Whale alerts das stablecoins: seguir a impressora, não a baleia
Em 2026, a maior baleia on-chain não move Bitcoin: cria e destrói dólares digitais. Um guia para ler mints, burns e chain swaps sem virar a liquidez de saída.
São três da manhã em Lisboa e o telemóvel acende com uma notificação seca: «1,000,000,000 USDT minted at Tether Treasury». Mil milhões de dólares em stablecoin acabaram de ser criados num único bloco. Nos grupos de Telegram, a leitura é imediata e quase sempre a mesma: dinheiro novo a entrar, a impressora a trabalhar, preparem-se para a próxima perna de subida do Bitcoin. É uma leitura compreensível. É também, na maioria dos casos, errada.
Durante anos, a imagem do «whale alert» foi uma carteira adormecida da era Satoshi a mexer-se pela primeira vez numa década, ou um bloco de Bitcoin a aterrar numa exchange. Em 2026, a baleia que mais mexe com os mercados raramente move Bitcoin: imprime dólares. O maior fluxo recorrente que passa pelos radares on-chain é a criação e a destruição de stablecoins, e é precisamente o alerta mais difícil de ler sem cometer um erro caro. Este artigo explica porquê, e como distinguir o sinal do ruído quando a baleia é uma impressora de dólares digitais.
Porque a maior baleia de 2026 imprime dólares
Uma stablecoin é uma ficha que promete valer sempre um dólar ou, menos vezes, um euro. Essa promessa só funciona se houver um emissor disposto a criar fichas novas quando a procura sobe e a destruí-las quando alguém as devolve em troca de dinheiro tradicional. Cada uma dessas operações deixa um rasto público na blockchain, e é esse rasto que os serviços de alerta captam e difundem em segundos para milhões de seguidores.
A escala tornou essa baleia incontornável. No final de outubro de 2026, o mercado de stablecoins valia cerca de 302 mil milhões de dólares (perto de 269 mil milhões de euros ao câmbio da altura), segundo o agregador DefiLlama. É mais do que a capitalização da esmagadora maioria das criptomoedas individuais e representa o encanamento por onde corre quase todo o volume on-chain: quando alguém compra Bitcoin numa exchange, o outro lado do negócio está quase sempre denominado em USDT ou USDC. Mover stablecoins é mover a própria liquidez do mercado.
A mudança não é acidental. À medida que a negociação migrou de pares com euro ou dólar para pares com stablecoin, e à medida que as finanças descentralizadas passaram a liquidar quase tudo em USDT e USDC, a stablecoin deixou de ser um mero estacionamento temporário entre negócios e tornou-se o próprio dinheiro do mercado. Observar para onde ela flui é, hoje, observar a corrente principal; o Bitcoin que muda de mãos é muitas vezes só a ondulação à superfície.
É por isso que a série da HOGE Wire sobre whale alerts já dedicou peças à baleia que acumula Bitcoin nos fundos de ciclo, à baleia dos derivados que o on-chain não vê e, há poucos dias, à constatação de que a nova baleia de Bitcoin é jovem, cara e nervosa. Faltava a baleia que quase nunca entra nessas histórias apesar de ser a maior de todas: a que fabrica e queima o dinheiro que lubrifica tudo o resto.
O mapa do mercado: USDT, USDC e o resto
Duas moedas dominam. O USDT, emitido pela Tether, valia perto de 183,5 mil milhões de dólares (cerca de 163 mil milhões de euros) em meados de outubro de 2026; o USDC, da Circle, rondava os 72,3 mil milhões de dólares (cerca de 64 mil milhões de euros). Em conjunto, as duas representavam 84,7% de todo o mercado a 17 de outubro, segundo dados compilados por analistas do setor. Tudo o resto, repartido por dezenas de fichas mais pequenas, é a cauda longa.
| Stablecoin | Emissor | Capitalização (out. 2026) | Quota de mercado |
|---|---|---|---|
| USDT | Tether | ~183,5 mil milhões USD (~163 mil milhões EUR) | ~60% |
| USDC | Circle | ~72,3 mil milhões USD (~64 mil milhões EUR) | ~24% |
| Restantes (USDS, USDe, PYUSD e outras) | Vários emissores | ~46 mil milhões USD (~41 mil milhões EUR) | ~15% |
| Total do mercado | Mercado agregado | ~302 mil milhões USD (~269 mil milhões EUR) | 100% |
A geografia técnica importa para ler os alertas. O USDT circula sobretudo em duas redes, a Tron e a Ethereum, e a Tether cria e destrói fichas em cada uma delas de forma independente. O USDC vive principalmente na Ethereum e nas suas redes de camada 2, além de outras cadeias. Quando um alerta diz «minted on Tron» ou «minted on Ethereum», está a identificar em que carril a ficha nasceu, e isso, como se verá, é meio caminho andado para perceber se aquele mint significa de facto alguma coisa.
