Stock-to-flow: porque o modelo de escassez do Bitcoin falhou
O modelo stock-to-flow prometia prever o preço do Bitcoin a partir da escassez. Sete anos depois, com o BTC perto dos 67 mil euros, revisitamos porque a promessa não se cumpriu.
Poucos gráficos marcaram tanto a maneira como o investidor de retalho fala sobre o Bitcoin como a linha do stock-to-flow. Durante anos, um analista anónimo conhecido apenas por PlanB publicou uma curva que parecia fazer o impossível: reduzir o preço de um ativo notoriamente imprevisível a uma única variável, a escassez. A promessa era sedutora na sua simplicidade. Se a oferta de moeda nova cai a cada halving, e se o preço segue a escassez, então o futuro estava, em teoria, praticamente escrito num gráfico.
Sete anos depois, o teste está feito. O Bitcoin transaciona perto de 66.900 euros (cerca de 78.000 dólares), aproximadamente 38% abaixo do máximo histórico de 107.662 euros alcançado em outubro de 2025, de acordo com os dados da CoinGecko. A versão mais citada do modelo aponta, para o ciclo atual, uma média a rondar o meio milhão de dólares, uns 430 mil euros ao câmbio de hoje. A distância entre a projeção e a realidade não é um pormenor técnico: é praticamente a história toda.
Este texto não persegue o homem por trás do pseudónimo nem celebra o tropeço alheio. É uma autópsia: o que o stock-to-flow afirma, de onde veio, o que acertou, onde se partiu e, acima de tudo, o que o seu percurso ensina a quem tenta ler o preço do Bitcoin através de qualquer modelo. Porque o problema de fundo, como veremos, não se esgota num modelo. Está na forma como lemos todos eles.
O que é, afinal, o stock-to-flow
O stock-to-flow (existências sobre fluxo, numa tradução livre) não nasceu com o Bitcoin. Vem do mundo das matérias-primas e mede a escassez de um ativo dividindo o total já existente, o stock, pela quantidade produzida a cada ano, o flow. Um rácio alto quer dizer que a produção anual é pequena em relação ao que já circula; ou seja, que é difícil inflacionar a oferta desse ativo num curto espaço de tempo.
O ouro é o exemplo de manual. Com um rácio próximo de 62, seriam precisos cerca de 62 anos de produção mineira para duplicar todo o ouro que já foi extraído, segundo a explicação de referência da CoinGecko. A prata fica bem abaixo, perto de 22, o que ajuda a perceber porque nunca desempenhou o mesmo papel monetário: é demasiado fácil, em termos relativos, produzir mais. É essa dureza que, ao longo dos séculos, sustentou a tese do ouro como reserva de valor. Ninguém consegue extrair ouro depressa o suficiente para diluir de forma significativa quem já o detém.
O salto de PlanB foi aplicar a métrica ao Bitcoin. Como a emissão de moedas novas é fixa por código e é cortada a meio a cada halving, o rácio do Bitcoin sobe em degraus previsíveis, ao contrário do de qualquer metal. Antes do halving de 2020 rondava os 27; depois do halving de 2024 aproximou-se de 119, ultrapassando com folga o do ouro, de novo segundo a CoinGecko. Traduzindo: em escassez pura, e apenas nesta leitura, o Bitcoin passou a ser o ativo mais «duro» que existe. Foi esta ideia, mais do que qualquer equação, que conquistou uma geração de compradores.
PlanB, o analista de rosto tapado
Em março de 2019, uma conta então pouco conhecida, @100trillionUSD, publicou o ensaio «Modeling Bitcoin’s Value with Scarcity». O autor assinava como PlanB, apresentava-se como investidor institucional europeu na casa dos cinquenta anos e nunca revelou a identidade. O anonimato não é um detalhe decorativo: parte do fascínio do modelo veio justamente de um oráculo sem rosto a falar a língua fria da regressão estatística, sem ego aparente nem interesses visíveis. Ler bem um pseudónimo do universo cripto obriga sempre a separar o argumento da aura que o rodeia, e o stock-to-flow é o caso de estudo perfeito.
