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● Culture & Long-reads

Donos do jogo? O drama das DAO no gaming cripto

O gaming prometeu que os jogadores seriam donos do jogo. O que veio foi puro drama: guildas a expulsar investidores e DAO a votar a própria extinção.

Em maio de 2022, um membro anónimo de uma guilda de videojogos, sob o pseudónimo «HoneyBarrel», submeteu uma proposta para expulsar o investidor que tinha ajudado a criar essa mesma guilda. A comunidade votou a favor. A Merit Circle, uma das maiores organizações autónomas descentralizadas (DAO) do gaming, decidiu cortar laços com a Yield Guild Games e comprar-lhe a saída por cerca de dez vezes o valor investido. Ninguém foi pirateado. Ninguém partiu uma linha de código. Foi governação a funcionar exatamente como estava desenhada, e o resultado foi um divórcio público de milhões.

O gaming foi, provavelmente, o maior teste que a cripto alguma vez fez à ideia de governação comunitária. Não se tratava de tesouros de DeFi geridos por meia dúzia de baleias, mas de comunidades reais, algumas com centenas de milhares de jogadores, a quem foi prometido algo simples e sedutor: iam ser donos do jogo que jogavam. Guildas, mundos virtuais e tesouros de estúdios foram entregues a multidões que, em teoria, deixavam de ser clientes para passar a coproprietárias.

O que se seguiu foi o material dramático mais rico de toda a cripto. Uma DAO expulsou o próprio investidor. Uma comunidade despediu os fundadores por votação. Um coletivo votou pela sua própria extinção. Uma economia de jogo votou, em pânico, para não morrer. E, em quase todos os casos, o poder acabou por regressar ao sítio de onde tinha saído: um estúdio, um fundador ou uma classe de profissionais. Este é o guião dessa novela, e a lição que deixa para quem ainda acredita na promessa.

A promessa: o jogador ia ser dono do jogo

Em 2021, no auge da euforia do «play-to-earn», a proposta parecia demasiado óbvia para falhar. Em vez de gastar dinheiro num jogo cujos itens pertenciam à editora, o jogador comprava esses itens como NFT, ganhava um token com valor de mercado e, no topo da pirâmide, recebia direito de voto sobre o futuro do próprio jogo. Jogar deixava de ser consumo para passar a ser propriedade. A palavra de ordem evoluiu depressa de «play-to-earn» para «play-to-own», jogar para possuir.

É aqui que a governação de jogos se distingue da governação financeira. Uma DAO de DeFi é, no fundo, um clube de alocadores de capital. Uma DAO de gaming herdava comunidades de pessoas a sério, muitas delas nas Filipinas, na Venezuela ou no Brasil, que passavam horas por dia dentro do jogo. A promessa não era só um retorno; era pertença. Por isso o gaming atraiu tanta gente que nunca tinha tocado em cripto, e por isso a desilusão, quando chegou, foi tão pessoal. Vale a pena perceber porque é que a audiência quer tanto acreditar na promessa de quem constrói estas comunidades.

No papel, o desenho era elegante. O token era, ao mesmo tempo, moeda dentro do jogo, ação da economia e boletim de voto. Quem jogava, ganhava; quem ganhava, tinha voz; quem tinha voz, protegia o jogo que amava. O problema, como se viu, é que estas três funções puxam em direções diferentes, e a maioria dos jogadores só queria a primeira. A governação, essa, ficou entregue a quem tinha mais tokens, mais tempo ou mais interesse comercial no resultado.

Yield Guild Games: a guilda que virou império

Se houve uma organização que encarnou a promessa, foi a Yield Guild Games. O modelo era engenhoso: a guilda comprava NFT caros, sobretudo os «Axies» necessários para jogar Axie Infinity, e emprestava-os a «bolseiros» que não tinham dinheiro para entrar. O bolseiro jogava, gerava tokens e partilhava os ganhos. Segundo a Cointelegraph, a YGG passou de 241 bolseiros em fevereiro de 2021 para mais de 20 mil um ano depois, num sistema em que o jogador ficava tipicamente com 70% dos ganhos, o gestor com 20% e a guilda com 10%, como noticiou a Cointelegraph.

