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● Predictions & Forecasts

Autópsia do ultrasound money: porque o ETH voltou a inflacionar

O ETH negoceia perto dos 2.155 EUR, mas o protocolo voltou a cunhar mais do que queima. Fazemos a autópsia do ultrasound money e da proposta que quer cortar a emissão a zero.

A Ethereum vive um paradoxo que raramente cabe num título. O ETH negoceia perto dos 2.154,73 EUR, prolonga a melhor sequência semanal desde a primavera de 2025 e, ao mesmo tempo, o protocolo faz uma coisa que a sua própria mitologia jurou impedir: cunha mais moeda do que destrói. A promessa de uma moeda cada vez mais rara, o célebre «ultrasound money», está tecnicamente avariada há mais de dois anos, e quase ninguém que compra ETH em euros sabe porquê.

Este texto não é a fotografia contabilística da oferta (quanto se emite, quanto se queima, qual o saldo do dia). Essa análise já a fizemos noutras edições. É uma autópsia: uma reconstituição de como o motor deflacionário da Ethereum se avariou, porque é que o sucesso técnico da rede foi precisamente o que o desligou, e o que os investigadores propõem agora para o substituir. A resposta é uma viragem filosófica que divide a comunidade ao meio e que, se avançar, mudará a forma como o ETH gera escassez.

Em poucas palavras: a Ethereum está a passar da escassez por queima para a escassez por decreto. Deixar de contar apenas com as taxas destruídas nas transações e passar a cortar diretamente a emissão nova, através de uma proposta chamada EIP-8361. É um plano tão radical que alguns dos maiores construtores de DeFi se juntaram para o travar. Vamos por partes.

O paradoxo em números

Comecemos pelo retrato do dia. O ETH vale cerca de 2.155 EUR (perto de 2.514 dólares), com uma capitalização de mercado na ordem dos 260 mil milhões de euros e uma oferta em circulação de 120,68 milhões de moedas, segundo os dados da CoinGecko. O preço está ainda cerca de 49% abaixo do máximo histórico de agosto de 2025, mas recuperou com força nas últimas semanas.

A oferta total, medida pelo painel de referência da ultrasound.money, ronda os 121,99 milhões de ETH. Repare no detalhe importante: esse valor está acima dos cerca de 120,5 milhões que existiam na altura da Fusão (Merge), em setembro de 2022. Por outras palavras, apesar de todo o discurso sobre queima e deflação, há hoje mais ETH do que havia quando a rede trocou a mineração pelo staking. A emissão líquida anualizada oscila em torno de zero nas janelas curtas, mas a tendência desde 2024 tem sido ligeiramente positiva. É esse pequeno sinal de mais que estraga a lenda.

Do lado da destruição, o balanço é impressionante e enganador ao mesmo tempo: desde a ativação da EIP-1559, em agosto de 2021, foram queimados mais de 4,5 milhões de ETH, um valor que já ultrapassou os 15 mil milhões de dólares aos preços recentes. O problema não é a falta de queima acumulada; é que o ritmo dessa queima colapsou. Para perceber porquê, temos de voltar ao princípio.

O que prometia o «ultrasound money»

A tese do ultrasound money assentou em duas peças de engenharia monetária. A primeira foi a EIP-1559, lançada em agosto de 2021: a partir daí, cada transação passou a pagar uma taxa-base (base fee) que não vai para o mineiro ou validador, mas é destruída, retirada de circulação para sempre. Quanto mais congestionada a rede, mais alta a taxa-base, mais ETH queimado. A queima transformou a atividade da rede num mecanismo de raridade.

A segunda peça foi a Fusão, em setembro de 2022, que substituiu a mineração por proof-of-stake e cortou a emissão de novo ETH em cerca de 90%. O investigador Justin Drake batizou o resultado de ultrasound money e popularizou a imagem: se a Bitcoin era «sound money» com uma emissão fixa mas positiva até por volta de 2140, a Ethereum seria «ultra» porque poderia, em teoria, encolher. A promessa, resumida pela CoinLedger, era simples e sedutora: quando a rede está ocupada, queima-se mais do que se emite, e a oferta diminui. Uma moeda que fica mais rara à medida que é mais usada.

