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● Predictions & Forecasts

A lei cripto caiu no Senado: a conta chega nas urnas de novembro

O CLARITY Act caiu no Senado a 15 de setembro, por 49 votos a 50. A consequência não é a lei perdida: é a lista de votos que vira campanha para as intercalares de novembro.

A 15 de setembro de 2026, às 14h15 em Washington, o Senado dos Estados Unidos abriu a votação que a indústria cripto esperava havia mais de um ano. Quando a contagem fechou, o CLARITY Act, a lei que devia repartir a supervisão dos ativos digitais entre a SEC e a CFTC, tinha ficado pelos 49 votos a favor contra 50, muito longe dos 60 necessários para vencer a moção de encerramento do debate. O Bitcoin, que na véspera negociava perto dos 80.000 dólares, deslizou para a casa dos 76.000 ao longo da tarde; convertido em euros, recuou para a zona dos 65.000, segundo a cobertura ao minuto da CoinDesk e os dados da CoinGecko.

Quase toda a análise que esta casa publicou sobre eleições e cripto tratou o voto como causa e a política regulatória como efeito: elege-se um Congresso, muda-se a lei, mexe-se o preço. O que aconteceu a 15 de setembro obriga a inverter a seta. A morte do CLARITY não fecha o dossiê; dispara o tiro de partida das intercalares de 3 de novembro. A lista de quem votou contra acaba de se transformar num cartão de pontos eleitoral, e os 193 milhões de dólares que o super PAC Fairshake tem em cofre passaram a ter uma nova lista de alvos. Dito de forma crua: o voto de setembro é o anúncio de campanha que vai passar em novembro.

O que se passou a 15 de setembro

A votação não foi sobre o mérito do CLARITY. Foi um cloture, o mecanismo processual que precisa de 60 votos para encerrar o debate sobre a moção de proceder e levar o texto a discussão plena. Os Republicanos controlam 53 lugares, o que obrigava a ir buscar pelo menos sete Democratas. Não os houve. O resultado, 49 a favor e 50 contra, ficou a onze votos do limiar e, na aritmética do calendário do Senado, isso equivale a uma sentença: falhar o cloture fecha, na prática, a porta à estrutura de mercado por lei em 2026.

Três Republicanos furaram a disciplina de bancada e votaram contra o avanço: Susan Collins (Maine), Josh Hawley (Missouri) e Jerry Moran (Kansas). Mas o golpe decisivo veio do outro lado. Sete Democratas que tinham passado meses a negociar o texto, entre eles Kirsten Gillibrand, Mark Warner, Cory Booker, Raphael Warnock, Ruben Gallego, Angela Alsobrooks e Catherine Cortez Masto, viraram a casaca à hora do voto, segundo o apuramento acompanhado pela jornalista Eleanor Terrett e reportado pela Coinpedia. «It died», resumiu ao vivo um dirigente do setor.

Do lado de quem defendia a lei, o tom foi de exaustão. Cynthia Lummis (Republicana do Wyoming), a principal patrocinadora, não escondeu que dava a batalha por perdida: «I think we’re done. It’s over. Because we’ve been working on this bill for over a year, and we’ve given them over 120 of their requests. That’s enough.», declarou à saída. Do lado oposto, Elizabeth Warren fez o que faz há dois anos: pediu aos colegas que votassem contra, insistindo que o texto fora escrito pela indústria para a indústria.

Elemento da votaçãoNúmero
Votos necessários (cloture)60
Votos a favor de avançar49
Votos contra50
Cadeiras Republicanas no Senado53
Republicanos que votaram contra3 (Collins, Hawley, Moran)
Democratas negociadores que viraram para o «não»7 (Gillibrand, Warner, Booker, Warnock, Gallego, Alsobrooks, Cortez Masto)

Comprar o voto, vender a lei: agora com dados reais

Há uma frase que circula nas mesas de negociação há um ano: os mercados descontam o voto em minutos e a lei em anos. O dia 15 de setembro deu-lhe a primeira validação empírica limpa. O preço reagiu ao segundo; a lei, essa, vai morrer devagar, ao ritmo de um calendário legislativo que só se reabre depois das urnas. São dois relógios diferentes, e confundi-los é a fonte de metade dos erros de posicionamento em torno de eventos políticos.

