O planalto das taxas L2: a Glamsterdam adiada para o Q4 de 2026
A Ethereum lançou a testnet Platåberget e empurrou a Glamsterdam para o quarto trimestre de 2026. Com os blobs no piso e a execução adiada, as taxas das L2 entram num planalto até 2027.
Para quem envia uma transação numa rede layer-2 da Ethereum, agosto de 2026 trouxe uma notícia que quase ninguém traduziu para o que interessa à carteira: a próxima grande descida das taxas foi adiada. A 17 de agosto, a Ethereum Foundation anunciou o arranque da Platåberget, uma testnet pública de curta duração dedicada a testar a atualização Glamsterdam, que aplicou o fork a 20 de agosto. Poucos dias antes, várias análises davam a Glamsterdam como candidata a chegar à mainnet em setembro. O alvo escorregou agora para o quarto trimestre de 2026, com hipótese de resvalar para o virar do ano.
O detalhe de calendário esconde uma consequência simples. O motor que baixou as taxas das L2 mais de 99% desde 2024, os blobs, já deu quase tudo o que tinha para dar, e um piso técnico introduzido na própria Fusaka impede que o custo dos dados caia até ao zero. O segundo motor, a reavaliação da execução na camada base que a Glamsterdam traz, está atrasado. O resultado é um planalto: as taxas das L2 dificilmente descem muito mais até a Glamsterdam entrar, e a Glamsterdam entra mais tarde do que o mercado tinha inscrito. Tudo isto num pano de fundo de recuperação do ativo, com o ETH a negociar perto de 2.170 euros (CoinGecko) depois de um salto de cerca de 9% em 24 horas.
Esta análise faz a previsão de compressão a partir desse facto. Não é a pergunta habitual («até onde caem as taxas?»), mas a que o adiamento torna urgente: se o custo dos dados já bateu no piso e a execução ficou para depois, quanto tempo dura a pausa, quem beneficia dela e o que a rompe a seguir. Fá-lo com preços em euros e com a lente do supervisor português, a CMVM, para o leitor que opera a partir de Lisboa ou do Porto.
A notícia que muda a previsão: a Glamsterdam escorregou para o Q4
A sequência oficial ficou assim. A 17 de agosto, a equipa de Protocol DevOps da Ethereum Foundation lançou a Platåberget, descrita como uma testnet de curta duração para a comunidade experimentar a Glamsterdam (o nome combina Gloas, o fork da camada de consenso, com Amsterdam, o da execução). O fork foi aplicado a 20 de agosto e a rede deve correr durante alguns meses. Só depois de estabilizar é que, segundo a fundação, se seguem uma devnet sem finalidade «dentro do mês», as testnets de longa duração Sepolia e Hoodi e, por fim, a transição da mainnet.
A leitura de calendário é o que interessa. A Glamsterdam esteve planeada para o primeiro semestre de 2026 e, mais recentemente, apontava para uma ativação em torno de 16 de setembro. Com a Platåberget a nascer só agora, esse alvo caiu: a data da mainnet continua por decidir, e as expectativas apontam para o quarto trimestre de 2026 ou mesmo para o fim do ano. Não há bloco marcado, e não haverá até uma reunião de All Core Devs fixar formalmente a altura de ativação.
A justificação dos programadores é conhecida e repete-se a cada ciclo: a correção do protocolo tem prioridade sobre cumprir uma data. É uma boa política de engenharia, mas tem um efeito de mercado que raramente é dito em voz alta. Cada semana de atraso na Glamsterdam é uma semana a mais em que as taxas das L2 ficam onde estão, porque o instrumento que as faria descer outra vez não está ligado. Para um forecast, o calendário deixou de ser nota de rodapé e passou a ser a variável principal.
