A base dos futuros é a taxa de juro da cripto (e virou stablecoin)
A base dos futuros não é só arbitragem ou humor do mercado: é a taxa de juro de um sistema sem banco central. Em 2026, esse juro caiu abaixo do Tesouro e virou dólar sintético.
A maioria dos textos sobre a base dos futuros trata-a como uma coisa só. Ou é uma operação de arbitragem para fundos sofisticados, ou é um termómetro do humor do mercado. As duas leituras são úteis, mas ambas escondem a mais simples e a mais poderosa: a base é, acima de tudo, uma taxa de juro. É o preço do tempo num mercado que não tem banco central, não tem taxa diretora e não tem ninguém que fixe o custo do dinheiro por decreto. Quando se olha para a base como uma taxa, muito do que parecia ruído passa a ter uma explicação limpa.
E em 2026 essa taxa fez duas coisas fora do comum. Primeiro, caiu abaixo do juro sem risco: montar um cash-and-carry de Bitcoin na CME rende hoje menos do que comprar um simples Bilhete do Tesouro norte-americano, algo impensável no auge de 2024. Segundo, a base deixou de ser apenas um número num ecrã e passou a ser um produto de prateleira. A Ethena empacotou o carry num dólar sintético, o USDe, que chegou a valer mais de 14 mil milhões de dólares. A taxa de juro da cripto ganhou marca, ticker e, agora, um problema de sustentabilidade.
Este texto pega na base pela ponta das taxas de juro. Vamos ver como se lê a curva a prazo da cripto, porque é que o prémio evaporou, como é que uma operação de arbitragem se transformou numa stablecoin e o que a CMVM e a DMIF II têm a dizer a quem, em Portugal, queira lá chegar. Salvo indicação em contrário, os preços são de 19 de agosto de 2026, com o Bitcoin a rondar os 55.400 euros, cerca de 48% abaixo do máximo histórico de outubro de 2025 (dados CoinGecko).
A base explicada como uma taxa de juro
Comecemos pela definição, mas por uma que raramente aparece nos manuais. A base é a diferença entre o preço do contrato de futuros e o preço à vista (spot). Se o futuro vale mais do que o spot, a base é positiva e o mercado está em contango; se vale menos, a base é negativa e há backwardation. Até aqui, nada de novo. O salto está em anualizar essa diferença: a base anualizada é igual à base dividida pelo spot, multiplicada por 365 e dividida pelos dias que faltam até ao vencimento. O resultado não é um humor nem um sinal. É uma percentagem por ano. É uma taxa.
Um exemplo torna isto concreto. Imagine que o Bitcoin à vista se troca a 55.405 euros e que o futuro que vence daqui a três meses vale 55.682 euros. A base bruta é de 277 euros, ou 0,5%. Multiplicada por 365 e dividida por 90, dá pouco mais de 2% ao ano. Esses 2% são o que o mercado cobra, em termos anualizados, a quem quer estar comprado com alavancagem através do futuro; e são, do outro lado, o rendimento de quem vende o futuro e compra a vista. É uma taxa de financiamento implícita, o equivalente cripto de um repo, a operação com que a banca financia posições no mercado de obrigações.
Há uma propriedade que faz desta taxa algo capturável: a convergência. No vencimento, o preço do futuro e o preço à vista têm de encontrar-se, por construção, porque o contrato liquida contra o spot. Isso significa que a base decai mecanicamente até zero à medida que o vencimento se aproxima, independentemente do que o preço do Bitcoin faça pelo caminho. É essa convergência garantida que transforma a base num rendimento colhível por quem monta a operação e a leva até ao fim: não se está a apostar na direção, está a colher-se o encolhimento do prémio ao longo do tempo.
Vista assim, a base responde a uma pergunta simples: quanto custa, ou quanto rende, adiar a entrega de um Bitcoin? Em contango, adiar custa, porque se paga um prémio pela exposição futura. Em backwardation, adiar é pago, porque há quem queira tanto vender proteção ou desalavancar que aceita entregar mais barato lá à frente. O sinal da base é o sinal dessa taxa. E, como qualquer taxa, o seu nível diz-nos algo sobre a oferta e a procura de dinheiro naquele mercado.