Não é a primeira vez que se vê este mecanismo, apenas a primeira vez ao contrário. Na noite eleitoral de 2024, o preço do Bitcoin reagiu em horas a um resultado favorável, com um salto que o levou a novos máximos históricos nas semanas seguintes; a tradução legislativa dessa vitória, a tão falada estrutura de mercado, continua por concretizar quase dois anos depois. Em 2026, o relógio rápido tocou na direção oposta: o preço caiu em minutos com a derrota, mas a fatura política dessa derrota só será cobrada, também ela com o atraso habitual, nas urnas de novembro.

Os números da tarde contam a história. O Bitcoin negociava perto dos 79.530 dólares durante a noite, recuou para os 77.400 na manhã europeia e afundou para a faixa dos 75.750 a 76.000 dólares depois de o resultado ser conhecido, uma queda de 3,5% a 4,2% em 24 horas e o valor mais baixo desde 21 de agosto. A Ethereum perdeu 3,9%, para 2.407 dólares; a Solana cedeu 3%, para 98,50 dólares. Nas ações cotadas, o castigo foi maior: a Coinbase caiu 6,7%, a Circle 8%, a Bullish 4,6% e a Robinhood 3,6%, de acordo com a CoinDesk.

Para uma carteira denominada em euros, o retrato do dia foi menos dramático do que parece à primeira vista. O Bitcoin fechou perto dos 65.000 euros, com uma capitalização à volta de 1,3 biliões, e, apesar da tarde vermelha, continuava a somar cerca de 19,7% nos últimos trinta dias, ainda a uns 40% abaixo do máximo histórico de 107.662 euros, segundo a CoinGecko. Por outras palavras: o voto tirou o topo à subida de setembro, não inverteu a tendência. Quem quiser perceber por que razão um único titular consegue mover o preço com esta velocidade encontra a mecânica no texto desta casa sobre como se forma o preço on-chain, e a anatomia das cascatas que amplificam o movimento está detalhada na leitura sobre funding e liquidações.

A verdadeira consequência não é a lei, é a lista

Se a análise parasse no preço, seria mais uma sessão volátil entre muitas. Mas o efeito duradouro do dia 15 não está no gráfico: está no registo. Um voto de cloture produz uma chamada nominal, um documento público e permanente que diz, senador a senador, quem quis avançar e quem travou. Essa lista é, em termos práticos, o cartão de pontos que a indústria vai usar durante os catorze meses seguintes.

É aqui que a seta se inverte. Todas as peças anteriores desta série, do explicador inicial ao caso brasileiro, partiram do princípio de que primeiro há eleições e só depois há política de cripto. O que 15 de setembro mostra é o circuito de retorno: uma derrota legislativa não encerra o ciclo eleitoral, alimenta-o. Cada «não» de hoje é matéria-prima para um anúncio de amanhã, e cada senador que ajudou a afundar a lei sabe que o registo o segue até à próxima corrida. A política não deixou de ser causa; passou também a ser efeito de si mesma.

O caminho da chamada nominal até ao anúncio de campanha é bem conhecido de quem faz política nos Estados Unidos. Um voto registado alimenta a pesquisa de oposição, que o transforma numa mensagem de trinta segundos; grupos como o Stand With Crypto convertem-no depois numa pontuação por candidato, fácil de partilhar e de repetir. O que antes exigia explicar ao eleitor um dossiê técnico passa a caber numa frase: «este senador bloqueou regras claras para a cripto». A abstração vira acusação concreta, e é essa conversão que dá ao resultado de 15 de setembro uma vida muito mais longa do que a sessão bolsista que se lhe seguiu.

A dimensão do que está em jogo ajuda a perceber por que motivo isto vira tema de campanha, e não uma nota de rodapé. Mike Novogratz, presidente da Galaxy, avisara que, falhando a lei, a regulação abrangente da cripto podia ficar «off the table for years, if ever». Traduzido para linguagem de estratega político: a indústria que gastou centenas de milhões a construir influência acaba de descobrir que a compra ainda não está paga, e que a fatura vence nas urnas. É exatamente a leitura que o texto-irmão desta casa antecipou, ao falar dos dois veredictos de setembro.

