Stock-to-flow e Uptober: o calendário não faz o preço do Bitcoin
Um ano após o maior crash da história da cripto, o stock-to-flow ainda promete 500 mil dólares. Mas o Uptober, o ciclo de quatro anos e o calendário falharam todos ao mesmo tempo.
Um ano depois, o calendário não salvou ninguém
Hoje, 10 de outubro de 2026, marca exatamente um ano do pior dia da história dos mercados de cripto. A 10 de outubro de 2025, o Bitcoin caiu de perto de 121.700 dólares para um mínimo intradiário de cerca de 104.582 dólares em poucos minutos, e os mercados de derivados registaram aproximadamente 19 mil milhões de dólares em liquidações numa só sessão, segundo a análise de aniversário da The Coin Republic. Quatro dias antes, a 6 de outubro de 2025, o Bitcoin tinha fixado o seu máximo histórico acima dos 126.000 dólares, cerca de 107.662 euros.
A promessa que acompanhava esse recorde era simples: com o halving de 2024 a cortar a emissão para metade, a escassez tornava a subida quase inevitável. O stock-to-flow, o mais famoso dos modelos de escassez, apontava (e continua a apontar) para uma média de 500.000 dólares neste ciclo. Um ano depois, o Bitcoin troca-se a cerca de 74.038 euros (perto de 82.483 dólares), aproximadamente 31% abaixo do máximo em euros, de acordo com os dados da CoinGecko. O calendário dizia uma coisa; o mercado fez outra.
Este texto não repete a autópsia estatística do stock-to-flow que já publicámos. Faz uma pergunta diferente: porque é que um modelo tão desmentido continua a ter companhia? A resposta é que o stock-to-flow nunca esteve sozinho. Pertence a uma família de modelos que leem o preço a partir do relógio: o ciclo de quatro anos, a sazonalidade do «Uptober» e a chamada lei de potência. Todos partilham a mesma ideia, a de que o tempo decorrido determina o preço, e todos partiram ao mesmo tempo entre 2024 e 2026. O dia 10 de outubro de 2025 foi a prova mais crua disso.
O stock-to-flow em três linhas: o preço como função do tempo
Convém recordar o que o modelo afirma. O stock-to-flow (literalmente, o stock a dividir pelo fluxo) mede a escassez comparando a quantidade já existente de um ativo com a quantidade nova que entra em cada ano. Quanto maior o rácio, mais escasso o ativo. O ouro tem um rácio próximo de 62, a prata cerca de 22; o Bitcoin rondava os 27 antes de 2020 e saltou para perto de 119 depois do halving de 2024, segundo o explicador da CoinGecko.
O autor, o analista pseudónimo PlanB, publicou «Modeling Bitcoin’s Value with Scarcity» em março de 2019, quando o Bitcoin valia cerca de 4.000 dólares, e ajustou os dados a uma reta com um R² próximo de 95%. Em abril de 2020 acrescentou a versão cruzada com outros ativos, a S2FX, que projetava uma média de 288.000 dólares para 2020-2024. Hoje mantém um alvo de 500.000 dólares em média para o ciclo de 2024 a 2028, num intervalo entre 250.000 e um milhão.
Vale a pena perceber porque é que o modelo convenceu tanta gente. O stock-to-flow é, acima de tudo, um gráfico persuasivo: uma linha colorida que sobe em degraus, com o preço real a serpentear por cima dela ao longo de mais de uma década. A versão S2FX chegava a dividir o histórico em quatro «fases» (da prova de conceito ao ativo financeiro) para reforçar a sensação de inevitabilidade. Num ecrã, a adesão entre a reta e o preço parece quase milagrosa. É precisamente essa estética, e não a estatística que lhe está por baixo, que explica boa parte da sua popularidade.
O detalhe que interessa para este artigo é outro: todas as variáveis do modelo são funções do tempo. O halving acontece numa data conhecida (o bloco 840.000, em abril de 2024); o rácio duplica nesse momento previsto; logo, o alvo de preço é, no fundo, uma função do calendário. Não há nada no modelo sobre quem compra, a que preço ou porquê. É esta ausência que o aproxima dos outros relógios e que explica, como mostrámos no texto sobre os modelos que tentaram substituí-lo, porque é que os sucessores herdaram o mesmo defeito.
