Separar o rendimento: a Pendle e o mercado do juro on-chain
A DeFi passou o ano a perguntar se o rendimento era real; agora pergunta a que preço. A Pendle separa esse rendimento em duas apostas e construiu a primeira curva de juro on-chain.
O rendimento real deixou de ser uma pergunta e passou a ter preço
Durante mais de um ano, o cluster de finanças on-chain desta publicação fez sempre a mesma pergunta sobre rendimento: é real ou é subsídio disfarçado. Mostrámos onde nasce (receita de protocolo, cupões de bilhetes do Tesouro, funding de perpétuos), auditámos o caixa para separar o fluxo durável das emissões inflacionárias, e comparámos as stablecoins que pagam juro. 2026 acrescentou uma pergunta nova, e mais madura: a que preço. Quando o rendimento passa a ser negociável, deixa de bastar saber que existe; é preciso saber quanto custa hoje travá-lo, quanto vale a aposta de que ele sobe, e o que acontece ao valor dessa aposta quando a taxa sem risco se mexe.
A pergunta ganhou urgência numa semana rara. A 10 de setembro, o Banco Central Europeu subiu a taxa de depósito para 2,50%, a segunda subida desde o choque energético, e a presidente Christine Lagarde chamou-lhe uma decisão óbvia (CNBC). A 16 de setembro, a Reserva Federal norte-americana decide, com o mercado a inclinar-se claramente para nova subida (The Motley Fool). Dois bancos centrais a apertar ao mesmo tempo dizem uma coisa simples a quem investe rendimento on-chain: a taxa sem risco, o chão contra o qual todo o rendimento DeFi se mede, está a subir dos dois lados do Atlântico.
E há, finalmente, um sítio onde esse rendimento é cortado, avaliado, trancado e negociado em cadeia: a Pendle. Este artigo é sobre esse mercado. Não sobre se o rendimento da DeFi é real (já lá fomos), mas sobre a infraestrutura que o transforma num instrumento com preço, prazo e curva. É a peça que fecha a série: depois de perguntar «é real» e «de onde vem», chega o «como se negoceia».
Recapitular: rendimento real é o que sobrevive ao token
Vale a pena fixar a definição antes de avançar, porque o mercado da Pendle só faz sentido sobre rendimento genuíno. Rendimento real é o que vem de receita efetiva de um protocolo (comissões de troca, juro de empréstimos, funding de perpétuos, cupões de dívida) e não da impressão de novos tokens distribuídos como incentivo. O teste rápido é impiedoso: se o token de governação do protocolo fosse a zero amanhã, o rendimento continuaria a existir? Um cupão de um bilhete do Tesouro dos EUA continua; um APY de 40% pago em tokens acabados de emitir, não.
Essa distinção é o trabalho de base que já fizemos, e que qualquer leitor pode refazer com o método que descrevemos ao auditar o caixa da DeFi. O que muda agora é o objeto. Até aqui olhámos para o rendimento como um facto a verificar. A Pendle trata-o como uma mercadoria a preço: separa o capital do rendimento, dá-lhes um prazo, e deixa o mercado descobrir quanto vale cada parte. É a diferença entre perguntar «este depósito paga juro real» e perguntar «a que taxa fixa consigo travar esse juro para os próximos seis meses, e quanto me custa apostar que ele sobe». A segunda pergunta exige um mercado. Esse mercado é o tema.
PT, YT e SY: como a Pendle parte um rendimento em duas
A engrenagem da Pendle é conceptualmente simples, e é sempre a mesma, independentemente do ativo. Primeiro, um ativo que rende (por exemplo o sUSDe da Ethena, ou o stETH de staking de Ethereum) é embrulhado num formato padronizado a que a Pendle chama SY, de standardized yield. Depois, esse SY é partido em duas peças que se negoceiam em separado: o PT (principal token, ou token de capital) e o YT (yield token, ou token de rendimento), como explica qualquer guia técnico do protocolo (Datawallet).
O PT representa o capital. Compra-se com desconto e, na data de vencimento, resgata-se por uma unidade do ativo subjacente, ao valor nominal. O YT representa todo o rendimento que o ativo vai gerar entre agora e o vencimento. Quem detém o YT recebe esse fluxo à medida que ele acumula; no vencimento, o YT deixou de dar direito a fluxo nenhum e vale zero.