Fairshake: 193 milhões à espera de alvos

O veículo dessa fatura tem nome: Fairshake. O super PAC entrou no ciclo das intercalares de 2026 com 193 milhões de dólares em cofre, cerca de 60 milhões acima do que gastou em 2024, alimentado pelos pesos-pesados do setor: Coinbase, Ripple e a Andreessen Horowitz, como noticiou a CNBC. A lógica é simples e foi desenhada precisamente para dias como o de 15 de setembro: premiar quem vota a favor da indústria e punir quem vota contra.

Não é teoria. O Fairshake já mostrou como opera neste ciclo: entrou a favor do Republicano Barry Moore na corrida ao Senado pelo Alabama, assumiu o objetivo de afastar o Democrata Al Green da Câmara e, em março de 2026, despejou 5,2 milhões de dólares num único bloco de anúncios contra a candidata Juliana Stratton, segundo a Cryptopolitan. A chamada nominal do CLARITY dá-lhe agora uma nova cartografia de amigos e adversários, com a particularidade de que vários dos «não» decisivos vieram de Democratas que a indústria julgava a bordo.

Há um pormenor que muda o cálculo de novembro. Ao contrário de 2024, quando a cripto se apresentou sobretudo como um bloco de eleitores emergente e uma promessa, em 2026 chega com um historial de votos concreto para exibir. É muito mais fácil vender a um eleitor a ideia de que um senador «bloqueou regras claras» do que a promessa abstrata de que a cripto importa. A derrota legislativa, paradoxalmente, entregou à indústria a sua melhor mensagem de campanha, e transformou cada cadeira disputável num pequeno referendo sobre o voto de setembro.

Fairshake e as intercalares de 2026Detalhe
Cofre para o ciclo~193 milhões de dólares
Face a 2024~60 milhões de dólares acima
Principais financiadoresCoinbase, Ripple, Andreessen Horowitz
Movimentos já assumidosApoio a Barry Moore (Alabama); campanha para afastar Al Green (Texas); 5,2 M$ contra Juliana Stratton
Nova munição de novembroA chamada nominal do CLARITY (quem votou contra)

Porque é que sete democratas viraram a casaca

Para perceber por que motivo isto vai durar até novembro, é preciso perceber o que travou o voto, e a resposta não é «a cripto». É Trump. O ponto de rutura foi a cláusula de ética: um grupo de Democratas que tinha negociado o texto concluiu que a linguagem não chegava para impedir conflitos de interesse do próprio Presidente, cujos negócios em ativos digitais terão gerado cerca de 1,4 mil milhões de dólares em receita em 2025, um número que a CNBC associou diretamente ao impasse.

Esta é a razão pela qual a lista de votos é tão potente como tema de campanha. Um senador Democrata que votou «não» pode dizer ao seu eleitorado que recusou passar um cheque em branco à família presidencial; um adversário financiado pela indústria pode dizer que esse mesmo senador bloqueou regras que protegeriam os consumidores. As duas narrativas cabem no mesmo voto, e ambas vão ser testadas nas urnas. Warren, que lidera a ala cética, resumiu a posição num apelo direto aos colegas para votarem contra, segundo a Coinpedia.

O resultado é um alinhamento pouco habitual: três Republicanos preocupados com os bancos comunitários ao lado de um bloco Democrata preocupado com a ética. Coligações assim raramente sobrevivem a uma campanha, e é precisamente essa fragilidade que o dinheiro do Fairshake vai tentar explorar, procurando as cadeiras onde o voto de setembro se torna o argumento decisivo. Para o setor, o inimigo já não é abstrato: tem nomes, estados e datas de reeleição.

O contra-argumento de Armstrong: os árbitros já mudaram

Antes de tratar a queda do CLARITY como uma catástrofe, convém ouvir quem argumenta o contrário, e essa voz veio de dentro da própria indústria. Brian Armstrong, presidente executivo da Coinbase, dissera na véspera que o desfecho quase não importava: «if it doesn’t pass, it’s also going to be a good outcome because the SEC and the CFTC have said that they’re ready to publish rulemaking, and we’re going to get regulatory clarity one way or another on the 15th or the day or two after.», numa entrevista citada pela CoinDesk.

A observação é mais profunda do que parece. A verdadeira mudança de regime na política norte-americana de cripto não aconteceu por lei; aconteceu por nomeação. Com Paul Atkins na SEC e Michael Selig na CFTC, os reguladores já reescreveram a postura de fiscalização sem precisar de um único voto no Senado. Nessa leitura, o CLARITY seria sobretudo a formalização de uma viragem que já ocorrera, e a reação violenta do mercado ao seu falhanço pode ser um exagero: perdeu-se o carimbo legal, não o novo entendimento das agências. É uma distinção que separa o investidor que lê manchetes do que lê processos.