Durante um tempo, funcionou exatamente assim. E é essa memória, mais do que a realidade atual, que ainda sustenta grande parte da narrativa de investimento em torno do ETH.

A era deflacionária, de 2022 a 2024

Nos primeiros dezoito meses depois da Fusão, a mecânica cumpriu o guião. A atividade acontecia sobretudo na camada 1, a cadeia principal da Ethereum, e nos dias cheios (lançamentos de NFT, frenesim de DeFi, épocas de airdrops) a taxa-base disparava para dezenas de gwei. Com a emissão amputada pela passagem ao staking e a queima a correr a plena carga, o saldo virava-se do avesso: destruía-se mais ETH do que se criava.

O efeito acumulado foi visível. A oferta total chegou a descer abaixo do nível registado na Fusão, e os gráficos da ultrasound.money passavam longos períodos a vermelho, isto é, em contração. Foi a idade de ouro do meme. Quem comprou ETH nessa fase interiorizou a ideia de que estava a segurar um ativo estruturalmente deflacionário, um cofre que se apertava sozinho. O detalhe que poucos guardaram é que essa deflação dependia inteiramente de uma coisa: congestionamento na camada 1. Sem filas, sem taxas altas; sem taxas altas, sem queima. A Ethereum tinha construído a sua escassez em cima da sua própria ineficiência, e estava prestes a resolver essa ineficiência.

Dencun, o dia em que o motor abrandou

A data a reter é 13 de março de 2024. A atualização Dencun introduziu a EIP-4844, conhecida por proto-danksharding, e com ela os blobs: um espaço de dados dedicado e barato, criado especificamente para as redes de camada 2 (os rollups) publicarem os seus dados na Ethereum. O objetivo era louvável e central ao plano da rede: baixar drasticamente o custo das transações nas L2.

Conseguiu-o com folga. As taxas nas principais L2 caíram entre dez e cem vezes. Só que os blobs têm um mercado de preços próprio, separado da taxa-base da camada 1, e durante muito tempo custaram praticamente nada. A atividade que antes engarrafava a cadeia principal, e alimentava a queima, migrou para esse espaço barato. O resultado foi imediato e brutal: a queima diária, que em dias movimentados chegava aos milhares de ETH, desabou para o intervalo dos 50 a 70 ETH por dia. Com a emissão a rondar milhares de moedas diárias e a queima a esvaziar-se, a equação inverteu-se. A partir de meados de 2024, a Ethereum passou a criar mais ETH do que destruía.

A raiz técnica do problema está em a Ethereum ter, desde o Dencun, dois mercados de taxas separados. As transações normais pagam a taxa-base de execução, que é queimada; os rollups publicam os seus dados através de um segundo mercado, o dos blobs, com um preço próprio que só sobe quando a procura por espaço de dados esgota a capacidade disponível. Enquanto houver blobs a mais para a procura existente, esse segundo preço fica no mínimo, perto de zero, e quase não alimenta queima nenhuma. Foi exatamente o que aconteceu: a rede criou tanta capacidade de blobs que raramente se esgota, e a queima que dependia da camada 1 congestionada desapareceu com o congestionamento.

O paradoxo das L2: o sucesso que matou a queima

Aqui reside a ironia que dá título a esta autópsia. A Ethereum adotou oficialmente um plano «rollup-centric»: empurrar o grosso da atividade para as camadas 2, deixando a camada 1 como base de liquidação e segurança. Esse plano correu bem. As L2 processam hoje uma fatia enorme das transações a cêntimos por operação. Mas a queima era, na prática, um imposto sobre o congestionamento da camada 1. Retirar o congestionamento é retirar o imposto. Quanto melhor a Ethereum escalou, menos deflacionária ficou.

