em concorrênciaNós BAM com plugins dos protocolos
Raiz da confiançaProtocolo e fork-choiceAttestation do enclave
Estado em 2026ePBS no Glamsterdam (final do ano)Ao vivo, cerca de 33% do stake
Anti-censuraFOCIL (adiado para depois do Glamsterdam)Depende do operador e da governação
Risco principalConcentração de buildersConfiança no fabricante do chip

A pergunta de quem controla estas camadas é, no fundo, uma pergunta de reputação e de poder, o tipo de tensão que já explorámos ao escrever sobre o builder anónimo e a reputação sem rosto na cripto. Seja um enclave de silício, seja um builder dominante, alguém decide a ordem, e essa pessoa (ou máquina) torna-se o novo ponto sensível do sistema.

BuilderNet e a promessa de «verificar, não confiar»

A resposta da Ethereum à concentração tem nome: BuilderNet. Lançada pela Flashbots, é uma rede descentralizada de construção de blocos que também usa TEE, de modo a que nenhum operador isolado veja todo o fluxo de ordens. O sinal mais forte da sua importância chegou quando a Beaverbuild anunciou que iria aposentar o seu builder centralizado para trabalhar a tempo inteiro na BuilderNet.

No anúncio publicado no blogue da BuilderNet, a equipa descreveu o objetivo como «uma nova cadeia de fornecimento de MEV que qualquer pessoa pode verificar, em vez de confiar», com a promessa de reduzir custos, melhorar a privacidade e eliminar os pontos centralizados que restam na separação entre proposer e builder. É a mesma lógica do BAM, verificar em vez de confiar, por um caminho diferente.

A ironia não escapa a ninguém: para descentralizar a construção de blocos, tanto a Ethereum como a Solana se apoiam em enclaves de hardware fabricados por um punhado de empresas. A Helius nota que já cerca de 40 por cento dos blocos da Ethereum são construídos em TEE, e que na Unichain a proporção chega aos 100 por cento. A confiança mudou de sítio, dos operadores para o silício, e essa mudança tem custos próprios.

Ganhadores e perdedores com o mempool às escuras

Quem sai a ganhar com o mempool às escuras? Primeiro, o utilizador de retalho, que deixa de pagar o imposto invisível do sandwich em cada troca. Depois, os fornecedores de liquidez das exchanges descentralizadas, que perdiam valor para arbitragistas mais rápidos e agora podem recuperar parte desse fluxo. E, por fim, os próprios protocolos, que com ferramentas como os plugins do BAM ou os hooks de ordenação passam a poder capturar e redistribuir o MEV que antes fugia para terceiros.

Do outro lado, os grandes perdedores são os searchers especializados em estratégias tóxicas. Um bot de sandwich vive de ver a ordem da vítima; sem essa visão, o negócio evapora-se, e os dados da EigenPhi já mostram margens a caminho de zero. A arbitragem pura sobrevive, mas fica mais competitiva e menos lucrativa, empurrando os operadores para nichos mais sofisticados ou para o outro lado da mesa, a construir a infraestrutura em vez de a explorar.

Há aqui um eco de Wall Street. O debate sobre quem lucra com o fluxo de ordens não é novo: no mundo tradicional, a prática de pagar pelo encaminhamento de ordens (o payment for order flow) foi proibida para o retalho na União Europeia, e o MEV é muitas vezes descrito como o seu equivalente on-chain, um tema que cruzámos ao escrever sobre o funding dos perpétuos e o juro que chegou a Wall Street. A diferença é que, na cripto, a solução não é apenas regulatória; é também de engenharia.

O novo ponto de confiança: o silício

Nem tudo são boas notícias. Um TEE só é seguro enquanto o for o hardware que o sustenta. A história recente das tecnologias de enclave, da Intel SGX à AMD SEV, está pontilhada de vulnerabilidades: ataques de canal lateral, falhas de firmware e provas de conceito que extraíram chaves supostamente seladas. Confiar a ordem das transações a um chip significa confiar no seu fabricante, na cadeia de fornecimento e na ausência de portas dos fundos.

Há também um risco de governação. Se a maior parte do stake da Solana passar por nós BAM operados por um número reduzido de entidades, ou se a construção de blocos da Ethereum se concentrar em poucos operadores de TEE, o sistema troca um problema (o sandwich) por outro (a censura ou a captura). É por isso que Buterin insiste no FOCIL como complemento: a encriptação impede que espreitem a transação, mas não garante, por si só, que ela seja incluída.

A conclusão honesta é que o mempool encriptado não elimina a confiança, apenas a desloca. Em vez de confiar que um validador não vai reordenar as suas transações, passa a confiar que um enclave faz o que promete e que quem o opera não conspira. Para muitos utilizadores, é uma troca claramente melhor. Mas é uma troca, não um passe de mágica.

O ângulo regulatório: CMVM, MiCA e os bots anónimos

Onde entra o regulador? Em Portugal, a supervisão comportamental do mercado de criptoativos cabe à CMVM, que herdou com a MiCA competências sobre o regime de abuso de mercado aplicável a criptoativos admitidos à negociação e sobre a conduta dos prestadores de serviços (os CASP). O enquadramento nacional está na Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro, que fixou o fim do período transitório para os antigos prestadores em 1 de julho de 2026 e previu coimas que, de acordo com o jornal ECO, podem chegar aos 5 milhões de euros.