Porque é que um mercado sem banco central precisa de uma taxa
No sistema tradicional, o custo do dinheiro tem um dono. O Banco Central Europeu fixa a taxa de depósito, a Reserva Federal fixa o intervalo dos fed funds e, a partir daí, constrói-se toda a estrutura de juros: Euribor, obrigações, crédito à habitação. Na cripto não há nada disto. Não existe autoridade monetária, não existe taxa oficial e, no entanto, o mercado precisa desesperadamente de um preço para o tempo e para a alavancagem. Esse preço emerge sozinho, das transações, e chama-se base nos futuros com vencimento e funding rate nos perpétuos.
A intuição económica é direta. Há quase sempre mais gente a querer estar comprada com alavancagem em Bitcoin do que gente disposta a fornecer essa alavancagem de graça. Quem fornece o outro lado (vende futuros, vende perpétuos, financia a operação) exige uma compensação. Essa compensação é a base. Quando a euforia domina e todos querem alavancagem longa, a taxa dispara: é o que produz os 20% ou 25% anualizados dos grandes mercados em alta. Quando a procura seca ou o capital de arbitragem chega em massa, a taxa desce. É oferta e procura de dinheiro, exatamente como no mercado monetário, só que sem comité de política.
O estudo mais citado sobre o tema, o Working Paper n.º 1087 do Banco de Pagamentos Internacionais (intitulado «Crypto carry», de Maik Schmeling, Andreas Schrimpf e Karamfil Todorov), documenta precisamente isto: o carry da cripto rendeu, em média, mais de 10% ao ano, com picos acima de 40%, e é explicado não por diferenciais de taxa de juro, mas pela procura alavancada de investidores de retalho que perseguem a tendência, combinada com capital de arbitragem limitado. Por outras palavras, a taxa da cripto é alta quando há muita gente a querer apostar e pouca gente a querer financiar. É o preço de um recurso escasso: o balanço de quem faz o outro lado.
A curva a prazo da cripto: overnight, um mês, três meses
Se a base é uma taxa, então há uma curva. E há mesmo. No sistema tradicional, a curva de juro vai do overnight (a taxa a um dia) até aos 30 anos. Na cripto, a curva é mais curta, mas obedece à mesma lógica, e vale a pena desmontá-la por prazos.
No extremo curto está o contrato perpétuo. Um perpétuo não vence nunca, e o mecanismo que o mantém colado ao spot é a funding rate: um pagamento periódico (a cada oito horas, na maioria das plataformas) entre longos e curtos. Quando a funding é positiva, quem está comprado paga a quem está vendido; quando é negativa, o inverso. É, literalmente, a taxa overnight da cripto, reposta três vezes por dia. Na Deribit, por exemplo, a funding está limitada a mais ou menos 0,5% por período de oito horas, um teto que impede a taxa de disparar sem limite em momentos de pânico.
A seguir vêm os futuros com vencimento: um mês, três meses, seis meses. São as taxas a prazo. A relação entre elas desenha a inclinação da curva. Numa fase de otimismo, a curva sobe: quanto mais longe o vencimento, maior a base anualizada, porque há mais tempo para a euforia render. Em stress, a curva achata-se ou inverte-se, com os prazos curtos a pagar mais (ou a ficar negativos) do que os longos. Ler a curva da cripto é, em tudo, ler a curva de juro de uma pequena economia.
| Instrumento | Prazo | Reposição ou vencimento | Taxa anualizada (aprox., ago. 2026) |
|---|---|---|---|
| Perpétuo (funding rate) | Sem vencimento | Cada 8 horas (teto Deribit ±0,5%) | Próxima de neutra, ligeiramente positiva |
| Futuro a 1 mês | Cerca de 30 dias | Vencimento mensal | 1,5% a 2% |
| Futuro a 3 meses | Cerca de 90 dias | Vencimento trimestral | Cerca de 2% |
| Futuro a 6 meses | Cerca de 180 dias | Vencimento semestral | 2% a 2,5% |
Ler a curva: contango, backwardation e o que dizem os regimes
A forma da curva conta uma história, e os últimos dois anos deram exemplos de manual. Em fevereiro de 2024, logo após a aprovação dos ETF à vista nos Estados Unidos, a base anualizada a três meses da CME chegou perto dos 25%. Em novembro de 2024, no rescaldo das eleições norte-americanas, voltou a passar dos 20%. Eram curvas de contango acentuado: o mercado pagava caríssimo para estar comprado a prazo, sinal de procura alavancada em massa.