Não é um pormenor técnico; é uma contradição de desenho. O ativo cuja raridade dependia de a rede ser cara e cheia foi otimizado para ser barata e vazia na camada onde a queima acontece. Como resumiu a Cointelegraph, o crescimento líquido da oferta instalou-se numa faixa modesta, algo entre 0,2% e 0,8% ao ano consoante o período, o suficiente para matar o meme sem chegar a assustar ninguém. A tabela abaixo compara os dois regimes.

Métrica2022 a início de 2024Depois do Dencun (mar. 2024)
Queima diária (taxa-base)milhares de ETH nos dias cheioscerca de 50 a 70 ETH
Onde acontece a atividadesobretudo na camada 1migrou para blobs nas L2
Saldo líquido da ofertafrequentemente negativo (deflação)positivo (inflação ligeira)
Emissão líquida anualizadapor vezes abaixo de zerocerca de +0,2% a +0,8%
Narrativa dominante«ultrasound money»«ultrasound money avariado»

A conta de hoje: 122 milhões de ETH e a subir

Convém não exagerar no drama. A inflação da Ethereum não é a de uma moeda fiduciária em crise nem a da Bitcoin nos seus primeiros anos. Falamos de um crescimento líquido que, no pico pós-Dencun, andou perto de 0,7% ao ano e que tem um teto teórico modesto. A oferta total está nos 121,99 milhões de ETH, cerca de 1,5 milhões acima da linha da Fusão, e continua a somar devagar. Não é uma hemorragia; é uma torneira a pingar.

O que morreu não foi o valor do ETH, foi a certeza narrativa. Durante dois anos, o argumento de venda mais limpo do ativo era matemático: o cofre aperta-se sozinho. Esse argumento deixou de ser verdade de forma consistente, e a comunidade percebeu que precisava de outra coisa para justificar a raridade. É desse buraco que nascem as duas respostas seguintes: primeiro tapar a fuga na queima (a Fusaka), depois mudar o próprio motor (a EIP-8361). A conta contabilística fria, os fluxos de emissão e queima que descrevemos noutras análises, é o pano de fundo; o interessante agora é a política monetária que a comunidade está a inventar por cima dela.

Vale a pena juntar a este quadro o lado da procura, porque a oferta é apenas metade da história. Se o ETH conseguiu subir enquanto o protocolo emitia a mais, foi porque a procura absorveu com folga essa inflação ligeira: o staking retira moedas do mercado, as tesourarias de empresas cotadas acumulam ETH nos seus balanços e os fundos cotados à vista compram para os seus cofres. Um acréscimo de meio ponto percentual na oferta anual é trivial quando a procura estrutural cresce a um ritmo muito superior. Por isso, quem lê apenas a inflação líquida e conclui que o ETH está condenado comete o erro simétrico de quem, em 2023, achava que a deflação bastava para o valorizar. A oferta importa, mas nunca determina o preço sozinha.

Fusaka e o piso do blob (EIP-7918)

A primeira reação da engenharia foi tentar reanimar a queima sem desfazer o barateamento das L2. Chegou a 3 de dezembro de 2025 com a atualização Fusaka e, dentro dela, a EIP-7918. A ideia é elegante: criar um piso para o preço dos blobs, ligando o custo mínimo de um blob à taxa-base de execução da rede (grosso modo, a taxa-base a dividir por dezasseis). Assim, mesmo quando a procura por espaço de dados é baixa, os rollups pagam sempre um mínimo, e há sempre um fluxo garantido de ETH a ser queimado.

Quanto vale isto? Uma análise da Fidelity Digital Assets estimou que, se a EIP-7918 tivesse estado ativa desde o Dencun, teria gerado cerca de 24.641 ETH adicionais de queima (perto de 78,6 milhões de dólares), com a taxa ajustada a superar a observada em 93% dos dias. É um reforço real, mas é preciso ser honesto sobre a escala: é um piso, não uma ressurreição. Não devolve a era deflacionária; apenas impede que a queima volte a cair para quase zero. A Fusaka trouxe ainda o PeerDAS, que aumentou a capacidade de blobs e, portanto, o espaço barato para as L2 crescerem, o que continua a puxar no sentido contrário ao da queima. O piso ajuda, mas não resolve o problema de fundo.