Dois motores, uma trava: porque é que o calendário decide as taxas
Para perceber porque é que o calendário pesa tanto, é preciso separar de que é feita a taxa que se paga numa L2. Há três componentes. A maior, desde a Dencun, é o custo de disponibilizar os dados da transação (data availability), publicados na Ethereum sob a forma de blobs; estima-se que represente cerca de 90% do custo operacional de um rollup. A segunda é o custo de execução, o gas que a própria Ethereum cobra para processar o que o rollup lhe entrega. A terceira é a margem do sequenciador, a parte que o operador da L2 acrescenta e retém.
A compressão dos últimos dois anos veio quase toda da primeira componente. A Dencun (março de 2024) criou os blobs e cortou o custo de dados em mais de 90%; a Pectra e depois a Fusaka (3 de dezembro de 2025) ampliaram o espaço de blobs, e dois BPO forks (Blob Parameter Only) subiram os alvos em dezembro e janeiro. No total, o espaço de blobs mais do que duplicou face ao nível pré-Fusaka. Foi isto que levou a taxa média dos três maiores rollups a cair 99,16%, de 0,180 dólares no primeiro trimestre de 2024 para 0,0015 dólares no primeiro trimestre de 2026, segundo dados da Token Terminal.
O problema é que esse motor está a ficar sem combustível por duas razões. A capacidade de blobs adicional depende de novos BPO forks, e o BPO3 continua sem data marcada, à espera da telemetria dos anteriores. E, mais importante, a Fusaka introduziu um piso que impede o custo dos dados de cair até perto de zero. Baixar mais as taxas deixa de ser uma questão de mais blobs e passa a depender da execução (Glamsterdam) e da margem dos sequenciadores. É por isso que o adiamento importa: tira de cena, por uns meses, a única alavanca com força para uma nova descida.
O primeiro motor esgotou-se: os blobs e o piso da Fusaka
O piso tem nome: EIP-7918. Antes da Fusaka, o preço base dos blobs passava longos períodos colado ao mínimo absoluto, na ordem de 0,000000001 Gwei, porque a procura por espaço de dados quase nunca esgotava a oferta. Na prática, os dados eram quase de graça, o que soava bem para os utilizadores mas criava dois problemas: convidava ao spam e esvaziava qualquer receita que a Ethereum captasse dos rollups.
A EIP-7918 resolve isto ancorando o preço base dos blobs ao custo de execução da própria Ethereum. O mecanismo é aritmético: o custo mínimo por blob (BLOB_BASE_COST) foi fixado em 8192 e, como cada blob consome 131072 unidades de gas, o preço base dos blobs não pode cair abaixo de um dezasseis avos (1/16) do preço base de execução da L1, verificável na especificação final da EIP-7918. Traduzindo: quando a Ethereum está barata, os blobs continuam a ter um chão; quando a Ethereum fica cara, esse chão sobe.
O efeito foi imediato e brutal em termos relativos. Kydo (0xkydo), investigador conhecido no ecossistema, observou que o preço base dos blobs subiu cerca de 15 milhões de vezes desde a entrada da EIP-7918, precisamente porque partiu de um valor quase nulo. Em euros por transação a diferença é minúscula, mas a mensagem para um forecast é enorme: a era em que «mais blobs igual a taxas mais baixas» acabou. A partir daqui, o custo dos dados oscila com o preço da Ethereum, e não com a quantidade de espaço. A descida seguinte tem de vir de outro lado.
