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● Predictions & Forecasts

Perspetivas de fim de ano: a cripto sob um Fed que aperta

A um ano do topo de 2025, o Bitcoin segura os 75 mil euros enquanto o Fed de Warsh aperta os juros. O que esperar da cripto até 31 de dezembro.

A 4 de outubro de 2026, o mercado de criptomoedas está quase exatamente a um ano do seu máximo histórico. A 6 de outubro de 2025, o Bitcoin tocou os 126 mil dólares, cerca de 112 mil euros ao câmbio atual, e a capitalização do setor aproximou-se dos 4,27 biliões de dólares. Doze meses depois, o Bitcoin muda de mãos perto dos 75 mil euros (cerca de 85 mil dólares) e o mercado agregado vale pouco mais de metade do que valia nesse pico, segundo os dados de mercado da CoinMarketCap.

A questão que domina as mesas de negociação, de Lisboa a Nova Iorque, não é se houve correção, isso é evidente, mas o que vem a seguir até 31 de dezembro. Este ano, a resposta depende menos das narrativas internas da cripto e mais de uma variável que mudou de sinal: a política monetária dos Estados Unidos.

O guião habitual do quarto trimestre pressupõe um banco central a cortar juros, a injetar liquidez e a empurrar o investidor para o risco. Em 2026, o guião inverteu-se. A Reserva Federal liderada por Kevin Warsh subiu a taxa diretora em setembro, e o mercado de futuros aponta para mais aperto, não menos. Esta análise mapeia as forças que vão decidir o fecho do ano: o fluxo institucional através dos ETF, um leque de alvos de preço que vai de 34 mil a 222 mil euros, a entrada do rendimento na equação do Ethereum, o vazio regulatório que a CLARITY Act deixou nos Estados Unidos e, do lado europeu, uma MiCA que deixou de ser teoria.

O ponto de partida: onde está o mercado a 4 de outubro

O retrato é o de um mercado em compasso de espera. O Bitcoin negoceia em torno dos 75 mil euros, com uma capitalização próxima de 1,7 biliões de dólares, e mantém uma dominância de cerca de 61% sobre o valor total do setor. O Ethereum vale perto de 2.400 euros (cerca de 2.700 dólares) e, ao contrário do Bitcoin, continua a sofrer saídas líquidas nos seus ETF. O conjunto do mercado ronda os 2,8 biliões de dólares, bem longe dos 4,27 biliões tocados no pico de outubro de 2025.

AtivoPreço (EUR)Preço (USD)Face ao máximo histórico
Bitcoincerca de 75.500 €cerca de 85.000 $cerca de 33% abaixo
Ethereumcerca de 2.400 €cerca de 2.700 $bem abaixo
Capitalização totalcerca de 2,5 biliões €cerca de 2,8 biliões $cerca de 34% abaixo

A ação de preço das últimas sessões resume a fragilidade do momento. A 2 de outubro, o Bitcoin chegou a superar os 87 mil dólares antes de inverter com violência e recuar para perto dos 84.600 dólares, uma queda que desencadeou mais de 430 milhões de dólares em liquidações forçadas, com as posições longas a suportarem o grosso do golpe, de acordo com o CryptoTimes. Não foi uma mudança de fundamentos, foi alavancagem a ser expulsa do sistema quando o vento macro mudou.

Há um dado simbólico nesta data. Estamos a poucos dias de assinalar um ano sobre o máximo histórico, e o preço continua cerca de um terço abaixo desse valor. Para quem entrou no topo, 2026 foi um ano de paciência. Para quem olha em frente, a pergunta é se o quarto trimestre traz o costumeiro impulso sazonal ou se, desta vez, a macroeconomia tem a última palavra.

A grande inversão: um Fed que sobe quando o guião pedia cortes

O elemento que define 2026 não nasceu dentro da cripto. Em maio, Kevin Warsh foi confirmado como presidente da Reserva Federal por uma margem apertada de 54 votos contra 45, a votação mais renhida de sempre para o cargo, sucedendo a Jerome Powell, noticiou a CNBC. O mercado leu a nomeação como um sinal acomodatício, por Warsh ser visto como próximo da Casa Branca, que há muito reclamava cortes. A realidade seguiu o caminho oposto.

