Compressão das taxas L2: o guia de decisão até 2028
A direção da compressão das taxas nas L2 já está definida pelos dados. Falta responder ao que interessa: o que deve fazer cada perfil, de utilizadores a tesourarias, a partir de agora.
A pergunta mudou: já não é quanto, é o que fazer
Ao longo dos últimos dois anos, a pergunta «até onde podem cair as taxas das L2» foi respondida vezes suficientes, com modelos, cenários e projeções diferentes, para que a direção da resposta deixe de ser motivo de dúvida séria. Entre o primeiro trimestre de 2024 e o primeiro trimestre de 2026, a taxa mediana de transação nas três maiores L2 da Ethereum (Arbitrum, Base e Optimism) caiu 99,16%, de 0,180219 dólares para 0,001512 dólares, segundo dados da Token Terminal. Ao câmbio atual, isso equivale a uma queda de cerca de 0,158 euros para pouco mais de 0,0013 euros por transação simples.
O que resta em aberto não é se a compressão continua (continua, e a maioria dos modelos publicados nos últimos meses aponta para o mesmo intervalo de valores), mas o que essa compressão implica para quem efetivamente usa, constrói, negoceia ou detém posições ligadas a este ecossistema. Uma taxa de transação que se aproxima de zero não é uma boa notícia da mesma forma, ou na mesma medida, para um utilizador de retalho em Lisboa a enviar stablecoins, para uma tesouraria de DAO que gere milhões em ARB, ou para uma corretora registada junto da CMVM. Para uns é uma vitória. Para outros, um problema de modelo de negócio. Isto importa mesmo para quem não negoceia ativamente: cada vez mais aplicações do dia a dia, de jogos on-chain a subscrições pagas em stablecoin, dependem de custos de transação previsíveis e baixos para funcionarem; a compressão de taxas é, para estes casos de uso, uma condição de viabilidade, não apenas uma vantagem competitiva marginal.
Este artigo parte da previsão (a direção está, no essencial, estabelecida) e avança para a parte mais difícil: traduzir essa previsão em decisões concretas, por perfil de interveniente, com base nos dados mais recentes sobre a Fusaka, o piso técnico imposto pela EIP-7918, e a forma como diferentes L2 estão a responder à erosão das suas margens por transação.
As secções seguintes seguem esta lógica: primeiro, uma atualização rápida dos dados e do calendário técnico que sustentam a previsão; depois, os riscos que os modelos mais otimistas tendem a subestimar; e, por fim, uma análise segmentada por seis perfis de interveniente, seguida de dois casos de estudo (a Base e o trio Arbitrum, Optimism e zkSync) que ilustram como a mesma tendência macro está a produzir respostas estratégicas muito diferentes consoante quem a está a viver.
Onde está o consenso: o retrato dos dados em meados de 2026
Antes de segmentar por perfil, vale a pena fixar os números que já reúnem razoável consenso entre diferentes fontes. O valor total bloqueado (TVL) no conjunto das L2 da Ethereum ronda os 45 mil milhões de dólares, com as três maiores redes, Base, Arbitrum e uma ZKSync em recuperação, a concentrarem cerca de 80% desse total e uma fatia semelhante da receita de sequenciador gerada em toda a categoria, segundo a Yellow.com. Esta concentração é, em si, um dado relevante para qualquer previsão: quando se fala em compressão das taxas nas L2, está a falar-se, na prática, sobretudo de um punhado de redes.
| L2 | Taxa mediana (USD) | Equivalente em EUR |
|---|---|---|
| Base | 0,02 dólares | 0,017 euros |
| Optimism | 0,03 dólares | 0,026 euros |
| Arbitrum One | 0,04 dólares | 0,035 euros |
| Linea | 0,04 dólares | 0,035 euros |
| zkSync Era | 0,05 dólares | 0,044 euros |
| Scroll | 0,06 dólares | 0,052 euros |
Fonte: dados agregados de L2BEAT e Token Terminal, primeiro semestre de 2026, convertidos ao câmbio EUR/USD aproximado de 1,144. Valores medianos para uma transferência simples; taxas de swaps ou interações com contratos inteligentes são tipicamente mais elevadas.