Por cima desta operação estava uma DAO: o token YGG dava, em teoria, voz sobre o tesouro e a estratégia, organizados em subDAO regionais e por jogo. Era uma cooperativa global de jogadores, um fundo de investimento e uma rede social, tudo ao mesmo tempo. Durante alguns meses, pareceu o futuro do trabalho e do lazer fundidos numa só coisa.

Quatro anos depois, o império recuou. Em 2026, a YGG encerrou o seu braço de publicação de jogos, o YGG Play, com efeitos a partir de 1 de agosto, dispensou cerca de 35 pessoas e virou-se para uma economia de dados para IA, segundo a Decrypt. O cofundador Gabby Dizon justificou a decisão como «a market decision, not a product decision». Em paralelo, a guilda reposicionou-se como infraestrutura, com um «Guild Protocol» e «Onchain Guilds» lançados na Base, a rede da Coinbase, conforme também noticiou a Decrypt. O token conta a mesma história: a YGG transaciona-se por cerca de 0,02 euros, com uma capitalização perto dos 19 milhões de euros, mais de 99% abaixo do máximo histórico de 2021, segundo a CoinGecko.

Merit Circle contra a YGG: a DAO que expulsa o investidor

A cena de abertura deste artigo merece o desenvolvimento completo, porque é o exemplo mais puro de drama de governação no gaming. A Merit Circle nasceu, ela própria, de uma bolsa de Axie e cresceu como uma guilda rival da YGG. Em 2021, a Yield Guild Games investiu 175 mil USDC (cerca de 150 mil euros) na ronda inicial da Merit Circle, segundo a CoinDesk. Parecia um casamento óbvio: duas guildas alinhadas no mesmo mercado.

O alinhamento durou até uma votação dizer o contrário. Em maio de 2022, o membro conhecido por «HoneyBarrel» apresentou a proposta «HoneyBarrel», argumentando que a YGG não acrescentava valor suficiente e devia ser reembolsada, com o acordo de tokens cancelado, como detalhou The Block. A cripto habituou-se a confiar poder a nomes que ninguém consegue verificar, um risco que já explorámos a propósito do impostor que a cripto contratou. A DAO da Merit Circle acabou por votar a rutura e a comprar a saída da YGG por 1,75 milhões de USDC (cerca de 1,5 milhões de euros), quase dez vezes o valor original, num acordo para evitar litígio, segundo a CoinDesk.

A lição é desconfortável para quem investe em comunidades: numa DAO, o estatuto de fundador ou de patrono não vale nada contra uma maioria de votos. O «alinhamento» é uma ficção que dura até deixar de ser conveniente. A Merit Circle seguiu em frente, transformou-se na Beam, uma rede dedicada a jogos na Avalanche, com o token a converter-se na proporção de 1 para 100. Hoje a BEAM vale cerca de 0,0015 euros, com uma capitalização perto dos 76 milhões de euros, mais de 96% abaixo do seu pico, de acordo com a CoinGecko.

Axie e a Sky Mavis: o voto para não morrer

O Axie Infinity foi o jogo que iniciou toda esta onda, e também o que expôs mais cedo o limite da promessa. No início de 2022, a economia entrou numa espiral: havia demasiados tokens SLP a serem criados por jogadores a levantar dinheiro e poucos sumidouros para os absorver. O preço afundou e, com ele, o «salário» dos bolseiros. Em fevereiro de 2022, a equipa avisou que «The Axie economy requires drastic and decisive action now or we risk total and permanent economic collapse» e cortou drasticamente a emissão de SLP, segundo a CoinDesk.

Repare-se em quem tomou a decisão. Não foi um voto de detentores de token; foi a Sky Mavis, o estúdio. A propriedade dos jogadores era, em grande medida, marketing: quando a casa estava a arder, quem tinha as mãos no volante era a empresa. O mesmo se viu no maior desastre do ecossistema. Em março de 2022, a ponte Ronin, operada pela Sky Mavis, foi esvaziada em cerca de 625 milhões de dólares (mais de 540 milhões de euros), num ataque atribuído ao grupo norte-coreano Lazarus. O assalto gerou o tipo de autópsia pública que se tornou norma na cripto, como quando a própria IA encontra o bug primeiro.

