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● Markets

O outro volume das exchanges: fluxos, reservas e stablecoins

O ranking das exchanges mede ordens cruzadas; existe um segundo volume que conta outra história. Fluxos de entrada e saída, reservas on-chain e stablecoins revelam se o mercado acumula ou vende.

Quando um agregador de dados anuncia que uma exchange fez «20 mil milhões de dólares em volume nas últimas 24 horas», a maioria dos leitores imagina dinheiro a mudar de mãos. É meia verdade. Esse número mede ordens cruzadas num livro de ofertas, e já lhe dedicámos vários artigos. Existe, porém, um segundo volume, mais silencioso e muitas vezes mais revelador: as moedas e as stablecoins que entram, saem e atravessam as exchanges. Esse volume não aparece no ranking, mas é ele que sugere se o mercado está a acumular ou a preparar-se para vender.Este guia é sobre esse outro volume. Vamos separar a negociação (o que se cruza no livro) da liquidação (o que se movimenta na cadeia), explicar os fluxos de entrada e saída das exchanges, o papel das stablecoins como moeda de cotação, as reservas on-chain e a prova de reservas. E vamos aplicar a mesma disciplina cética que aplicámos ao volume negociado: nenhum número de volume, on-chain ou fora dela, deve ser lido em bruto. As conversões usam o câmbio de meados de agosto de 2026, com o euro a valer cerca de 1,156 dólares.

Dois significados para uma só palavra

Volume, em cripto, é uma palavra que faz um trabalho duplo. O primeiro significado é o mais conhecido: o valor total das ordens de compra e venda executadas numa plataforma durante um período. É o número que ordena as exchanges por tamanho, que alimenta as manchetes e que os traders usam para medir a atividade. O segundo significado quase nunca aparece nos rankings: o valor que se move para dentro e para fora das carteiras das exchanges na blockchain, mais o valor que circula on-chain sob a forma de stablecoins e transferências.A diferença importa porque as duas medidas respondem a perguntas distintas. O volume de negociação responde a «quanto se transacionou aqui?». O volume de fluxo responde a «para onde é que o dinheiro está a ir?». Uma exchange pode ter um dia de negociação morno e, ao mesmo tempo, registar levantamentos enormes de Bitcoin para carteiras frias; o ranking não capta isso, mas para quem tenta antecipar a oferta disponível esse é o dado que conta. Pense na negociação como o barulho no interior de um mercado e nos fluxos como as portas de carga nas traseiras: é por ali que a mercadoria entra e sai do edifício.

O volume de negociação, em três linhas

Para não repetir terreno já coberto, resumimos. O volume de negociação é a soma das ordens executadas, dominado hoje pelos derivados (perpétuos e futuros pesam mais do que o mercado à vista) e cronicamente contaminado por wash trading, a negociação fictícia que uma plataforma ou um bot cria contra si próprio para inflar números. Já explicámos como esse volume se transforma na cotação de referência que os ETF e os oráculos usam em Quem decide o preço do Bitcoin. Aqui interessa-nos o oposto: não o que se cruza no livro, mas o que se movimenta por baixo dele.A lição a reter é simples: o volume negociado é um número autodeclarado pela exchange, verificável apenas em parte. Os fluxos on-chain, esses, são públicos por construção. Qualquer pessoa pode ver uma carteira conhecida de uma exchange a receber ou a enviar Bitcoin. É essa transparência que faz do fluxo uma fonte de sinal diferente, com forças e fraquezas próprias.

O volume que entra e sai: os fluxos de exchange

O conceito central chama-se netflow, ou fluxo líquido. A definição é aritmética: entradas menos saídas. As entradas (inflows) são as moedas transferidas de carteiras externas para carteiras da exchange; as saídas (outflows) são as moedas levantadas da exchange para carteiras privadas. Se entram mais moedas do que saem, o netflow é positivo; se saem mais do que entram, é negativo. A CryptoQuant, uma das plataformas de referência nesta área, mede exatamente isto ao rastrear os endereços que consegue atribuir a cada exchange.Porque é que isto é observável? Porque as grandes exchanges usam carteiras identificáveis. Empresas de dados on-chain (CryptoQuant, Glassnode, Nansen, Santiment) etiquetam esses endereços e somam os movimentos. O resultado é um indicador quase em tempo real de para onde vai a oferta, algo que não existe no mundo dos mercados acionistas tradicionais, onde a movimentação de títulos entre custodiantes é opaca. Em cripto, a contabilidade das entradas e saídas está à vista de todos, o que não significa, como veremos, que seja fácil de interpretar. Muitas destas moedas nem sequer voltam a uma exchange: migram para autocustódia ou para protocolos on-chain, uma tendência que ajuda a explicar por que razão a negociação descentralizada tem crescido, como contámos em a guerra on-chain que a Hyperliquid está a vencer.