O ensaio corria uma regressão entre o rácio stock-to-flow e o valor de mercado do Bitcoin e chegava a um coeficiente de determinação, o célebre R², de 95%. Lido à letra, esse número sugeria que a escassez sozinha explicava 95% da variação histórica do preço, como resume a CoinGecko. Quando o texto foi publicado, o Bitcoin valia cerca de 4.000 dólares. A curva, projetada para a frente, prometia dezenas de milhar. Durante o mercado em alta de 2020 e 2021, à medida que o preço subia mais ou menos ao longo da linha, o modelo passou de curiosidade de nicho a quase dogma. Havia t-shirts, memes e um mantra repetido em cada correção: «o modelo nunca falhou».
Como o halving se transforma em preço
A mecânica é o que torna o stock-to-flow tão apelativo, porque parece transformar um calendário em preço. A cada 210.000 blocos, aproximadamente de quatro em quatro anos, a recompensa paga aos mineradores é cortada a meio. Em 2012 passou de 50 para 25 bitcoins por bloco; em 2016 para 12,5; em 2020 para 6,25; em 2024 para 3,125. Cada corte reduz o fluxo anual de moeda nova e, mantendo-se o stock praticamente igual, faz o rácio stock-to-flow dar um salto.
Como a regressão de PlanB relaciona esse rácio com o valor de mercado numa escala logarítmica, cada duplicação do rácio corresponde, no modelo, a um salto de várias vezes no preço projetado. É por isso que o gráfico clássico do stock-to-flow tem aquele aspeto de escadaria: patamares de preço cada vez mais altos, sincronizados com os halvings. A tabela seguinte resume os degraus (os rácios são aproximados e sobem, grosso modo, para o dobro a cada corte).
| Época (após o halving) | Recompensa por bloco | Rácio S2F aproximado |
|---|---|---|
| 2012 | 25 BTC | ~10 |
| 2016 | 12,5 BTC | ~25 |
| 2020 | 6,25 BTC | ~56 |
| 2024 | 3,125 BTC | ~119 |
O apelo psicológico é evidente: um evento de calendário conhecido com anos de antecedência (o próximo halving é esperado para 2028) parece dar ao investidor um mapa do futuro. Só que, como veremos, transformar um degrau na oferta num degrau no preço exige um pressuposto gigantesco e nunca demonstrado, o de que a procura acompanha a escassez de forma mecânica. O calendário é certo; a reação do comprador não.
O S2FX e a promessa dos 288 mil dólares
Em abril de 2020, PlanB elevou a fasquia. Publicou o «Stock-to-Flow Cross Asset Model», ou S2FX, que já não se limitava ao Bitcoin: tentava colocar ouro, prata e Bitcoin na mesma reta de regressão, tratando-os como «fases» de um mesmo fenómeno de escassez. O resultado, descrito pelo próprio no artigo original, era espetacular: um valor de mercado previsto de 5,5 biliões de dólares para o Bitcoin no ciclo de 2020 a 2024, o equivalente a um preço médio a rondar os 288 mil dólares por moeda (uns 247 mil euros ao câmbio atual), com um R² de 99,7%.
Esse 99,7% foi, ao mesmo tempo, o auge do prestígio do modelo e o primeiro grande sinal de alarme para quem entende de estatística. Um ajuste quase perfeito a partir de apenas três pontos de dados (ouro, prata, Bitcoin) não é sinal de solidez; é praticamente a definição de sobre-ajuste. Mas, no calor do mercado em alta, poucos quiseram ouvir. Os 288 mil dólares tornaram-se um número de referência, repetido em entrevistas, threads e apresentações, como se fosse um destino traçado.
Convém guardar este valor. O preço médio realizado do Bitcoin entre 2020 e 2024 ficou muito longe dos 288 mil dólares; e a versão original do modelo, mais modesta, apontava uma média perto dos 55 mil dólares para o mesmo período, quando o valor que o mercado efetivamente pagou se ficou pela casa das dezenas de milhar. A conta simples, feita a posteriori, mostra o modelo a exagerar por uma margem enorme, tanto na versão ambiciosa como na conservadora.