A reparação também não veio de um voto comunitário. A Sky Mavis reembolsou os utilizadores com uma ronda de cerca de 150 milhões de dólares (perto de 130 milhões de euros) liderada pela Binance, complementada por fundos próprios, e o diretor de operações, Aleksander Larsen, prometeu «we are fully committed to reimbursing our players as soon as possible», conforme a CoinDesk. Em 2026, a rede Ronin prepara a migração para uma Layer 2 de Ethereum e cortou a inflação do token RON, uma decisão, mais uma vez, do estúdio, segundo a Decrypt. O AXS transaciona-se hoje por cerca de 0,88 euros, uma capitalização perto dos 153 milhões de euros, mais de 99% abaixo do máximo, de acordo com a CoinGecko.

Decentraland: a câmara municipal vazia

Se o Axie mostrou uma DAO de fachada, a Decentraland mostrou o oposto: uma DAO com poder real e ninguém para o exercer. Os detentores de MANA, de terrenos LAND e de nomes NAME votam sobre comissões, políticas do mundo virtual, atribuição de subsídios e o próprio tesouro. Não é teatro: as decisões passam por votação on-chain e mexem em dinheiro verdadeiro.

O problema é a sala vazia. A participação é tão baixa que, em junho de 2026, a comunidade votou para baixar o limiar de poder de voto necessário para aprovar propostas, de cerca de 6 milhões para 5 milhões de VP, precisamente para combater a apatia crónica, segundo o Crypto Economy. Ou seja, a solução para poucos votarem foi facilitar que ainda menos votos chegassem para decidir.

É o paradoxo central da governação de jogos. Dar poder às pessoas não faz com que elas o queiram usar. A maioria entra num mundo virtual para socializar ou construir, não para ler propostas orçamentais. O resultado é uma democracia formal capturada, na prática, por um núcleo pequeno de ativistas, grandes proprietários de terrenos e delegados. O MANA vale hoje cerca de 0,066 euros, com uma capitalização perto dos 130 milhões de euros, quase 99% abaixo do pico de 2021, segundo a CoinGecko.

ApeCoin: a DAO que se votou para a morte

Nenhum episódio é tão eloquente como o da ApeCoin. O token nasceu ligado ao universo dos Bored Ape Yacht Club, com uma DAO encarregada de gerir um tesouro enorme e de financiar iniciativas do ecossistema, incluindo o jogo Otherside. Durante três anos, foi o exemplo de manual de governação comunitária de uma marca cultural.

Em junho de 2025, essa comunidade votou pela sua própria dissolução. A proposta AIP-596, «Sunsetting the DAO and Launching ApeCo», foi aprovada com cerca de 99% dos votos, segundo os resultados publicados no fórum da ApeCoin. Greg Solano, diretor executivo da Yuga Labs à data, descreveu a governação da DAO como «sluggish, noisy, and often unserious governance theater», financiando «vanity proposals», conforme a CoinDesk. Os ativos, cerca de 169 milhões de tokens APE avaliados em mais de 168 milhões de dólares na altura (perto de 146 milhões de euros), foram transferidos para a ApeCo, uma entidade controlada pela Yuga, segundo o CryptoSlate.

Leia-se com atenção: a comunidade votou por devolver as chaves à empresa fundadora. É um regresso ao fundador que encena a confiança que a descentralização prometia dispensar. Depois de anos a proclamar que o coletivo decidiria, o coletivo concluiu que preferia ser gerido por profissionais com um patrão. O APE vale hoje cerca de 0,115 euros, uma capitalização perto dos 115 milhões de euros, mais de 99% abaixo do máximo de abril de 2022, de acordo com a CoinGecko.

