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● Predictions & Forecasts

Blobs, Celestia e EigenDA: quem decide as taxas L2 até 2027

As taxas das L2 já caíram 99%. A próxima ronda não se decide no roteiro da Ethereum, mas na guerra da disponibilidade de dados entre blobs, Celestia e EigenDA.

As taxas das Layer 2 da Ethereum caíram tanto nos últimos dois anos que quase deixaram de dar notícia. Uma transferência simples que custava vários cêntimos passou a custar frações de cêntimo, e a média das três maiores redes (Arbitrum, Base e Optimism) recuou 99,16%, de cerca de 0,18 dólares no primeiro trimestre de 2024 para cerca de 0,0015 dólares no primeiro trimestre de 2026, segundo dados compilados pela Token Terminal. A pergunta que domina o setor mudou de forma: já não é «quanto vão descer», passou a ser «até onde ainda podem descer, e quem é que decide isso».

A resposta habitual aponta para o calendário técnico da Ethereum: a Dencun trouxe os blobs, a Fusaka multiplicou-os, a Glamsterdam vai baratear a execução. É tudo verdade, mas fica a meio. A próxima ronda de compressão não vai ser decidida apenas dentro do roteiro da Ethereum. Vai jogar-se numa frente bem mais discreta, e muito menos coberta pela imprensa: o mercado onde os rollups compram disponibilidade de dados (data availability, ou DA). É aí, entre os blobs da Ethereum, a Celestia, a EigenDA e a Avail, que se está a formar o verdadeiro piso das taxas L2 até 2027.

Este artigo olha para essa frente esquecida. Explica porque é que a compressão fácil já aconteceu, porque é que os blobs deixaram de poder cair até zero, como é que a concorrência entre camadas de dados fixa o custo real de um rollup, e o que tudo isto significa para o valor da própria Ethereum, para os investidores em Portugal e para o que se paga a fazer uma transação. No fim, três cenários até 2027 e uma lista de sinais concretos a vigiar.

A compressão fácil já aconteceu

Vale a pena recuar. Em março de 2024, a atualização Dencun introduziu os blobs: um espaço de dados temporário, muito mais barato, reservado para os rollups publicarem as suas transações. O efeito foi imediato e brutal, com quedas superiores a 90% no custo de dados das L2. A Pectra, em maio de 2025, aumentou o número de blobs por bloco. A Fusaka, ativada a 3 de dezembro de 2025, trouxe a amostragem de disponibilidade de dados (PeerDAS) e, através de duas atualizações de parâmetros (BPO1 a 9 de dezembro, BPO2 a 7 de janeiro de 2026), levou o alvo para 14 blobs por bloco, com um máximo de 21. No total, cerca de 2,3 vezes mais espaço de dados do que antes da Fusaka.

O resultado está à vista na carteira de qualquer utilizador. Uma transação típica numa L2 madura custa hoje bem menos de um cêntimo, na ordem de 0,001 a 0,003 euros consoante a rede e o momento. Um estudo académico publicado no arXiv sobre custos e velocidade no ecossistema Ethereum estima que as taxas medianas das L2 passem a ficar abaixo das da Solana já a partir de outubro de 2026, algo impensável há dois anos. A trajetória, no papel, aponta para taxas quase impercetíveis.

Há, no entanto, um problema com esta leitura linear. Cada nova ronda de blobs entrega menos ganho marginal do que a anterior e, mais importante, a Ethereum introduziu recentemente um travão explícito à descida do preço dos blobs. A ideia de «taxas L2 gratuitas» é, tecnicamente, falsa. E é aqui que a história deixa de ser sobre a Ethereum e passa a ser sobre a concorrência. Já tínhamos abordado uma dinâmica parecida a propósito da grande compressão do rendimento para a taxa base na DeFi: quando um mercado amadurece, o preço tende para um piso estrutural, e a questão passa a ser onde fica esse piso e quem o controla.

Porque é que os blobs deixaram de poder cair até zero

Durante boa parte de 2024 e 2025, quando havia espaço de blobs a sobrar, a base fee dos blobs colava-se ao mínimo absoluto, na casa dos 0,000000001 Gwei. Na prática, publicar dados na Ethereum era quase de graça. Isso era ótimo para as L2 e péssimo para quem detém ETH, porque quase nada era queimado nesse processo.