Em setembro, o FOMC subiu a taxa diretora em 25 pontos base, para o intervalo de 3,75% a 4%, numa votação unânime de 12 a 0, a primeira subida desde 2023, segundo a análise da Charles Schwab. Mais importante do que a decisão foi a mensagem: o comité sinalizou que a inflação ainda não estava controlada e que não havia pressa em aliviar. O mercado de futuros passou a descontar mais aperto, não menos, e a próxima reunião, a 27 e 28 de outubro, está marcada no calendário de todos os gestores.

Warsh, por seu lado, procurou afastar a ideia de subordinação política, prometendo usar o seu próprio critério na condução da política monetária e não receber ordens da Casa Branca, segundo a cobertura da sua confirmação. A tensão entre um presidente nomeado como pomba e uma política de facto restritiva é, em si, uma fonte de volatilidade.

Para a cripto, a mecânica é direta. Juros mais altos elevam a taxa de desconto aplicada a qualquer ativo sem fluxo de caixa, reforçam o dólar e drenam a liquidez especulativa que alimenta os rallies. O episódio de 2 de outubro ilustrou-o em tempo real: uma leitura mais fraca do emprego animou o mercado com a hipótese de uma política mais branda, mas o movimento esvaziou-se quando as yields das obrigações do Tesouro subiram com força, e a reversão fez cair tudo. Esta relação entre dados macro fracos e esperança de cortes é precisamente o tema que explorámos ao mostrar como os dados fracos reanimam os alvos de seis dígitos, uma dinâmica que continua a comandar o sentimento de curto prazo.

Há ainda uma camada cambial que o investidor europeu não deve ignorar. O euro recuou face ao dólar ao longo do último mês, e um dólar forte pressiona os ativos de risco. Mas há o reverso da medalha: os ganhos do Bitcoin, cotado em dólares, traduzem-se em ganhos maiores quando convertidos para euros. A faca corta dos dois lados, e para quem investe a partir de Portugal a moeda de denominação importa quase tanto quanto o preço.

O apoio institucional e a aritmética dos ETF

Se há um contrapeso à força do dólar, é o fluxo estrutural que entra pelos fundos cotados. Os ETF de Bitcoin à vista continuam a ser o principal canal de procura institucional, e os números dão razão a quem fala de um apoio persistente. Na primeira semana de agosto, os ETF norte-americanos captaram 853 milhões de dólares, dos quais o IBIT da BlackRock absorveu 693 milhões, ou seja, cerca de 81 cêntimos em cada dólar que entrou na categoria, calculou a CoinDesk.

Este é o retrato de um mercado onde o vencedor leva quase tudo. A BlackRock e a Fidelity dominam, e os emissores mais pequenos desempenham papéis de apoio. A concentração tem uma vantagem, que é a liquidez, e um custo, que é o risco de concentração: a maioria destes fundos recorre a um número reduzido de custodiantes, e grande parte dos Bitcoin subjacentes acaba nas mãos dos mesmos intermediários. Um problema operacional num único custodiante teria, por isso, um efeito desproporcionado.

Nem tudo é entrada. Houve semanas, em meados do ano, em que a mesma categoria registou saídas líquidas de vários milhares de milhões de dólares, lideradas, também aí, pelos maiores fundos. O fluxo é um amplificador bidirecional: sustenta o preço quando o apetite pelo risco regressa e acelera a queda quando o investidor institucional recua. Perceber de que lado sopra o vento, semana a semana, tornou-se uma das leituras mais importantes do mercado.

Ethereum: o rendimento entra na equação dos fluxos

O Ethereum entra no último trimestre com uma história diferente da do Bitcoin. A grande novidade de 2026 foi a chegada dos ETF com staking. O ETHB da BlackRock arrancou a 12 de março e coloca em staking entre 70% e 95% das suas reservas de Ether, distribuindo cerca de 82% das recompensas brutas aos investidores numa base mensal, segundo a compilação de previsões da CoinGecko. Pela primeira vez, o investidor tradicional pode aceder ao rendimento nativo da rede sem deter diretamente a moeda.

Os números de base mudaram. Cerca de 30% de todo o Ether em circulação está em staking, o equivalente a aproximadamente 35,8 milhões de moedas retiradas da oferta líquida, com um rendimento anual na ordem dos 2,8% a 3,5%. Em teoria, é um fator de escassez. Na prática, há um senão que raramente se menciona: com a Fed a pagar perto de 4% em ativos sem risco, um rendimento de staking de 3% deixa de ser tão atrativo numa base ajustada ao risco. O custo de oportunidade de deter Ethereum subiu ao mesmo tempo que os juros.