O problema é que estas regras foram desenhadas para entidades identificáveis. A MiCA e a CMVM podem, em teoria, punir um CASP que faça front-running às ordens dos seus próprios clientes, tal como o direito dos mercados pune o front-running de um corretor tradicional. Mas o MEV predatório é executado, na esmagadora maioria dos casos, por bots anónimos em exchanges descentralizadas sem operador, fora do perímetro de qualquer supervisor. É o buraco no meio da rede: a lei alcança o intermediário regulado, não o algoritmo pseudónimo.

Há ainda uma dimensão prática que os supervisores europeus começam a admitir. Provar abuso de mercado on-chain exige seguir o rasto de um endereço pseudónimo, correlacioná-lo com uma entidade identificável e demonstrar intenção, um percurso quase impossível quando o operador é um contrato autónomo. Por isso, a tendência tem sido menos punir o bot e mais responsabilizar os pontos de contacto com o sistema tradicional: as exchanges licenciadas, os emitentes de stablecoins e os prestadores de custódia. O MEV vive fora desse perímetro, o que faz da defesa técnica, e não da coima, a linha da frente.

É aqui que a engenharia e a regulação se cruzam de forma curiosa. Se o direito não consegue chegar ao bot anónimo, talvez a infraestrutura consiga, ao torná-lo cego. O mempool encriptado faz, por desenho, aquilo que a supervisão não consegue fazer por decreto: retira ao predador a informação de que precisa. Para a CMVM e para as suas congéneres europeias, que têm pressionado por uma supervisão mais uniforme dos grandes CASP ao nível da ESMA, é um lembrete de que, nesta camada, o código muitas vezes anda mais depressa do que a lei.

O que esperar até 2027

O calendário dos próximos dezoito meses vai decidir se 2026 foi o ponto de viragem ou apenas mais um episódio. Do lado da Solana, a Jito prometeu abrir o código do BAM e alargar a rede de plugins, o que testará se o modelo aguenta mais operadores sem perder as garantias. Do lado da Ethereum, tudo depende de Glamsterdam entrar em produção no final de 2026 com o ePBS, e de a atualização seguinte trazer o FOCIL e, mais tarde, o mempool encriptado nativo.

Para o mercado, o pano de fundo é de alguma calma. A Ethereum negoceia perto dos 2.168 euros, com uma capitalização a rondar os 261 mil milhões de euros, segundo a CoinGecko, e a Solana perto dos 92 euros. Preços moderados significam menos frenesim especulativo e, por tabela, menos MEV fácil, o que dá tempo à infraestrutura para amadurecer antes do próximo ciclo de euforia. A grande incógnita é o que acontece quando o volume voltar.

A aposta é grande. Se o mempool encriptado se generalizar, o sandwich, que durante anos foi a forma mais lucrativa de MEV tóxico na Ethereum, pode tornar-se uma nota de rodapé histórica. Não porque alguém o proibiu, mas porque a rede deixou de lhe dar de comer. A floresta continua escura; só que, desta vez, a escuridão joga a favor da presa.

Perguntas frequentes

O que é um ataque sandwich em cripto?

É uma forma de MEV em que um bot deteta a ordem de troca de um utilizador no mempool público, coloca uma ordem imediatamente antes para empurrar o preço na direção desfavorável, deixa a vítima executar a um preço pior e vende logo a seguir, ficando com a diferença. É considerado o tipo de MEV mais tóxico porque transfere valor do utilizador para o atacante sem qualquer benefício para a rede.

O que é o BAM da Jito na Solana?

O Block Assembly Marketplace é um sistema de construção de blocos lançado pela Jito, em produção na mainnet da Solana desde setembro de 2025, que corre dentro de enclaves de hardware (TEE). As transações ficam cifradas até serem executadas, o que reduz drasticamente os ataques sandwich, e um quadro de plugins permite aos protocolos definir a sua própria lógica de ordenação. No segundo trimestre de 2026 já ordenava cerca de 33 por cento do stake da Solana.

O que é o ePBS e o upgrade Glamsterdam da Ethereum?

O ePBS (separação imposta entre proposer e builder, o EIP-7732) é a peça central do Glamsterdam, o próximo grande upgrade da Ethereum, esperado para o final de 2026. Leva para dentro do protocolo a coordenação entre quem propõe e quem constrói os blocos, que hoje depende de relays externos, para reduzir a centralização. Mecanismos complementares, como o FOCIL e o mempool encriptado, estão previstos para atualizações seguintes.

Um mempool encriptado acaba com o MEV?

Não com todo. A encriptação do mempool ataca sobretudo o MEV tóxico, como o sandwich, ao esconder as transações até à execução. A arbitragem entre plataformas e as liquidações, que são úteis ao funcionamento do mercado, continuam a existir. Além disso, a encriptação desloca a confiança para quem opera os enclaves ou constrói os blocos, pelo que não elimina o problema; transforma-o.

A CMVM regula o MEV em Portugal?

A CMVM supervisiona a conduta de mercado dos prestadores de serviços de criptoativos e o regime de abuso de mercado da MiCA, pelo que pode atuar sobre um prestador regulado que prejudique deliberadamente as ordens dos seus clientes. No entanto, a maior parte do MEV predatório é executada por bots anónimos em protocolos descentralizados sem operador, que ficam fora do perímetro de supervisão. Não existe, até agora, uma proibição específica do MEV.

Por Mariana Osório, editora de DeFi e infraestrutura on-chain da HOGE Wire.

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