A Fusaka mudou essa mecânica com a EIP-7918, que fixa um piso para a base fee dos blobs, ancorado ao custo de execução da própria Ethereum. Em termos simples, o preço de um blob não pode cair de forma persistente abaixo de cerca de um dezasseis avos da base fee de execução da rede principal. Deixou de haver blobs verdadeiramente gratuitos. O analista conhecido como Kydo (0xkydo) resumiu o salto de forma memorável ao notar, na sua conta de X, que a base fee dos blobs subiu cerca de 15 milhões de vezes depois da Fusaka, precisamente por ter deixado de assentar nesse mínimo artificial.

A conclusão é decisiva para qualquer previsão: a alavanca que a Ethereum controla diretamente, o preço dos seus próprios blobs, deixou de poder ir a zero. A compressão adicional das taxas tem de vir de outro lado: de mais eficiência na execução, de melhor compressão de dados, de margens de sequenciador mais finas, ou, o tema deste artigo, de camadas de dados alternativas que fixam o preço muito abaixo do piso da Ethereum.

A conta que ninguém mostra ao utilizador

Para perceber porque é que a disponibilidade de dados manda no preço, convém desmontar a fatura de um rollup. Uma L2 executa transações fora da rede principal, de forma barata, e depois tem de publicar os dados dessas transações num sítio onde qualquer pessoa os possa descarregar e reconstruir o estado da cadeia. É essa publicação, e não a computação, que domina o custo. Depois dos blobs, estimativas do setor apontam para que a disponibilidade de dados represente perto de 90% do custo operacional de um rollup otimista típico.

Nem todos os rollups pesam a fatura da mesma maneira. Os rollups otimistas publicam praticamente todos os dados das transações, pelo que sentem cada cêntimo do custo de disponibilidade de dados. Os zk-rollups, que provam a validade das transações com uma prova criptográfica, conseguem comprimir mais o que publicam, mas continuam a precisar de pôr dados suficientes disponíveis para reconstruir o estado, e por isso também não escapam ao custo de DA. Seja qual for o desenho, a mesma regra vale: é a camada de dados que dita o grosso do preço.

Ou seja: a taxa que o utilizador paga é, na sua larga maioria, um repasse do custo de disponibilidade de dados, mais uma margem para o operador da rede (o sequenciador). Se o custo de publicar dados descer 50 vezes, a taxa acaba por seguir. Por isso, a decisão mais importante que uma L2 toma, do ponto de vista do preço final, não é o desenho da interface nem o marketing: é onde compra a sua disponibilidade de dados. E, em 2026, essa decisão passou a ter alternativas sérias à Ethereum.

Celestia: a aposta na soberania e no preço quase zero

A Celestia foi a primeira rede desenhada exclusivamente para disponibilidade de dados. Nasceu de um artigo de 2019 de Mustafa Al-Bassam, então doutorando, originalmente chamado LazyLedger: um blockchain que «se abstém de computar» e serve apenas para garantir que os dados estão disponíveis. Ao contrário da EigenDA, a Celestia é uma cadeia soberana e independente, com o seu próprio orçamento de segurança e o seu próprio token, a TIA.

Em novembro de 2025, a rede ativou a atualização Matcha, que aumentou o tamanho dos blocos de 8 MB para 128 MB (um salto de 16 vezes na capacidade), cortou a inflação anual do token de cerca de 5% para 2,5% e removeu o filtro que impedia ativos que não a TIA de circularem pela rede, um passo em direção ao Lazy Bridging previsto para meados de 2026. O objetivo declarado no roteiro é escalar até 1 GB por segundo de dados.