Há ainda um problema empírico que raramente se ouve: o próprio ouro contraria a premissa. O ouro tem um rácio stock-to-flow altíssimo há séculos, e nem por isso o seu preço dispara de forma contínua; passa décadas de lado e sobe em surtos ligados a medo, inflação ou taxas de juro reais, não a mudanças na sua escassez, que mal se mexe. Se a escassez elevada não explica o preço do ouro, a base sobre a qual o S2FX coloca ouro, prata e Bitcoin na mesma reta fica, no mínimo, frágil. A relação que o modelo apresenta como universal parece existir sobretudo no Bitcoin, e apenas durante a sua fase de adoção acelerada.
O boletim de notas: previsão contra realidade
Um modelo vive ou morre pelo confronto com os factos. Vale a pena, por isso, montar o boletim de notas das previsões mais concretas que saíram da órbita do stock-to-flow, com as datas e os números que o próprio autor tornou públicos. Os valores estão em dólares, a unidade em que as projeções foram divulgadas.
| Previsão | O que dizia | O que aconteceu |
|---|---|---|
| Modelo original (2019) | Média ~55.000 USD em 2020-2024 | Realizada muito abaixo (dezenas de milhar) |
| S2FX (abr. 2020) | Média ~288.000 USD em 2020-2024 | Máximo do ciclo ~69.000 USD (nov. 2021) |
| Floor model, nov. 2021 | Piso de 98.000 USD | Fechou o mês perto de 57.000 USD |
| Floor model, dez. 2021 | Piso de 135.000 USD | Fechou o ano perto de 47.000 USD |
| Bandas do S2F em 2022 | Preço acima da banda inferior | Rompeu a banda (jun.); mínimo ~15.500 USD após a queda da FTX |
O padrão que salta da tabela não é o de um modelo que erra por pouco e de forma aleatória, ora acima ora abaixo. É o de um modelo que exagera sistematicamente para cima, e cujo erro cresce à medida que as projeções se afastam da data em que foram calibradas. Essa é a assinatura típica de uma curva sobre-ajustada ao passado: encaixa bem onde já viu os dados e derrapa assim que tem de prever território novo.
O chamado «floor model» (modelo de piso) merece destaque porque era a aposta mais falsificável de todas: não uma média difusa de ciclo, mas pisos mensais concretos. PlanB anunciou que o Bitcoin não fecharia novembro de 2021 abaixo de 98 mil dólares nem dezembro abaixo de 135 mil. Acertou nos meses anteriores (agosto, setembro e outubro), o que reforçou a confiança dos seguidores. Depois falhou os dois, e falhou por muito.
Dezembro de 2021, a hora da verdade
Quando o piso de novembro caiu, PlanB reagiu com uma honestidade rara no meio. «Primeira falha do floor model (depois de acertar agosto, setembro e outubro). Nenhum modelo é perfeito, mas isto é uma grande falha e a primeira em 10 anos», escreveu, conforme noticiou o CryptoPotato. A ressalva importante é que, na mesma altura, insistiu que o modelo stock-to-flow «principal» continuava intacto, mesmo com o floor model derrotado.
Foi um momento revelador. Um modelo que se apresenta como quase infalível ganha, no exato instante em que erra, uma cláusula de escape: a versão que falhou era só a acessória; a nuclear mantém-se de pé. O problema é que 2022 tratou de testar também essa. Em junho, o preço rompeu a banda inferior do próprio stock-to-flow, algo que o modelo dizia ser altamente improvável. Em novembro, com o colapso da FTX, o Bitcoin caiu para cerca de 15.500 dólares. A curva que prometia centenas de milhar estava, nesse momento, uma ordem de grandeza acima da realidade, e ninguém precisou de estatística avançada para ver o fosso.
A tautologia no coração do modelo
Aqui começa a parte técnica, e é a mais importante. A crítica mais devastadora ao stock-to-flow não é que errou algumas previsões; é que o número mágico de que se gaba, o R² altíssimo, é em boa parte uma ilusão estatística.