Isso ajuda a explicar porque é que, apesar da narrativa positiva, os ETF de Ethereum têm registado saídas e o preço luta por manter os 2.700 dólares. A leitura dos fluxos tornou-se mais subtil, porque agora é preciso separar a procura por exposição ao preço da procura por rendimento, um ponto que detalhámos ao escrever sobre como o staking muda a leitura dos fluxos. Para o fim do ano, as previsões continuam dispersas: o Standard Chartered mantém um alvo de 7.500 dólares (cerca de 6.660 euros), enquanto o cenário de base de vários analistas se situa entre os 2.000 e os 3.000 dólares. A atualização Glamsterdam, em testes, é o próximo catalisador técnico a vigiar.

Alvos de preço para o fim do ano: de 34 mil a 222 mil euros

Poucas vezes o consenso dos analistas foi tão pouco consensual. As previsões para o Bitcoin a 31 de dezembro vão de cerca de 38 mil dólares, no extremo pessimista, a 250 mil dólares, no extremo otimista, um leque que, convertido, vai dos 34 mil aos 222 mil euros, de acordo com a recolha de previsões da CoinGecko. A amplitude é a própria notícia: reflete uma incerteza genuína sobre o caminho dos juros.

FonteAlvo BTC (USD)Alvo BTC (EUR)Postura
Tom Lee (Fundstrat)200.000 a 250.000 $178.000 a 222.000 €Muito otimista
Bernstein150.000 $cerca de 133.000 €Otimista
Standard Chartered100.000 $cerca de 89.000 €Cautelosamente otimista
CoinCodex (modelo)cerca de 78.000 $cerca de 69.000 €Neutro
Cenário baixista38.000 $cerca de 34.000 €Pessimista

No topo da escala está Tom Lee, da Fundstrat, que mantém um cenário entre 200 mil e 250 mil dólares para o Bitcoin e um caso-base de 12 mil dólares para o Ethereum. A Bernstein conserva um dos alvos mais elevados de Wall Street, em 150 mil dólares (cerca de 133 mil euros). No meio, o Standard Chartered reduziu a sua meta ao longo do ano, de 300 mil para 150 mil e depois para 100 mil dólares, à medida que o ritmo de valorização desiludia.

O caso do Standard Chartered merece nota, porque o seu responsável de investigação de ativos digitais, Geoff Kendrick, inverteu parte do pessimismo em agosto. Depois de o Tesouro norte-americano anunciar a duplicação das recompras de dívida de prazo mais longo, Kendrick escreveu: «Pela primeira vez este ano, há agora o risco de a minha previsão de fim de ano, de 100 mil dólares, ser demasiado baixa». Chegou a admitir que o Bitcoin poderia retestar o seu máximo histórico de 126 mil dólares antes do fecho do ano, conforme reportou a Cointelegraph. No extremo oposto, os modelos quantitativos, como o do CoinCodex, apontam para valores perto dos 78 mil dólares, ou seja, próximos do nível atual. Entre a visão de Lee e a dos modelos cabe quase um ciclo de mercado inteiro.

O calendário que decide o quarto trimestre

Mais do que previsões, o investidor deve olhar para datas. O quarto trimestre de 2026 está carregado de catalisadores, e quase todos têm origem fora da cadeia de blocos. Marcá-los na agenda é meio caminho para não ser apanhado de surpresa.

DataEventoPorque importa
27 e 28 de outubroReunião do FOMCNova decisão de juros, com uma subida adicional em cima da mesa
3 de novembroEleições intercalares nos EUAA composição do Congresso molda a próxima tentativa de legislação cripto
DezembroÚltima reunião do FOMC do anoDefine o tom monetário de arranque para 2027
Em vigorMiCA plenamente aplicável na UEAutorização de CASP e regras de conduta de mercado

A reunião do FOMC de 27 e 28 de outubro é o evento central. Uma nova subida, ou mesmo uma pausa acompanhada de linguagem restritiva, pode ditar o tom até ao Natal. Segue-se, a 3 de novembro, as eleições intercalares nos Estados Unidos, que vão redesenhar o Congresso e, com ele, as hipóteses de qualquer legislação cripto em 2027. Convém, ainda assim, temperar expectativas: como argumentámos ao analisar o que a urna faz mesmo à cripto, o impacto dos ciclos eleitorais no preço costuma ser mais barulho do que sinal. Em dezembro, a última reunião do ano do FOMC fechará o ciclo e definirá o ponto de partida para 2027.