Onde estão as taxas hoje: o mapa em cêntimos
Antes de projetar para onde vão, convém fixar onde estão. As taxas variam ao segundo com a procura, mas a ordem de grandeza é estável e pode ser consultada em tempo real no L2BEAT. Para uma transferência simples, os valores medianos no primeiro semestre de 2026 andavam assim (convertidos para euro à taxa EUR/USD de cerca de 1,17; os dados de origem são em dólares):
| Rede L2 | Taxa mediana por transferência (aprox.) |
|---|---|
| Base | 0,017 euros |
| OP Mainnet | 0,026 euros |
| Arbitrum One | 0,034 euros |
| Linea | 0,034 euros |
| zkSync Era | 0,043 euros |
| Scroll | 0,051 euros |
O que a tabela não mostra por si só é o tamanho do caminho já percorrido. A média de taxa dos três maiores rollups (Arbitrum, Base e Optimism) caiu de cerca de 0,154 euros por operação no primeiro trimestre de 2024 para perto de 0,0013 euros no primeiro trimestre de 2026, uma queda de 99,16% segundo a Token Terminal. Dito de outra forma, o utilizador que pagava o preço de um café por uma transferência passou a pagar uma fração de cêntimo. A questão de investimento e de produto deixou de ser «isto vai ficar barato?» e passou a ser «o que sobra para comprimir depois de já estar quase tudo comprimido?».
A resposta honesta é: pouco, no curto prazo, e é isso que o planalto significa. Os ganhos que faltam são de segunda ordem (execução mais eficiente, compressão de dados do lado do rollup, margens de sequenciador mais finas), e o maior deles, a execução, é precisamente o que a Glamsterdam adiou.
O segundo motor está atrasado: o que a Glamsterdam faz às taxas
Se os blobs cuidam dos dados, a Glamsterdam mexe na execução, e é aí que está a próxima descida. A atualização é a maior reestruturação da camada base desde a fusão (the Merge), e a lista de EIP que a Ethereum Foundation associou à Platåberget deixa isso claro: EIP-7732 (proposer-builder separation inscrita no protocolo, a chamada ePBS), EIP-7928 (block-level access lists, que permitem processar transações em paralelo), EIP-8037 (uma nova dimensão de gas para a criação de estado), EIP-8007 (reavaliação de custos de gas), EIP-7954 (contratos maiores) e a meta EIP-7773, que agrega o conjunto.
Para as taxas, três destas peças contam mais. A ePBS reorganiza a produção de blocos e alarga a janela de validação de cerca de 2 para cerca de 9 segundos, segundo a Odaily, o que abre espaço a blocos maiores sem sacrificar a estabilidade. As block-level access lists permitem execução paralela, arrancando mais trabalho do mesmo tempo. E a combinação de reavaliações de gas com um aumento substancial do limite de gas do bloco baixa o custo por unidade de execução na L1, que é uma das componentes que o rollup repassa ao utilizador.
Quanto desce? Aqui é preciso ser rigoroso: os números que circulam (várias dezenas de pontos percentuais de corte nas taxas de execução para operações simples) são projeções de análises de imprensa e de discussões técnicas, não valores fechados. O sentido é claro (execução mais barata na L1 arrasta as taxas das L2 para baixo), a magnitude não está garantida, e nada disto acontece antes de a Glamsterdam entrar. Com a mainnet empurrada para o quarto trimestre, o efeito realista sobre a carteira do utilizador é uma história de 2027, não de 2026.
A ironia do gas: nem todas as transações vão ficar mais baratas
Há uma subtileza na Glamsterdam que desmonta a ideia de que «as taxas só descem». Um dos centros da atualização, segundo a Odaily, é a EIP-8037, que cria uma dimensão de gas própria para a criação de estado: enviar valor para uma conta nova, o que obriga a rede a guardar mais dados de forma permanente, passa a custar mais gas do que enviar para uma conta já existente. A própria Ethereum Foundation avisou que a hipótese clássica de que uma transferência custa 21.000 unidades de gas vai deixar de ser universal, o que obriga carteiras e ferramentas a atualizar os seus cálculos.
Ou seja, a Glamsterdam não é um corte linear: é uma reavaliação com vencedores e vencidos. As operações que hoje estão subvalorizadas em gas face ao custo real que impõem à rede (criar estado novo, contratos que ocupam muito espaço) ficam mais caras; as que estão sobrevalorizadas, e o grosso do tráfego de execução comum cai aqui, ficam mais baratas graças às reavaliações e ao paralelismo. O saldo para o utilizador típico de uma L2 deve ser positivo, mas depende da composição da transação.