Depósitos como pressão de venda, levantamentos como convicção

A leitura clássica dos fluxos assenta numa lógica de intenção. Quando alguém deposita Bitcoin numa exchange, o motivo mais provável é querer vendê-lo ou usá-lo como garantia; por isso, entradas elevadas costumam ler-se como pressão de venda e sinal de baixa. Ao contrário, quando alguém levanta Bitcoin para uma carteira própria, sinaliza intenção de guardar a longo prazo; saídas elevadas leem-se como acumulação, autocustódia e sinal de alta, porque reduzem a oferta imediatamente vendável. É uma heurística, não uma lei, mas tem décadas de observação empírica por trás.Os episódios de 2026 ilustram o padrão. No início do verão registaram-se fortes saídas de Bitcoin das exchanges num único dia, um máximo de vários meses, com as baleias a mover moedas para fora dos livros. Poucas semanas depois deu-se o oposto: um pico de entradas com o volume médio por depósito a duplicar, sugerindo reposicionamento de grandes carteiras. Nenhum destes movimentos determina sozinho o preço, mas ambos alteram a quantidade de moeda pronta a ser vendida, e é essa a matéria-prima de qualquer subida ou descida.Há duas variantes do indicador que os analistas vigiam de perto. A primeira é o fluxo dos mineradores para as exchanges: quando quem produz Bitcoin novo o envia para plataformas, costuma ser para vender e cobrir custos de energia, pelo que picos de depósitos de mineradores são lidos como pressão de venda vinda da oferta primária. A segunda é o chamado whale ratio, a fatia das maiores entradas no total dos depósitos; quando sobe, sinaliza que são as grandes carteiras, e não o retalho, a levar moedas para as exchanges, algo que historicamente antecede mais volatilidade. Nenhum destes números é um gatilho por si só, mas ajudam a distinguir uma entrada trivial de uma que merece atenção.Um aviso desde já: o netflow é ruidoso à escala diária. Um único levantamento de uma tesouraria ou uma migração de carteira podem distorcer o número de um dia. O sinal fica mais fiável em médias móveis de vários dias e quando cruzado com outras medidas, não isolado.

As reservas das exchanges estão a encolher

Se somarmos todos os fluxos ao longo do tempo, chegamos ao stock: a reserva de exchange, ou seja, o total de uma moeda guardado nas carteiras conhecidas das plataformas. Aqui a tendência de fundo é clara e importante. O Bitcoin detido em exchanges centralizadas caiu para mínimos de vários anos, algo entre 2,4 e 2,7 milhões de BTC consoante a metodologia, quando em 2023 rondava os 3,2 milhões, segundo dados da CryptoQuant compilados pela The Block. Ao valor atual, cada milhão de BTC vale dezenas de milhares de milhões de euros, pelo que estamos a falar de um movimento estrutural de grande dimensão.Para onde foram? Três destinos. Autocustódia, com particulares e empresas a preferirem guardar as chaves; tesourarias empresariais, as chamadas DAT; e, sobretudo, os fundos cotados. Os custodiantes dos ETF norte-americanos guardam hoje mais de um milhão de BTC, uma fatia relevante da oferta em circulação que saiu do mercado líquido para dentro de veículos regulados. Já explicámos quem está por trás desses fluxos em quem está mesmo a comprar por trás do fluxo.O responsável máximo da CryptoQuant, Ki Young Ju, descreveu o fenómeno como uma grande transferência de riqueza: os primeiros detentores e os mineradores estão a vender, e essas moedas passam para ETF, tesourarias e instituições financeiras dos Estados Unidos. Segundo a sua análise, o conjunto ETF mais tesourarias absorveu mais de um milhão de BTC, aproximando-se de metade das reservas que restam nas exchanges. É a narrativa do choque de oferta: quanto menos moeda disponível nas plataformas, maior o impacto potencial de qualquer aumento de procura. Convém, ainda assim, não a tratar como profecia; oferta escassa amplifica movimentos, mas não dita a direção.