Os valores da tabela variam com a congestão momentânea de cada rede e não devem ser lidos como uma garantia futura; para o detalhe do modelo quantitativo por trás de projeções deste tipo, incluindo os pressupostos de crescimento de utilização, vale a pena revisitar a análise publicada em «Quanto vão custar as L2 em 2027? Dentro do modelo de previsão». O que importa reter aqui é a ordem de grandeza: fala-se de frações de cêntimo, não de cêntimos inteiros, para a generalidade das operações simples nas L2 líderes.
Um estudo académico recente da autoria de Meghan Ambrosia e Bruce Mizrach, intitulado «Transaction Costs and Speed in the Ethereum Ecosystem», analisou a evolução das taxas entre janeiro de 2024 e março de 2026 e projeta que as taxas medianas das L2 líderes fiquem abaixo das praticadas na Solana já a partir de outubro de 2026, mantendo-se a trajetória atual de expansão de blobs. Os mesmos autores documentam uma queda superior a 95% nas taxas medianas das L2 no período estudado, e uma queda das taxas na própria mainnet da Ethereum de valores acima de 2 dólares para menos de 0,02 dólares. Se esta projeção se confirmar, deixa de fazer sentido tratar «L2 da Ethereum» e «cadeias de alto desempenho» como categorias de custo distintas; a diferenciação terá de vir de outro lado, seja a segurança herdada da L1, seja a composabilidade com o resto do ecossistema Ethereum.
O calendário que falta: Fusaka, BPO3, BPO4 e o horizonte de 2029
A compressão observada até aqui não é um ponto de chegada, é o resultado de uma sequência de atualizações técnicas que continua em curso. A Fusaka entrou em atividade a 3 de dezembro de 2025, trazendo o EIP-7594 (PeerDAS), uma técnica de amostragem de disponibilidade de dados que permite à rede verificar blobs sem que cada nó tenha de os descarregar na íntegra, segundo o anúncio oficial da Ethereum Foundation. Seguiram-se dois BPO (Blob Parameter Only, atualizações que alteram apenas parâmetros de blobs sem exigir um hard fork completo): o primeiro a 9 de dezembro de 2025, elevando a meta de 6 para 10 blobs por bloco, com um máximo de 15; o segundo a 7 de janeiro de 2026, elevando a meta para 14 blobs, com um máximo de 21.
Um terceiro e um quarto BPO estão previstos, com um objetivo aspiracional de 128 blobs por bloco discutido entre investigadores do núcleo de desenvolvimento da Ethereum, mas sem data marcada: os programadores preferiram esperar pela telemetria dos dois primeiros antes de comprometerem novos parâmetros. Este é, na prática, o principal risco de calendário para qualquer previsão de compressão: não é um risco de direção, é um risco de velocidade.
Outra peça técnica a vigiar é o EIP-7938, proposto pelo investigador Dankrad Feist, que prevê aumentos exponenciais do limite de gas por bloco, na ordem de 10 vezes em dois anos, com um objetivo mais ambicioso de 100 vezes em quatro anos, sujeitos a votação dos clientes que correm os nós da rede. A proposta ainda não foi ativada e divide opiniões dentro da comunidade de desenvolvimento, mas é relevante por uma razão indireta: o piso da EIP-7918 está ancorado ao custo de execução da L1, pelo que qualquer aumento sustentado do limite de gas, que tende a baixar esse custo por transação, desloca esse piso para baixo também. As duas propostas, aparentemente distintas, estão tecnicamente ligadas.