A família dos relógios: stock-to-flow, ciclo, Uptober e lei de potência
A observação mais útil sobre o stock-to-flow não é estatística, é conceptual, e deve-se a Cory Klippsten, fundador da Swan Bitcoin. Numa análise publicada pela Bitcoin Magazine, resumiu o modelo a uma frase: «o modelo está autocorrelacionado. Não precisa do stock-to-flow de todo. É apenas o preço em função do tempo.» Essa crítica, feita a um único modelo, aplica-se a uma família inteira.
Quatro modelos dominam as previsões populares do preço do Bitcoin, e os quatro são, no fundo, variações da mesma ideia. O stock-to-flow lê um relógio: a contagem decrescente até ao halving. O ciclo de quatro anos lê outro: o ritmo de cerca de 48 meses de halving a halving. A sazonalidade «Uptober» lê o mês do calendário. A lei de potência lê os dias decorridos desde o bloco génese, em 2009. Diferem no mostrador, mas partilham o mesmo ponto cego: nenhum tem uma variável para a procura, a liquidez ou a política monetária.
| Modelo | O relógio que lê | O que prevê | O que ignora |
|---|---|---|---|
| Stock-to-flow | Contagem até ao halving | Preço a partir da escassez | Procura, fluxos, política |
| Ciclo de quatro anos | Ritmo de ~48 meses | Topo 12 a 18 meses após o halving | Mudança do comprador marginal |
| Sazonalidade «Uptober» | Mês do calendário | Outubro em alta, setembro em baixa | Alavancagem e catalisadores externos |
| Lei de potência | Dias desde o bloco génese | Corredor log-log de longo prazo | Choques de liquidez e de procura |
Posto lado a lado, o padrão salta à vista. Um investidor que siga os quatro julga ter quatro confirmações independentes. Na verdade, tem a mesma aposta repetida quatro vezes: a de que o futuro imita o passado porque o relógio avançou. Num mercado jovem, com poucos ciclos para estudar, a tentação é grande. É também a forma mais rápida de confundir um padrão com uma lei.
«Uptober»: a sazonalidade que o mercado trata como lei
De todos os relógios, o mais folclórico é o «Uptober». A ideia é que outubro é historicamente o melhor mês do Bitcoin. Os números dão alguma base ao mito: segundo os dados da CoinGlass citados por várias análises de mercado, o Bitcoin fechou outubro em alta em 10 dos 13 anos entre 2013 e 2025, com um ganho médio próximo de 19% e uma série vencedora de vários anos seguidos até 2024. Setembro é o espelho inverso: durante anos foi o pior mês do calendário, com retorno médio negativo.
| Mês | Padrão histórico (2013-2025) | 2024 | 2025 | 2026 |
|---|---|---|---|---|
| Setembro | Durante anos o pior mês, média negativa | Verde | Verde | Verde (dos melhores de sempre, CoinGlass) |
| Outubro | Verde em 10 de 13 anos, média ~19% | Verde | Vermelho (quebrou a série) | Em curso |
O problema de tratar isto como lei é duplo. Primeiro, a amostra é minúscula: 13 outubros não chegam para separar um sinal do ruído, sobretudo num ativo que mudou de natureza várias vezes nesse período. Segundo, o mecanismo é folclore, não causa. Não há nada em outubro que obrigue o preço a subir; as explicações habituais (entrada de capital depois do verão, apetite por risco no quarto trimestre) são racionalizações feitas depois do facto. Como notámos na análise sobre a sazonalidade contra a Fed de Warsh, quando a liquidez e a política apontam numa direção, o mês do calendário conta pouco.
E, no entanto, o «Uptober» governa posicionamento real. Há quem carregue alavancagem em outubro à espera do padrão, o que, ironicamente, torna o mês mais frágil e não mais seguro: um mercado cheio de posições longas na mesma aposta é um mercado pronto a cair em cascata. Foi precisamente o que aconteceu em 2025.