O ponto mais importante para a guerra de preços é a estratégia de tarifação. Respondendo a críticas sobre a baixa receita da rede, Al-Bassam afirmou na sua conta de X que o espaço de blocos da Celestia é «basicamente gratuito», porque as taxas estão fixadas no mínimo apenas para travar spam e não para gerar lucro, uma vez que a rede está a otimizar para o crescimento e não para a receita. Traduzindo: a Celestia está deliberadamente a vender disponibilidade de dados a preço de custo, ou abaixo dele, para atrair rollups. Numa estimativa citada pela Blockworks, os rollups pagavam cerca de 3,83 dólares por megabyte em blobs da Ethereum contra cerca de 0,07 dólares na Celestia, uma diferença de 55 vezes; a mesma análise dava o exemplo da Eclipse, cujos 83 GB de dados teriam custado mais de 300 mil dólares em blobs e ficaram por cerca de 6 mil dólares na Celestia.

Há um senão que o mercado não deixou passar. Se a disponibilidade de dados é vendida quase de graça, é difícil o token que a sustenta capturar valor. A TIA negoceia hoje perto de 0,26 euros, bem abaixo dos cerca de 0,65 dólares a que estava na altura da Matcha, em novembro de 2025, com uma capitalização de mercado à volta dos 250 milhões de euros, segundo a CoinGecko. A própria virtude comercial da Celestia, preços quase nulos, é o que torna a economia do seu token um problema em aberto.

EigenDA: a disponibilidade de dados que herda a segurança da Ethereum

A EigenDA aborda o problema por outro ângulo. Em vez de construir um orçamento de segurança novo, como a Celestia, aproveita o restaking da EigenLayer: operadores que voltam a colocar em garantia ETH (ou derivados de staking) para assegurar serviços adicionais, entre eles a disponibilidade de dados. A segurança da EigenDA é, assim, um derivado da segurança da própria Ethereum, o que agrada a quem não quer confiar num orçamento de segurança separado.

O caso de adoção mais citado é a Mantle, uma das maiores L2 da Ethereum por valor total, que se apresentou como a primeira e maior rede a integrar plenamente a EigenDA. A migração passou de 10 operadores (na antiga MantleDA) para mais de 200, com uma redução de custos anunciada até 90% face a publicar todos os dados na rede principal, uma taxa de transferência na ordem dos 15 MB por segundo e cerca de 335 milhões de dólares em mETH a garantir a disponibilidade dos dados. A EigenDA processa hoje qualquer coisa como 15 MB por segundo em mainnet, com metas bastante mais ambiciosas.

A dependência do restaking é, ao mesmo tempo, a força e a fragilidade do modelo. Qualquer stress no ecossistema de restaking respinga na EigenDA. Não por acaso, um dos temas quentes de 2026 foi precisamente o recuo de parte do restaking, com a ether.fi a afastar-se da EigenLayer, um lembrete de que a segurança emprestada tem custos e condições que podem mudar. Ainda assim, para rollups que querem preços muito baixos sem sair da órbita de segurança da Ethereum, a EigenDA é a proposta mais direta.

Avail, comités de dados e o resto do pelotão

A terceira grande candidata é a Avail, também soberana à semelhança da Celestia, mas ainda de menor escala em volume de dados processados. Compete no mesmo terreno: segurança própria, preços baixos e a promessa de unificar liquidez entre várias cadeias. Ao lado destas três, existe uma quarta via, mais barata e menos segura: os comités de disponibilidade de dados (DAC, na sigla inglesa), pequenos conjuntos de entidades que atestam que os dados existem, sem as garantias criptográficas de uma cadeia dedicada. Muitos rollups ditos «validium» usam esta abordagem para cortar custos ao máximo.

Este é o cerne da tensão que vai definir as taxas até 2027: existe um espetro entre segurança e preço. No topo da segurança estão os blobs da Ethereum, agora com um piso de preço. No extremo do preço estão os DAC, quase gratuitos mas com garantias fracas. A Celestia, a EigenDA e a Avail disputam o meio, e é a forma como esse meio se organizar que vai fixar o custo real de uma transação para o utilizador comum.

Como se comparam as camadas de dados

O quadro seguinte resume as grandes opções de disponibilidade de dados que os rollups têm em 2026. Os valores de custo são aproximados e variam bastante com a procura; servem para dar ordem de grandeza, não como cotação exata.