Depois veio o outro extremo. Em fevereiro de 2025, a base chegou a ficar negativa, em backwardation, um regime raro que costuma coincidir com desalavancagem forçada e vendas em cascata. E em agosto de 2026 a base instalou-se num nível baixo, à volta dos 2% anualizados, mas por uma razão diferente do pânico: excesso de capital de arbitragem e procura alavancada morna. A mesma taxa baixa pode significar coisas opostas conforme o contexto, e é por isso que a base se lê sempre com a curva inteira à frente, não com um número isolado.
| Momento | Base anualizada (cerca de 3 meses) | Contexto |
|---|---|---|
| Fevereiro 2024 | Cerca de 25% | Pós-aprovação dos ETF à vista nos EUA |
| Novembro 2024 | Mais de 20% | Euforia pós-eleições norte-americanas |
| Fevereiro 2025 | Abaixo de 0% | Backwardation, desalavancagem forçada |
| Agosto 2026 | Cerca de 2% | Abaixo do juro sem risco, excesso de arbitragem |
A leitura fina é esta: uma base muito alta não é bom presságio, é um aviso de excesso de alavancagem que costuma preceder desalavancagens violentas; uma base negativa não é o fim do mundo, é muitas vezes o ponto de exaustão dos vendedores. Como em qualquer curva de juro, os extremos dizem mais do que o meio.
O spread sobre o ativo sem risco
Aqui chegamos ao ponto mais importante e ao mais mal compreendido. Uma taxa de juro nunca se avalia sozinha; avalia-se contra o ativo sem risco. Um investidor racional só monta um cash-and-carry de Bitcoin se este render mais do que a alternativa mais segura que tem à mão: um Bilhete do Tesouro, um fundo do mercado monetário, um depósito. A base tem de pagar um spread sobre o juro sem risco, porque a operação, por muito «neutra ao preço» que seja, carrega riscos que o Tesouro não tem: risco de contraparte da corretora, risco de liquidação da margem, risco de a convergência falhar no vencimento.
Vale a pena abrir esse spread, porque ele paga, em teoria, quatro coisas ao mesmo tempo: o risco de a corretora falhar ou congelar levantamentos (algo que a FTX ensinou a não subestimar), o risco de uma vela violenta liquidar a perna curta antes da convergência, o custo de imobilizar capital e margem durante meses e o simples prémio de escassez de quem está disposto a fazer o outro lado. Quando esse spread encolhe para zero, não é que os riscos tenham desaparecido; é que o mercado deixou de os remunerar. E um risco não remunerado é a definição de um mau negócio.
E é aqui que 2026 se torna estranho. Em agosto, um Bilhete do Tesouro norte-americano a três meses rendia 3,79% (dados da Trading Economics), a Euribor a três meses estava em 2,50% (euribor-rates.eu) e a taxa de depósito do BCE em 2,00%. A base do Bitcoin, essa, rondava os 2% anualizados. Ou seja: a taxa de juro da cripto caiu abaixo da taxa de juro do dólar. O prémio pelo risco desapareceu e, com ele, a razão de ser da operação.
| Referência | Taxa anualizada (ago. 2026) | Moeda |
|---|---|---|
| Base CME Bitcoin (3 meses) | Cerca de 2% | USD |
| Bilhete do Tesouro EUA (3 meses) | 3,79% | USD |
| Euribor a 3 meses | 2,50% | EUR |
| Taxa de depósito do BCE | 2,00% | EUR |
| sUSDe (rendimento Ethena) | 4% a 4,5% | USD |
A implicação é dura. Se o cash-and-carry rende 2% e um Bilhete do Tesouro rende 3,79%, um fundo que faça a operação está a ser pago para correr risco de cripto menos do que se não corresse risco nenhum. Não admira que tantos tenham desmontado a posição. Como argumentámos no texto «A base dos futuros não é dinheiro grátis», depois de descontar custos de execução, margem e capital, a base líquida de 2026 aproxima-se de zero. A base bruta é uma ilusão de ótica; a base líquida, contra o juro sem risco, é o que realmente interessa.