2025 e 2026: os dois extremos sazonais falharam juntos
O ano passado deu-nos a falsificação mais limpa que a sazonalidade podia sofrer. Em 2025, outubro fechou vermelho, o primeiro outubro negativo em sete anos, exatamente quando o folclore do «Uptober» prometia subida. E, poucos meses depois, setembro de 2026 fechou verde, possivelmente o melhor setembro de sempre segundo a CoinGlass e o terceiro mês positivo seguido, exatamente quando o «Redtember» prometia queda.
Repare-se na simetria. Num espaço de onze meses, tanto o padrão otimista (outubro sobe) como o padrão pessimista (setembro desce) falharam. Se fosse o mês a conduzir o preço, não seria de esperar que os dois extremos se invertessem ao mesmo tempo. O que a inversão simultânea mostra é que o mês nunca foi o condutor. Em 2025, outubro caiu porque houve uma purga de alavancagem; em 2026, setembro subiu porque os fluxos de ETF regressaram e os dados macro deram uma folga à Fed. A variável foi sempre a procura e a alavancagem, não a folha do calendário.
É aqui que o stock-to-flow e o «Uptober» se encontram. Ambos dizem ao investidor que o tempo trata do resto. Ambos foram desmentidos pela mesma força no mesmo período. E o acontecimento que melhor resume essa força tem data marcada: 10 de outubro de 2025.
10 de outubro: o dia que a escassez não viu chegar
Nos minutos que se seguiram ao anúncio de que os Estados Unidos aplicariam uma tarifa adicional de 100% sobre as importações chinesas, o mercado de cripto teve o maior colapso de alavancagem da sua história. O Bitcoin caiu de cerca de 121.705 dólares para um mínimo próximo de 104.582 dólares, uma queda de aproximadamente 14%, e arrastou consigo o resto do mercado. As liquidações forçadas chegaram aos 19 mil milhões de dólares reportados, embora a CoinGlass admita que o valor real possa ter atingido 30 a 40 mil milhões; entre 85% e 90% eram posições longas, segundo a reconstituição da The Coin Republic. Cerca de 1,6 milhões de contas foram afetadas.
O detalhe decisivo está no que precedeu a queda. Três dias antes, a 7 de outubro de 2025, o open interest agregado dos derivados de cripto tinha atingido um recorde de 235,9 mil milhões de dólares. O mercado estava carregado de alavancagem, boa parte dela apostada na continuação do «Uptober». Bastou um catalisador externo para transformar essa aposta numa cascata. Como explicámos no texto sobre o open interest e a miragem dos perp DEX, o problema não foi a escassez do Bitcoin; foi a quantidade de dívida empilhada sobre ele.
E é exatamente por isso que este foi o acontecimento mais importante dos últimos doze meses para avaliar os modelos de calendário: nenhum deles o podia ver chegar. O calendário de emissão não mudou nesse dia. A matemática do halving não mudou. Os «dias desde o bloco génese» avançaram um, como em qualquer outro dia. O que mudou foi a alavancagem e um título de jornal sobre tarifas. Um ano depois, o open interest em Bitcoin ronda os 51,75 mil milhões de dólares, muito abaixo dos níveis pré-crash, e o Bitcoin continua cerca de 34% abaixo do topo daquele episódio em dólares. A alavancagem é uma característica permanente destes mercados, pelo que outro episódio do género é sempre possível; o aniversário em si, porém, não é sinal de nada.
O ciclo de quatro anos não resistiu ao halving de 2024
O ciclo de quatro anos é o primo mais velho do stock-to-flow. A ideia é conhecida: cada halving dá início a uma subida de 12 a 18 meses até um topo eufórico, seguido de um inverno. O halving de 2024 (abril, bloco 840.000, recompensa cortada de 6,25 para 3,125 Bitcoin por bloco, cerca de 450 por dia, inflação anual abaixo de 1%) devia repetir o guião. Produziu, de facto, um máximo histórico a 6 de outubro de 2025, perto de 107.662 euros. Mas o múltiplo está a encolher.