Mais relevante para o horizonte 2027 a 2029 é o roteiro «Lean Ethereum», apresentado por Vitalik Buterin a 4 de julho de 2026 e descrito como um plano de reformulação de três a quatro anos que toca, nas suas próprias palavras citadas pelo The Defiant, «quase todas as peças importantes do protocolo». Buterin compara a magnitude da mudança à do Merge, chamando-lhe «a terceira grande iteração da Ethereum, da mesma forma que o Merge foi a segunda». Entre as propostas concretas está um redesenho do armazenamento de tokens ERC-20 num modelo semelhante ao UTXO do Bitcoin, que Buterin estima poder «cortar as suas taxas de transação em mais de 10 vezes». O documento aponta para aumentos sucessivos do limite de gas, do número de blobs, e para reduções no tempo de slot, ao longo dos «próximos cinco anos, grosso modo».
Para as L2, este roteiro é ambíguo: se a camada base ficar significativamente mais barata e mais rápida por si só, parte da razão de existir de algumas L2, nomeadamente as que competem apenas em custo, fica mais frágil, um ponto que retomamos na secção sobre riscos de cauda.
O piso da EIP-7918: porque taxa não é sinónimo de zero
Um erro comum nas conversas sobre taxas das L2 a caminho de zero é ignorar que o próprio protocolo da Ethereum introduziu, com a Fusaka, um mecanismo que impede exatamente isso. O EIP-7918 fixa um piso para a taxa base dos blobs, ancorado ao custo de execução da camada 1: quando o preço de mercado dos blobs cai muito abaixo desse piso, a fórmula do protocolo passa a usar o custo de execução da L1 como referência, numa proporção de um dezasseis avos. Na prática, a taxa base dos blobs não pode cair de forma permanente para valores residuais só porque a procura por espaço de blob diminui; está amarrada, por construção, ao custo de processar transações na própria L1.
O efeito fez-se sentir imediatamente após a ativação da regra: o analista 0xkydo documentou que a taxa base dos blobs, que tinha passado longos períodos junto de 0,000000001 Gwei antes da EIP-7918, disparou cerca de 15 milhões de vezes assim que o piso entrou em vigor, um salto que ilustra bem a diferença entre preço de mercado e preço mínimo imposto por protocolo. Para uma análise mais detalhada dos três cenários técnicos possíveis a partir deste piso, ver «O piso técnico das taxas L2: três cenários até 2027».
A consequência para este artigo é simples: a partir de determinado ponto, que vários modelos, incluindo o da Token Terminal citado acima, sugerem estar próximo, a compressão adicional deixa de vir de mais capacidade de blob e passa a depender de outras alavancas, como eficiência de execução, compressão de dados fora da cadeia e margem do sequenciador. É exatamente aí que a previsão cede lugar à decisão: quem depende dessa margem final tem de decidir agora como vai compensar a sua perda.
O que ainda não está a ser precificado: os riscos de cauda
Nem tudo o que pode mover as taxas das L2 nos próximos dois anos está a ser tratado com o mesmo peso nas previsões atuais. Três riscos de cauda merecem mais atenção do que costumam receber.
O primeiro é a concorrência de camadas de disponibilidade de dados alternativas à Ethereum, como a Celestia ou a EigenDA, cujo custo por megabyte pode ficar uma ordem de grandeza abaixo do praticado nos blobs da Ethereum. Se mais L2 optarem por publicar dados fora da Ethereum para escapar ao piso da EIP-7918, o efeito sobre as taxas finais ao utilizador pode ser mais rápido do que os modelos baseados apenas no roteiro de blobs da própria Ethereum preveem, ainda que à custa de menor garantia de segurança herdada da L1.
O segundo é precisamente o roteiro Lean Ethereum referido acima: se a camada base atingir, dentro do horizonte de três a quatro anos que Buterin descreveu, custos de execução drasticamente mais baixos por si própria, a proposta de valor de uma L2 cuja única vantagem competitiva é ser mais barata do que a L1 esvazia-se. Nesse cenário, a compressão de taxas deixa de ser uma vitória para o ecossistema L2 como um todo e passa a ser, para algumas redes, uma ameaça existencial.