Washington trava: a CLARITY Act e o vazio regulatório

Do lado legislativo, 2026 ficará marcado por um fracasso. A 15 de setembro, a moção de cloture sobre a CLARITY Act, a lei que pretendia definir a estrutura de mercado dos ativos digitais nos Estados Unidos, falhou no Senado por 49 votos contra 50, onze aquém dos 60 necessários para avançar, relatou a CNBC. A lei teria repartido a supervisão entre a SEC e a CFTC e clarificado quando um token é um título ou uma mercadoria.

O descarrilamento teve três travões concretos: uma cláusula de ética sobre os cerca de 1,4 mil milhões de dólares de rendimentos em cripto associados a Donald Trump, a Secção 604 sobre a responsabilidade dos programadores de DeFi e a Secção 404 sobre a remuneração de stablecoins. Nem a versão revista, com novas restrições éticas, foi suficiente para resolver a oposição.

A consequência é um vazio. Uma lei abrangente de estrutura de mercado é agora improvável antes de 2027, e as agências federais avançam sem a certeza que só o Congresso poderia dar, preenchendo o espaço por via regulamentar e de aplicação coerciva. Para o mercado, significa que a incerteza regulatória nos Estados Unidos, longe de se dissipar, se prolonga por mais um ano. O contraste com a Europa não podia ser maior, e é aí que a vantagem muda de lado do Atlântico.

Europa acelera: a MiCA já não é um exercício teórico

Enquanto Washington tropeça, a União Europeia terminou a sua transição. O período transitório da MiCA expirou a 1 de julho de 2026. A ESMA foi clara: qualquer entidade que preste serviços de criptoativos a clientes da UE sem licença passa a estar em incumprimento, e as autoridades nacionais foram instadas a atuar contra os operadores não autorizados, conforme a declaração pública do regulador europeu.

Em Portugal, o enquadramento ficou definido pela Lei n.º 69/2025, em vigor desde o início do ano, que atribui competências ao Banco de Portugal e à CMVM. O modelo é de dois supervisores. O Banco de Portugal concede a autorização de prestador de serviços de criptoativos, o chamado CASP, e supervisiona os requisitos prudenciais, a governação e os planos de encerramento ordenado. À CMVM cabe a supervisão da conduta: as regras de negócio, a salvaguarda dos ativos dos clientes, os conflitos de interesses e o abuso de mercado.

Para o investidor português, a mudança é prática. Antes de confiar fundos a uma plataforma, convém confirmar que esta consta dos registos das autoridades competentes. E o perímetro da MiCA continua a alargar-se: o próximo campo de batalha é o crédito descentralizado, um tema que tratámos ao mostrar como a MiCA se aproxima dos cofres do DeFi. A clareza europeia é uma vantagem competitiva, mas traz consigo obrigações de conformidade que vão moldar quais os serviços que ficam disponíveis no mercado interno.

Os custos ocultos de negociar: liquidez fina e cascatas

Num ambiente de aperto monetário, a microestrutura do mercado deixa de ser um detalhe técnico e passa a ser um fator de risco de primeira ordem. Quando os fornecedores de liquidez recuam, qualquer ordem de dimensão razoável move o preço mais do que moveria num mercado líquido, e os movimentos viajam mais depressa e mais longe.

O episódio de 2 de outubro foi um aviso, e o apetite por alavancagem não abranda. Um dia depois de 478 milhões de dólares em posições terem sido varridas do mercado, a Robinhood lançou futuros perpétuos com alavancagem de 10 vezes sobre o Bitcoin e o Ether, noticiou a 24/7 Wall St.. Com esse multiplicador, uma queda de 10% no preço aniquila toda a margem do trader e aciona vendas forçadas que se alimentam a si próprias. É exatamente o mecanismo de cascata que dissecámos no artigo sobre o que acontece quando se é liquidado num perp DEX, e sobre quem acaba por pagar a conta.