Para um forecast, esta nuance é saudável. Ensina que a compressão futura não é um número único que se aplica a tudo, e que parte do ganho vem de fazer a rede cobrar melhor, não apenas de a fazer cobrar menos. Também explica porque é que os programadores não têm pressa: mexer nos preços de gas de forma errada parte aplicações e ferramentas em produção, e é exatamente o tipo de risco que justifica o adiamento.
O calendário revisto, passo a passo
Vale a pena ter o calendário revisto num único quadro, com a ressalva de que, à exceção das etapas já concluídas e do fork da Platåberget, as datas são alvos móveis e não blocos marcados:
| Etapa | Data | Estado |
|---|---|---|
| Dencun (blobs, EIP-4844) | Março 2024 | Concluído |
| Fusaka (PeerDAS, piso EIP-7918) | 3 Dez 2025 | Concluído |
| BPO1 e BPO2 (mais blobs) | Dez 2025 / Jan 2026 | Concluído |
| BPO3 (mais blobs) | Sem data | Pendente (telemetria) |
| Platåberget (testnet Glamsterdam) | Fork a 20 Ago 2026 | A decorrer |
| Devnet sem finalidade | Setembro 2026 (alvo) | Planeado |
| Sepolia e Hoodi (Glamsterdam) | Setembro/Outubro 2026 (alvo) | Planeado |
| Glamsterdam mainnet | Q4 2026 (talvez fim do ano) | Por marcar |
Duas linhas merecem destaque. A primeira é o BPO3: seria a via mais rápida para mais espaço de blobs, mas continua sem data enquanto os programadores digerem a telemetria dos BPO anteriores; sem ele, o lado dos dados fica onde está. A segunda é a mainnet da Glamsterdam, o único evento com força para uma nova descida material, agora no quarto trimestre e por marcar. Entre uma coisa e outra, o mapa mostra um vazio de catalisadores de setembro em diante, e é esse vazio que o planalto reflete.
Convém não ler o adiamento como fracasso. A Glamsterdam é descrita pela Odaily como a maior reestruturação de sempre da camada base, e a decisão de a testar primeiro numa rede dedicada, a Platåberget, antes de a levar às testnets de produção, é sinal de disciplina, não de desnorte. Para o mercado de taxas, porém, disciplina traduz-se em tempo, e tempo traduz-se em planalto.
Três cenários para as taxas L2 até 2027
Juntando as peças (dados no piso, execução adiada, margem discricionária), o forecast organiza-se melhor em cenários do que num número único. Os valores abaixo são ordens de grandeza para a taxa mediana de uma transferência simples nas L2 líderes, não previsões ao cêntimo:
| Cenário | Premissa central | Taxa mediana esperada | Quando |
|---|---|---|---|
| Central | Glamsterdam na mainnet no Q4 2026 (perto de novembro); alívio de execução a partir do 1.º trimestre de 2027 | Planalto na casa dos 0,001 a 0,002 euros até final de 2026; deriva para 0,0005 a 0,001 euros ao longo de 2027 | Descida material só em 2027 |
| Otimista | Glamsterdam cedo no trimestre e um BPO3 com data | Medianas das melhores L2 furam o nível de custo da Solana, para perto de 0,0003 euros | Meados de 2027 |
| De atraso | Novos escorregões, BPO3 sem data, mainnet resvala para 2027 | Planalto prolongado, ancorado em cerca de 0,002 euros pelo piso EIP-7918 e pela margem do sequenciador | Sem nova perna de descida em 2026 nem no início de 2027 |
O cenário central assume a Glamsterdam na mainnet no quarto trimestre (o mercado trabalha com algo próximo de novembro) e o alívio de execução a materializar-se só no primeiro trimestre de 2027. Nesse mundo, o resto de 2026 é planalto: as taxas ficam presas na casa dos milésimos de euro, com a EIP-7918 e a margem dos sequenciadores a segurar o chão, e a descida seguinte chega já em 2027.