O terceiro é a concentração que já se observa hoje. Segundo a mesma análise da Yellow.com, várias L2 com valor total bloqueado entre 200 milhões e mil milhões de dólares registaram saídas líquidas de capital no primeiro trimestre de 2026, coincidindo com o fim dos respetivos programas de incentivos à liquidez, o chamado «grants cliff». O mesmo relatório nota que redes com menos de 50 programadores mensais ativos tendem a ver esse número cair ano após ano, segundo dados da Electric Capital, enquanto o número de rollups específicos de aplicação, construídos sobre OP Stack ou Arbitrum Orbit, já ultrapassa uma centena, contra menos de dez L2 de uso geral com TVL acima de mil milhões de dólares. Traduzindo: a compressão de taxas está a coincidir com uma seleção natural de redes, e nem todas as L2 hoje ativas vão continuar a existir em 2028, independentemente do nível exato a que as taxas estabilizarem.
Quem usa: retalho, remessas e o ângulo português
Para quem usa L2 para pagamentos correntes ou remessas, seja entre Portugal e outros países da União Europeia, seja com a diáspora lusófona, a compressão de taxas é uma boa notícia quase sem reservas. Enviar o equivalente a poucos cêntimos de euro em taxa de rede, em vez de vários euros, muda de facto a viabilidade de usar stablecoins para transferências de valores pequenos e médios, um caso de uso que taxas de vários dólares tornavam impraticável até há poucos anos.
Este ganho, porém, chega num momento em que o enquadramento regulatório português mudou de forma material. O regime transitório do MiCA para os prestadores de serviços de criptoativos, os CASP, portugueses terminou a 1 de julho de 2026, o que significa que, a partir dessa data, qualquer plataforma que sirva utilizadores em Portugal necessita de autorização plena ao abrigo da Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, que reparte a supervisão entre a CMVM, competente pelas matérias de conduta de mercado e negociação, e o Banco de Portugal, responsável pela supervisão prudencial e pelos regimes de tokens referenciados a ativos e de moeda eletrónica. As coimas previstas variam entre 25 mil e 5 milhões de euros, ou até 15% do volume de negócios, consoante a infração.
Para o utilizador final, isto significa que a taxa de rede quase nula não é o único custo a considerar: a comissão cobrada pela plataforma, seja exchange, carteira custodiante ou processador de pagamentos, continua a ser definida por um modelo de negócio que agora tem de absorver custos de conformidade mais elevados, precisamente quando a receita por transação de rede desce para valores residuais. Não é garantido que a poupança na taxa de rede se traduza integralmente numa poupança equivalente para o utilizador final; depende de quanto dessa margem as plataformas registadas junto da CMVM decidirem repassar, e quanto vão reter para financiar a conformidade regulatória.
Quem constrói: protocolos DeFi e negócios nativos de L2
Para os protocolos que constroem sobre as L2, a compressão de taxas de rede é largamente irrelevante para o seu próprio modelo de receita, que normalmente cobra comissões de protocolo e não taxas de rede, mas afeta indiretamente o volume e o tipo de atividade que se torna viável na cadeia. Comissões de swap mais baratas atraem mais transações de menor valor, o que favorece protocolos cuja receita escala com o número de operações, mas pressiona os que dependiam de poucas transações de valor elevado.
A Arbitrum continua a ser o exemplo mais citado de um ecossistema DeFi maduro a beneficiar desta dinâmica: a GMX, uma corretora descentralizada de perpétuos sediada na rede, gerou sozinha mais de 180 milhões de dólares em receita de protocolo anualizada, segundo a Yellow.com, uma cifra que ajuda a explicar porque é que o TVL de DeFi na Arbitrum mantém uma vantagem de 1,3 a 1,5 vezes sobre a concorrente mais próxima. Outro sinal a observar é o crescimento de produtos de rendimento sobre stablecoins nas L2 da Ethereum, que já ultrapassava 8 mil milhões de dólares em TVL em maio de 2026: um volume de atividade cuja rentabilidade não depende do nível da taxa de rede, mas sim de taxas de juro e do enquadramento regulatório aplicável a estes produtos.