O argumento, exposto em detalhe na Bitcoin Magazine, começa por uma tautologia. O valor de mercado do Bitcoin é, por definição, o stock multiplicado pelo preço. Ora, o rácio stock-to-flow tem o stock no numerador. Estamos, portanto, a relacionar o stock (dentro do valor de mercado) com o stock (dentro do rácio). Nas palavras da análise, «o stock é uma função do stock». A correlação altíssima aparece porque a mesma variável está presente dos dois lados da equação.
Cory Klippsten, diretor executivo da Swan Bitcoin e, note-se, defensor convicto do próprio Bitcoin, foi direto ao ponto na mesma peça: o modelo «mostra correlação elevada porque usa o mesmo termo em cada eixo (o stock), e quando se tira o logaritmo de dois termos com a mesma variável, somam-se». A conclusão dele é lapidar: o modelo «não precisa do stock-to-flow, de todo. É só preço contra tempo». Feito o ajuste para essa autocorrelação, acrescenta a análise, o R² aproxima-se de zero. O impressionante 95% evapora-se.
Regressão espúria: quando duas linhas que sobem enganam
Há uma segunda camada estatística, ligada à primeira. O rácio stock-to-flow do Bitcoin sobe ao longo do tempo, por construção, com os halvings. O preço do Bitcoin também subiu ao longo do tempo no período estudado. Correlacionar duas séries que ambas sobem no tempo é uma das armadilhas mais conhecidas da econometria: chama-se regressão espúria.
O exemplo clássico dos manuais é o número de afogamentos em piscinas correlacionar-se com o consumo de gelados: ambos sobem no verão, mas um não causa o outro. Para evitar esta ilusão, o procedimento correto é testar se as séries são estacionárias e se estão cointegradas, isto é, se existe entre elas uma relação genuína de longo prazo, e não apenas duas tendências paralelas a subir. Vários analistas apontaram que o stock-to-flow nunca passou nesse teste de forma convincente. O trader e analista Alex Kruger resumiu-o de forma abrupta ainda em 2020: na ausência de cointegração, o modelo era, para efeitos práticos, estatisticamente inútil.
A escassez de dados agrava tudo o resto. Quando PlanB publicou o modelo, o Bitcoin tinha vivido apenas dois halvings; hoje são quatro. Construir uma lei quantitativa sobre meia dúzia de pontos de viragem é frágil em qualquer ciência, e em finanças é temerário: cada ciclo trouxe um contexto macroeconómico e regulatório diferente, o que torna perigoso assumir que o próximo repetirá a geometria dos anteriores. Um R² calculado sobre tão poucos regimes diz muito menos do que o seu valor aparenta.
Isto não significa que a escassez seja irrelevante para o Bitcoin. Significa que a prova estatística apresentada para a quantificar, o famoso R², não sustenta o peso que lhe puseram em cima. Uma correlação impressionante num gráfico logarítmico pode ser, e neste caso é em larga medida, um artefacto de duas tendências temporais que caminham na mesma direção.
O «modelo camaleão»
A crítica mais citada, e a mais mordaz, veio de um fundo quantitativo. Em junho de 2020, Nico Cordeiro, diretor de investimentos da Strix Leviathan, publicou uma análise intitulada, precisamente, «A Chameleon Model». A escolha da palavra é deliberada: «camaleão» é o termo que o professor de Stanford Paul Pfleiderer usa para modelos construídos sobre pressupostos duvidosos que, ainda assim, ganham autoridade ao vestirem-se de matemática.
Cordeiro não poupou nas palavras. Segundo a Cointelegraph, escreveu que a precisão do modelo «será provavelmente tão bem-sucedida a prever o preço futuro do Bitcoin como os modelos astrológicos do passado foram a prever resultados financeiros». A comparação com a astrologia não era um insulto gratuito: era um diagnóstico sobre a diferença entre uma narrativa que parece científica e uma que o é de facto. A análise completa continua disponível no site da Strix Leviathan.