«Authorized but not issued»: porque um mint de mil milhões não é dinheiro novo
Aqui está o erro mais comum e mais caro. Quando a Tether cria mil milhões de USDT de uma só vez, essas fichas não entram automaticamente em circulação. Ficam na carteira da própria empresa, a chamada Tether Treasury, como stock. No jargão da Tether, são fichas «authorized but not issued», autorizadas mas ainda não emitidas, e não contam para a capitalização de mercado do USDT enquanto lá permanecerem.
O presidente executivo da Tether, Paolo Ardoino, já repetiu esta explicação dezenas de vezes. Quando o serviço Whale Alert assinalou mais um mint de mil milhões de USDT, Ardoino esclareceu que o montante serviria de inventário para «pedidos de emissão futuros e chain swaps», ou seja, um reabastecimento de stock e não uma injeção de dinheiro fresco no mercado, como noticiou a Cointelegraph. Na prática, a Tether pré-fabrica fichas para as ter prontas quando um cliente institucional as pedir, tal como uma casa da moeda imprime notas que ficam no cofre até o banco central decidir pô-las a circular.
A diferença é tudo. Um mint de inventário é um sinal neutro: diz que a Tether antecipa procura, não que essa procura já se materializou. Quem lê o alerta como «mil milhões acabaram de entrar no mercado» está a inflacionar mentalmente a liquidez disponível por um valor que continua, literalmente, no armazém. E como estes mints tendem a sair em múltiplos redondos de mil milhões, são também os que geram os títulos mais alarmistas, apesar de serem, quase sempre, os mais inócuos.
Há uma forma simples de confirmar esta intuição: basta olhar para a oferta em circulação reportada logo a seguir a um grande mint. Se mil milhões tivessem mesmo entrado no mercado, a oferta em circulação subiria no mesmo montante; na maioria dos mints de inventário, não sobe, porque as fichas continuam paradas na tesouraria. O número que conta não é o do alerta, é o da oferta efetivamente emitida, e esse muda muito mais devagar do que os cabeçalhos sugerem.
Chain swaps: a mesma moeda a trocar de carril
O segundo mecanismo que engana os radares é o chain swap. O USDT existe em várias blockchains, mas é fungível entre elas: um cliente com USDT na Tron pode querer passá-lo para a Ethereum. A Tether não tem uma ponte mágica; o que faz é destruir (burn) as fichas numa rede e criar (mint) uma quantidade igual na outra. A oferta total não muda absolutamente nada.
Para quem observa os alertas, porém, isto gera dois eventos distintos: um burn de 500 milhões na Tron e um mint de 500 milhões na Ethereum, muitas vezes com poucos minutos de intervalo. Lido à letra, parece que meio mil milhão foi destruído (sinal de resgates, leitura pessimista) e que outro meio mil milhão foi criado (dinheiro novo, leitura otimista), quando na verdade não aconteceu nenhuma das duas coisas. É o equivalente financeiro a mudar de autocarro: o passageiro é o mesmo, apenas trocou de carreira a meio do percurso.
Um exemplo torna isto concreto. Imagine-se que uma mesa asiática precisa de mover liquidez da Tron, onde as comissões são baixas, para a Ethereum, onde quer operar num protocolo de rendimento. A Tether queima as fichas na Tron e cria o mesmo montante na Ethereum. Durante uns minutos, dois alertas distintos circulam nas redes sociais, um a assustar os vendedores e outro a entusiasmar os compradores, sobre uma operação que, somada, não adicionou nem retirou um único dólar ao sistema. Quem negociou com base em qualquer um deles negociou com base em nada.
A lição operacional é simples: um mint e um burn de montantes parecidos, em cadeias diferentes e com pouca distância temporal, são quase sempre um chain swap e devem cancelar-se mutuamente na sua cabeça antes de qualquer interpretação de mercado. Ignorar isto é a forma mais rápida de contar a mesma moeda duas vezes.