Pudgy Penguins: quando a comunidade despede os fundadores

Há, no entanto, uma reviravolta que complica a moral da história. Em janeiro de 2022, a comunidade dos Pudgy Penguins fez o contrário da ApeCoin: em vez de devolver o poder aos fundadores, expulsou-os. Perante alegações de má gestão do tesouro, os detentores votaram, num canal de Discord, para afastar a equipa fundadora, segundo a CoinDesk. Foi um golpe de comunidade em toda a linha.

O que aconteceu a seguir é a parte incómoda. A coleção não foi salva por uma DAO nem por um voto. Em abril de 2022, o empresário Luca Netz comprou a coleção, a propriedade intelectual e os royalties por 750 ETH (cerca de 2,5 milhões de dólares, perto de 2,2 milhões de euros) e assumiu o comando sozinho, segundo a CoinDesk. Sob uma liderança única e centralizada, os Pudgy tornaram-se uma das marcas mais fortes do setor, com brinquedos em grandes cadeias de retalho e, mais tarde, o token PENGU.

A ironia é dupla. O caso de comunidade mais bem-sucedido do gaming e dos NFT nem sequer foi uma DAO on-chain, e só funcionou porque, depois do golpe coletivo, o poder foi entregue a um único dono com visão e capital. O PENGU vale hoje cerca de 0,0066 euros, com uma capitalização perto dos 413 milhões de euros, ainda assim quase 90% abaixo do seu máximo de dezembro de 2024, segundo a CoinGecko. Vale mais do que quase todos os tokens de governação desta lista, e é o menos governado por uma multidão.

As três paredes: concentração, apatia e captura

Estes episódios parecem diferentes, mas batem sempre nas mesmas três paredes. A primeira é a concentração. Um estudo da Chainalysis sobre grandes DAO concluiu que menos de 1% dos detentores controlam cerca de 90% do poder de voto, como resumiu a Cointelegraph. Num jogo, isto significa que os grandes investidores e as guildas profissionais decidem, enquanto o jogador comum tem um voto simbólico.

A segunda parede é a apatia, já vista na Decentraland. A terceira é a captura: quando poucos votam e o poder está concentrado, é barato para um fundador, um fundo ou uma baleia orientar o resultado. Ali Yahya, sócio da a16z crypto, resumiu a desilusão do setor à Fortune: «We spent the last 10 years rediscovering the hard way that direct democracy is a bad idea», conforme a Fortune.

Na raiz está um defeito de desenho que Vitalik Buterin descreveu há anos: um token de governação junta dois direitos numa só coisa, um interesse económico e um direito de voto, e esses direitos são, nas suas palavras, «very easy to unbundle», o que torna a compra de votos barata, como argumentou no seu ensaio sobre governação. Num jogo, em que o token também é moeda de uso diário, essa separação é ainda mais fácil: quem quer influência compra tokens no mercado, vota e depois vende.

A bolsa de estudo era trabalho

Há uma dimensão do drama que raramente aparece nas manchetes de governação: a humana. O modelo de bolsa que fez a fama da YGG era, na prática, uma relação laboral disfarçada de propriedade. O gestor emprestava os NFT, o bolseiro punha as horas e o rendimento era dividido. Para muitas famílias no Sudeste Asiático e na América Latina, durante a pandemia, aquilo foi um salário a sério.

O problema é que os bolseiros, os que faziam o trabalho, quase nunca tinham voto real. A governação vivia com quem detinha tokens de governação, não com quem jogava. E quando o preço do token caiu, o «salário» caiu com ele. A espiral descendente que se seguiu tinha a mesma mecânica das cascatas de liquidações que varrem os mercados alavancados: menos rendimento afastava jogadores, menos jogadores reduziam a procura pelo token, o preço caía mais e o rendimento voltava a encolher.

Foi por isto que a decisão de emissões da Axie doeu tanto: cortar a criação de tokens salvava a economia a prazo, mas reduzia imediatamente o que os bolseiros levavam para casa. A promessa de «ser dono» esbarrou numa realidade mais antiga: quem trabalha e quem decide raramente são as mesmas pessoas. A governação comunitária, no gaming, prometeu abolir essa distância e acabou por reproduzi-la com um verniz de tokens.