A lição para quem constrói é relativamente direta: quanto mais a receita de um protocolo depender apenas de comissões de swap ou de transação, mais exposta fica à concorrência de outros protocolos numa L2 onde o custo de mudar de plataforma, e não o custo de rede, é o que resta como fator diferenciador. A diversificação para produtos de rendimento, ativos do mundo real tokenizados ou serviços institucionais deixa de ser uma opção de crescimento e passa a ser, para muitos, uma condição de sobrevivência.
Quem detém o token: tesourarias, DAOs e o problema da acumulação de valor
É neste ponto que a compressão de taxas se transforma num problema estrutural, não apenas operacional. A Arbitrum, cujo protocolo é hoje operacionalmente rentável (a receita de sequenciador, entre 35 e 45 milhões de dólares no primeiro semestre de 2026, supera os custos diretos de operação e de publicação de dados na maior parte dos períodos medidos), não distribui essa margem aos detentores do token ARB, segundo a análise da VaaSBlock. A DAO gere uma tesouraria estimada entre 3 e 4 mil milhões de dólares em tokens ARB, consoante o nível de preço considerado, mas tem gasto esse capital em subvenções e desenvolvimento do ecossistema a um ritmo que já gerou críticas de parte dos detentores do token, precisamente porque a despesa de governação não está diretamente ancorada à receita real do protocolo.
Um sinal de mudança surgiu em julho de 2026 com o lançamento da Robinhood Chain, construída sobre a stack tecnológica da Arbitrum e ativa desde 1 de julho: 10% da receita líquida gerada por esta e por outras chains Orbit revertem para o ecossistema Arbitrum, divididos entre 8% para a tesouraria da DAO e 2% para o financiamento de desenvolvimento através do Arbitrum Developer Guild, segundo a crypto.news. Steven Goldfeder, cofundador da Offchain Labs, a empresa por trás da Arbitrum, resumiu a lógica desta aposta: «à medida que a adoção empresarial acelera, a Arbitrum está pronta para capturar receita».
A Base ilustra o extremo oposto: não tem token próprio, pelo que toda a receita de sequenciador, entre 60 e 70 milhões de dólares no mesmo período, reverte diretamente para a Coinbase, que a descreve nos seus relatórios à SEC como uma nova fonte de receita. Não há, neste caso, um ativo negociável publicamente que capture essa margem para além das próprias ações da Coinbase.
Para quem detém ou pondera deter tokens de L2, a implicação prática é que, na ausência de mecanismos formais de partilha de receita, o token continua a representar sobretudo um direito de governação, não um direito a um fluxo de caixa crescente. Para uma discussão mais ampla sobre como tesourarias corporativas estão a gerir este tipo de exposição, ver «Tesourarias cripto corporativas: o guia completo de 2026».
Quem negoceia: market makers, arbitragistas e a margem que desaparece
Para quem faz mercado ou arbitragem entre L2 e exchanges centralizadas, a compressão de taxas de rede corta em ambos os sentidos. Por um lado, reduz drasticamente o custo de ajustar posições com frequência, o que torna viáveis estratégias antes inviáveis por causa do custo de execução, como o rebalanceamento fino de posições delta-neutras ou operações de arbitragem entre o preço à vista e os futuros. Por outro lado, à medida que mais participantes têm acesso ao mesmo custo de execução quase nulo, a vantagem competitiva de quem opera on-chain deixa de vir do acesso a taxas mais baratas e passa a depender inteiramente de velocidade, acesso a liquidez e qualidade de execução.
Isto é particularmente visível nas operações de basis trade, a captura do diferencial entre o preço à vista e o preço dos futuros, onde o custo de rede deixou de ser um fator relevante no cálculo de rentabilidade, ao contrário do que acontecia quando as taxas nas L2 rondavam vários dólares por transação; para uma explicação completa da mecânica desta estratégia, ver «Basis trade: o guia completo da arbitragem entre futuros e spot». O mesmo raciocínio se aplica a estratégias ligadas ao funding rate dos perpétuos, onde operações que antes exigiam ajustes pouco frequentes por causa do custo de rede podem agora ser executadas com uma cadência muito mais próxima da ideal.