2026, o ano em que o prémio evaporou
Como é que uma taxa que pagava 25% caiu para 2% em pouco mais de um ano? A resposta tem dois motores. O primeiro é estrutural: os ETF à vista democratizaram a perna comprada da operação. Antes, montar um cash-and-carry exigia infraestrutura para comprar e custodiar Bitcoin; depois dos ETF, basta comprar um fundo cotado e vender o futuro contra ele. Quando montar a operação fica trivial, mais capital acorre, e mais capital comprime o prémio. É a mecânica de qualquer arbitragem: quanto mais fácil, menos rende.
O segundo motor foi o grande desalavancar de 2026. Os dados do relatório Bitcoin 13F do primeiro trimestre da CoinShares mostram fundos de cobertura a cortar 31.400 BTC de exposição via ETF, uma queda de 39% num único trimestre, enquanto a banca norte-americana fazia o contrário e reforçava posições (o JPMorgan somou cerca de 3.000 BTC e o Wells Fargo cerca de 4.000). Os pesados resgates de ETF de 2026 não foram, na leitura de quem olha para os dados, uma fuga do Bitcoin, mas o desmontar de uma arbitragem que deixou de compensar.
Michael Marshall, responsável de investigação da Amberdata, resumiu o padrão a propósito do episódio análogo do final de 2025, quando quase 4 mil milhões de dólares saíram dos ETF: as vendas estavam «altamente concentradas em poucos emitentes e ligadas a um desmonte mecânico do basis trade, não a um medo generalizado dos investidores», e o open interest dos perpétuos caiu 37,7% quase em sincronia, com uma correlação de 0,878 com os movimentos da base (declarações à CoinDesk). O mercado, dizia ele, ficou «muito mais limpo». É a assinatura de uma taxa que desce por saturação de arbitragem, não por colapso de convicção.
O carry que virou dólar: a Ethena e o USDe
Se a base é uma taxa, alguém, mais cedo ou mais tarde, ia querer vendê-la como um produto de poupança. Foi exatamente o que a Ethena fez. O USDe, o dólar sintético da Ethena, não é lastreado em dinheiro nem em Bilhetes do Tesouro guardados num banco. É lastreado, na origem, por uma operação de base: compra-se cripto à vista e vende-se a descoberto um perpétuo de igual nocional. A cobertura anula a exposição ao preço, e o que fica é o rendimento (a funding dos perpétuos mais o staking da perna à vista) a acumular para quem detém a versão remunerada, o sUSDe.
Por outras palavras, o USDe é o cash-and-carry embrulhado num token. É a taxa de juro da cripto transformada numa stablecoin que rende. E o mercado adorou: no auge de 2025, o USDe superou os 14 mil milhões de dólares em circulação, tornando-se um dos maiores dólares digitais do mundo, à frente de quase todos os concorrentes exceto os gigantes lastreados em fiduciário. Em meados de 2026, depois do grande desalavancar de outubro de 2025, a oferta assentou à volta dos 5 mil milhões (dados e enquadramento da Forbes).
| Métrica do USDe | Pico (2025) | Agosto 2026 |
|---|---|---|
| Oferta em circulação | Mais de 14 mil M$ | Cerca de 5 mil M$ |
| Rendimento do sUSDe | Dois dígitos | 4% a 4,5% |
| Peso do basis trade no lastro | Dominante | Minoritário (mais RWA) |
A parte reflexiva desta história é a mais interessante. Quando qualquer pessoa pode capturar o carry comprando um token, a procura por esse carry sobe e o próprio carry comprime-se. A Ethena industrializou a base e, ao fazê-lo, ajudou a espremê-la. O rendimento do sUSDe, que já foi de dois dígitos, caiu para cerca de 4% no início de 2026 e manteve-se em torno dos 4% a 4,5% depois disso, à medida que a funding dos perpétuos encolhia. A stablecoin que vivia da base começou a ficar sem base para viver.