As várias caras do volume

Antes de avançar, vale a pena colocar as diferentes medidas lado a lado. Cada uma responde a uma pergunta diferente, e observa-se num sítio diferente, com uma distorção própria que é preciso descontar.
MedidaO que medeOnde se observaPrincipal distorção
Volume de negociaçãoOrdens compradas e vendidas no livroDados autodeclarados pela exchangeWash trading e volume fictício
Volume on-chain (liquidação)Valor que se movimenta na blockchainExploradores de blocos, agregadoresBots, MEV e transferências internas
Fluxo líquido (netflow)Entradas menos saídas das exchangesEndereços etiquetados de exchangesMigrações de carteira e ruído diário
Reserva de exchangeStock de moeda guardado nas plataformasEndereços etiquetados de exchangesErros de atribuição de endereços
Oferta de stablecoinsPoder de compra pronto a entrarContratos dos emitentes on-chainEmissão não usada para negociar

Stablecoins: o combustível que denomina quase tudo

Há um terceiro tipo de volume que raramente entra na conversa e que, no entanto, é a base de quase toda a negociação: as stablecoins. A esmagadora maioria dos pares de negociação em cripto é cotada em stablecoins, não em dólares ou euros bancários. Quando compra Bitcoin numa exchange, quase de certeza está a trocá-lo por USDT ou USDC. Por isso, a oferta de stablecoins funciona como a lenha do mercado: é o poder de compra que fica à espera, pronto a entrar.A dimensão ajuda a perceber. O mercado de stablecoins vale hoje cerca de 287 mil milhões de dólares (perto de 248 mil milhões de euros), com o USDT da Tether a rondar os 183 mil milhões e o USDC da Circle os 72 mil milhões; juntas, as duas representam quase 90% do mercado e a esmagadora maioria do volume transacionado em stablecoins. Analistas on-chain acompanham indicadores como o rácio entre a oferta de stablecoins e a capitalização do Bitcoin, uma forma de estimar quanto poder de compra está parado à espera. Quando muita stablecoin se acumula em carteiras de exchange sem ser gasta, há combustível em reserva; quando essa reserva desce, o poder de compra foi usado ou saiu.Note-se que nem toda a stablecoin parada é combustível de negociação: parte procura rendimento em protocolos de crédito e em ativos do mundo real, um movimento que descrevemos em a grande compressão da DeFi para a taxa base. Distinguir a stablecoin que espera para comprar da que já foi trabalhar noutro sítio é parte do ofício de ler fluxos.

A conta europeia: como o MiCA mudou a moeda de cotação

Para o leitor europeu, a moeda de cotação deixou de ser um detalhe técnico e passou a ser uma questão regulatória. Com o MiCA em plena aplicação desde 1 de julho de 2026, as exchanges autorizadas na União Europeia só podem oferecer stablecoins cujos emitentes tenham autorização europeia. A Tether optou por não cumprir esse regime, pelo que o USDT foi retirado dos pares de retalho no Espaço Económico Europeu na Binance, Coinbase, Kraken e Crypto.com, enquanto o USDC e o euro-token EURC, geridos por uma entidade autorizada, permaneceram. Na prática, a moeda que denomina o volume europeu mudou de mão.O presidente executivo da Tether, Paolo Ardoino, defendeu a saída em termos de risco. Argumentou que obrigar os emitentes a manter 60% das reservas em bancos europeus, com o seguro de depósito limitado a 100 mil euros por titular, poderia transformar um problema bancário num problema de stablecoins e vice-versa, invocando o susto da Circle com a queda do Silicon Valley Bank em 2023. Chegou a classificar as regras como um risco sistémico para a estabilidade bancária europeia, dizendo preferir proteger os utilizadores atuais a reestruturar o token. A Circle seguiu o caminho inverso e obteve licença de instituição de moeda eletrónica, o que manteve o USDC e o EURC dentro das regras.
StablecoinEmitenteEstatuto MiCADisponível no retalho da UE
USDCCircleAutorizada (moeda eletrónica)Sim
EURCCircleAutorizada (moeda eletrónica, em euros)Sim
USDTTetherSem autorização europeiaNão, retirada entre 2024 e 2026
Em Portugal, a arquitetura de supervisão reparte-se: o Banco de Portugal trata do registo e autorização dos prestadores de serviços de criptoativos e das questões de stablecoins, enquanto a CMVM supervisiona a conduta de mercado, o abuso de mercado e as reclamações dos consumidores. O regime transitório para os prestadores já registados terminou a 1 de julho de 2026, e a lei nacional de execução, a Lei n.o 69/2025, prevê coimas que podem chegar aos 5 milhões de euros. Para o investidor, a consequência prática é concreta: numa plataforma regulada em Portugal, o par que vai encontrar é cada vez mais BTC/USDC ou BTC/EUR, não BTC/USDT.