O dicionário do alerta de stablecoin
Vale a pena ter um dicionário à mão. A tabela seguinte traduz os eventos mais frequentes que um alerta de stablecoin reporta: o que parecem à primeira vista, o que podem realmente significar e a armadilha a evitar em cada um.
| Evento no alerta | O que parece | O que pode significar | A armadilha |
|---|---|---|---|
| Mint na Tether Treasury | «dinheiro novo» a ser criado | Reposição de inventário autorizado mas não emitido | Ainda não circula; não entra na capitalização |
| Burn na Tether Treasury | Dinheiro a ser destruído | Resgate real ou apenas um chain swap | Pode ser só rebalanceamento entre redes |
| Transferência da tesouraria para uma exchange | Emissão para um cliente | Procura de liquidez a materializar-se | Pode ser pré-financiamento de um negócio OTC, não compra à vista |
| Mint de USDC pela Circle | Igual ao USDT | Emissão contra dólares efetivamente recebidos | Reflete procura primária, mas também arbitragem de paridade |
| Reservas de stablecoin em exchanges a subir | «pólvora seca» a aumentar | Poder de compra latente a acumular-se | Pode ser colateral para derivados, não dinheiro pronto a comprar spot |
Repare-se no padrão: em todos os casos, o movimento visível é um facto, mas a intenção por detrás dele é uma inferência. O alerta mostra que algo se moveu; nunca mostra porquê. É a mesma disciplina que a nossa redação recomenda para ler transferências de Bitcoin, e aplica-se com ainda mais força às stablecoins, onde a mecânica interna do emissor acrescenta uma camada extra de ruído.
Seguir a impressora: a stablecoin como «pólvora seca»
Se um único mint diz pouco, a tendência agregada diz muito mais. A ideia é intuitiva: as stablecoins são dinheiro à espera de ser gasto. Quanto mais USDT e USDC existirem, sobretudo parados em carteiras de exchanges, maior o poder de compra latente que pode converter-se em Bitcoin ou noutro ativo numa única transação. Os analistas chamam-lhe «dry powder», pólvora seca.
Para medir isto, a métrica mais citada é o Stablecoin Supply Ratio (SSR), a capitalização do Bitcoin dividida pela oferta total de stablecoins. Um SSR baixo significa que há muita stablecoin relativamente ao tamanho do Bitcoin, ou seja, muita pólvora seca por cada euro de Bitcoin; historicamente, segundo a CryptoQuant, as leituras extremas desta família de indicadores coincidiram com boas zonas de compra. É a tradução on-chain da velha tese de que é a liquidez, e não a escassez, que comanda o preço.
O complemento do SSR são as reservas de stablecoins nas exchanges. Reservas a subir sugerem poder de compra a juntar-se junto ao balcão; reservas a cair sugerem o contrário. Em 2026, porém, o próprio indicador ficou mais ruidoso: as reservas de stablecoins em exchanges recuaram para cerca de 61,8 mil milhões de dólares (perto de 55 mil milhões de euros), bem abaixo do pico de mais de 75 mil milhões de dólares do final de 2025, à medida que cada vez mais liquidez migra para carteiras de custódia, cofres de protocolos e contas fora das exchanges tradicionais. A pólvora não desapareceu; mudou apenas de paiol, e isso baralha quem só olha para o balcão.
Convém ainda lembrar que nem toda a oferta de stablecoin é poder de compra para cripto. Uma parte crescente serve pagamentos, remessas e poupança em dólares em economias de moeda fraca, usos que nada têm a ver com comprar Bitcoin. Um SSR em queda pode, portanto, refletir a adoção da stablecoin como meio de pagamento, e não munição à espera de ser disparada no mercado. O indicador continua útil, mas exige contexto, nunca leitura mecânica.
A liquidez que entra não é a procura que fica
Aqui está a nuance que separa o observador disciplinado do resto. O crescimento da oferta de uma stablecoin pode refletir procura orgânica, gente a trocar dólares por USDC para comprar cripto, mas pode igualmente refletir fenómenos que nada têm a ver com apetite por risco: uma mesa de arbitragem a cobrir uma diferença de preço entre mercados, um protocolo de rendimento a encher os cofres, ou uma tesouraria empresarial a estacionar caixa em stablecoin em vez de a deixar num banco.
Este último caso tornou-se comum. Projetos com receitas reais passaram a guardar reservas em stablecoin e a usá-las de forma ativa; a máquina de recompra por detrás do token HYPE, por exemplo, trocou o combustível para uma reserva em USDC em 2026. Quando uma tesouraria destas movimenta dezenas de milhões em stablecoin, o alerta dispara como se fosse procura de mercado, quando é apenas gestão de balanço. A oferta subiu; a procura marginal por Bitcoin não mudou coisa nenhuma.