Compare-se o ganho de topo para topo em cada ciclo: cerca de 17 vezes de 2013 para 2017, cerca de 3,4 vezes de 2017 para 2021, e cerca de 1,8 vezes de 2021 para 2025. É o inverso exato da geometria do stock-to-flow, que promete um alvo cada vez mais extremo a cada halving. Na prática, cada ciclo rende menos do que o anterior. O relógio continua a bater, mas o retorno que entrega diminui de volta a volta.
Matt Hougan, diretor de investimentos da Bitwise, pôs isto por escrito num memorando de 23 de dezembro de 2025: assumir cegamente que o ciclo de quatro anos se repete é, nas suas palavras, insensato, porque as forças que o criaram (halvings, picos de juros, ciclos de euforia e pânico) estão a enfraquecer ou a mover-se em sentidos opostos. Propõe em troca a imagem do «grind de dez anos»: forças positivas lentas e persistentes a colidir com forças negativas violentas mas, no fim, mais fracas, com retornos fortes ainda que não espetaculares e quedas periódicas de 20% a 40%. O ciclo não morreu; a era dos ETF, iniciada em janeiro de 2024, amorteceu a euforia e a queda. É a mesma conclusão a que chegámos ao olhar para o primeiro ano após o recorde.
A tautologia por trás do R² de 95%
Falta responder à objeção óbvia: se o modelo está tão errado, como pode ter um R² de 95%? A resposta é que esse ajuste é, em larga medida, um artefacto estatístico. O valor de mercado de um ativo é, por definição, o stock multiplicado pelo preço. O rácio stock-to-flow é o stock a dividir pelo fluxo. Como o stock aparece dos dois lados da conta, ajustar um ao outro equivale, em boa parte, a ajustar o stock a si próprio. O resultado é autocorrelação, não poder preditivo.
Foi este o argumento de Klippsten: depois de corrigir a autocorrelação, o R² aproxima-se de zero. A correlação impressionante desaparece quando se retira o termo que os dois lados têm em comum. Resta, como ele diz, o preço em função do tempo, o que é tudo menos uma descoberta.
Há ainda dois problemas que qualquer estudante de econometria reconhece. O primeiro é a dimensão da amostra: o Bitcoin teve apenas quatro halvings, ou seja, quatro observações para o fenómeno central do modelo; nenhuma reta ajustada a quatro pontos merece a confiança que um R² de 95% sugere. O segundo é a regressão espúria: duas séries que sobem ao longo do tempo tendem a parecer correlacionadas mesmo quando nada as liga, porque ambas seguem a sua própria tendência. É por isto que «melhor ajuste» e «melhor previsão» não são a mesma coisa, e porque um gráfico bonito não é uma teoria.
Se é tudo tautologia, porque é que 2020 pareceu funcionar?
Fica a pergunta incómoda: se o modelo é estatisticamente oco, porque é que a subida de 2020 e 2021 seguiu a reta do stock-to-flow quase à letra? A resposta mais provável não é a escassez; é a reflexividade. Em 2020, o stock-to-flow era a narrativa dominante do mercado. Dezenas de milhares de investidores de retalho compravam precisamente porque o gráfico lhes dizia para comprar, e essa compra coordenada empurrava o preço para a trajetória prevista. O modelo tornou-se um ponto de Schelling: uma profecia que se cumpriu porque muita gente acreditou nela ao mesmo tempo.
Um ponto de Schelling é frágil por natureza, porque depende de a multidão continuar a acreditar e a agir em uníssono. E foi exatamente isso que se partiu. O comprador marginal de 2024 a 2026 já não é o retalhista que segue um gráfico nas redes sociais; é o fundo que compra um ETF, a tesouraria corporativa, a mesa institucional que preça política monetária com seis a doze meses de antecedência. Essa gente não compra Bitcoin porque o rácio de escassez subiu; compra, ou vende, em função de fluxos, taxas e mandato. A coordenação que fazia o modelo parecer certo evaporou-se.
É por isto que repetir 2021 em 2028 é uma aposta num mecanismo social que já não existe. O halving de 2028 vai duplicar o rácio outra vez, como manda o código, mas já não haverá uma multidão a olhar para o mesmo gráfico e a agir em conjunto. Sem a profecia autorrealizável, resta a aritmética nua, e a aritmética, por si só, nunca moveu um preço.