O volume on-chain: liquidação, não negociação

Há ainda um volume maior do que todos os anteriores e que quase nunca é discutido como volume: a liquidação on-chain. Trata-se do valor total que se move na blockchain, independentemente de haver ou não uma troca por trás. E aqui as stablecoins fizeram história. Em 2025, o volume bruto de transações de stablecoins na cadeia terá rondado os 33 biliões de dólares, ultrapassando os cerca de 25,5 biliões que a Visa e a Mastercard processaram juntas nesse ano. Em euros, falamos de perto de 28,5 biliões contra 22 biliões.É um número espetacular e, como todos os números de volume, exige leitura. Muito deste valor não é comércio nem investimento no sentido clássico: é liquidação entre empresas, movimentação de tesouraria, arbitragem e infraestrutura de pagamentos. Mostra que as stablecoins deixaram de ser um instrumento de nicho para se tornarem trilhos de liquidação à escala global. Mas mostra também, e este é o ponto seguinte, que o volume on-chain sofre exatamente do mesmo problema que o volume negociado: uma boa parte não é real no sentido que interessa.Vale a pena fechar o círculo: os próprios fluxos de exchange que descrevemos são volume on-chain. Cada depósito e cada levantamento é uma transação na blockchain, liquidada fora do livro de ofertas. Por isso, olhar para o volume de liquidação de uma rede ajuda a enquadrar o que se passa nas plataformas. Quando a atividade on-chain do Bitcoin sobe enquanto o volume negociado nas exchanges estagna, é sinal de que a moeda se está a mover entre carteiras, muitas vezes para custódia, sem passar pelo mercado; quando os dois sobem juntos, a probabilidade de estarmos perante negociação genuína aumenta.

Bruto contra ajustado: o wash trading dos fluxos

Se o volume negociado tem wash trading, o volume on-chain tem o seu equivalente: atividade inorgânica. Bots, extração de valor máximo (MEV), reequilíbrio automático de pools de liquidez e transferências internas das exchanges inflam o valor bruto sem corresponderem a pessoas ou instituições a mover dinheiro de verdade. Quem quiser levar o volume on-chain a sério tem de o ajustar primeiro.A escala do ajuste é brutal. A Visa, em parceria com a Allium, construiu um painel que filtra a atividade inorgânica, e os resultados são esclarecedores: num único dia de abril, o volume bruto de mais de 75 mil milhões de dólares encolheu para pouco mais de 8 mil milhões depois de removidas as transações redundantes e os endereços não humanos. Numa base anual, a Visa estima que o volume orgânico ronda apenas 25% a 30% do bruto, algo como 10 biliões de dólares (perto de 8,7 biliões de euros) em 2026. Por outras palavras, dois terços a três quartos do valor de manchete não são economia real.A lição é o fio condutor deste artigo: qualquer número de volume, seja negociado, seja on-chain, precisa de uma versão ajustada antes de significar alguma coisa. O bruto serve para manchetes; o ajustado serve para decisões. Quem confunde os dois está a ler ruído como se fosse sinal.