A conta fecha sempre: PT mais YT valem, juntos, o ativo original. Um exemplo torna-o concreto. Deposita-se sUSDe no valor de 1.000 euros e recebem-se, digamos, PTs que valem hoje cerca de 980 euros e YTs que valem cerca de 20 euros. Os 980 euros de PT convergem para os 1.000 no vencimento (essa convergência é o rendimento fixo); os 20 euros de YT são o direito a todo o juro variável até lá. É a mesma lógica com que a finança tradicional separa uma obrigação num strip de capital e num strip de cupões. A diferença é que aqui o corte é feito por um smart contract, é aberto a qualquer carteira, e os dois pedaços passam a ter mercado próprio, com preço a mexer minuto a minuto.
PT para travar uma taxa fixa, YT para alavancar uma aposta
A razão de existir do PT e do YT é que servem dois investidores opostos. Quem compra PT quer certeza: comprando o token de capital com desconto e mantendo-o até ao vencimento, fixa uma taxa conhecida à partida, tal como quem compra uma obrigação de cupão zero. Se o PT de sUSDe a seis meses se transaciona a um preço que implica, por exemplo, 4% anualizados, esse é o rendimento que o comprador tranca, aconteça o que acontecer ao APY variável no meio do caminho. Se o rendimento do sUSDe cair para metade na semana seguinte, o detentor do PT não se importa; já garantiu a sua taxa.
Quem compra YT quer o oposto: exposição alavancada à direção do rendimento. Por uma fração do capital, o YT dá direito a todo o fluxo de rendimento do subjacente até ao vencimento. Se o rendimento se mantiver alto ou subir, o detentor do YT ganha muito sobre um investimento pequeno. Se o rendimento cair ou secar, o YT perde valor depressa e, no limite, expira sem valer nada. É, na prática, uma opção sobre a taxa de juro do ativo. A tabela resume os dois perfis.
| Característica | PT (token de capital) | YT (token de rendimento) |
|---|---|---|
| O que representa | O capital, resgatável 1:1 no vencimento | Todo o rendimento gerado até ao vencimento |
| Comprado por quem quer | Travar uma taxa fixa conhecida | Apostar (alavancado) na direção do rendimento |
| Comportamento do preço | Compra-se com desconto, converge para o nominal | Compra-se à parte, decai para zero no vencimento |
| Perfil de risco | Conservador (tipo obrigação de cupão zero) | Especulativo (pode perder 100%) |
| Analogia tradicional | Obrigação sem cupão (strip de capital) | Opção sobre a taxa de juro |
A leitura importante é esta: a mesma posição («detenho sUSDe») foi decomposta em duas apostas com riscos radicalmente diferentes. O PT é conservador e previsível; o YT é especulativo e pode ir a zero. Confundir os dois é o erro mais comum de quem chega à Pendle a pensar que «rendimento fixo» é sinónimo de «seguro».
A APY implícita: a primeira curva de juro on-chain
O preço a que o PT se transaciona não é um número solto: implica uma taxa fixa. Se um PT que resgata uma unidade daqui a seis meses custa hoje 0,98 dessa unidade, o mercado está a dizer que a taxa fixa de equilíbrio para esse prazo é de cerca de 4% anualizados. A esse valor a Pendle chama APY implícita, e ele é, literalmente, a previsão coletiva do mercado para o rendimento médio do ativo até ao vencimento.
A diferença entre a APY implícita (o que o mercado acha que o rendimento vai ser) e a APY atual (o que o ativo rende neste momento) é onde vivem as apostas. Se acha que o rendimento vai aguentar acima da APY implícita, compra YT; se acha que vai desiludir, compra PT e trava o valor mais alto antes que desça. É o mesmo raciocínio de quem lê como se forma o preço on-chain à procura do que já está descontado.
Junte vários vencimentos do mesmo ativo e obtém uma curva: taxas fixas implícitas a um, três, seis e doze meses. É, para todos os efeitos, a primeira curva de juro nativa de cripto, construída não por um banco central mas pela negociação de milhares de carteiras. Para um mercado que durante anos teve juros mas não tinha estrutura a prazo, é uma maturação enorme, e liga-se diretamente ao trabalho que o crédito on-chain tem vindo a fazer para dar preço ao risco de taxa. Uma curva com inclinação positiva diz que o mercado espera juros mais altos no futuro; uma curva invertida, o contrário. Pela primeira vez, esse sinal existe em cadeia.