O ponto de Cordeiro liga-se ao anterior: um modelo pode exibir um ajuste soberbo aos dados passados e, mesmo assim, não ter qualquer poder preditivo, sobretudo quando o ajuste assenta em pressupostos escolhidos a dedo. Quando os dados novos chegam e contrariam a curva, o camaleão muda de cor: recalibra-se, redesenha as bandas, redefine o que conta como acerto. A previsão de 288 mil dólares deu lugar, com o tempo, a números diferentes, sempre no futuro, sempre por confirmar.
O ponto cego: um modelo que só vê metade do mercado
Talvez a falha conceptual mais simples de explicar seja também a mais decisiva: o stock-to-flow modela apenas a oferta. Não tem, em lado nenhum, uma variável para a procura. Assume, implicitamente, que a procura ou é constante ou cresce sempre o suficiente para absorver uma oferta cada vez mais escassa. É um pressuposto heroico, e 2022 mostrou o que acontece quando ele falha.
Um preço resulta sempre do encontro entre oferta e procura. Reduzir metade dessa equação a uma constante é como prever o preço das casas contando apenas quantas se constroem, ignorando taxas de juro, emprego, crédito e confiança. No caso do Bitcoin, os motores da procura em 2024, 2025 e 2026 foram tudo menos constantes. A chegada dos ETF de Bitcoin à vista nos Estados Unidos mudou por completo o perfil do comprador marginal, canalizando milhares de milhões de dólares institucionais para dentro (e, em fases de saída, para fora) do ativo. A política monetária, a liquidez global e o apetite por risco passaram a explicar movimentos que a escassez, sozinha, não consegue tocar.
Os anos de 2024 a 2026 tornam o ponto concreto. Os fundos cotados à vista aprovados nos Estados Unidos passaram a absorver uma fatia enorme da oferta, e as suas entradas e saídas semanais movem o preço de uma forma que nenhum rácio de oferta anteciparia. A par disso, empresas de tesouraria acumularam grandes posições, enquanto a liquidez global, as decisões da Reserva Federal e o apetite por risco ditaram o ritmo. Nenhum destes fatores aparece, sequer de forma indireta, na equação do stock-to-flow. O modelo estava, por desenho, cego a metade da razão pela qual o preço se move.
É por isso que ferramentas focadas na procura e no posicionamento, como a leitura de quem está do outro lado dos derivados, dizem hoje mais sobre o preço de curto prazo do que qualquer rácio de oferta. A escassez continua a ser uma condição de fundo, uma âncora de longo prazo talvez; o que ela não é, nem nunca foi, é um gatilho capaz de marcar a data e o nível a que o comprador aparece.
A defesa de PlanB (e porque não fecha a questão)
Seria injusto não apresentar a defesa. PlanB e os seus apoiantes respondem, em síntese, com quatro argumentos:
- O modelo sempre foi sobre a direção ao longo de ciclos completos, não sobre o preço exato numa data qualquer.
- Existe uma versão em bandas, e não uma linha única, o que dá margem de erro à projeção.
- Os mercados eficientes antecipam a escassez, pelo que desvios temporários não invalidam a tese central.
- A escassez programada do Bitcoin é real, verificável e única, ao contrário da de qualquer ativo tradicional.
Há mérito no último ponto: a oferta do Bitcoin é, de facto, inelástica e auditável, o que o distingue de tudo o resto. O problema é que os três primeiros argumentos, levados ao limite, tornam o modelo infalsificável. Se qualquer preço, em qualquer momento, pode ser explicado como «desvio temporário dentro da banda» ou «ainda dentro do ciclo», então o modelo deixa de fazer uma previsão testável. E um modelo que nunca pode estar errado também nunca pode estar certo em sentido científico.