Há um senão que a euforia de 2024 e 2025 tendia a esquecer: a base pode ficar negativa. Quando a funding dos perpétuos vira em baixo, a operação delta-neutra deixa de receber e passa a pagar, e o rendimento do sUSDe pode aproximar-se de zero ou tornar-se negativo antes que o mecanismo de reservas absorva o choque. Foi parte do que se viu no desalavancar de outubro de 2025, quando a oferta do USDe encolheu com a mesma rapidez com que tinha crescido. Uma stablecoin construída sobre uma taxa de mercado herda a volatilidade dessa taxa, e a Ethena passou boa parte de 2026 a tentar reduzir essa dependência.
Quando a base seca, muda-se de dieta: o desvio para os RWA
Uma taxa que se aproxima de zero obriga a repensar o modelo de negócio. Ao longo de 2026, a Ethena reconstruiu o lastro do USDe, e a operação de base, que definia o protocolo, passou a ser uma parte menor da reserva. O caminho foi o mesmo que boa parte do setor está a percorrer: ativos do mundo real (real-world assets, ou RWA), sobretudo dívida de curto prazo e fundos do mercado monetário tokenizados. Se o carry cripto rende menos do que um Bilhete do Tesouro, então mais vale ter o Bilhete do Tesouro.
A Ethena formalizou isso com um produto irmão, o USDtb, que incorpora um fundo do mercado monetário tokenizado da BlackRock e foi desenhado para caber nas regras norte-americanas de stablecoins. Aqui há uma subtileza regulatória que a Forbes sublinhou: como o rendimento do USDe vem de derivados e não de reservas fiduciárias, escapa à proibição de juro que a GENIUS Act impôs às stablecoins de pagamento. A base, por ser uma taxa de mercado e não um juro pago sobre depósitos, encontra uma porta legal que as stablecoins clássicas não têm. Toda esta engenharia é, no fundo, uma resposta à mesma pergunta: onde é que ainda há rendimento quando o prémio da base desaparece?
A base como sinal macro: Fed, BCE e a concorrência de rendimentos
Ver a base como taxa liga-a diretamente à macroeconomia, e é aqui que a cripto de 2026 se comporta menos como um bicho exótico e mais como qualquer outro ativo financeiro. A base compete por capital com todos os outros rendimentos disponíveis: o staking de Ethereum, os Bilhetes do Tesouro, os depósitos remunerados, o rendimento das próprias stablecoins. Existe, na prática, uma curva de rendimentos da cripto, e o dinheiro flui para onde o retorno ajustado ao risco for melhor.
Isso torna a base sensível à política monetária. Quando a Reserva Federal (agora sob a presidência de Kevin Warsh, com a próxima reunião do FOMC marcada para setembro) corta juros, o Bilhete do Tesouro rende menos e o carry cripto, mesmo baixo, volta a parecer competitivo em termos relativos. Quando os juros sobem, acontece o inverso e a base perde atratividade. Do lado europeu, com a Euribor a 2,50% e o BCE em 2,00%, o mesmo raciocínio aplica-se em euros. Como explorámos em «Cripto virou ativo macro», o Bitcoin deixou de negociar num vácuo: a sua taxa de financiamento conversa com a taxa dos bancos centrais.
A leitura prática para o investidor é que a base não se interpreta apenas contra o humor do mercado, mas contra o custo de oportunidade. Uma base de 2% num mundo de Tesouros a 4% é cara em risco e pobre em retorno; a mesma base de 2% num mundo de Tesouros a 1% seria outra conversa. A taxa da cripto só faz sentido em relação à taxa do dinheiro que lhe está por baixo.
ETF, fluxos e a reflexividade da base
Há uma dança circular entre os fluxos dos ETF e a base que vale a pena isolar, porque é o motor mecânico de quase tudo o resto. Quando entra dinheiro nos ETF à vista, o preço spot sobe e a base tende a alargar, porque cresce a procura por exposição alavancada e o contango acentua-se. Esse alargamento atrai a operação de cash-and-carry, que vende futuros para capturar o prémio, o que por sua vez limita a subida da base. O fluxo puxa a base, a base puxa a arbitragem, a arbitragem trava a base. É um termóstato.