O ouro: o contra-exemplo que o modelo cita contra si próprio
O stock-to-flow nasce de uma analogia com o ouro. O argumento de PlanB é que o ouro mantém valor porque tem o rácio de escassez mais alto entre as matérias-primas, cerca de 62, e que o Bitcoin herdaria essa propriedade à medida que o seu rácio subisse. É uma analogia elegante. Também se vira contra o modelo.
O preço do ouro não é fixado pelo seu stock-to-flow. É fixado pelas taxas de juro reais, pelas compras dos bancos centrais e pelo dólar. O rácio de escassez do ouro quase não muda de ano para ano e, mesmo assim, o preço oscila fortemente ao sabor da macroeconomia. Por outras palavras, o único ativo que o stock-to-flow aponta como prova acaba por desmentir a tese: uma escassez alta e estável não fixa o preço nem o caminho até ele.
O Bitcoin levou a lição ao extremo. Depois do halving de 2024, o seu rácio stock-to-flow (cerca de 119) passou a ser quase o dobro do do ouro e, ainda assim, caiu 31% desde o recorde em euros. A escassez é uma condição necessária para uma reserva de valor; não é uma condição suficiente para determinar a cotação. Confundir as duas coisas é o erro fundador de toda a família.
A procura: a variável que falta a todos os relógios
Chegamos ao defeito mais profundo, e ao que une os quatro modelos. Todos são modelos só de oferta. Nenhum tem um termo para a procura. E foi a procura, não a oferta, que moveu tudo entre 2024 e 2026. Os ETF à vista nos Estados Unidos, lançados em janeiro de 2024, mudaram o comprador marginal de retalhista para institucional. As tesourarias corporativas acumularam centenas de milhares de Bitcoin. A Fed de Kevin Warsh subiu os juros em 25 pontos base, para o intervalo de 3,75% a 4,00%, a 16 de setembro de 2026, a primeira subida desde 2023, segundo a CNBC. E o dia 10 de outubro de 2025 esvaziou a alavancagem de uma só vez.
A escala desta procura é o que torna o ponto cego fatal. Os ETF à vista norte-americanos acumularam dezenas de milhares de milhões de dólares em ativos desde o lançamento, e as tesourarias corporativas detêm, em conjunto, centenas de milhares de Bitcoin. Nenhum destes compradores aparece na equação do stock-to-flow, que continua a tratar o lado da procura como se fosse uma constante. Quando a maior fonte de compra e de venda do ciclo é invisível para o modelo, o número que ele produz no fim é, na melhor das hipóteses, uma coincidência.
A tabela seguinte resume o problema. Das forças que efetivamente moveram o preço no ciclo atual, o stock-to-flow vê uma.
| Força que moveu o Bitcoin | Quando | O stock-to-flow vê? |
|---|---|---|
| Halving (corte na oferta) | Abril de 2024 | Sim |
| ETF à vista nos EUA | Desde janeiro de 2024 | Não |
| Tesourarias corporativas | 2024-2026 | Não |
| Crash de alavancagem de 10 out. | Outubro de 2025 | Não |
| Subida de juros da Fed (Warsh) | Setembro de 2026 | Não |
| Liquidez (Tesouro dos EUA, dólar) | 2025-2026 | Não |
O teste mais justo que se pode fazer a um modelo de oferta é este: ele acertou na oferta? Sim. O halving aconteceu na data exata, a emissão caiu para metade, o rácio duplicou como previsto. E o preço, apesar disso, fez o contrário do que o modelo dizia. Quando a única variável que o modelo controla se comporta como combinado e o resultado é o oposto do previsto, a conclusão é inevitável: a variável que faltava era a que decidia. Como argumentámos na análise sobre os modelos por trás dos alvos de preço, um número redondo como «500.000 dólares» esconde a fragilidade de tudo o que lhe está por baixo.
A lei de potência: melhor geometria, o mesmo determinismo
Quando o stock-to-flow tropeçou, muitos migraram para o seu sucessor da moda: a lei de potência. Proposta por Giovanni Santostasi, descreve o preço do Bitcoin como uma função dos dias decorridos desde o bloco génese, elevados a um expoente próximo de 5,8 (a sua formulação original fala num corredor log-log de longo prazo). À primeira vista parece mais sólida: não dá saltos nos halvings e ajusta-se bem à curva de longo prazo.