O que a Pendle negoceia: os próprios ativos do cluster
Aqui está o detalhe que torna a Pendle relevante para esta série: o que ela corta e negoceia são, quase sempre, os mesmos ativos de rendimento real que fomos analisando peça a peça. A grande maioria do valor bloqueado na Pendle assenta em derivados da Ethena (sUSDe e USDe), com pesos relevantes também para o sUSDS da Sky, para o stETH de staking de Ethereum e para bilhetes do Tesouro tokenizados (DefiLlama). A tabela mostra o cardápio.
| Ativo subjacente | Protocolo / origem | Fonte do rendimento | Rendimento anual aproximado |
|---|---|---|---|
| sUSDe | Ethena | Funding de perpétuos e staking (estratégia delta-neutra) | ~4,1% (DefiLlama) |
| sUSDS | Sky (ex-MakerDAO) | Cupões de bilhetes do Tesouro e juro de empréstimos | ~3,65% efetivo (SSR 3,75%, sky.money) |
| stETH | Lido / staking de Ethereum | Recompensas de validação e taxas de prioridade | ~2,7 a 3% (ethereum.org) |
| Bilhetes do Tesouro tokenizados | BUIDL, USYC, USDY e outros | Cupão da dívida de curto prazo dos EUA | ~3,23% (rwa.xyz) |
Por outras palavras, a Pendle é o andar de cima do edifício que descrevemos nas peças sobre as stablecoins que pagam juro e sobre o rendimento de staking e restaking. Cada um desses rendimentos é a matéria-prima; a Pendle é a serração que os corta em prazos e os põe à venda. Isso explica também por que a saúde da Pendle acompanha tão de perto a saúde dos rendimentos que negoceia: quando o sUSDe rendia mais de 20% em 2024, havia uma corrida a tokenizá-lo; quando comprimiu para perto de 4%, o apetite arrefeceu na mesma proporção.
O rendimento real da própria Pendle: vePENDLE e comissões
Uma pergunta justa: a Pendle passa no seu próprio teste? Passa. O protocolo cobra comissões sobre o rendimento negociado e sobre as trocas nas suas pools, e distribui a maior parte dessas comissões a quem tranca o token PENDLE. Nos últimos doze meses gerou cerca de 19,9 milhões de dólares em comissões anualizadas, com quase toda essa receita a reverter para o protocolo e os seus detentores (DefiLlama). Em 2025, ano de pico, foram cerca de 44,6 milhões de dólares em comissões e 34,9 milhões em receita para detentores (Chainwire).
O mecanismo chama-se vePENDLE: quem bloqueia PENDLE (até dois anos) recebe cerca de 80% das comissões de troca das pools, mais o rendimento de PTs já vencidos e um multiplicador nas recompensas de liquidez (Coin Bureau). Mais de 40% do PENDLE em circulação está trancado, com uma duração média de bloqueio à volta de treze meses (DefiLlama). Em janeiro de 2026, a equipa aprovou uma atualização (sPENDLE) que passa a usar a receita do protocolo para recomprar PENDLE e distribuí-lo a quem participa, cortando ao mesmo tempo a emissão de novos tokens em 20% a 30% (Chainwire).
É o retrato de um protocolo cujo token acumula valor a partir de fluxo real, não de emissões, exatamente a distinção que abre este artigo. A Pendle não só negoceia rendimento real; ela própria é uma fonte dele. E, ao trocar emissões por recompras financiadas por receita, aproxima-se do desenho que temos visto noutros protocolos maduros da DeFi.
A compressão vista de dentro da Pendle
A história macro que percorre toda esta série (rendimentos DeFi a comprimir na direção de uma taxa base que, entretanto, subiu) vê-se com particular nitidez nos números da própria Pendle. Quando os rendimentos que ela tokeniza eram altos, o valor bloqueado disparou; quando comprimiram, encolheu. A tabela junta as três grandezas que contam a mesma história.