A estes custos visíveis juntam-se os invisíveis. Grande parte do volume real não passa pelos livros de ordens das bolsas, mas sim pelas mesas de balcão, onde os grandes players negoceiam para evitar o deslizamento de preço. O livro de ordens que o pequeno investidor vê é, muitas vezes, apenas uma fração da liquidez verdadeira. Em ambiente de stress, essa liquidez de bastidores pode evaporar-se sem aviso, deixando o mercado visível ainda mais fino do que parecia. Para quem negoceia em cadeia, há ainda o imposto silencioso do MEV, o valor extraído por quem ordena as transações, que encarece cada troca sem aparecer em nenhuma fatura.

Correlações e o mito do ouro digital

Uma das teses mais repetidas é a do Bitcoin como ouro digital, um refúgio não correlacionado com os mercados tradicionais. Os dados de 2026 contam uma história mais incómoda. Em regime de aperto, o Bitcoin tem-se comportado menos como ouro e mais como um ativo de risco de beta elevado, a subir quando o Nasdaq sobe e a cair com mais força quando as yields disparam. A subida das taxas das obrigações que provocou a última cascata é a prova provada.

Isto não invalida o argumento de longo prazo sobre a escassez programada do Bitcoin e a sua oferta limitada a 21 milhões de unidades, das quais já foram emitidas mais de 20 milhões. Mas obriga a uma distinção temporal. A médio prazo, o Bitcoin é um instrumento macro sensível à liquidez; a longo prazo, pode ser outra coisa. Confundir os dois horizontes é um erro caro. Para o fecho de 2026, é o Bitcoin macro, correlacionado e sensível aos juros, que está ao comando.

O ouro, esse, tem feito o seu trabalho de refúgio com mais consistência este ano, o que alimenta o debate sobre qual dos dois ativos merece o rótulo. A resposta honesta é que servem funções diferentes em horizontes diferentes, e que quem procura um porto seguro para o trimestre não o encontrará necessariamente num ativo que ainda dança ao som do banco central.

Três cenários para 31 de dezembro

Juntando as peças, é possível desenhar três trajetórias plausíveis para o fecho do ano. Não são previsões com pretensão de exatidão, mas quadros de trabalho que ajudam a preparar carteiras e a definir, com antecedência, o que fazer em cada caso.

CenárioGatilho principalBitcoin a 31 de dezembroLeitura HOGE Wire
OtimistaFed sinaliza pausa e os fluxos de ETF aceleramretesta 112 mil € (126 mil $)Probabilidade baixa a média
BaseFed mantém ou sobe uma vez; lateralização66 mil a 89 mil € (75 a 100 mil $)Cenário mais provável
BaixistaYields acima de 5% e aversão global ao risco34 mil a 50 mil € (38 a 56 mil $)Probabilidade média

No cenário otimista, a Fed sinaliza na reunião de outubro que a subida de setembro foi a última, as yields recuam e os fluxos de ETF aceleram. Nesse caso, o reteste dos 112 mil euros (126 mil dólares) de máximo histórico volta à mesa, em linha com o que o próprio Kendrick admitiu. Atribuímos-lhe uma probabilidade baixa a média, porque depende de uma viragem clara no discurso do banco central.

No cenário de base, o mais provável, a Fed mantém a porta aberta a mais aperto e o mercado lateraliza, com o Bitcoin a oscilar entre os 66 mil e os 89 mil euros (75 mil a 100 mil dólares). É um fecho de ano morno, dominado pela indecisão macro, em que o apoio dos ETF compensa, mas não supera, o travão monetário. A maior parte do tempo seria passada à espera da próxima pista da Fed.

No cenário baixista, as yields rompem acima dos 5% de forma sustentada, o dólar dispara e a aversão global ao risco contamina a cripto. A alavancagem acumulada transforma a descida numa cascata, e o Bitcoin desliza para a zona dos 34 mil a 50 mil euros (38 mil a 56 mil dólares). É o cenário que o leque de analistas menos gosta de nomear, mas que a estrutura atual do mercado torna perfeitamente possível.

Os riscos de cauda que o mercado não está a cobrar

Além dos três cenários centrais, há riscos de cauda que os preços atuais não parecem descontar. O primeiro é uma surpresa hawkish: uma subida em outubro que o mercado não espera por inteiro, ou uma projeção de juros mais altos para 2027, capaz de forçar uma reavaliação em bloco dos ativos de risco num só dia.