Foi contra essa aura de certeza que Vitalik Buterin, cofundador da Ethereum, se insurgiu em junho de 2022, poucos dias depois de o preço romper a banda inferior. «Penso que os modelos financeiros que dão às pessoas uma falsa sensação de certeza e de predestinação de que o número só pode subir são prejudiciais e merecem toda a troça que recebem», escreveu, conforme registou o The Block. Quanto ao próprio PlanB, mantém-se otimista: continua a apontar, segundo a Yahoo Finance, para uma média a rondar o meio milhão de dólares no ciclo de 2024 a 2028, uns 430 mil euros. Faltam, à data deste texto, mais de 360 mil euros para lá chegar.
Lei de potência e arco-íris: fuga ou o mesmo erro?
Se o stock-to-flow tem um sucessor natural na conversa dos modelos, é a chamada lei de potência do Bitcoin, popularizada pelo físico Giovanni Santostasi. Em vez de ligar o preço à escassez, liga-o simplesmente ao tempo: o preço cresceria de forma proporcional ao número de dias desde o bloco génese, elevado a uma potência de cerca de 5,8, formando um corredor num gráfico duplamente logarítmico, como descreve o próprio autor no seu ensaio de referência. Empiricamente, a lei de potência envelheceu melhor do que o stock-to-flow: acomoda a desaceleração dos retornos ao longo dos ciclos e não fez previsões de piso tão espetacularmente falhadas.
Mas convém não trocar uma certeza por outra. A crítica de Klippsten, «é só preço contra tempo», aplica-se com força quase igual à lei de potência, que é, por construção, um ajuste de preço contra tempo. Continua sem uma variável de procura; continua a extrapolar o futuro a partir de uma curva desenhada sobre o passado; continua a depender de uma amostra minúscula, os poucos ciclos que o Bitcoin já viveu. O mesmo se diga do popular «rainbow chart», que é essencialmente uma lei de potência vestida de cores e de bandas de sentimento. São, na melhor das hipóteses, geometrias mais honestas do que o stock-to-flow, não escapatórias ao problema de fundo.
O que resta do stock-to-flow em 2026
Onde está o stock-to-flow hoje? Sobrevive, sobretudo, como símbolo. Os degraus da escadaria continuam a ser partilhados nas redes sociais a cada halving, e a ideia de que «o Bitcoin é o ativo mais escasso do mundo» é hoje um lugar-comum, em parte graças a este modelo. A lição de que oferta escassa não implica, por si só, procura repete-se aliás noutros cantos do mercado, como no restaking, onde um recorde de oferta ficou à espera de quem o quisesse alugar. Como ferramenta de previsão de preço, porém, o stock-to-flow perdeu quase toda a credibilidade fora do núcleo de fiéis.
Os números explicam porquê. Com o Bitcoin a cerca de 66.900 euros e uma capitalização de mercado a rondar os 1,34 biliões de euros, segundo a CoinGecko, o ativo está cerca de 38% abaixo do máximo de outubro de 2025 e a uma distância abissal dos 430 mil euros que o modelo, na leitura corrente, sugere para este ciclo. Chegar lá exigiria uma subida de mais de seis vezes em pouco mais de dois anos. Não é impossível (o Bitcoin já fez movimentos violentos), mas apostar nisso porque um rácio de oferta o diz é confundir uma narrativa com uma probabilidade.
Vale a pena separar duas afirmações que o stock-to-flow juntou e que convém voltar a distinguir. A primeira, de que o Bitcoin é escasso e de que essa escassez importa para o seu valor a longo prazo, é defensável e continua no centro da tese de muitos investidores institucionais. A segunda, de que essa mesma escassez permite calcular o preço numa data futura com precisão de milhares de euros, é a que ruiu. Confundir as duas foi o erro que transformou uma intuição razoável numa profecia falhada.
O contraste com a forma como o mercado profissional fala de preço em 2026 é revelador. As grandes casas de análise trabalham hoje com alvos ancorados na macroeconomia, nos fluxos de ETF e no calendário regulatório e da Reserva Federal, não em rácios de escassez. A escassez entrou na conversa e ficou lá; deixou apenas de a dominar.