Prova de reservas: mostrar ativos não é mostrar solvência

Depois da queda da FTX em 2022, os fluxos e as reservas on-chain ganharam uma nova aplicação: provar que uma exchange tem, de facto, as moedas dos clientes. Chama-se prova de reservas. A técnica assenta em duas peças. A primeira é uma árvore de Merkle, uma estrutura criptográfica que condensa os saldos de todos os clientes num único selo (a raiz de Merkle) e permite a cada utilizador confirmar que o seu saldo foi incluído, sem revelar os saldos dos outros. A segunda, adotada pela Binance no início de 2023, são provas de conhecimento nulo (zk-SNARK), que demonstram matematicamente que o saldo líquido de cada conta é não negativo e está contido no total, sem expor dados individuais.Os números parecem tranquilizadores. Em agosto de 2026, a Binance reportava um rácio de cobertura acima de 100% nos principais ativos, e outras plataformas publicam atestações verificadas por terceiros com sobrecolateralização superior a 100%. Mas há uma armadilha, e é a mesma que a FTX explorou.Como o cofundador da Ethereum, Vitalik Buterin, explicou no final de 2022, a solvência de uma exchange é prova de reservas mais prova de responsabilidades. Provar os ativos que se detém é apenas metade da equação; falta provar o que se deve aos clientes. Uma plataforma pode exibir mil milhões em Bitcoin on-chain e continuar insolvente se dever dois mil milhões fora da cadeia, ou se tiver pedido moedas emprestadas horas antes do instantâneo. A prova de reservas mostra um lado do balanço num único momento; sem uma prova credível das responsabilidades, um rácio acima de 100% pode continuar a esconder um buraco. O próprio Buterin defendeu que o objetivo final é tornar essa prova de responsabilidades tão robusta quanto a de ativos.

A prova de reservas na prática

Na prática, as grandes plataformas convergiram para modelos parecidos, com diferenças de rigor e de frequência. O quadro seguinte resume o essencial, e sobretudo aquilo que estas provas não mostram.
ElementoComo funcionaO que garanteO que não mostra
Árvore de MerkleCondensa os saldos num selo criptográficoQue o seu saldo foi incluído no totalAs dívidas fora da cadeia
Prova zk-SNARKProva que cada conta é não negativaQue não há saldos negativos escondidosResponsabilidades não declaradas
Atestação de terceirosAuditor confirma controlo dos endereçosQue a exchange controla os ativosAtivos pedidos emprestados no momento
Instantâneo periódicoFotografia das reservas numa dataA situação naquele exato momentoO que acontece entre instantâneos
A conclusão prática: a prova de reservas é um avanço genuíno face à opacidade total anterior à FTX, mas não substitui uma auditoria completa das responsabilidades. Trate-a como um sinal positivo entre vários, não como um selo de garantia.

Onde os fluxos enganam: os limites da leitura on-chain

A transparência dos fluxos tem um reverso perigoso: a facilidade de interpretar mal. O mapa on-chain não é o território, e vale a pena listar as armadilhas mais comuns.
  • Atribuição de endereços. Etiquetar carteiras de exchange é um trabalho imperfeito; uma carteira mal classificada distorce entradas e saídas.
  • Migrações de custódia. Quando uma exchange muda fundos para uma nova carteira fria, os dados registam uma saída gigante que nada tem a ver com clientes a levantar dinheiro.
  • Transferências internas. Movimentos entre carteiras da mesma plataforma podem inflar o volume aparente sem qualquer mudança económica.
  • Stablecoin não é moeda nativa. Uma entrada de USDC (poder de compra a chegar) tem significado oposto a uma entrada de Bitcoin (moeda potencialmente a caminho da venda); somar tudo baralha o sinal.
  • Nova canalização institucional. A migração de moedas para custodiantes de ETF e tesourarias reconfigura os fluxos por razões estruturais, não por sentimento de curto prazo.
Nenhuma destas ressalvas invalida a análise de fluxos. Todas elas exigem que se leia o netflow com o mesmo ceticismo que se aplica ao volume negociado: perguntar sempre o que está a mover o número antes de lhe atribuir uma história.