A consequência para este perfil é que a vantagem deixou de estar na taxa e passou a estar noutro sítio: pré-confirmações mais rápidas, acesso privilegiado ao sequenciador, ou infraestrutura própria de baixa latência. Vale a pena vigiar a evolução do sequenciamento partilhado e das pré-confirmações «based», baseadas na própria L1, como o próximo terreno de vantagem competitiva neste segmento, um tema já tratado em detalhe em «Depois da compressão: a previsão para os sequenciadores das L2». Para o trader de retalho que apenas ocasionalmente move posições entre L2, o efeito prático é mais simples: deixou de haver motivo financeiro para adiar rebalanceamentos por causa do custo de transação. Para operadores institucionais e mesas de negociação algorítmica, a mudança é mais profunda, porque a taxa de rede deixou de ser um termo relevante em qualquer modelo de execução ótima.
Caso de estudo: a Base e o problema da ciclicidade
A Base oferece o estudo de caso mais claro de como a compressão de taxas pode ser simultaneamente uma vitória operacional e um problema estratégico por resolver. As sucessivas atualizações de blobs, a começar pela EIP-4844 em 2024, melhoraram de forma consistente as margens de sequenciador da Base: os custos de publicação de dados na L1 caíram, enquanto a receita de comissões se manteve relativamente estável, segundo a análise da VaaSBlock sobre o modelo de negócio da Coinbase. Em vários dias do início de 2026, a Base ultrapassou os 4 milhões de transações diárias, tornando-se a primeira L2 a superar de forma sustentada a contagem diária de transações da própria mainnet da Ethereum.
O analista Costin T, autor dessa análise, descreve a Base como «a peça estrategicamente mais importante» do modelo de longo prazo da Coinbase, na medida em que o percurso do dinheiro fiduciário até à atividade on-chain passa cada vez mais pela Coinbase e assenta na Base. Mas o mesmo autor sublinha que, apesar da diversificação, «o problema da ciclicidade não foi resolvido»: a receita da Coinbase continua a oscilar de forma acentuada com o ciclo cripto, porque a compressão de margem funciona de forma multiplicativa, com preços mais baixos, vezes volumes mais baixos, vezes apetite de risco mais baixo. Por outras palavras, uma L2 mais barata atrai mais atividade em mercados de alta, mas essa mesma barreira de entrada mais baixa não impede a atividade de encolher em mercados de baixa, apenas torna mais barato participar quando ela existe.
Para a Coinbase, isto significa que a Base reforça o argumento de longo prazo, com mais utilizadores, mais retenção e uma marca mais forte junto de programadores, mas não resolve, por si só, a dependência da empresa do ciclo de mercado mais amplo. Para quem detém ações da Coinbase como forma indireta de exposição à Base, esta distinção entre crescimento estratégico e receita estável é importante.
Caso de estudo: Arbitrum, Optimism e zkSync, três apostas diferentes
Fora da Base, as três maiores L2 independentes de uma exchange centralizada estão a responder à compressão de margens com estratégias visivelmente diferentes.
A Arbitrum aposta na expansão via chains Orbit dedicadas a clientes empresariais, como a já referida Robinhood Chain, ativa desde 1 de julho de 2026, disponível na Robinhood Wallet e acessível a partir de mais de 120 países, com negociação de ações tokenizadas, perpétuos e integrações de exchanges descentralizadas, captando uma fatia da receita gerada por essas chains em vez de depender apenas da atividade na sua própria rede principal.
A Optimism segue um caminho distinto: a receita direta de sequenciador da rede Optimism Mainnet é modesta face à posição da Optimism no ecossistema mais amplo, e a estratégia da Optimism Foundation depende cada vez mais do mecanismo de partilha de receita da Superchain, o conjunto de redes construídas com a stack OP, incluindo a própria Base, do que das taxas cobradas na sua rede original. Paralelamente, a Optimism continua a distribuir parte do valor gerado pelo ecossistema através de rondas de Retroactive Public Goods Funding, financiadas por uma dotação de tokens OP, um modelo que não paga diretamente aos detentores do token mas financia bens públicos do ecossistema em vez de comissões por transação.