Os números confirmam a escala. Segundo a CF Benchmarks, o open interest dos futuros cresceu mais de 83% desde o lançamento dos ETF à vista, sinal de quanto capital de base entrou no sistema. Quando esse capital reflui, como aconteceu em 2026, a base afunda e os resgates de ETF sucedem-se, sem que isso signifique medo. Para quem quiser perceber quanto é que estes fluxos mexem mesmo no preço, vale a leitura de «Fluxos de ETF», que separa o efeito mecânico do efeito narrativo.
Onde vive a base: CME, Deribit, perpétuos e on-chain
A base não existe num sítio só, e a sua geografia mudou muito em 2026. A referência institucional continua a ser a CME, o mercado regulado onde os grandes fundos operam. E a CME deu um passo importante: desde o final de maio de 2026, os seus futuros e opções de cripto negoceiam 24 horas por dia, sete dias por semana, com uma janela de manutenção de duas horas por semana. Acabou o «gap de fim de semana» que distorcia a base quando a CME fechava e o resto do mundo continuava a negociar.
Tim McCourt, responsável global de ações, câmbios e produtos alternativos da CME, justificou a mudança: «Ao oferecer liquidez contínua durante o fim de semana, estamos a responder à procura dos clientes e a fechar o fosso entre os mercados regulados tradicionais e a natureza 24/7 dos ativos cripto» (comunicado da CME). Uma base que já não fecha ao fim de semana é uma taxa mais contínua e menos sujeita a saltos artificiais.
No mesmo mês, a fronteira regulatória avançou noutra direção. A 29 de maio de 2026, a CFTC aprovou o contrato BTCPERP da Kalshi, o primeiro perpétuo de Bitcoin regulado nos Estados Unidos. O presidente da CFTC, Mike Selig, chamou-lhe «um passo importante» para «consolidar a América como a capital mundial da cripto» (declarações reproduzidas pela CoinDesk). Trazer o perpétuo, e portanto a funding rate, para dentro de um mercado regulado é trazer a taxa overnight da cripto para debaixo de supervisão.
E depois há a fronteira on-chain, onde os perpétuos descentralizados criaram a sua própria funding rate, muitas vezes desligada da dos mercados centralizados. A Hyperliquid e os seus concorrentes movem hoje volumes que rivalizam com corretoras estabelecidas, como contámos em «Perp DEX». A base, hoje, é uma taxa fragmentada por dezenas de plataformas, e a arbitragem entre elas é um negócio por si só.
A base prevê o mercado? Coincidente, não líder
Uma tentação recorrente é usar a base como bola de cristal: base alta, vender; base baixa, comprar. Os dados desanimam essa esperança. A investigação de Mark Pilipczuk, da CF Benchmarks, mostra que a base é coincidente com o momentum, não líder: correlaciona-se em torno de 0,50 com o z-score do MACD e 0,54 com o z-score a 90 dias dos retornos a 30 dias. A base não antecipa o preço; acompanha-o, com o momentum a mover-se primeiro e a base a seguir dias depois.
Onde a base tem valor informativo é como medidor de multidão. Em regime de ganância extrema (o índice de medo e ganância acima de 0,75), a base costuma disparar para os 15% a 30% anualizados, e níveis assim raramente duram. Uma base extrema é menos uma previsão e mais um termómetro de aglomeração: diz que muita gente está do mesmo lado, o que aumenta o risco de uma desalavancagem. É útil como aviso de excesso, não como gatilho de entrada.
Portugal, a CMVM e a Europa: a base encontra a regulação
Para o investidor português, há uma fronteira jurídica que convém conhecer antes de sequer pensar em capturar a base. Futuros e perpétuos de cripto são instrumentos financeiros e caem sob a DMIF II (a diretiva dos mercados de instrumentos financeiros), com supervisão da CMVM. Não estão abrangidos pelo MiCA, que regula apenas os ativos à vista e os prestadores de serviços de criptoativos (os CASP). É uma distinção que confunde muita gente: o Bitcoin à vista é MiCA; o futuro de Bitcoin é DMIF II.