Camada de dadosModelo de segurançaCusto relativo por MBQuem usa (exemplos)
Blobs da EthereumSegurança total da Ethereum; piso de preço via EIP-7918Mais alto (referência)Base, Arbitrum, Optimism
CelestiaCadeia soberana, orçamento de segurança próprio (TIA)Muito baixo (dezenas de vezes mais barato)Eclipse e rollups modulares
EigenDADerivado da Ethereum via restaking da EigenLayerBaixoMantle
AvailCadeia soberana, orçamento próprio, menor escala atualBaixoRollups e app-chains diversos
Comité de dados (DAC)Confiança num pequeno grupo de entidades; garantias fracasMínimoRollups validium

O dilema da Ethereum: a disponibilidade de dados é o último reduto de valor

Aqui a história das taxas cruza-se com a história do preço do ETH. O mecanismo de queima da Ethereum (a EIP-1559) destrói parte das taxas pagas na rede. Quanto mais barata for a publicação de dados, e quanto mais rollups fugirem dos blobs para a Celestia ou a EigenDA, menos ETH é queimado. Numa altura em que o ETH negoceia perto dos 1.621 euros, segundo a CoinGecko, e em que a base de execução da rede rende muito menos do que nos picos de 2021, a receita dos blobs tornou-se, nas palavras de vários analistas, o último grande reduto de captura de valor para o ETH.

Os números da Fidelity Digital Assets ilustram bem o desequilíbrio. Ao longo de um ano, a Base pagou cerca de 5,2 milhões de dólares em taxas de blobs à Ethereum, enquanto gerava cerca de 94 milhões de dólares em receita de taxas dos seus utilizadores. A mesma análise estima que a EIP-7918, ao pôr um piso no preço dos blobs, teria acrescentado cerca de 30,6 milhões de dólares aos detentores de ETH, só a partir da atividade da Base. É um retrato cru de quanto valor está a escapar da rede principal para as L2, um tema que exploramos em detalhe no artigo sobre a oferta de ETH, a emissão e a queima em 2026.

O problema, do ponto de vista da Ethereum, é que os rollups são empresas. Uma L2 que possa cortar 90% do seu custo de dados mudando para a EigenDA ou a Celestia vai fazê-lo, a não ser que a Ethereum ofereça algo que as alternativas não têm. E é exatamente esse o argumento da tese contrária.

A tese contrária: e se a Fusaka tornar a Celestia redundante?

Nem toda a gente acredita que o dinheiro vai fugir para a DA externa. Uma linha de análise, que há quem resuma na ideia de um «amanhecer da DA» na Ethereum, defende o contrário: à medida que os blobs ficam mais baratos e abundantes com a Fusaka e as próximas atualizações de parâmetros, a vantagem de custo da Celestia encolhe, e a Ethereum oferece algo que nenhuma cadeia soberana consegue igualar, a saber, a máxima segurança e a ausência de pontes de confiança para trazer os dados de volta.

Há mérito nos dois lados. A favor da DA externa está uma diferença de preço que continua a ser de dezenas de vezes, e o piso da EIP-7918, que impede os blobs de acompanharem a Celestia até ao fundo. A favor dos blobs está o argumento de segurança, o mais forte para aplicações financeiras de alto valor, onde um comité de dados ou uma cadeia soberana mais recente introduz um risco que muitos protocolos não querem correr. O mais provável não é uma vitória total de nenhum dos lados, mas uma segmentação: os jogos, as redes sociais e as app-chains de baixo valor a migrarem para DA externa quase gratuita, e as aplicações financeiras de topo a ficarem nos blobs, a pagar pela segurança. Onde a linha divisória cair é o que vai determinar quanta receita a Ethereum retém.

A outra alavanca: execução e a Glamsterdam

A disponibilidade de dados é apenas uma das duas alavancas que restam. A outra é a execução. Depois de o custo de dados bater no piso, a forma de continuar a comprimir taxas é tornar o próprio processamento mais barato e mais rápido. É esse o objetivo da Glamsterdam, a próxima grande atualização da Ethereum, que traz separação obrigatória entre proponente e construtor (ePBS), listas de acesso ao nível do bloco e um reajuste do custo de gás, com projeções de cortes na ordem dos 70% a 78% na taxa de execução e um alvo de limite de gás perto dos 200 milhões. Dedicámos a essa frente um artigo próprio, sobre o que vem depois dos blobs e a próxima descida das taxas L2 com a Glamsterdam.