Como ler um modelo de preço sem se queimar
O verdadeiro valor da saga do stock-to-flow não está em envergonhar quem acreditou nele, mas nas lições que deixa para o próximo modelo mágico, porque haverá sempre um próximo. Quatro princípios resistem ao tempo. Primeiro, desconfiar de um R² alto como se fosse prova de verdade: um ajuste quase perfeito, sobretudo com poucos dados e séries que sobem no tempo, é mais frequentemente sinal de sobre-ajuste ou de autocorrelação do que de perspicácia. Segundo, perguntar sempre pela procura, porque qualquer modelo de preço que só olhe para a oferta está a ignorar metade do mercado.
Terceiro, exigir falsificabilidade: um modelo que se recalibra a cada erro, redesenhando bandas para que a realidade caiba sempre lá dentro, não é um modelo, é uma profecia com margem. Quarto, respeitar o tamanho da amostra, porque o Bitcoin viveu pouquíssimos ciclos completos e extrapolar leis eternas a partir de meia dúzia de anos é um exercício de fé. Estes princípios não se aplicam só a modelos de escassez; valem para qualquer indicador que prometa um sinal limpo, incluindo os que medem sentimento e posicionamento. O funding dos perpétuos, por exemplo, é um termómetro útil que, em certos regimes, também engana. Nenhuma métrica isolada substitui o entendimento das forças por trás do preço.
Para o investidor em Portugal, há ainda uma camada prática. A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, a CMVM, tem repetido que os criptoativos são, em muitos casos, um investimento de risco elevado e especulativo, cuja volatilidade decorre em boa parte da ausência de valor intrínseco, e sublinha que o regulamento europeu MiCA reduz alguns riscos mas não elimina os que resultam da própria natureza destes ativos. Traduzido para a decisão de quem investe: um gráfico bonito com uma projeção de meio milhão não é uma garantia, nem sequer uma probabilidade; é, na melhor das hipóteses, uma hipótese entre muitas. Resultados passados, e curvas passadas, não asseguram resultados futuros.
Perguntas frequentes
O que é o modelo stock-to-flow do Bitcoin?
É um modelo que tenta prever o preço do Bitcoin a partir da sua escassez, medida pelo rácio entre o total de moedas já existentes (stock) e a emissão anual de moedas novas (flow). Foi popularizado em 2019 pelo analista anónimo PlanB, que encontrou uma correlação histórica muito elevada entre esse rácio e o valor de mercado do Bitcoin.
Porque é que o modelo stock-to-flow falhou?
Por três razões principais: modela apenas a oferta e ignora a procura; a sua correlação muito elevada é em grande parte um artefacto estatístico (autocorrelação e regressão espúria entre duas séries que sobem no tempo); e as suas previsões mais concretas, como os pisos de 98 mil e 135 mil dólares para o final de 2021, falharam por larga margem.
O que prevê hoje o stock-to-flow para o preço do Bitcoin?
Na leitura mais divulgada, o modelo aponta para um preço médio a rondar os 500 mil dólares (cerca de 430 mil euros) no ciclo de 2024 a 2028. Com o Bitcoin perto dos 66.900 euros em setembro de 2026, essa projeção exigiria uma subida de mais de seis vezes, algo que a maioria dos analistas profissionais considera altamente improvável.
A lei de potência do Bitcoin é melhor do que o stock-to-flow?
Empiricamente, a lei de potência envelheceu melhor e evitou os erros de piso mais gritantes. Mas partilha uma fragilidade de fundo: continua a ser um ajuste de preço contra tempo, sem variável de procura e assente numa amostra muito pequena de ciclos. É uma geometria mais prudente, não uma bola de cristal.
Devo usar o stock-to-flow para decidir os meus investimentos?
Nenhum modelo isolado deve servir de base a uma decisão de investimento e o stock-to-flow, dadas as falhas conhecidas, ainda menos. A CMVM lembra que os criptoativos são de risco elevado e que resultados passados não garantem resultados futuros. Um modelo pode ajudar a enquadrar cenários, nunca a substituir a gestão de risco.
Priya Reddy escreve sobre mercados e macroeconomia de criptoativos na HOGE Wire.