Mas é o mesmo relógio com outro mostrador. A lei de potência lê o preço a partir da idade da rede, não a partir da procura. A crítica de Klippsten (preço em função do tempo) corta aqui com a mesma lâmina. E há um problema adicional: as suas bandas são tão largas que deixam de ser falsificáveis. Consoante o expoente que se escolhe (há defensores de 5,7 e de 6,2), o alvo para 2030 varia em centenas de milhares de dólares. Um intervalo assim tão largo acerta sempre, e um modelo que acerta sempre não diz nada.
Como mostrámos na análise dedicada a que modelo prevê o preço do Bitcoin depois do stock-to-flow, os sucessores mais honestos (o MVRV, o preço realizado, o NVT) partilham uma virtude que a lei de potência não tem: são descritivos, não preditivos. Dizem onde o mercado está, não onde vai chegar e em que data. A lei de potência oferece melhor geometria, mas a mesma epistemologia determinista. Troca-se de curva, mantém-se o erro.
O que o próprio PlanB faz quando precisa de decidir
Talvez o indício mais eloquente venha do próprio autor. PlanB continua a reafirmar o alvo de 500.000 dólares em média para o ciclo de 2024 a 2028, com a subida real para esses níveis a acontecer, diz ele, entre 2026 e 2028. O cartaz na parede não mudou.
As ferramentas de trabalho, essas, mudaram. Já em 2021 PlanB tinha admitido a primeira falha do seu modelo de piso ao dólar, quando o Bitcoin fechou novembro muito abaixo dos 98.000 dólares que prometera: «primeira falha do modelo de piso (depois de acertar em agosto, setembro e outubro). Nenhum modelo é perfeito, mas esta é uma grande falha, a primeira em dez anos», escreveu na altura, numa publicação recolhida pela CryptoPotato. Em 2025 e 2026, no dia a dia, orienta-se por médias móveis e pela dificuldade de mineração, não pelo stock-to-flow. O criador do modelo navega por outros instrumentos enquanto mantém o alvo apenas como narrativa.
O próprio PlanB chegou a admiti-lo por palavras suas. Em setembro de 2026, com o Bitcoin a negociar abaixo do custo de produção estimado, afirmou que a dificuldade de mineração «reflete melhor o preço de mercado do que modelos como o stock-to-flow ou as leis de potência», numa nota recolhida pela KuCoin. Quando o autor de um modelo recomenda outro indicador para ler o mercado em tempo real, o veredicto sobre o primeiro já está dado.
Os críticos foram mais diretos. Vitalik Buterin, cofundador da Ethereum, escreveu que os modelos financeiros que dão às pessoas uma falsa sensação de certeza e de predestinação, a ideia de que «o número só pode subir», são «prejudiciais e merecem toda a troça que recebem». Nico Cordeiro, analista da Strix Leviathan, foi ainda mais mordaz numa análise publicada pela CoinDesk: chamou-lhe um «modelo camaleão», com tantos graus de liberdade que se ajusta a qualquer resultado, e tão fiável «como os modelos astrológicos do passado». Entre o cartaz e o relógio de pulso, o próprio autor escolhe o relógio.
Portugal: o que diz a CMVM e como ler qualquer relógio de preço
Para o investidor português, a lição é prática antes de ser filosófica. Um modelo que promete um destino (500.000 dólares, um milhão, uma data certa) é marketing, não previsão. A CMVM, no seu portal dirigido ao investidor, insiste que os cripto-ativos são ativos de alto risco, muitas vezes sem valor intrínseco, e que a entrada em vigor do MiCA não eliminou todos os riscos. Acrescenta o aviso que vale para qualquer relógio de preço: resultados passados não garantem resultados futuros.