Modelos de governação no gaming cripto

Vale a pena arrumar os casos por modelo, porque cada um falha à sua maneira e nenhum entregou verdadeiramente o controlo aos jogadores. A tabela seguinte resume quem decide mesmo em cada arquétipo e como terminou.

ModeloExemploQuem decide mesmoDesfecho
Guilda-DAOYield Guild GamesTesouro, gestores e grandes detentores do tokenRecuo para infraestrutura; YGG Play encerrada em agosto de 2026
Estúdio no comandoAxie Infinity / Sky MavisA empresa que faz o jogoCortes de emissões e reembolso do hack decididos pelo estúdio, não por voto
DAO do mundoDecentralandDetentores de MANA, LAND e NAME (na teoria)Poder real, participação vazia; quórum baixado para combater a apatia
Comunidade-NFTApeCoin / Yuga LabsDetentores do token e, no fim, a Yuga (ApeCo)Votou-se pela extinção; poder devolvido à empresa fundadora
Golpe e compraPudgy PenguinsA comunidade despede; depois, um dono únicoFundadores expulsos; coleção vendida e relançada por um novo proprietário

Promessa contra realidade

Os tokens eram para ser, ao mesmo tempo, participação numa economia próspera e boletim de voto num mundo detido pelos jogadores. O mercado deu o seu veredito. Os números abaixo refletem cotações da CoinGecko a 18 de setembro de 2026 e mostram quedas de 90% a mais de 99% face aos máximos históricos.

Token (projeto)Preço (euros)Cap. de mercado (euros)Queda face ao máximo
YGG (Yield Guild Games)~0,021~19 milhões-99,8%
AXS (Axie Infinity)~0,88~153 milhões-99,4%
MANA (Decentraland)~0,066~130 milhões-98,7%
APE (ApeCoin)~0,115~115 milhões-99,5%
BEAM (Merit Circle / Beam)~0,0015~76 milhões-96,1%
PENGU (Pudgy Penguins)~0,0066~413 milhões-89,0%

Os dados são da CoinGecko e mudam ao minuto, mas a ordem de grandeza é estável há meses. O detalhe mais revelador da tabela é que o ativo com maior capitalização, o PENGU, é justamente o menos governado por uma multidão. O mercado parece pagar um prémio por marcas com um dono claro, não por coletivos sem leme.

2026: o poder volta ao estúdio

Somando os episódios, 2026 marca uma reviravolta clara: o poder está a regressar ao centro. A YGG deixou de ser uma guilda para ser um fornecedor de ferramentas. A ApeCoin dissolveu a DAO e entregou o tesouro a uma empresa. A Sky Mavis continua a comandar a Ronin. E até a Decentraland, que manteve a sua DAO, teve de facilitar a aprovação de propostas para que alguma coisa se decidisse.

Isto não significa que as DAO de gaming estejam mortas. Significa que mudaram de papel. Deixaram de ser o mecanismo que governa o jogo para passar a ser um instrumento de tesouraria, de identidade comunitária ou de distribuição de recompensas, com o estúdio ou o fundador de volta ao volante. Simon Hudson, do coletivo de arte gerado por IA Botto, disse-o sem rodeios à Fortune: «Are they dead? Certainly not. Have a lot of people been burned by them? Oh yeah», conforme a Fortune.

A nova geração de estúdios aprendeu a lição de forma pragmática. Fala menos em «descentralização total» e mais em «own-to-earn» controlado, em que o jogador detém itens e talvez ganhe recompensas, mas as decisões estruturais ficam com quem constrói o jogo e responde por ele. É menos romântico do que a promessa de 2021, e provavelmente mais honesto.

O que muda para o jogador (e para o regulador)

Para o leitor português, há uma questão prática por trás do drama: se um jogo cripto colapsar, a quem se recorre? A resposta depende de quem está por trás. Tokens como AXS, YGG, APE ou MANA são criptoativos abrangidos pelo regulamento europeu MiCA, transposto em Portugal pela Lei n.º 69/2025, em vigor desde o fim de dezembro de 2025, com o período transitório para prestadores de serviços a terminar a 1 de julho de 2026. A supervisão cabe à CMVM, na conduta de mercado, e ao Banco de Portugal, no registo de prestadores e nas stablecoins, sob o quadro do MiCA.