| Métrica | Pico (2024-2025) | Agora (set. 2026) |
|---|---|---|
| TVL (valor bloqueado) | ~13,4 mil milhões de dólares | ~1,25 mil milhões de dólares |
| Comissões (anualizadas) | ~44,6 milhões (ano de 2025) | ~19,9 milhões de dólares |
| Preço do PENDLE | 7,50 dólares (abril de 2024) | ~2,31 dólares (~2,00 euros) |
| APY dos bilhetes do Tesouro | mais de 5% (2023-24) | ~3,23% |
O TVL caiu de um pico próximo dos 13,4 mil milhões de dólares para cerca de 1,25 mil milhões, as comissões anualizadas mais do que se reduziram para metade face a 2025, e o token perdeu perto de 70% desde o máximo de abril de 2024 (CoinGecko). Nada disto é sinal de que a Pendle esteja partida; é sinal de que o negócio de tokenizar rendimento é, por construção, um espelho amplificado do rendimento subjacente. Quando o próprio bilhete do Tesouro tokenizado rende agora cerca de 3,23% em vez dos mais de 5% de há dois anos (rwa.xyz), há menos rendimento para cortar, menos margem para especular, e menos capital à procura de o fazer. A dimensão do mercado da Pendle é, ela própria, um termómetro do rendimento real da DeFi.
Boros: negociar a taxa de funding, não só a de staking
A aposta de crescimento da Pendle chama-se Boros, lançada em agosto de 2025 e apresentada internamente como a versão 3 do protocolo. Enquanto a Pendle clássica tokeniza o rendimento de ativos de staking e de stablecoins, o Boros tokeniza uma coisa nova: a taxa de funding dos perpétuos. Transforma o funding, aquele pagamento periódico que alimenta as cascatas de liquidações quando vira gasolina, num instrumento que se pode comprar, vender e cobrir.
A utilidade é concreta. Um fundo que ganha a vida com a arbitragem de base (comprar à vista, vender o perpétuo, embolsar o funding) fica exposto ao risco de esse funding cair. Com o Boros, pode fixar o funding com antecedência, tal como uma empresa fixa o preço do combustível. No primeiro ano de vida, o Boros acumulou milhares de milhões de dólares em volume nocional, ainda que a receita continue modesta (cerca de 301 mil dólares em comissões no arranque, com posições em aberto na ordem dos milhares de milhões de dólares), segundo dados compilados pela FalconX. É pequeno face ao mercado de perpétuos, mas é a tentativa mais séria até hoje de dar mercado a prazo à variável mais volátil da cripto.
A virada institucional: PT como colateral, RWA e a ambição obrigacionista
A tese de longo prazo da Pendle é deixar de ser um brinquedo de yield farmers e tornar-se infraestrutura de rendimento fixo para dinheiro sério. Os sinais estão à vista: os PTs começam a ser aceites como colateral noutros protocolos de crédito (um PT é, afinal, um instrumento de capital com data e valor de resgate conhecidos, fácil de avaliar), e o roteiro da equipa aponta para mercados de ativos do mundo real (RWA) e para produtos pensados para instituições. Um PT sobre um bilhete do Tesouro tokenizado é, no fundo, uma obrigação de cupão zero em cadeia, algo que uma tesouraria reconhece de imediato.
O cofundador e diretor executivo, TN Lee, resume a ambição sem rodeios. Na atualização do token, em janeiro de 2026, escreveu que o objetivo «sempre foi trazer a eficiência e a escala dos mercados de rendimento fixo tradicionais para a DeFi» e que a Pendle quer tornar-se «uma infraestrutura de rendimento robusta, sustentável e pronta para instituições» (Chainwire). Em entrevista, foi mais longe na metáfora, falando da ambição de construir a «Apple» do mercado DeFi, isto é, a camada sobre a qual os outros constroem (PANews).
Se essa visão se concretizar, o PT deixa de ser um nicho e passa a ser o equivalente on-chain de uma obrigação de cupão zero, o tijolo com que se constroem carteiras de rendimento fixo. É uma promessa grande, e é exatamente por isso que a macro dos próximos parágrafos importa tanto: um instrumento de rendimento fixo vive ou morre com o nível da taxa sem risco.
Quando a base sobe dos dois lados, a curva reprecifica
Todo o mercado da Pendle é, no fundo, uma aposta relativa: o rendimento cripto contra a taxa sem risco. Por isso a semana de 16 de setembro é tão importante. A Reserva Federal decide nesse dia e, depois do discurso duro do seu presidente, Kevin Warsh, em Jackson Hole a 28 de agosto, o mercado passou a atribuir uma probabilidade elevada a uma subida; medidas baseadas nos futuros da CME chegaram a apontar para mais de 80%, ainda que os mercados de previsões estivessem mais divididos (The Motley Fool). Warsh tem repetido que «a estabilidade de preços não se realiza por si só» (Reserva Federal), uma forma de avisar que não há cortes à vista.