Como ler os dois volumes em conjunto

A vantagem do investidor atento não está em nenhuma destas medidas isoladamente, mas em cruzá-las. Um exemplo de leitura coerente: volume negociado a subir com netflow negativo (moedas a sair) sugere procura a absorver oferta que está a ser retirada, uma combinação historicamente construtiva. O inverso, volume a subir com fortes entradas de Bitcoin nas exchanges, aponta para distribuição. A oferta de stablecoins funciona como confirmação: se há combustível a acumular-se enquanto as reservas de Bitcoin encolhem, o desequilíbrio entre poder de compra e moeda disponível torna-se mais nítido.Um exemplo concreto ajuda. Imagine que, numa semana, o volume negociado do Bitcoin sobe 20%, as reservas nas exchanges caem para um novo mínimo, o whale ratio desce (sinal de que não são grandes carteiras a depositar) e a oferta de stablecoins nas plataformas aumenta. Cada peça, isolada, diria pouco; juntas, descrevem procura a comprar moeda que está a ser retirada, com combustível a acumular-se e sem grandes vendedores à vista. É uma leitura construtiva. Troque duas variáveis, reservas a subir e whale ratio a disparar, e o mesmo aumento de volume passa a contar uma história de distribuição. O volume, sozinho, não distingue os dois cenários; os fluxos, sim.As ferramentas para fazer isto estão acessíveis. Glassnode, CryptoQuant, Nansen e Santiment oferecem painéis de fluxos, reservas e indicadores derivados, alguns com camadas gratuitas. O método importa mais do que a ferramenta: preferir médias móveis a leituras de um dia, distinguir moeda nativa de stablecoin, e desconfiar de qualquer pico que coincida com uma migração de carteira conhecida. É o mesmo princípio que defendemos para os fluxos de fundos cotados em ler o sinal sem cair no ruído: um dado on-chain é uma pista, nunca uma sentença.No fim, a mensagem deste guia é uma só. O ranking das exchanges mede uma coisa; os fluxos, as reservas e as stablecoins medem outra. Quem só olha para o volume negociado vê metade do mercado, e frequentemente a metade mais barulhenta. O outro volume, o que entra, sai e se liquida por baixo da cotação, é menos glamoroso e mais difícil de ler, mas é ali que muitas vezes se percebe o que vai acontecer a seguir.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre volume de negociação e fluxo de exchange?

O volume de negociação mede as ordens cruzadas no livro de ofertas de uma exchange: quanto se comprou e vendeu. O fluxo de exchange, ou netflow, mede as moedas que entram e saem das carteiras da plataforma na blockchain, ou seja, depósitos menos levantamentos. O primeiro diz quanto se negociou; o segundo sugere a intenção, se o mercado está a trazer moedas para vender ou a retirá-las para guardar.

O que significa um netflow negativo numa exchange?

Um netflow negativo significa que saíram mais moedas do que entraram, isto é, houve mais levantamentos do que depósitos. Costuma ler-se como sinal de acumulação e autocustódia, historicamente associado a uma redução da oferta pronta para venda imediata. Não garante uma subida de preço, mas indica que menos moedas estão disponíveis para ser vendidas nas plataformas.

A prova de reservas garante que uma exchange é solvente?

Não. A prova de reservas demonstra que a exchange controla determinados ativos on-chain, mas não mostra as suas responsabilidades, ou seja, o total que deve aos clientes e outras dívidas. Como Vitalik Buterin resumiu, a solvência é igual a prova de reservas mais prova de responsabilidades. Sem a segunda parte, um rácio acima de 100% pode continuar a esconder um buraco.

Porque é que o USDT deixou de estar em muitas exchanges europeias?

Com o MiCA em plena aplicação desde 1 de julho de 2026, as exchanges autorizadas na UE só podem oferecer stablecoins cujos emitentes tenham autorização europeia. A Tether optou por não cumprir esse regime, nomeadamente a exigência de reservas em bancos da UE, pelo que o USDT foi retirado para clientes de retalho no Espaço Económico Europeu, enquanto o USDC e o EURC, geridos por uma entidade autorizada, permaneceram.

O volume on-chain das stablecoins é real?

Em parte. O volume bruto na cadeia inclui muita atividade inorgânica: bots, MEV, reequilíbrio de pools de liquidez e transferências internas das exchanges. Filtros como o da Visa com a Allium estimam que a atividade orgânica ronda apenas 25% a 30% do valor bruto. Tal como o volume negociado tem wash trading, o volume on-chain precisa de ser ajustado antes de ser levado a sério.Por Inês Salgado, editora de mercados da HOGE Wire.
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