EIP-8361: da queima de taxas ao corte da emissão

Se a queima já não garante escassez, resta atacar o outro lado da equação: a emissão. É isso que faz a EIP-8361 (por vezes numerada como EIP-8363, devido a um choque de numeração), apresentada a 4 de agosto de 2026 por seis investigadores ligados à Ethereum Foundation e à comunidade, entre eles pintail, Jérôme de Tychey, dapplion, pa7x1, Ladislaus von Daniels e Justin Drake. O nome técnico é «tapered issuance burn», queima progressiva da emissão.

O mecanismo, descrito pela Crowdfund Insider, funciona assim: à medida que sobe a percentagem de ETH em staking, o protocolo passa a queimar uma fatia crescente das recompensas de consenso de cada validador. Quando o total em staking chega a cerca de 60,25 milhões de ETH (aproximadamente 50% da oferta), essa fatia atinge os 100% e a emissão líquida de consenso cai a zero. A transição é gradual, distribuída por cerca de dezoito meses, e para suavizar o choque o parâmetro BASE_REWARD_FACTOR chega a duplicar temporariamente de 64 para 128. A filosofia por trás é a da «emissão mínima viável»: pagar aos validadores apenas o estritamente necessário para garantir segurança, e nem uma moeda a mais.

É uma inversão conceptual. A Ethereum deixaria de tentar ser rara porque queima taxas (algo que depende do uso da rede) e passaria a ser rara porque decide, por regra, não emitir (algo que depende de governança). A tabela resume os dois extremos da curva proposta.

Nível de stakingETH em staking (aprox.)Parte das recompensas queimadaRendimento líquido de emissão
Hoje (cerca de 34%)cerca de 41,4 milhõesfração baixa (fase de arranque)cerca de 2,6% bruto
Meta de saturação (cerca de 50%)cerca de 60,25 milhões100%0% (emissão de consenso a zero)

Importa sublinhar o estado da proposta: a EIP-8361 continua em rascunho (Draft), com o pull request aberto, sem aprovação, sem calendário e sem lugar garantido em nenhuma atualização. Não obteve o estatuto de proposta para inclusão, e vários analistas, incluindo a Messari, consideram improvável que passe tal como está, dada a complexidade e o potencial de perturbação. Mas o simples facto de existir já reorganizou o debate.

A guerra do staking: os construtores contra-atacam

A reação foi rápida e áspera. De um lado, os investigadores da Ethereum Foundation, preocupados com a pureza monetária e com o risco de o staking crescer sem limite. Do outro, os construtores que vivem em cima do rendimento do staking: os protocolos de staking líquido, os mercados de crédito, toda a economia de DeFi que usa ETH e os seus derivados como colateral produtivo.

Stani Kulechov, fundador da Aave, foi dos mais duros. Em declarações citadas pela CryptoTimes, escreveu que a proposta «infelizmente não alcança o resultado que tenta alcançar e é, na verdade, prejudicial para a Ethereum» e que «a Ethereum não deve ser punida pelo seu crescimento». O argumento de fundo é económico: se o staking deixa de render, deixa de fazer sentido pedir ETH emprestado, e um dos pilares do mercado de crédito on-chain perde a razão de existir; a única motivação para pedir ETH emprestado passaria a ser vendê-lo a descoberto.

Mike Silagadze, presidente da ether.fi, não foi mais suave: disse que a proposta é «tão desanimadora a todos os níveis» e atirou uma pergunta que se tornou palavra de ordem entre os críticos: «Todos os construtores da Ethereum se opõem a isto. Porque é que este é o foco?». Do lado de quem submeteu a proposta, Jérôme de Tychey, presidente da Ethereum France, defendeu o processo, lembrando que «a janela está a fechar-se» e que «ser proposto para inclusão é o que abre o debate para receber comentários, não o que o encerra». A tensão não é sobre um número; é sobre quem deve controlar a política monetária da segunda maior rede de criptoativos do mundo.