A conclusão prática é incómoda para quem gosta de sinais simples: o crescimento da oferta de stablecoins é condição necessária mas não suficiente para uma subida. Mostra que a pólvora existe; não diz se alguém vai acender o rastilho, nem quando. Tratar o aumento da oferta como garantia de alta é confundir a bala com o disparo.
Os bancos centrais privados do outro lado do alerta
Quem está, afinal, a carregar no botão da impressora? Do outro lado de cada alerta de mint ou burn está um emissor que funciona, na prática, como um banco central privado de um dólar sintético. A Tether e a Circle criam fichas quando recebem dólares e destroem-nas quando os devolvem, mantendo reservas que, afirmam, cobrem cada ficha em circulação. As atestações trimestrais da Tether descrevem uma carteira dominada por dívida pública de curto prazo dos Estados Unidos, o que coloca a empresa entre os maiores compradores mundiais de Treasury bills, ao lado de alguns Estados soberanos.
Esta transparência radical, com cada transação visível para qualquer pessoa, é o produto que deu origem à própria indústria dos alertas. Frank van Weert, cofundador do Whale Alert, resumiu a missão do serviço ao apresentar a sua plataforma: a ferramenta «democratiza o ecossistema ao dar acesso fácil a dados que normalmente só estavam disponíveis para profissionais», declarou em comunicado. O reverso dessa democratização é o excesso de informação: tornar cada mint visível não torna cada mint significativo, e a maior parte do trabalho do leitor é, por isso, filtrar.
Nem todos os emissores se expõem ao mesmo escrutínio. A Tether publica atestações, mas resistiu durante anos a uma auditoria completa, enquanto a Circle optou por um grau de abertura mais próximo do de uma instituição financeira tradicional. Para quem lê alertas, esta diferença importa: um mint de uma entidade cujas reservas são verificadas com regularidade carrega menos risco de cauda do que um mint de uma entidade cuja solidez depende, no limite, da confiança. A impressora só é tão credível quanto o cofre que diz ter por trás.
A impressora cotada em bolsa: o caso Circle
Nem todas as impressoras se deixam auditar da mesma maneira. A Circle, emissora do USDC, deu um passo que a distingue: entrou em bolsa. A empresa estreou-se na Bolsa de Nova Iorque a 5 de junho de 2025, sob o símbolo CRCL, com as ações a dispararem mais de 160% no primeiro dia de negociação, segundo a CoinDesk. Ser uma empresa cotada implica reporte regular ao regulador dos mercados norte-americano, demonstrações financeiras auditadas e atestações mensais das reservas do USDC.
Para o observador de baleias, isto abre uma segunda janela. Além do alerta on-chain em tempo real, passa a ser possível cruzar os mints de USDC com aquilo que a Circle reporta formalmente, tal como o investidor em fundos cotados aprendeu a olhar para os fluxos e para os custos reais por detrás do produto, e não apenas para o preço no ecrã, como a nossa redação explorou ao dissecar o custo real dos ETF de cripto. A vigilância de baleias, nesta leitura, está a convergir com a análise financeira clássica: a transparência deixou de ser só um endereço público e passou a incluir um balanço trimestral assinado.
USDT fora da Europa: o que o MiCA mudou
Para o leitor português há um detalhe que muda a forma como estes alertas se traduzem na prática. Desde que o período de transição do regulamento europeu MiCA terminou, a 1 de julho de 2026, o USDT deixou de estar disponível nas exchanges reguladas da União Europeia. A Tether optou por não pedir autorização ao abrigo das regras dos «e-money tokens» (EMT), e as plataformas europeias retiraram o par: a Coinbase Europa fê-lo logo em dezembro de 2024 e as restantes seguiram-se ao longo de 2025 e 2026, como documentou a crypto.news.
O motivo invocado por Ardoino foi a exigência do MiCA de manter uma fatia elevada das reservas em depósitos em bancos europeus, algo que, argumentou, exporia o USDT ao risco de falência bancária. A Circle seguiu o caminho oposto: obteve uma licença de instituição de moeda eletrónica em França, passável para todos os 27 Estados-membros, e tanto o USDC como o euro-stablecoin EURC passaram a ser as fichas de referência conformes com o MiCA nas plataformas europeias, como resume a análise da Scorechain ao regime.