O cenário otimista precisa de duas coisas ao mesmo tempo: a Glamsterdam a entrar cedo no trimestre e um BPO3 marcado a dar mais blobs. Aí, as medianas das melhores L2 podem furar o nível de custo da Solana. Não é fantasia: um artigo académico de previsão de taxas projeta que as medianas das L2 passem a ser inferiores às da Solana a partir de outubro de 2026, com base na tendência histórica de queda (mais de 95%, de 0,05 para 0,0015 dólares). O adiamento da Glamsterdam torna este cenário mais dependente dos blobs e do calendário do que era há um mês.
O cenário de atraso é o espelho: novos escorregões, BPO3 sem data e a mainnet a resvalar para 2027. Aqui o planalto prolonga-se, e as taxas assentam onde o piso técnico e a margem as deixam, sem a nova perna de descida. Para quem faz contas de negócio em cima de taxas quase nulas, este é o cenário a cobrir, não a ignorar.
A conta que a Ethereum paga: value accrual num planalto
Há uma segunda conta neste adiamento, e é a da Ethereum enquanto ativo. Taxas mais baixas e menos transações na camada base significam menos ETH queimado pela EIP-1559. A receita de taxas da camada base já caiu drasticamente face aos máximos de 2021, e a Fidelity Digital Assets estima que, em 2026, os blobs representem entre 30% e 50% de todo o ETH queimado. O piso da EIP-7918 existe, em parte, para travar esta erosão: garante que os rollups pagam algo pela Ethereum, em vez de quase nada.
Os números tornam o problema concreto. Segundo a Fidelity, ao longo de um ano a Base pagou cerca de 5,2 milhões de dólares em taxas de blobs à Ethereum, enquanto arrecadava perto de 94 milhões de dólares em receita de utilizadores; a EIP-7918 teria acrescentado cerca de 30,6 milhões de dólares ao valor devolvido aos detentores de ETH, só a partir da Base. É a tensão de fundo do modelo: as L2 vivem da Ethereum, mas devolvem-lhe uma fração do que ganham, e é sobre esse desequilíbrio que se joga a tese do ETH como «dinheiro ultrassónico». Quem quiser aprofundar a mecânica de oferta e queima do ETH encontra-a no nosso trabalho sobre a oferta que encolhe.
O adiamento da Glamsterdam corta para os dois lados. Por um lado, menos execução barata na L1 significa que a compressão de receita abranda, o que segura a queima. Por outro, a Glamsterdam traz reavaliações que, quando chegarem, mudam a economia de gas da camada base. Vitalik Buterin já avisou, ao apresentar o roteiro «Lean Ethereum», que fala de «a terceira grande iteração da Ethereum, sendo a fusão a segunda», e que uma reformulação dos ERC-20 ao estilo UTXO «poderia cortar as taxas de transação em mais de 10 vezes» ao longo de, «grosso modo, os próximos cinco anos», segundo o The Defiant. A expressão que importa é «cinco anos»: os cortes grandes de execução não são para já.
Entretanto, a concorrência pela disponibilidade de dados empurra o custo dos dados para baixo fora da Ethereum. Mustafa Al-Bassam, cofundador da Celestia, descreve o blockspace da sua rede como «basicamente gratuito», cotado no mínimo necessário para resistir a spam e otimizado para crescimento, não para receita. Se a alternativa é quase de graça, o piso que a Ethereum cobra aos rollups fica sob pressão competitiva, e a tese de que as taxas de dados são o último bastião de acumulação de valor do ETH torna-se mais frágil. Para o investidor, o planalto de taxas é também um planalto de queima, e a leitura de uma tesouraria cripto exposta a estes fluxos exige perceber por que caiu o fim do prémio.