A zkSync Era, por seu turno, ilustra que a recuperação continua possível mesmo depois de um ciclo fraco: o valor total bloqueado na rede recuperou de um mínimo pós-airdrop de cerca de 900 milhões de dólares no final de 2024 para mais de 4,5 mil milhões de dólares em maio de 2026, segundo a Yellow.com, um sinal de que a tecnologia de prova zero-knowledge continua a atrair capital mesmo num ambiente de margens de transação cada vez mais finas.
Três apostas diferentes, integração empresarial, partilha de receita ao nível do stack, e recuperação técnica, para o mesmo problema de fundo: nenhuma L2, por maior que seja, pode continuar a depender apenas da taxa cobrada por transação como fonte primária de receita a prazo.
A matriz de decisão: sinais a vigiar por perfil (2026 a 2028)
A tabela seguinte não é uma previsão de preços nem uma recomendação de investimento; é um mapa de exposições, construído a partir dos dados e casos de estudo discutidos nas secções anteriores, cruzando a fonte de receita ou de custo de cada interveniente com o efeito mais provável da continuação da compressão de taxas. Reúne os seis perfis discutidos, a exposição principal de cada um, a postura mais defensável com a informação disponível hoje, e o sinal concreto a vigiar entre agora e 2028.
| Perfil | Exposição principal | Postura recomendada | Sinal a vigiar |
|---|---|---|---|
| Utilizador de retalho ou remessas | Custo de transferência, não uma questão de investimento | Aproveitar taxas sub-cêntimo para pagamentos e remessas frequentes | Confirmação da licença CASP do fornecedor junto da CMVM ou do Banco de Portugal |
| Protocolo DeFi nativo de L2 | Receita indexada ao volume, não ao valor por transação | Diversificar para lá de comissões de swap, com yield, RWA ou serviços institucionais | Continuação dos programas de incentivos após o «grants cliff» |
| Detentor de token de L2 (ARB, OP, ZK) | Ausência de partilha direta da receita do sequenciador | Tratar o token como exposição à governação, não como direito a cash-flow | Propostas de «fee switch» nos fóruns de governação |
| Tesouraria corporativa ou de DAO | Ritmo de despesa dependente do preço do token, não da receita operacional | Rever a despesa face à receita real do protocolo | Relatórios trimestrais de tesouraria |
| Market maker ou arbitragista | Margem por operação a encolher ao ritmo da taxa de rede | Compensar via volume e velocidade de execução, não via spread | Adoção de pré-confirmações e sequenciamento partilhado |
| Exchange ou CASP registado em Portugal | Modelo de receita por comissão sob pressão de margem e de conformidade | Diversificar para custódia, staking e serviços institucionais | Novas orientações da CMVM após o fim do regime transitório do MiCA |
Nenhuma destas recomendações depende de acertar o valor exato para onde as taxas convergem, seja 0,001 dólares, seja um valor ligeiramente acima ou abaixo disso. Dependem, isso sim, de perceber que a variável relevante para cada perfil já não é a taxa de rede em si, mas a forma como cada interveniente está exposto, ou não, à margem que essa taxa costumava representar. Quem se rever em mais do que um perfil, por exemplo um programador que também detém ARB, ou uma tesouraria que também opera como market maker, deve tratar as recomendações como cumulativas, e não como alternativas.
Conclusão: a previsão está feita, a decisão está em aberto
Depois de mais de um ano de modelos, cenários e projeções sobre a compressão das taxas nas L2 da Ethereum, os números convergem o suficiente para deixarem de ser o centro da conversa. A direção é clara, o piso técnico da EIP-7918 está identificado, e o calendário dos próximos catalisadores, entre BPO3, BPO4 e o horizonte mais longo do roteiro Lean Ethereum, está, no essencial, mapeado.