O enquadramento ajuda a ler estes modelos com frieza. O MiCA aplica-se em Portugal desde 30 de dezembro de 2024, e o período de transição para os prestadores nacionais terminou a 1 de julho de 2026; a lei que o executa é a Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025. O Banco de Portugal supervisiona o registo dos prestadores (CASP) e as regras das stablecoins; a CMVM trata da conduta de mercado e da proteção do investidor. Os derivados de cripto, como os perpétuos e os futuros, não caem no MiCA: são instrumentos financeiros sob a DMIF II, com a alavancagem para o retalho limitada a 2:1, um limite que o dia 10 de outubro de 2025 justifica na perfeição.
Há ainda um pormenor fiscal que torna o debate dos modelos quase secundário para quem investe a longo prazo. Em Portugal, as mais-valias de cripto-ativos detidos menos de 365 dias são tributadas a 28%, enquanto as de ativos detidos há mais de um ano continuam isentas (com reporte ao abrigo da DAC8). Ou seja, o prazo de detenção pesa mais na conta final do que qualquer alvo de um modelo de calendário. Quem compra à espera do «Uptober» e vende em semanas entrega ao fisco aquilo que o modelo lhe prometia e raramente cumpre.
Antes de acreditar em qualquer previsão baseada no tempo, vale a pena passá-la por quatro perguntas simples:
- Modela a procura, ou apenas a oferta e o calendário?
- É falsificável num horizonte útil, ou as bandas são tão largas que acertam sempre?
- Escapa ao preço em função do tempo, ou é mais uma curva ajustada à passagem dos dias?
- Sobreviveu fora da amostra, ou só brilha no período em que foi calibrado?
Se a resposta honesta for «o calendário diz que sobe», estamos perante uma história, não uma previsão. As histórias têm o seu lugar: dão confiança, criam comunidade, ajudam a aguentar a volatilidade. Só não devem ser confundidas com um plano de gestão de risco. O stock-to-flow, o ciclo de quatro anos, o «Uptober» e a lei de potência contam a mesma história com relógios diferentes. O 10 de outubro de 2025 lembrou a toda a gente que o mercado não lê as horas.
Perguntas frequentes
O stock-to-flow do Bitcoin falhou?
Pelos seus próprios critérios, sim. O halving de 2024 cortou a emissão como previsto, mas o preço caiu em vez de seguir a trajetória do modelo, e um ano após o recorde o Bitcoin está cerca de 31% abaixo do máximo em euros. O famoso ajuste de 95% resulta sobretudo de autocorrelação (o stock aparece dos dois lados da equação), pelo que mede o passado e não prevê o futuro.
O que é o «Uptober» e ainda é válido?
«Uptober» é a ideia de que outubro é o melhor mês do Bitcoin, com subidas em 10 dos 13 anos entre 2013 e 2025 segundo a CoinGlass. Perdeu força: outubro de 2025 fechou vermelho e quebrou uma série de vários anos, enquanto setembro de 2026 fechou verde contra o padrão histórico. Com uma amostra de apenas 13 anos, é folclore sazonal e não uma lei.
Porque é que o Bitcoin caiu a 10 de outubro de 2025?
Foi uma purga de alavancagem, não um problema de oferta. Depois de o open interest ter atingido um recorde de 235,9 mil milhões de dólares, o anúncio de uma tarifa de 100% dos EUA sobre a China despoletou cerca de 19 mil milhões em liquidações, 85% a 90% delas posições longas, e o Bitcoin caiu de cerca de 121.700 para perto de 104.600 dólares. Nenhum modelo de escassez podia prever esse episódio.
A lei de potência é melhor do que o stock-to-flow?
Ajusta-se melhor à curva de longo prazo e não dá saltos nos halvings, mas sofre do mesmo defeito: lê o preço a partir do tempo decorrido e ignora a procura. As suas bandas são tão largas (expoentes entre 5,7 e 6,2) que se tornam difíceis de falsificar. É melhor geometria, com a mesma lógica determinista.
Qual é a previsão atual do PlanB para o Bitcoin?
PlanB mantém um alvo médio de 500.000 dólares para o ciclo de 2024 a 2028, num intervalo entre 250.000 e um milhão, com a subida esperada entre 2026 e 2028. Na gestão diária, porém, orienta-se por médias móveis e pela dificuldade de mineração, e não pelo stock-to-flow.
Por Priya Reddy, editora de mercados e análise preditiva da HOGE Wire.