Há ainda a leitura maximalista, cara aos bitcoiners. Michael Saylor, presidente executivo da Strategy, respondeu ao dia com uma frase só: «The only clarity you need is Bitcoin.» E Matt Cole, líder da Strive, foi mais explícito: «Clarity not passing is bad for the United States and bad for crypto… my honest take is this is good for Bitcoin.», ambos citados pela CoinDesk. O raciocínio é que um ativo verdadeiramente descentralizado não depende do Congresso, e que a incapacidade de legislar reforça, não enfraquece, a tese de reserva de valor fora do sistema. Não é preciso concordar para reconhecer que a narrativa existe e move fluxos.

Setembro em três atos: dados, lei e juros

O falhanço do CLARITY não caiu no vácuo. Encaixou-se entre os dois outros veredictos que fazem de setembro de 2026 um mês-pivô. Quatro dias antes, a 11 de setembro, o índice de preços no consumidor dos Estados Unidos mostrou uma inflação teimosa: 0,4% em cadeia mensal e 3,4% em termos homólogos, com o núcleo (que exclui energia e alimentação) a subir 0,3% no mês e 2,4% no ano, o valor anual mais baixo desde março de 2021, mas ainda acima do conforto do banco central. A gasolina, que subiu 3,9%, explicou mais de um terço do avanço mensal, segundo o apuramento do U.S. News.

O terceiro ato chega a 16 de setembro, um dia depois do voto, com a decisão do Comité de Mercado Aberto. Depois do discurso duro de Kevin Warsh em Jackson Hole, a 28 de agosto, as probabilidades de uma subida de 25 pontos-base dispararam: a ferramenta FedWatch da CME apontava para cerca de 60,6% a 8 de setembro, contra 44,4% um mês antes, calcula o Motley Fool. A confirmar-se, seria a primeira subida de juros desde 2023, um travão adicional para os ativos de risco no exato momento em que a indústria perde a sua aposta legislativa.

Somados, os três atos desenham um setembro hostil: inflação que não cede, lei que cai e juros que ameaçam subir. Para o investidor, o mais útil é separar o que é ruído político do que é regime macro, um exercício que esta casa detalhou no guião de reação ao FOMC e na análise sobre quem gere o risco por trás dos juros.

DataVeredictoResultadoLeitura para a cripto
11 setInflação (CPI de agosto)+0,4% mês / +3,4% ano; núcleo 2,4%Reforça a hipótese de subida de juros
15 setCLARITY Act (cloture)49-50, falha os 60 votosPreço cai; dossiê legislativo fecha para 2026
16 setDecisão do Fed (FOMC)~60% de probabilidade de subidaAperto macro sobre ativos de risco

Novembro: o mapa que a cripto quer redesenhar

Com a lei fora da mesa até, na melhor das hipóteses, 2027, a indústria transferiu de imediato a energia para o único evento que pode reabrir a porta: as intercalares de 3 de novembro de 2026. Estão em jogo os 435 lugares da Câmara e 35 do Senado, onde os Republicanos hoje detêm uma maioria estreita de 53 a 47. A aritmética é clara: sem uma composição mais favorável, o CLARITY, ou o seu sucessor, não volta a ter 60 votos.

É por isso que o falhanço, longe de desmobilizar, concentra. A tese da indústria deixou de ser «convençam o Congresso atual» e passou a ser «comprem um Congresso que vote a favor». O Fairshake é o instrumento; a chamada nominal de setembro é o mapa; e o prémio é a diferença entre uma lei em 2027 e um vazio legislativo que, nas palavras de Novogratz, pode durar anos. Para a cripto, novembro deixou de ser uma eleição sobre política geral e tornou-se um referendo setorial disfarçado.

A dificuldade, para a indústria, é que a matemática do Senado não se resolve num só ciclo. Conquistar uma maioria de 60 votos favorável à estrutura de mercado é um projeto de várias eleições, não de uma noite, e muitos dos lugares em disputa em novembro estão em estados onde a cripto é, na melhor das hipóteses, um tema de segunda ordem face à economia e ao custo de vida. O cálculo do Fairshake não é, por isso, comprar a lei já em 2027; é deslocar a composição do Senado o suficiente para que a próxima tentativa parta de uma base mais alta. É uma aposta de longo prazo financiada com dinheiro que precisa de resultados a curto prazo.