Por baixo da troca de acusações há muito dinheiro em jogo. O rendimento do staking é a matéria-prima de uma indústria inteira: os tokens de staking líquido (como o stETH e os seus primos) rendem porque o ETH subjacente rende, e servem depois de colateral em empréstimos, estratégias de looping e produtos estruturados por todo o ecossistema. Cortar a emissão a zero não é apenas reduzir uma percentagem num painel; é retirar o rendimento de base a que se agarra grande parte da DeFi. Os proponentes respondem que um rendimento que só existe para diluir quem não faz staking não é riqueza real, apenas uma transferência dos passivos para os ativos, e que uma rede não precisa de subornar validadores com inflação perpétua para estar segura. É um choque entre duas visões sobre para que serve, ao certo, o rendimento do ETH.

O fim do jogo do staking: de 34% para 50%

Para perceber a urgência dos proponentes, olhe-se para a trajetória do staking. A percentagem de ETH bloqueado em validadores atingiu um máximo histórico de 33,98%, cerca de 41,4 milhões de moedas, distribuídas por perto de 903 mil validadores. E há um efeito perverso: quanto mais ETH entra em staking, mais validadores partilham a mesma bolsa fixa de emissão, o que comprime a recompensa individual. A taxa-base anualizada caiu para cerca de 2,66%, o valor mais baixo em três anos.

A projeção de de Tychey é que, ao ritmo atual, o staking poderia ultrapassar os 70 milhões de ETH até janeiro de 2028. Ora, o ponto de saturação da EIP-8361, os 60,25 milhões que zeram a emissão, ficaria pelo caminho muito antes disso. Vale a pena recordar que a recompensa de um validador tem três parcelas: a emissão de novo ETH, as gorjetas de prioridade e o valor extraído da ordenação de transações, o chamado MEV. A EIP-8361 só mexe na primeira; as gorjetas e o MEV continuariam a pingar para os stakers. Ainda assim, cortar a emissão a zero retira a parcela mais previsível do rendimento e altera por completo o cálculo de quem decide bloquear ETH em vez de o manter líquido.

Escassez por política contra escassez por protocolo

Esta é a parte que interessa a quem pensa no ETH como reserva de valor, e é aqui que a comparação com a Bitcoin fica desconfortável. A escassez da Bitcoin é uma propriedade de protocolo: 21 milhões de unidades, halvings previsíveis, uma regra tão profundamente enraizada na cultura e no código que qualquer tentativa séria de a mudar seria vista como um ataque à identidade do ativo. É rara porque é rígida.

A escassez da Ethereum, depois de tudo o que descrevemos, é cada vez mais uma questão de política: a queima da EIP-1559, a curva de emissão do staking e, potencialmente, a EIP-8361 são todas alavancas que a governança pode puxar, apertar ou soltar. Os defensores veem nisto uma virtude, a capacidade de adaptar a emissão à realidade («emissão mínima viável») em vez de ficar refém de uma regra escrita há uma década. Os céticos veem o contrário: se um comité de investigadores pode redesenhar a raridade do seu ativo a cada dois forks, então a certeza que fazia do ETH um cofre desapareceu, substituída pela confiança num processo de governança. É a diferença entre uma regra e uma decisão, e é talvez a distinção mais funda entre as duas maiores redes do setor.

Esta não é uma discussão nova, apenas mais aguda. A ideia de «emissão mínima viável» acompanha a Ethereum desde os primeiros anos: a filosofia de emitir o menos possível para garantir segurança sempre esteve no seu ADN, e cada redução de emissão anterior foi justificada com o mesmo princípio. O que mudou foi a maturidade do ativo e o valor em risco. Quando o ETH valia cêntimos, mexer na emissão era um exercício académico; hoje, com centenas de milhares de milhões em jogo e produtos financeiros regulados construídos em cima do rendimento, cada ajuste passou a ser uma decisão de política com vencedores e vencidos claros. A Ethereum está a descobrir, em direto, como é difícil gerir uma moeda por comité quando ela já vale demasiado para se poder errar.