A Glamsterdam está em fase de testnet pública (a fork da Sepolia ocorreu a 3 de agosto de 2026 e a da Hoodi está prevista para 17 de agosto), com a mainnet ainda sem data fechada, prevista para o segundo semestre de 2026. No plano de fundo, Vitalik Buterin apresentou o roteiro Lean Ethereum, que descreve como a terceira grande iteração da rede e no qual admite que quase todas as peças principais do protocolo vão ser substituídas ao longo de aproximadamente os próximos cinco anos. Uma parte central desse plano é a Ethereum recuperar execução que hoje está nas L2, o que, a concretizar-se, mudaria de novo o equilíbrio entre rede principal e rollups. Para as taxas, execução e disponibilidade de dados são as duas mãos que apertam a mesma margem.

Três cenários para as taxas L2 até 2027

Juntando as peças (o piso dos blobs, a concorrência na DA e a alavanca da execução), é possível desenhar três cenários para onde ficam as taxas L2 até 2027. Nenhum é uma certeza; servem para enquadrar riscos, e não como promessa de preço.

CenárioO que acontece na disponibilidade de dadosTaxa típica de uma transaçãoQuem beneficia
Compressão gradual (base)Blobs continuam dominantes; DA externa capta jogos e L3 de baixo valorCerca de 0,001 eurosUtilizadores de todas as redes; Ethereum mantém alguma queima
Compressão aceleradaDA externa ganha quota e a Glamsterdam corta a execuçãoAbaixo de 0,0005 euros, por baixo da SolanaUtilizadores e L2; pressão sobre o valor do ETH
Fragmentação e riscoA guerra de preços empurra rollups para DAC e cadeias novas; um incidente de segurança abala a confiançaMuito baixa, mas com risco de levantamento e de perdaEspeculadores de curto prazo; utilizadores ficam mais expostos

O cenário base é o mais provável: uma descida lenta e uma segmentação por tipo de aplicação. O cenário de compressão acelerada depende de a Glamsterdam entrar em produção a tempo e de a DA externa provar segurança suficiente para atrair também aplicações de valor. O cenário de fragmentação é o que menos aparece nas previsões otimistas e o que mais deveria preocupar quem guarda valor numa L2: taxas baixíssimas não valem nada se o modelo de dados por trás falhar.

O que muda para o utilizador e para o investidor em Portugal

Para quem usa cripto em Portugal, a principal mensagem prática é que a batalha do preço já foi ganha. Enviar uma transação numa L2 madura custa hoje cêntimos ou frações de cêntimo, e a diferença entre a Base, a Arbitrum ou a Optimism, em euros, é quase impercetível no dia a dia. O que passa a distinguir as redes não é o preço, é o modelo de dados por trás: uma rede que use um comité de dados barato mas frágil não é equivalente a uma que publique tudo nos blobs da Ethereum, mesmo que a fatura seja parecida. Compensa saber onde a sua L2 guarda os dados, sobretudo antes de lá deixar montantes significativos.

Para o investidor, a leitura é diferente. Tokens de disponibilidade de dados como a TIA são um exemplo perfeito do risco de confundir utilidade técnica com captura de valor: a Celestia pode ser tecnicamente essencial e, ainda assim, ver o preço do token cair porque vende o serviço quase a custo zero. A tese de investimento em ETH, por seu lado, passa cada vez mais por saber se a Ethereum consegue reter receita de dados face à concorrência, o mesmo tipo de raciocínio de fluxos e de procura real que aplicamos ao ler o calendário que decide o resto de 2026.

No plano regulatório, convém separar o protocolo do serviço. A disponibilidade de dados é infraestrutura técnica e não é, em si, um serviço financeiro regulado. Já as plataformas onde um português compra ou custodia TIA, ETH ou tokens de L2 são prestadores de serviços de criptoativos (CASP) sob o MiCA, cujo período de transição terminou a 1 de julho de 2026. Em Portugal, a supervisão está repartida: a CMVM cuida da conduta de mercado e do abuso de mercado, enquanto o Banco de Portugal trata do registo dos CASP e das stablecoins, ao abrigo da Lei n.o 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025. As coimas por incumprimento vão de 25 mil euros a 5 milhões, podendo chegar a 15% do volume de negócios. Recorde-se ainda que os derivados sobre cripto (futuros e perpétuos) não caem no MiCA, mas na DMIF II, e são supervisionados como instrumentos financeiros.