Os mercados de previsão já contavam a história

Quem quisesse antecipar o desfecho não precisava de estar em Washington: bastava ler as odds. Nas semanas anteriores ao voto, os mercados de previsão davam ao CLARITY cerca de 20% de probabilidade de passar em 2026, um número que só fez cair à medida que a cláusula de ética se revelava intransponível. Depois do dia 15, essa probabilidade colapsou para o irrelevante. É a mesma infraestrutura, Polymarket e Kalshi, que a série sobre previsões desta casa tem seguido como o cabo de transmissão da política em tempo real.

Há, porém, um aviso local que convém repetir. Para o leitor português, estes mercados são úteis como termómetro, não como mesa de apostas: o Polymarket está bloqueado em Portugal pelo Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos desde janeiro de 2026, ao abrigo da lei do jogo online. Ler as probabilidades é legítimo e informativo; participar nelas, a partir daqui, não é uma opção regulada. E, como qualquer mercado fino fora dos eventos norte-americanos de grande liquidez, estas odds erram, sobretudo quando o resultado depende de meia dúzia de senadores indecisos.

Para uma carteira em euros: leva-se o preço, não o voto

Aqui chega o ponto que mais interessa ao leitor desta edição. Um investidor português viu, a 15 de setembro, o valor da sua carteira encolher por causa de uma votação processual num Senado a milhares de quilómetros de distância, sobre a qual não tem nem voto nem representação. Esta é a assimetria central: uma carteira em euros importa toda a volatilidade da política norte-americana e não exporta nenhuma influência de volta.

A razão é estrutural. Na União Europeia, o regime já está fechado. O equivalente europeu ao debate do CLARITY, a definição de quem regula o quê, foi resolvido pelo MiCA, que entrou plenamente em vigor com o fim do período transitório a 1 de julho de 2026. Não há, em Bruxelas, uma lei de estrutura de mercado por votar que possa mover o preço; o beta político-regulatório europeu é, para efeitos práticos, próximo de zero. O preço do Bitcoin em euros reage a Washington porque é a liquidez em dólares que fixa o preço marginal, não porque Lisboa ou Estrasburgo tenham um voto pendente.

O resultado é uma divisão de trabalho pouco confortável: o investidor americano tem exposição ao preço e capacidade eleitoral (pode punir ou premiar o seu senador em novembro); o investidor europeu fica apenas com a exposição ao preço. Herda a montanha-russa sem o volante. Reconhecer isto não é fatalismo, é gestão de risco: quem sabe que está exposto a um risco que não controla dimensiona a posição em conformidade.

O que muda (e o que não muda) para o investidor português

Convém, por isso, separar o que a queda do CLARITY altera do que deixa exatamente na mesma. O que muda é o preço e a narrativa: mais volatilidade, um discurso de incerteza regulatória americana que vai dominar os títulos e, provavelmente, um outono nervoso enquanto o mercado digere a combinação de lei falhada e juros a subir.

O que não muda é o essencial do enquadramento português. A supervisão continua repartida, com a CMVM a zelar pela conduta de mercado e o Banco de Portugal pelos aspetos prudenciais e de stablecoins, ao abrigo do MiCA e da Lei n.º 69/2025, que prevê coimas até cinco milhões de euros. A fiscalidade também não se mexe por causa de um voto no Senado: as mais-valias de ativos detidos menos de 365 dias continuam tributadas a 28%, e os produtos derivados sobre cripto, como os perpétuos, permanecem instrumentos financeiros sob a DMIF II, com a alavancagem no retalho limitada a 2:1. Em suma, uma lei americana que cai muda o valor da carteira, não o livro de regras que se aplica a quem investe a partir de Portugal.

Os riscos de sobre-ler um voto processual

Um bom analista tem de saber quando a sua própria tese está errada, e há pelo menos três razões para não transformar o dia 15 num apocalipse. A primeira: um cloture falhado não é a revogação de nada. O texto aprovado pela Câmara em 2025 continua vivo; o que morreu foi a janela de 2026. Um Senado diferente, saído de novembro, pode reabri-lo em 2027. A segunda é o argumento de Armstrong: se a clareza chega de qualquer forma pela via das agências, o mercado pode estar a castigar a ausência de um carimbo que, na prática, já tinha sido dado.