O que muda para quem investe em euros

Para o investidor português, esta discussão tem consequências concretas, sobretudo na parte fiscal. Os rendimentos de staking são tratados pela Autoridade Tributária como rendimentos de capitais (categoria E), tributados à taxa autónoma de 28% sobre o valor de mercado à data em que são recebidos, conforme resume o Saldo Positivo da Caixa Geral de Depósitos. Isso significa que uma taxa bruta de staking de 2,66% se traduz, na prática, em algo mais próximo de 1,9% líquidos para quem cumpre as regras. Se a EIP-8361 vier um dia a cortar essa emissão, o rendimento tributável encolhe, e a matemática de bloquear ETH muda de figura.

Nas mais-valias, vale a regra dos 365 dias: quem vende ETH por euros com o ativo detido há menos de um ano paga 28% (declarado no Anexo G); quem detém há mais de 365 dias fica isento dessa componente, ainda que a operação deva ser reportada no Anexo G1. Trocar cripto por cripto não gera imposto no momento da troca. A partir de 2026, a diretiva DAC8 aumenta a partilha automática de informação entre plataformas e o fisco, pelo que a margem para esquecimentos é cada vez menor.

No plano regulatório, o período transitório da MiCA termina a 1 de julho de 2026, com a Lei n.º 69/2025 a enquadrar os prestadores de serviços de criptoativos; o Banco de Portugal e a CMVM partilham a supervisão, e a CMVM tem repetido que os criptoativos são «ativos de alto risco». Há ainda um detalhe prático: os produtos cotados europeus (ETP e ETN) sobre ETH raramente distribuem rendimento de staking, e os ETF de staking norte-americanos não estão facilmente ao alcance do investidor de retalho na União Europeia. Com a taxa de depósito do BCE em torno de 2%, o custo de oportunidade em euros é real, e um staking líquido de menos de 2% após impostos deixa de ser obviamente atrativo face a um depósito a prazo sem risco.

Três cenários até ao fim de 2026

Sendo esta uma análise para o bloco de previsões, arriscamos três desfechos plausíveis para a oferta do ETH nos próximos meses. Nenhum é uma recomendação; são molduras para ler as notícias que aí vêm. Quem quiser cruzar estas hipóteses com o lado do preço encontra no mapa de fim de ano dos preços e nos alvos que o Tesouro reprecificou o complemento natural desta leitura da oferta.

CenárioO que teria de acontecerEfeito na ofertaSinal a vigiar
Regresso da deflaçãoprocura real e sustentada na camada 1, com a Fusaka e o piso do blob a morderoferta volta a encolher de forma episódicagas médio e queima diária
Status quo inflacionárioatividade fica nas L2, EIP-8361 travada na governançacrescimento líquido de +0,2% a +0,8% ao anorácio de staking e emissão líquida
Escassez por decretoa EIP-8361 (ou uma sucessora) entra num fork futurocorte da emissão de consenso rumo a zerodecisão de inclusão (rumo à Hegotá)

O primeiro cenário é o sonho dos ultrasound-maximalistas e o menos provável no curto prazo, porque exigiria reverter o próprio sucesso das L2. O segundo é o caminho de menor resistência: uma inflação ligeira, incómoda para o meme mas irrelevante para a tese de investimento de médio prazo. O terceiro é o mais transformador e o mais incerto, dependente de uma batalha de governança que mal começou. A reflexividade também conta: numa oferta líquida cada vez mais fina, qualquer choque de procura amplifica-se, como se viu no despertar recente da base dos futuros.

O painel de controlo: cinco mostradores

Para acompanhar esta história sem depender de manchetes, bastam cinco indicadores. São os mostradores que dizem, em tempo real, qual dos cenários acima está a ganhar.