Do lado europeu, o BCE já se antecipou: subiu a taxa de depósito para 2,50% a 10 de setembro, com Lagarde a classificar a decisão como unânime e a recusar comprometer-se com qualquer trajetória futura, decidindo «reunião a reunião» (CNBC). As novas taxas entram em vigor a 16, o mesmo dia da decisão americana. É, para quem investe em euros, uma corrida entre dois bancos centrais, e ambos estão a apertar. Vale a pena ler com atenção o guião de reação ao FOMC antes de a decisão sair.
A mecânica na Pendle é direta. Quando a taxa base sobe, toda a APY implícita da curva reprecifica para cima quase de imediato. Quem tinha trancado uma taxa fixa via PT antes da subida pode ver-se com um rendimento agora abaixo do que um bilhete do Tesouro paga sem risco; quem detém YT vê o valor da sua aposta oscilar com cada dado de inflação e cada palavra dos bancos centrais. A tokenização do rendimento não tira o risco de taxa de cima da mesa; torna-o negociável, o que é diferente.
A armadilha cambial: um cupão em dólares para quem poupa em euros
Há um risco que quase toda a cobertura em português esquece e que é, para o investidor nacional, o mais importante de todos. A esmagadora maioria dos rendimentos que a Pendle tokeniza é denominada em dólares: o sUSDe, o sUSDS e os bilhetes do Tesouro tokenizados pagam todos em dólares. Um investidor que pensa e gasta em euros e que compre um PT para travar 4% está, sem dar por isso, a assumir também risco cambial EUR/USD.
A 14 de setembro, o euro transacionava-se perto de 1,155 dólares, no valor mais baixo desde meados de agosto, pressionado pela expectativa da subida da Fed (Trading Economics). O ponto crucial: uma variação cambial de poucos pontos percentuais chega para engolir um ano inteiro de cupão. A tabela ilustra o efeito sobre um rendimento em dólares de 4%.
| Cenário no ano | Cupão em dólares | Efeito cambial | Resultado para o investidor em euros |
|---|---|---|---|
| EUR/USD estável | +4% | 0% | ~ +4% (o rendimento chega inteiro) |
| Euro sobe 4% (dólar cai) | +4% | -4% | ~ 0% (o câmbio come o cupão) |
| Euro sobe 8% | +4% | -8% | ~ -4% (perda apesar do rendimento) |
| Euro cai 4% (dólar sobe) | +4% | +4% | ~ +8% (ganho cambial extra) |
Repare que o câmbio pode tanto destruir como amplificar o rendimento. Com o euro a cair, o investidor português até ganha por cima do cupão; com o euro a subir, perde. A questão é que essa variável nada tem a ver com a qualidade do rendimento na Pendle e pode ser várias vezes maior do que ele. Cobrir o risco cambial é possível, mas custa aproximadamente o diferencial de taxas entre a Fed e o BCE, que ronda hoje mais de um ponto percentual, corroendo parte substancial do que se foi buscar. É a mesma armadilha que assombra qualquer euro investido num rendimento americano, tokenizado ou não.
Riscos: o YT que vai a zero, o PT tão seguro quanto o subjacente
A tokenização de rendimento acrescenta camadas de risco às do ativo de base. Vale a pena enumerá-las sem eufemismos.
- O YT pode ir a zero. É a natureza do instrumento: se o rendimento do subjacente cair abaixo do que estava implícito no preço de compra, o detentor do YT perde, e no vencimento o YT vale sempre zero. Não é um defeito; é o desenho.
- O PT é tão seguro quanto o seu subjacente. Um PT de sUSDe herda todos os riscos da Ethena: se o subjacente perdesse a paridade ou sofresse um incidente, o PT que promete resgatá-lo ao par sofreria na mesma medida. «Taxa fixa» não quer dizer «sem risco de capital».
- Risco de smart contract. Toda a mecânica assenta em contratos; uma falha na Pendle, na ponte entre cadeias ou no protocolo subjacente pode congelar ou drenar posições.
- Fragmentação e liquidez. Com 14 cadeias e vários vencimentos por ativo, a liquidez reparte-se por dezenas de pools. Sair de uma posição grande perto do vencimento, ou numa pool fina, pode custar caro em slippage.
- Concentração. Com a maioria do valor assente em derivados de um único emitente (a Ethena), um problema nesse subjacente teria um efeito desproporcionado sobre toda a plataforma.