A ESMA foi mais longe e, no início de 2026, esclareceu que os contratos perpétuos se equiparam a CFD para efeitos da DMIF II, o que os sujeita aos limites de alavancagem de retalho já em vigor para esses produtos (2:1 na cripto). Na prática, um investidor de retalho na União Europeia não pode usar a alavancagem agressiva que as plataformas offshore anunciam. E há uma razão de fundo: capturar a base líquida exige escala, margem eficiente e capital barato, vantagens que quase só as instituições têm.
No plano nacional, o período transitório do MiCA para os prestadores portugueses terminou a 1 de julho de 2026, e a supervisão é partilhada: o Banco de Portugal autoriza e regista os CASP e trata das stablecoins, enquanto a CMVM cuida da conduta de mercado. A lei de execução é a Lei n.º 69/2025, com coimas que podem chegar aos 5 milhões de euros. Quem negoceia derivados de cripto a partir de Portugal faz duas viagens regulatórias ao mesmo tempo: a do ativo (MiCA) e a do instrumento (DMIF II).
O que vigiar até ao fim de 2026
A pergunta que fica é se o prémio da base volta. Há três coisas a observar. A primeira é a política monetária: se a Reserva Federal cortar juros na reunião de setembro, o custo de oportunidade da base desce e a operação pode voltar a parecer atrativa, mesmo sem a base subir. A segunda é a procura alavancada: sem uma nova onda de euforia (a sazonalidade de fim de ano é candidata, como discutimos em «Uptober e o fim de ano cripto»), a base dificilmente sai dos dígitos baixos.
A terceira é estrutural e é a mais interessante: até onde vai a produtização da base. Se protocolos como a Ethena continuarem a migrar para RWA, a base cripto pura perde o seu maior comprador natural, o que a mantém comprimida; se, pelo contrário, uma nova vaga de procura fizer a funding disparar, o carry volta a ser rentável e o dinheiro regressa. A taxa de juro da cripto está, neste momento, no ponto mais baixo e mais interessante do seu curto ciclo de vida: baixa demais para compensar o risco, importante demais para desaparecer.
Perguntas frequentes
O que é a base dos futuros em cripto?
A base é a diferença entre o preço do futuro e o preço à vista. Anualizada, funciona como uma taxa de juro: mede o custo de financiar uma posição longa alavancada e o rendimento de quem faz a operação inversa. Base positiva chama-se contango; base negativa, backwardation.
Porque é que a base dos futuros caiu tanto em 2026?
Porque o capital de arbitragem ficou abundante e a procura alavancada arrefeceu. Com os ETF à vista, ficou trivial montar o cash-and-carry em escala, o que comprimiu o prémio. Em agosto de 2026 a base a três meses rondava os 2%, abaixo dos 3,79% de um Bilhete do Tesouro a três meses.
A base dos futuros é o mesmo que a funding rate dos perpétuos?
São primas da mesma família. A funding rate é a base dos contratos perpétuos, que não vencem; paga-se a cada oito horas e comporta-se como a taxa overnight da cripto. A base dos futuros trimestrais é a taxa a prazo. Juntas, formam a curva de juro do mercado.
O que é o USDe da Ethena e o que tem a ver com a base?
O USDe é um dólar sintético cujo lastro é, na origem, uma operação de base: compra do ativo à vista e venda a descoberto de um perpétuo de igual nocional. Ao empacotar o carry, a Ethena transformou a base num produto de rendimento. Com o prémio comprimido em 2026, começou a diversificar para ativos do mundo real.
Como pode um investidor em Portugal aceder à base dos futuros?
Futuros e perpétuos são instrumentos financeiros sob a DMIF II, supervisionados pela CMVM, e ficam fora do MiCA. A ESMA equipara os perpétuos a CFD, com alavancagem de retalho limitada a 2:1 na cripto. Capturar a base líquida exige escala, margem eficiente e capital barato, vantagens que o retalho raramente tem.
Liam Brennan é editor de mercados da HOGE Wire e escreve sobre estrutura de mercado, derivados e a fronteira entre a cripto e a macroeconomia.