  • Gas e queima diária na camada 1: se voltar a haver congestionamento e taxas altas de forma sustentada, a queima pode reaproximar-se da emissão.
  • Rácio de staking: a distância entre os cerca de 34% de hoje e os 50% de saturação define a urgência da EIP-8361 e a compressão do rendimento.
  • Governança da EIP-8361: passa de Draft a proposta para inclusão? Ganha ou perde apoio dos core devs? É aqui que o cenário do decreto vive ou morre.
  • Calendário Glamsterdam e Hegotá: a próxima atualização, a Glamsterdam (com ePBS e listas de acesso ao nível do bloco, e um teto de gas a subir de 60 para 200 milhões), aponta ao final de 2026; a Hegotá vem a seguir e é o alvo mais provável para propostas de emissão.
  • Emissão líquida anualizada: o número que a ultrasound.money publica em permanência; se voltar a ficar consistentemente negativo, o meme ressuscita.

A conclusão da autópsia é menos dramática do que o título sugere e mais importante do que parece. O ultrasound money não morreu por acidente nem por má engenharia; morreu porque a Ethereum fez exatamente aquilo a que se propôs, escalar através das L2, e essa vitória esvaziou o mecanismo que lhe dava raridade. O que vem a seguir, a viragem da queima para o corte de emissão, não é um remendo técnico: é uma decisão sobre que tipo de moeda a Ethereum quer ser, tomada não por uma regra imutável, mas por uma comunidade em discussão aberta. Para quem investe em euros, a lição é simples: a escassez do ETH deixou de ser um facto e passou a ser uma política, e as políticas mudam.

Perguntas frequentes

O ETH é inflacionário ou deflacionário em 2026?

Em 2026, o ETH é ligeiramente inflacionário. Desde a atualização Dencun, em março de 2024, a queima de taxas colapsou para o intervalo dos 50 a 70 ETH por dia e a emissão passou a superá-la, com um crescimento líquido da oferta a rondar 0,2% a 0,8% ao ano. A deflação só reaparece de forma episódica, em dias de congestionamento na camada 1.

O que é o «ultrasound money» e porque falhou?

É a tese, popularizada por Justin Drake, de que a combinação da queima da EIP-1559 com o corte de emissão da Fusão tornaria o ETH deflacionário e mais raro do que a Bitcoin. Funcionou entre 2022 e 2024, mas o Dencun baixou tanto as taxas nas L2 que a queima na camada 1 quase desapareceu, invertendo o saldo e deixando o protocolo a emitir mais do que destrói.

O que é a EIP-8361 e o que muda?

É uma proposta apresentada em agosto de 2026 que introduz a «queima progressiva da emissão»: à medida que sobe a percentagem de ETH em staking, o protocolo queima uma fatia crescente das recompensas de consenso, chegando a 100% quando cerca de metade da oferta (perto de 60,25 milhões de ETH) estiver em staking, o que zeraria a emissão líquida de consenso. Continua em rascunho, sem calendário nem inclusão garantida.

Quanto ETH está em staking e qual o rendimento?

O staking atingiu um máximo histórico de cerca de 33,98% da oferta, aproximadamente 41,4 milhões de ETH, distribuídos por perto de 903 mil validadores. Como mais validadores partilham a mesma bolsa de emissão, a taxa-base anualizada caiu para cerca de 2,66%, o valor mais baixo em três anos, ao qual se somam gorjetas de prioridade e MEV.

Como são tributados os rendimentos de ETH em Portugal?

Os rendimentos de staking são tratados como rendimentos de capitais (categoria E) e tributados a 28% sobre o valor à data de receção. Nas mais-valias vale a regra dos 365 dias: venda com menos de um ano de detenção paga 28% (Anexo G); acima de um ano fica isenta (reportada no Anexo G1). Trocar cripto por cripto não gera imposto no momento da troca, e a DAC8 reforça a partilha de informação a partir de 2026.

Por Priya Reddy, redação da HOGE Wire.

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