O resultado é que o mesmo tipo de alerta tem implicações diferentes consoante a ficha. Um europeu que veja um mint de USDT está a observar liquidez que, em larga medida, vive agora fora do seu próprio mercado regulado, enquanto um mint de USDC descreve dinheiro que pode legalmente aterrar na exchange onde ele próprio opera. A distinção deixou de ser apenas técnica e passou a ser regulatória.
Banco de Portugal, CMVM e o alerta que cruza fronteiras
A arquitetura de supervisão portuguesa espelha esta lógica. A Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro, que adaptou o país ao MiCA, repartiu as competências: cabe ao Banco de Portugal a supervisão dos «e-money tokens» e dos «asset-referenced tokens», ou seja, precisamente das stablecoins, bem como os requisitos prudenciais dos prestadores de serviços; à CMVM cabe a conduta de mercado, as ofertas públicas e a prevenção do abuso de mercado. Por outras palavras, a baleia de stablecoins cai, em primeira linha, no perímetro do banco central, e não do regulador bolsista.
Observar estes movimentos é perfeitamente legal; agir sobre informação privilegiada não é. O regime de abuso de mercado do MiCA aplica-se a todas as transações de criptoativos, dentro e fora das plataformas, e a CMVM é a autoridade competente para o fazer cumprir em Portugal. Do outro lado do Atlântico, o enquadramento passou a ser a lei federal GENIUS Act, promulgada a 18 de julho de 2025, o primeiro quadro federal abrangente para stablecoins nos Estados Unidos, segundo o serviço de estudos do Congresso norte-americano. Como o USDT não cumpre os requisitos para ser emitido nos EUA, a própria Tether lançou entretanto uma ficha separada e conforme, o USAT, emitida por um banco regulado norte-americano, para operar dentro dessas regras.
Como ler um alerta de stablecoin sem ser a liquidez de saída
Juntando tudo, eis um método disciplinado para processar um alerta de stablecoin em vez de reagir a quente ao primeiro número grande que aparece no ecrã.
- Identifique a ficha e a cadeia: USDT ou USDC, Tron ou Ethereum. A mesma mensagem tem pesos diferentes consoante a resposta.
- Pergunte se é um mint de inventário: um valor redondo, em múltiplos de mil milhões, a aterrar na Tether Treasury é quase sempre stock, não emissão.
- Procure o par: um burn numa cadeia e um mint equivalente noutra, com pouco intervalo, é um chain swap; cancele os dois.
- Siga o destino: só quando as fichas saem da tesouraria do emissor para uma exchange ou para a carteira de um cliente é que há procura a materializar-se.
- Suba para o agregado: confirme no SSR e nas reservas em exchanges se a tendência de fundo corrobora ou contradiz o evento isolado.
- Separe gestão de balanço de apetite por risco: tesourarias e mesas de arbitragem movem stablecoins por razões que nada têm a ver com comprar Bitcoin.
- Nunca negoceie só com o alerta: trate-o como uma pergunta a investigar, nunca como uma ordem de compra ou de venda.
E, para saber onde procurar cada peça desta informação, a tabela seguinte reúne as fontes mais úteis e aquilo que cada uma acrescenta à leitura.
| Fonte | O que mostra | Melhor para |
|---|---|---|
| Whale Alert | Mints, burns e grandes transferências em tempo real | Apanhar o evento no momento em que acontece |
| Arkham e Nansen | Atribuição de carteiras e etiquetas de «smart money» | Saber quem está por trás do endereço |
| DefiLlama | Oferta total e por cadeia de cada stablecoin | Ver a tendência agregada, não o evento isolado |
| CryptoQuant e Glassnode | SSR, reservas em exchanges e fluxos de entrada e saída | Medir a «pólvora seca» e o seu destino |
| Atestações do emissor (Tether, Circle) | Composição das reservas que dão lastro às fichas | Confirmar se o dinheiro por trás existe mesmo |
Nenhuma destas fontes é, por si só, um sinal de compra ou de venda. O valor está em sobrepô-las: o alerta dá o quê e o quando, a atribuição dá o quem, o agregado dá o contexto e a atestação dá a credibilidade. Um observador que use só a primeira camada está a ver apenas a ponta do icebergue, e quase sempre a reagir tarde.
Os erros que o retalho comete
Os enganos repetem-se com uma regularidade quase cómica. Vale a pena nomeá-los para os reconhecer no próprio reflexo antes de carregar no botão de comprar.