O que continua genuinamente em aberto é a segunda ordem de efeitos: que L2 sobrevivem à consolidação, que tokens acabam por captar valor real da atividade que ajudaram a gerar, que protocolos conseguem diversificar a tempo de deixarem de depender de comissões por transação, e como reguladores, incluindo a CMVM em Portugal, ajustam as suas exigências a um mercado onde o custo de rede deixou de ser uma barreira relevante à atividade especulativa de pequena escala. Para quem usa, constrói, negoceia ou investe neste ecossistema, a pergunta útil para os próximos dois anos não é quanto vai custar, é quem fica exposto quando deixar de custar quase nada. A HOGE Wire vai continuar a acompanhar os marcos técnicos mencionados aqui, da ativação do BPO3 aos primeiros passos concretos do roteiro Lean Ethereum, à medida que forem sendo confirmados.
Perguntas Frequentes
Porque é que as taxas das L2 não vão chegar a zero absoluto?
Porque o EIP-7918, ativado com a Fusaka em dezembro de 2025, fixa um piso para a taxa base dos blobs equivalente a um dezasseis avos do custo de execução na camada 1 da Ethereum. Quando o mercado empurra o preço dos blobs muito abaixo desse piso, o próprio protocolo passa a usar o custo da L1 como referência mínima, o que impede uma queda permanente para valores residuais, independentemente da quantidade de capacidade de blob adicional criada. Este mecanismo foi desenhado precisamente para evitar que a rede ficasse vulnerável a ataques de spam caso o custo de publicar dados caísse para valores insignificantes.
Qual é atualmente a L2 mais barata da Ethereum?
Com base em dados agregados da L2BEAT e da Token Terminal referentes ao primeiro semestre de 2026, a Base tem registado as taxas medianas mais baixas para transferências simples, na ordem dos dois cêntimos de dólar, seguida de perto pela Optimism. Os valores exatos oscilam com a congestão de cada rede e não devem ser lidos como uma garantia permanente, já que a ordem entre as L2 líderes pode alterar-se a cada novo BPO.
O que é a Fusaka e como mudou as taxas das L2?
A Fusaka é o conjunto de atualizações da Ethereum ativado a 3 de dezembro de 2025, com destaque para o EIP-7594 (PeerDAS), uma técnica que permite validar a disponibilidade de blobs sem que cada nó tenha de os descarregar por inteiro. Isto abriu espaço para aumentar a capacidade de blobs através de forks subsequentes apenas de parâmetros, conhecidos como BPO, o que reduziu o custo de publicar dados de L2 na Ethereum e, com isso, as taxas finais pagas pelos utilizadores.
Faz sentido investir em tokens de L2 como ARB ou OP com as taxas em queda?
Depende do que se espera do token. Nem a Arbitrum nem a Optimism distribuem atualmente a margem de receita do sequenciador aos detentores dos respetivos tokens, pelo que ARB e OP continuam a representar sobretudo direitos de governação, não direitos a um fluxo de caixa. A compressão de taxas não altera diretamente esse facto, mas torna mais visível a ausência de um mecanismo formal de partilha de receita, o chamado «fee switch», um tema ativo nos fóruns de governação de ambos os projetos.
Como afeta a compressão das taxas L2 os utilizadores em Portugal?
De forma direta, torna transferências pequenas e médias em stablecoins mais baratas, o que é particularmente relevante para remessas. De forma indireta, coincide com o fim do regime transitório do MiCA para os CASP portugueses, a 1 de julho de 2026, o que significa que a comissão cobrada pela plataforma usada, e não a taxa de rede, passa a refletir também os custos de conformidade com a supervisão da CMVM e do Banco de Portugal. Para plataformas que já operavam licenciadas ao abrigo do regime anterior, a transição foi sobretudo administrativa; para novos operadores, o custo de entrada no mercado português subiu.
Por Priya Reddy, HOGE Wire.