Nada disto invalida a proposta; qualifica-a. A Pendle dá ferramentas poderosas, mas transfere para o utilizador a responsabilidade de perceber exatamente o que comprou, e a que prazo. O rendimento fixo on-chain não é o mesmo que rendimento sem risco.
CMVM, Banco de Portugal e o imposto: onde cai a tokenização de rendimento
Em Portugal, a supervisão reparte-se: a CMVM cuida da conduta de mercado e da prevenção do abuso de mercado, e o Banco de Portugal trata dos prestadores de serviços de criptoativos e das stablecoins, tudo sob o quadro europeu do MiCA, transposto pela Lei n.º 69/2025, publicada a 22 de dezembro e em vigor desde 27 de dezembro de 2025 (Diário da República). O período de transição para os prestadores nacionais termina a 1 de julho de 2026, um prazo que qualquer plataforma que sirva clientes portugueses tem de respeitar; as coimas por incumprimento grave podem chegar a cinco milhões de euros.
Há um detalhe do MiCA que explica a própria existência da Pendle. Os artigos 40 e 50 proíbem que as stablecoins reguladas paguem juro pela simples detenção. Resultado: o rendimento não pode viver na stablecoin, tem de viver num invólucro à parte, um sUSDS, um sUSDe, ou precisamente num token da Pendle. A regulação empurrou o rendimento para a camada que a Pendle negoceia. Fica em aberto uma questão mais espinhosa: um PT ou um YT, que se parecem muito com instrumentos financeiros, caem sob o MiCA ou sob a diretiva dos mercados de instrumentos financeiros (a DMIF II)? As orientações da ESMA de 19 de março de 2025 sobre a fronteira entre criptoativo e instrumento financeiro sugerem que, quanto mais um token replica um derivado ou um título, mais provável é ser tratado como instrumento financeiro, fora do MiCA (ESMA). É um terreno que ainda não assentou.
No imposto, a fronteira também não é trivial. Rendimentos de staking recebidos de forma corrente tendem a cair na Categoria E (capitais), tributados a 28% no momento em que são recebidos; as mais-valias na alienação de criptoativos detidos entram na Categoria G, também a 28%, com a conhecida exclusão para detenções superiores a 365 dias. Onde exatamente encaixa o ganho de um PT comprado com desconto e resgatado ao par, ou o lucro de um YT, é matéria que a Autoridade Tributária ainda não esclareceu de forma inequívoca para estes instrumentos. Quem opera na Pendle a partir de Portugal deve documentar cada posição e, na dúvida, procurar aconselhamento; a novidade do instrumento não suspende a obrigação declarativa.
Perguntas frequentes
O que é a Pendle numa frase?
É um protocolo DeFi que separa qualquer ativo que rende em duas partes negociáveis, o capital (PT) e o rendimento (YT), permitindo travar uma taxa fixa ou apostar na direção do rendimento até uma data de vencimento.
Comprar um PT é seguro?
Um PT dá uma taxa fixa se for mantido até ao vencimento, mas não elimina o risco: herda todos os riscos do ativo subjacente (por exemplo, um sUSDe) e o risco de smart contract. «Taxa fixa» refere-se ao rendimento, não a uma garantia de capital.
Porque é que o YT pode perder todo o valor?
O YT dá direito apenas ao rendimento gerado até ao vencimento. À medida que o tempo passa, esse rendimento vai sendo pago e o direito remanescente encolhe; no vencimento não sobra fluxo nenhum, por isso o YT vale zero. Se o rendimento do subjacente cair, perde valor ainda mais depressa.
Qual é o principal risco para um investidor português?
Além dos riscos do próprio instrumento, é o risco cambial. Quase todos os rendimentos da Pendle são em dólares, e uma variação de poucos pontos no EUR/USD pode anular ou superar um cupão anual de 4%, um risco independente da qualidade do rendimento em si.
A subida das taxas da Fed e do BCE é boa ou má para a Pendle?
É as duas coisas. Uma taxa base mais alta comprime o prémio dos rendimentos cripto sobre o sem risco, o que reduz o apetite especulativo; mas também torna a gestão de taxa a prazo mais valiosa, que é precisamente o que a Pendle vende. A curva de APY implícita reprecifica de imediato a cada decisão dos bancos centrais.
Por Yuki Tanaka, editor de finanças on-chain da HOGE Wire.