Quem ganha com a pausa e quem perde
Uma pausa não é neutra: redistribui. Enquanto a execução não fica mais barata, o fosso entre o que o utilizador paga e o que a L2 paga à Ethereum mantém-se largo, e esse fosso é margem. Vale a pena mapear quem fica de que lado.
- Sequenciadores e operadores de L2: beneficiam. Com a compressão de execução em pausa, a margem que o operador retém não sofre nova pressão descendente já em 2026. Quem constrói e gere estas redes ganha tempo para consolidar receita, um tema tratado em o culto do builder.
- Aplicações on-chain: beneficiam da estabilidade. Uma perp DEX ou um protocolo de negociação que vive de taxas baixas prefere um planalto previsível a uma descida acompanhada de mudanças de regras de gas; a arquitetura destas casas explica-se em perp DEX sob o capô.
- Detentores de tokens de L2 (ARB, OP e afins): resultado misto. A receita de sequenciador aguenta-se, mas na maioria dos desenhos não chega aos detentores do token, pelo que a pausa não se traduz em valor direto para quem detém o ativo de governação.
- Utilizadores e remessas: neutro a ligeiramente negativo. As taxas ficam baixas, mas a próxima descida foi adiada; quem esperava chegar a valores tipo Solana em 2026 espera agora por 2027.
- Detentores de ETH: resultado misto. Menos execução barata segura a queima no curto prazo, mas mantém viva a questão de fundo sobre quanto valor os rollups devolvem à camada que os sustenta.
A conclusão prática é que o adiamento favorece quem opera as redes e as aplicações, e adia o presente para quem só quer a taxa mais baixa possível. Não é o «fim da guerra de preços»; é um cessar-fogo com data de fim marcada pela Glamsterdam.
O ângulo português: o que a CMVM vigia quando as taxas colapsam
Do lado português, o colapso das taxas não muda o perímetro de supervisão; muda o volume do que passa por ele. O enquadramento está fixado: a Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, adapta o MiCA à ordem jurídica nacional, e o período transitório para os prestadores portugueses terminou a 1 de julho de 2026. A repartição de competências é conhecida: a CMVM vigia a conduta de mercado e o abuso de mercado (os títulos relativos à negociação e à manipulação), enquanto o Banco de Portugal cuida da parte prudencial e das stablecoins (os tokens de moeda eletrónica e referenciados a ativos). As coimas vão de 25 mil a 5 milhões de euros, podendo chegar a 15% do volume de negócios.
Porque é que taxas quase nulas interessam ao supervisor? Por duas vias. Primeiro, porque tornam trivial fragmentar operações em milhares de micro-transações, o que altera o padrão que qualquer sistema de deteção de abuso de mercado tem de ler; um esquema de manipulação numa L2 barata parece ruído até deixar de o parecer. Segundo, porque cada micro-ganho continua, em princípio, a ser um facto tributável, e a economia de sub-cêntimo multiplica o número de eventos que um contribuinte diligente teria de registar. O detalhe fiscal foge ao âmbito deste artigo, mas a direção é clara: mais barato não é sinónimo de mais simples.
Há ainda uma fronteira que convém não confundir. Os derivados de cripto (futuros e perpétuos), muito negociados precisamente porque as L2 os tornaram baratos, são instrumentos financeiros sob a DMIF II (MiFID II) e não sob o MiCA; a supervisão de conduta cabe à CMVM enquanto reguladora de mercados. Para o leitor que opera a partir de Portugal, a regra de bolso é simples: a taxa que paga pode ser de um cêntimo, mas o regime que o protege (ou que o responsabiliza) é o mesmo dos mercados a sério.
O que vigiar nas próximas semanas
O planalto não é estático; tem gatilhos datáveis. Estes são os sinais que, se dispararem, mudam o forecast antes do fim do ano:
- A devnet sem finalidade pós-Platåberget: a Ethereum Foundation prometeu-a «dentro do mês». É o primeiro teste de que a Glamsterdam aguenta condições adversas antes de ir para as testnets de produção.