A terceira é a mais banal e a mais importante: a decisão do Fed no dia seguinte pode pesar mais no preço, nas semanas seguintes, do que a lei que caiu. Confundir um voto processual com uma mudança de regime é o erro clássico de quem lê política à lupa e ignora a macro. Há também um traço humano nisto: gostamos de acreditar que um único acontecimento decide tudo, porque uma história com um clímax é mais fácil de contar do que um processo lento, um viés que esta casa explorou no ensaio sobre a nossa vontade de acreditar. O antídoto é medir a duração de cada choque, não a sua manchete.

O que vigiar a seguir

Para os próximos meses, a lista de vigilância é curta e concreta:

  • A decisão do FOMC a 16 de setembro e o respetivo «dot plot»: define o pano de fundo macro que ou amplifica ou dilui o choque do CLARITY.
  • Os calendários de regulação da SEC de Atkins e da CFTC de Selig: se a clareza pela via das agências se materializar, valida a tese de Armstrong e reduz o dano da lei falhada.
  • As sondagens e os mapas de gasto do Fairshake até 3 de novembro: mostram onde a chamada nominal de setembro se está a converter em pressão eleitoral real.
  • Uma eventual reintrodução do CLARITY em 2027, com um Congresso recomposto: o único caminho para ressuscitar a estrutura de mercado por lei.
  • Os títulos sobre conflitos de interesse cripto da família presidencial: foram eles que travaram a lei e vão continuar a ser o argumento que a mantém travada.

Perguntas frequentes

O que é o CLARITY Act e porque é que falhou no Senado?

O CLARITY Act (Digital Asset Market Clarity Act) é a proposta de lei que definiria a repartição da supervisão dos ativos digitais nos Estados Unidos entre a SEC, responsável pelos valores mobiliários, e a CFTC, responsável por mercadorias como o Bitcoin. A 15 de setembro de 2026 falhou a votação de cloture no Senado por 49 votos a favor contra 50, ficando aquém dos 60 necessários para avançar. Travaram-na três Republicanos e sete Democratas que consideraram insuficiente a cláusula destinada a limitar conflitos de interesse do Presidente.

Como é que a votação de setembro afeta as eleições intercalares de novembro?

A votação produziu uma chamada nominal pública, ou seja, um registo de quem apoiou e quem bloqueou a lei. A indústria cripto, através do super PAC Fairshake e do seu cofre de cerca de 193 milhões de dólares, deverá usar esse registo para financiar campanhas contra quem votou contra e a favor de aliados nas intercalares de 3 de novembro de 2026. A derrota legislativa transforma-se, assim, em munição eleitoral.

A queda do CLARITY significa que a cripto fica sem regras nos Estados Unidos?

Não. A ausência de lei mantém o enquadramento atual, em que a SEC e a CFTC dividem a supervisão por interpretação e não por estatuto. O presidente da Coinbase, Brian Armstrong, chegou a defender que a clareza chegaria de qualquer forma pela via da regulação das agências, agora lideradas por Paul Atkins e Michael Selig. O que se perdeu foi o carimbo legal e a certeza que só uma lei dá, não toda a supervisão.

O que muda para quem investe em cripto a partir de Portugal?

Muda o preço e a narrativa, não o livro de regras. A carteira em euros absorve a volatilidade da política norte-americana, mas o enquadramento português mantém-se: a CMVM e o Banco de Portugal supervisionam ao abrigo do MiCA e da Lei n.º 69/2025, as mais-valias de curto prazo continuam tributadas a 28% e os derivados de cripto permanecem sob a DMIF II, com alavancagem de retalho limitada a 2:1.

A rejeição da lei é definitiva ou pode ser recuperada?

Não é necessariamente definitiva. Um cloture falhado encerra a janela de 2026, mas o texto aprovado pela Câmara em 2025 não foi revogado. Um Senado com nova composição, saído das intercalares de novembro, pode reintroduzir e votar uma lei de estrutura de mercado em 2027. É precisamente por isso que o resultado de novembro se tornou tão decisivo para o setor.

Tomás Almeida é editor de mercados e regulação da HOGE Wire e acompanha o cruzamento entre a política norte-americana e o preço da cripto.

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