- Ler um mint de inventário como dinheiro novo a entrar no mercado.
- Contar duas vezes um chain swap, somando o mint e esquecendo o burn que lhe corresponde.
- Confundir uma transferência para uma exchange com uma venda garantida, quando pode ser colateral ou a entrega de um negócio já fechado.
- Assumir que mais oferta de stablecoin equivale a uma subida imediata do preço.
- Ignorar a ficha e a jurisdição: um alerta de USDT, hoje fora do mercado europeu regulado, não tem o mesmo significado prático que um de USDC para quem investe a partir de Portugal.
- Confiar num único alerta em vez de cruzar o evento com a tendência agregada e com a atribuição da carteira.
- Reagir à velocidade do bot e tornar-se, sem dar por isso, a liquidez de saída de quem agiu primeiro.
O que vigiar a seguir
O pano de fundo é de crescimento. Depois de um máximo histórico acima dos 320 mil milhões de dólares atingido na primavera de 2026 e de uma correção para perto dos atuais 302 mil milhões, o mercado de stablecoins é projetado por várias análises do setor para se aproximar dos 420 mil milhões de dólares (cerca de 374 mil milhões de euros) até ao final do ano, segundo a Spark. Se a projeção se confirmar, a frequência e a dimensão dos alertas de mint só vão aumentar, e com elas o ruído que é preciso filtrar.
Três fios valem a atenção. O primeiro é a liquidez macro: o apetite por stablecoins anda de mãos dadas com o custo do dinheiro, e o calendário monetário entre a pausa e o eventual aperto de dezembro, que a nossa redação analisou no balanço de um outubro que deu e tirou, condiciona quanto dessa pólvora seca chega efetivamente a ser gasto. O segundo é a fragmentação regulatória, com fichas diferentes para jurisdições diferentes (USAT para os Estados Unidos, USDC e EURC para a Europa), que torna o mapa de quem pode deter o quê cada vez mais intrincado.
O terceiro, e o mais importante de todos, é o risco que nenhum alerta de mint sinaliza a tempo: a perda da paridade. Uma stablecoin só vale a sua promessa enquanto o mercado acreditar nas reservas; quando essa fé quebra, nenhum número de fichas criadas segura o preço, e o episódio transforma-se depressa no tipo de crise que só se compreende na autópsia. Observar a impressora é útil; confiar cegamente nela é outra história. O alerta diz-lhe que a baleia se mexeu. O que isso vale continua a ser trabalho seu.
Perguntas frequentes
O que significa quando o Whale Alert diz que foram «mintados» mil milhões de USDT?
Significa que a Tether criou essas fichas e as colocou na sua própria carteira, a Tether Treasury, como inventário «autorizado mas não emitido». Não entram em circulação nem na capitalização de mercado enquanto lá ficarem, por isso um mint de inventário não é, por si só, dinheiro novo a entrar no mercado.
Um aumento da oferta de stablecoins faz o Bitcoin subir?
Não de forma automática. Mais stablecoins significam mais poder de compra potencial, a chamada «pólvora seca», medida por indicadores como o Stablecoin Supply Ratio, mas essa pólvora só move o preço se for efetivamente gasta. O crescimento da oferta é condição necessária, não suficiente, para uma subida.
Porque é que o USDT desapareceu das exchanges europeias?
Porque o regulamento MiCA passou a exigir autorização como «e-money token» e a Tether optou por não a pedir. Desde 1 de julho de 2026, as plataformas reguladas na União Europeia retiraram o USDT; o USDC, da Circle, obteve licença europeia e é hoje a stablecoin de dólar de referência conforme com o MiCA.
Qual é a diferença entre um mint e um chain swap?
Um mint cria fichas novas; um chain swap apenas transfere fichas existentes de uma blockchain para outra, destruindo-as numa rede e recriando-as noutra em igual quantidade. No chain swap a oferta total não muda, embora os alertas mostrem um burn e um mint separados que parecem movimentos independentes.
Quem supervisiona as stablecoins em Portugal?
Ao abrigo da Lei n.º 69/2025, o Banco de Portugal supervisiona os «e-money tokens» e os «asset-referenced tokens», ou seja, as stablecoins, enquanto a CMVM trata da conduta de mercado e da prevenção do abuso de mercado. Observar alertas de baleias é legal; negociar com base em informação privilegiada não é.
Por Liam Brennan, editor de mercados da HOGE Wire.