- Datas de Sepolia e Hoodi: quando forem marcadas (esperadas para setembro e outubro), passam de alvo a compromisso e permitem estimar a mainnet com menos margem de erro.
- O bloco de ativação da mainnet: só quando uma reunião de All Core Devs fixar a altura do bloco é que a descida de execução deixa de ser hipótese e passa a ter data. É o gatilho que verdadeiramente rompe o planalto.
- Uma data para o BPO3: daria mais espaço de blobs sem esperar pela Glamsterdam, aliviando o lado dos dados. Continua por marcar.
- Movimentos no mercado de dados: uma L2 grande a mudar a sua disponibilidade de dados para fora da Ethereum, ou um incidente numa camada de dados alternativa, mexe no piso competitivo das taxas.
Há também o calendário de mercado. Empurrar a Glamsterdam para o quarto trimestre coloca o catalisador técnico em cima da janela sazonal que o mercado gosta de chamar «uptober» e do fecho de ano, um cruzamento explorado em uptober e o fim de ano cripto. Se a atualização entrar em novembro, a narrativa de «taxas ainda mais baixas» chega ao mercado ao mesmo tempo que a sazonalidade, o que pode amplificar a atenção mediática mesmo que o efeito real na carteira só se sinta em 2027.
Para o leitor prático, a síntese é esta: até haver um bloco marcado para a Glamsterdam ou uma data para o BPO3, a previsão sensata é planalto. As taxas das L2 estão baixas, vão continuar baixas, e a próxima perna de descida tem agora um calendário mais longo do que tinha em julho.
Perguntas frequentes
Porque é que a Glamsterdam foi adiada para o quarto trimestre de 2026?
Porque a testnet pública Platåberget só arrancou a 17 de agosto (com o fork a 20 de agosto), o que empurrou para diante as etapas seguintes (Sepolia, Hoodi e mainnet). Os programadores dão prioridade à correção do protocolo sobre qualquer data, e a mainnet fica por decidir até uma reunião de All Core Devs fixar a altura do bloco. As expectativas apontam agora para o quarto trimestre de 2026, talvez para o fim do ano.
As taxas das L2 vão continuar a descer em 2026?
Pouco, no curto prazo. O motor dos blobs bateu no piso da EIP-7918 e o motor da execução (Glamsterdam) está atrasado. O cenário central é um planalto na casa dos milésimos de euro durante o resto de 2026, com a próxima descida material a chegar apenas em 2027, quando as mudanças de execução entrarem na mainnet.
O que é o piso da EIP-7918 e porque é que impede taxas nulas?
É um limite mínimo para o preço base dos blobs, fixado em um dezasseis avos (1/16) do preço base de execução da Ethereum. Antes dele, os dados eram quase de graça, o que convidava ao spam e não devolvia valor ao ETH. Com o piso, mais blobs deixam de significar automaticamente taxas mais baixas: o custo dos dados passa a acompanhar o preço de execução da rede.
Quanto custa hoje uma transação numa L2 em euros?
Uma transferência simples anda entre cerca de 0,017 euros na Base e cerca de 0,05 euros na Scroll, com a média dos três maiores rollups a ter caído 99,16% desde 2024. Os valores mudam ao segundo com a procura e podem ser consultados em tempo real no L2BEAT.
Como é que a compressão de taxas afeta o preço e a queima do ETH?
Taxas mais baixas e menos transações na camada base significam menos ETH queimado. A receita da camada base já caiu muito face a 2021, e a Fidelity estima que os blobs valham 30% a 50% da queima em 2026. A EIP-7918 compensa em parte, ao obrigar os rollups a pagar um piso. O adiamento da Glamsterdam abranda tanto a compressão como a erosão da queima.
Por Priya Reddy, editora de mercados da HOGE Wire.