Sinais a vigiar até ao final de 2026

Em vez de fixar um número mágico para as taxas, faz mais sentido acompanhar os sinais que vão inclinar a balança num ou noutro sentido. Estes são os mais informativos:

  • A fork da Hoodi a 17 de agosto de 2026 e o calendário que dela resultar para a mainnet da Glamsterdam, a alavanca da execução.
  • Uma data fechada para a BPO3 e a BPO4, as próximas subidas de parâmetros de blobs, ainda em espera à data de escrita enquanto os programadores avaliam a telemetria das primeiras.
  • O Lazy Bridging da Celestia, previsto para meados de 2026, e a evolução da quota de mercado da DA externa face aos blobs.
  • Novas migrações de peso para a EigenDA ou para a Celestia, para lá dos casos já conhecidos, que sinalizariam uma viragem estrutural.
  • O preço dos tokens de DA (a TIA à cabeça) como termómetro da tese de que a disponibilidade de dados quase gratuita não captura valor.
  • A tendência da queima de ETH: se continuar a cair, o debate sobre o valor que as L2 drenam da rede principal só vai aquecer.

Se há uma conclusão a reter, é esta: a fase em que as taxas caíam porque a Ethereum abria mais espaço de blobs está a terminar. A partir daqui, o preço de uma transação numa L2 vai ser decidido tanto pela concorrência entre camadas de dados como pelo roteiro da Ethereum. A guerra da disponibilidade de dados é discreta, quase invisível para o utilizador, mas é lá que se fixa o próximo piso.

Perguntas frequentes

O que é a disponibilidade de dados (data availability) numa L2?

É a garantia de que os dados das transações de um rollup ficam publicados e acessíveis, para que qualquer pessoa possa verificar e reconstruir o estado da cadeia. Como publicar esses dados é a maior parte do custo de uma L2 (estimativas apontam para cerca de 90% depois dos blobs), o preço da disponibilidade de dados manda no preço da transação.

Porque é que as taxas L2 não vão a zero?

Porque a Fusaka introduziu a EIP-7918, que fixa um piso para a base fee dos blobs, ancorado ao custo de execução da Ethereum. Some-se a isso a margem que os operadores das redes precisam de cobrar, e o resultado é um piso estrutural. As taxas podem cair para frações de cêntimo, mas não para zero de forma sustentada.

A Celestia e a EigenDA são mais baratas do que os blobs da Ethereum?

Em regra sim, e por uma margem grande. Estimativas do setor apontam para a DA externa ser dezenas de vezes mais barata por megabyte do que os blobs. A troca está na segurança: a EigenDA herda segurança da Ethereum via restaking, ao passo que a Celestia e a Avail têm orçamentos de segurança próprios, mais recentes. Preço mais baixo, modelo de confiança diferente.

O que é que a guerra da DA tem a ver com o preço do ETH?

Muito. A Ethereum queima parte das taxas que recebe, e a receita de blobs tornou-se um dos últimos grandes canais de captura de valor para o ETH. Se os rollups migrarem em massa para DA externa mais barata, menos ETH é queimado e a tese de valor da rede fica mais fraca. É por isso que a disponibilidade de dados deixou de ser um tema apenas técnico.

Como é que isto é regulado em Portugal?

A disponibilidade de dados em si é infraestrutura técnica e não um serviço financeiro. Já as plataformas que vendem ou custodiam tokens como a TIA ou o ETH são CASP sob o MiCA, cujo período de transição terminou a 1 de julho de 2026. Em Portugal, a CMVM supervisiona a conduta de mercado e o Banco de Portugal trata do registo dos CASP e das stablecoins, ao abrigo da Lei n.o 69/2025.

Por Priya Reddy, editora de infraestrutura e escalabilidade da HOGE Wire.

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