O ponto crucial é o que o MiCA não faz. Regula prestadores de serviços de criptoativos, como exchanges e custódia, e não a governação interna de uma DAO. Se um jogo é operado por uma empresa, como a Sky Mavis ou a Yuga, existe uma entidade legal a quem apresentar queixa. Se é uma DAO verdadeiramente sem dono, o jogador fica sem um prestador regulado a quem reclamar. Ainda assim, «sem dono» não significa «sem responsáveis»: o processo da Ooki DAO nos Estados Unidos, em que um regulador conseguiu uma sentença de 643.542 dólares (cerca de 560 mil euros) tratando a DAO como uma pessoa jurídica, mostrou que os votantes podem ser responsabilizados, segundo a CFTC. É por isso que estados como o Wyoming criaram estatutos legais próprios para DAO, uma tentativa de lhes dar personalidade jurídica e limitar essa exposição, como noticiou a CoinDesk.

A conclusão prática é simples. Antes de acreditar que um jogo é «detido pelos jogadores», verifique três coisas: quem controla as chaves do tesouro e os contratos, se existe uma empresa por trás com responsabilidade legal e se o seu token vota, de facto, sobre alguma coisa que interesse. Na maioria dos casos analisados aqui, a resposta honesta às três é «não é a comunidade». A promessa era bonita; o drama que se seguiu foi o preço de a levar a sério.

Perguntas frequentes

O que é uma DAO de videojogos?

Uma DAO de videojogos é uma organização autónoma descentralizada que aplica a governação por token a um jogo ou a uma comunidade de jogadores. Em vez de um estúdio decidir tudo, os detentores de um token votam sobre o tesouro, as regras económicas ou os ativos partilhados, como fizeram guildas do tipo da Yield Guild Games ou mundos virtuais como a Decentraland. Na prática, a maioria destas DAO acabou dominada por poucos detentores e por baixa participação.

Porque é que a Merit Circle expulsou a Yield Guild Games?

Em maio de 2022, um membro da Merit Circle propôs devolver o investimento inicial da Yield Guild Games e cortar laços. A DAO votou a favor e comprou a saída da YGG por 1,75 milhões de USDC, cerca de dez vezes os 175 mil USDC investidos, para evitar litígio. Foi um dos exemplos mais claros de uma DAO a virar-se contra o seu próprio investidor por decisão de voto.

O que aconteceu à ApeCoin DAO?

Em junho de 2025, a comunidade aprovou, com cerca de 99% dos votos, a proposta AIP-596 para encerrar a ApeCoin DAO e transferir os ativos, cerca de 169 milhões de tokens APE, para a ApeCo, uma entidade controlada pela Yuga Labs. O diretor executivo da Yuga à data, Greg Solano, descreveu a governação da DAO como «sluggish, noisy, and often unserious governance theater». Na prática, a comunidade votou por devolver o poder à empresa fundadora.

As DAO de gaming ainda existem em 2026?

Sim, mas em retirada. Em 2026, a Yield Guild Games encerrou o seu braço de publicação e passou a infraestrutura, a ApeCoin dissolveu a sua DAO e a Sky Mavis continua a comandar a rede Ronin. As DAO de videojogos sobrevivem sobretudo como ferramentas de tesouraria e de comunidade, não como o mecanismo que governa mesmo o jogo, que voltou em grande medida para estúdios e fundadores.

Os jogadores portugueses têm proteção se uma DAO de um jogo colapsar?

Depende de quem está por trás. O MiCA e as autoridades portuguesas, a CMVM e o Banco de Portugal, supervisionam prestadores de serviços de criptoativos, como exchanges e custódia, mas não a governação interna de uma DAO. Se um jogo é gerido por uma empresa, como a Sky Mavis ou a Yuga, há uma entidade a quem recorrer; se é uma DAO verdadeiramente sem dono, o jogador fica sem um prestador regulado a quem reclamar.

Por Marcus Okafor, editor de Cultura e Long-reads da HOGE Wire.

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