O segundo é um evento de crédito dentro da própria cripto. O ano foi pródigo em empresas de tesouraria que acumularam Bitcoin e Ether com recurso a dívida e a emissões de ações. Se o prémio sobre o valor líquido dos ativos dessas empresas se comprimir, algumas podem ser forçadas a vender, num desenlace que lembraria os colapsos alavancados de ciclos anteriores. É um risco que cresce em silêncio, invisível enquanto os preços sobem.

O terceiro é operacional: um grande exploit ou uma falha de custódia que abale a confiança no preciso momento em que a liquidez está fina. Num mercado concentrado em poucos custodiantes, o risco sistémico de um único ponto de falha não é desprezável. Nenhum destes eventos é o cenário-base, mas ignorá-los seria repetir os erros que a história recente já cobrou caro aos mais distraídos.

O que vigiar: um guião para o investidor português

Para quem acompanha o mercado a partir de Portugal, o fecho do ano pede disciplina mais do que adivinhação. Há um conjunto de sinais que vale a pena monitorizar e um conjunto de cuidados a ter antes de tomar qualquer decisão.

  • A reunião do FOMC de 28 de outubro e o comportamento das yields das obrigações do Tesouro a 10 anos, o verdadeiro termómetro do aperto.
  • Os fluxos diários dos ETF de Bitcoin e de Ethereum, que indicam se o apoio institucional persiste ou recua.
  • O estado da alavancagem agregada e as taxas de financiamento dos perpétuos, sinais de quando o mercado está esticado e vulnerável a uma cascata.
  • A confirmação de que qualquer plataforma usada está autorizada pelo Banco de Portugal e supervisionada pela CMVM ao abrigo da MiCA.

No plano fiscal, convém recordar que, em Portugal, o horizonte de detenção faz toda a diferença: as mais-valias com criptoativos detidos há menos de um ano são, em regra, tributadas como rendimento, ao passo que as detidas há mais de um ano beneficiam de um tratamento mais favorável para quem não negoceia de forma profissional. É mais uma razão para o investidor pensar em prazos longos em vez de perseguir o movimento da semana.

O quarto trimestre de 2026 será, acima de tudo, um teste à força do apoio institucional perante um banco central que, pela primeira vez em anos, rema contra a maré do risco. Se os ETF aguentarem o embate, o pior cenário fica adiado. Se cederem ao mesmo tempo que os juros apertam, a estrutura fina do mercado fará o resto. Entre uma coisa e outra, o investidor informado é aquele que troca a certeza da previsão pela gestão do risco.

Perguntas Frequentes

Qual é a previsão de preço do Bitcoin para o fim de 2026?

Não há consenso. As estimativas vão de cerca de 34 mil euros, num cenário pessimista, até mais de 220 mil euros, no caso mais otimista de Tom Lee. A Bernstein aponta para cerca de 133 mil euros e o Standard Chartered para perto de 89 mil euros. O desfecho depende sobretudo da trajetória de juros da Reserva Federal.

Porque é que a Reserva Federal está a subir os juros em 2026?

A Fed liderada por Kevin Warsh subiu a taxa diretora para o intervalo de 3,75% a 4% em setembro, numa resposta à inflação persistente. Taxas mais altas encarecem o crédito e retiram liquidez aos ativos de risco, incluindo a cripto, invertendo o apoio monetário que marcou ciclos anteriores.

A MiCA já se aplica em Portugal e quem regula a cripto?

Sim. O período transitório da MiCA terminou a 1 de julho de 2026. Portugal adota um modelo de dois supervisores: o Banco de Portugal concede a autorização de prestador de serviços de criptoativos e supervisiona os requisitos prudenciais, enquanto a CMVM supervisiona a conduta de mercado e a salvaguarda dos ativos dos clientes.

O que aconteceu à CLARITY Act nos Estados Unidos?

A moção de cloture falhou no Senado a 15 de setembro de 2026, por 49 votos contra 50, longe dos 60 necessários. Uma lei de estrutura de mercado é agora improvável antes de 2027, e as agências federais avançam por via regulamentar enquanto o Congresso não age.

Vale a pena investir em cripto antes do fim do ano?

Esta análise não constitui aconselhamento financeiro. A decisão depende da tolerância ao risco de cada investidor e da trajetória dos juros. Num ambiente de liquidez mais apertada, a alavancagem aumenta o risco de liquidação, pelo que convém usar plataformas autorizadas e pensar em horizontes longos.

Por Ricardo Mendes, editor sénior da HOGE Wire.

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