h hoge.gg
Subscribe
BTC$67,432.18+2.34%ETH$3,521.44+1.08%SOL$178.62-0.62%BNB$612.30+0.41%XRP$0.6234-0.18%ADA$0.4521+3.12%DOGE$0.1623+1.86%AVAX$38.71-1.24%LINK$17.84+0.92%HOGE$0.00004120+4.21%
BTC$67,432.18+2.34%ETH$3,521.44+1.08%SOL$178.62-0.62%BNB$612.30+0.41%XRP$0.6234-0.18%ADA$0.4521+3.12%DOGE$0.1623+1.86%AVAX$38.71-1.24%LINK$17.84+0.92%HOGE$0.00004120+4.21%
● Culture & Long-reads

O builder tem morada: do hackathon ao estado-rede

Ser builder em 2026 é estar algures: no hackathon, na cidade pop-up, no estado-rede. A cripto ergueu uma camada física, e Lisboa é uma das suas capitais.

Nos próximos dias, dezenas de milhares de pessoas vão fazer as malas por causa de criptomoedas. Não para fugir de um colapso de mercado nem para levantar euros num multibanco, mas para apanhar um avião. A 7 e 8 de outubro, Singapura recebe a TOKEN2049 e a mancha de eventos paralelos que a rodeia. No início de novembro, a Devcon, o encontro-mãe da Ethereum, muda-se para a Índia. A 9 de novembro, Lisboa abre a Web Summit. A 15, Londres recebe pela primeira vez a Breakpoint da Solana. Entre uma paragem e outra há hackathons, hacker houses e cidades inteiras erguidas de raiz para durarem um mês.

Passámos semanas a dissecar o builder cripto por quase todos os ângulos: o estatuto, o anonimato, a reputação transformada em cotação, o esgotamento, quem paga a conta, a inteligência artificial que lhe reescreve o trabalho, o impostor que a indústria contratou sem saber, as tribos das chains rivais e o currículo on-chain. Faltou uma coordenada, e é talvez a mais concreta de todas: onde. Ser builder em 2026 não é apenas ter um handle no X e um GitHub cheio de commits. É estar algures, num circuito que quase ninguém oficializou mas que toda a gente conhece.

A coordenada que falta a qualquer perfil de builder

O género do perfil de builder assenta em três pressupostos: que o trabalho fala por si, que a reputação se acumula on-chain e que o resto é ruído. Todos ignoram uma pergunta banal que qualquer recrutador de banca faria em segundos: onde é que esta pessoa esteve? Na cripto, a resposta raramente é um escritório. É uma sucessão de sítios temporários, um roteiro que se repete de ano para ano e que separa quem está «dentro» de quem apenas observa de longe.

A ironia é grande. Foi uma indústria construída sobre a promessa de que a geografia deixaria de importar. O Bitcoin nasceu de uma lista de correio, a Ethereum foi coordenada por pessoas em três continentes, e o discurso oficial continua a ser o do trabalho remoto, sem fronteiras nem fusos. E, no entanto, à medida que o dinheiro e o estatuto se concentraram, a presença física voltou a ser moeda. Os fundos preferem quem podem olhar nos olhos. As melhores equipas formam-se em corredores de hackathon. E, no limite, alguns builders deixaram de querer só um produto: querem uma cidade.

Este artigo mapeia essa camada física. Começa no evento de dois dias e acaba na tentativa de fundar um Estado. Pelo meio, mostra porque é que a morada de um builder diz tanto quanto o seu código, e porque é que Lisboa se tornou, quase por acidente, uma das capitais deste mundo.

Três camadas de presença: o evento, a casa e a cidade

O circuito não é uma coisa só. Organiza-se por duração e por grau de compromisso, e vale a pena separá-lo em camadas. A primeira é o evento: a conferência ou o hackathon que dura dias e reúne milhares. A segunda é a hacker house, um espaço de co-living onde uma dúzia ou uma centena de pessoas vive e constrói durante semanas. A terceira, a mais ambiciosa, é a cidade pop-up, uma comunidade que aluga território e tenta viver junta durante um mês. E há uma quarta, no limite do plausível: o estado-rede, que quer que esse território seja permanente e, um dia, soberano.

Cada camada cumpre uma função diferente na vida de um builder. O evento é vitrina e mercado; a casa é oficina e rede de confiança; a cidade é experiência de governação; o estado-rede é uma aposta política. Quanto mais fundo se entra, maior o custo (tempo, dinheiro, mudança de vida) e maior o sinal que a presença transmite a quem observa de fora.

CamadaDuração típicaExemplos em 2026Função para o builder
Evento (conferência ou hackathon)1 a 4 diasTOKEN2049, Devcon, Web Summit, Breakpoint, hackathons da ETHGlobalVitrina, angariação, recrutamento, sinal de pertença
Hacker house / co-livingsemanascasas ligadas a hackathons e residências de programadoresOficina intensiva, formação de equipas, confiança
Cidade pop-upcerca de um mêsEdge Esmeralda, Aleph (Buenos Aires), sucessores de ZuzaluVida em comum e experiência de governação
Estado-rede / zona especialmeses a permanente (contestado)Network School, PrósperaTentativa de soberania e de saída do sistema

O hackathon como rito de passagem

Para muitos builders, tudo começa num hackathon. É o rito de passagem da indústria: dois ou três dias fechado numa sala com estranhos, a dormir pouco e a transformar uma ideia num protótipo antes de o júri subir ao palco. A maior fábrica deste formato é a ETHGlobal, que já organizou mais de 95 eventos, viu nascer mais de 14 mil projetos e diz ter passado mais de 150 mil pessoas pelas suas edições, distribuindo mais de 13,5 milhões de dólares (cerca de 11,7 milhões de euros) em prémios e vendo empresas saídas da sua comunidade angariar mais de 350 milhões de dólares (perto de 305 milhões de euros).

O formato não é uma invenção da cripto. Herdou-o da cultura de software livre e do Silicon Valley, onde o hackathon de fim de semana já era rito antigo. A Ethereum adotou-o cedo, ainda em 2017, quando as primeiras grandes maratonas de programação juntaram centenas de pessoas a construir aplicações sobre uma tecnologia que quase ninguém percebia. O que mudou desde então foi a escala e o dinheiro em jogo: hoje, um hackathon de topo é patrocinado por dezenas de protocolos, filmado, transmitido em direto e vasculhado por recrutadores como uma feira de emprego encoberta.

O hackathon é muito mais do que um concurso. É um funil de recrutamento, porque os fundos e os protocolos enviam olheiros para as salas; é um mecanismo de distribuição, porque os patrocinadores pagam para que se construa em cima da sua tecnologia; e é uma credencial, porque ter ganho um hackathon conhecido abre portas que um currículo não abre. Em 2026, o formato até se desmaterializou em parte: a Crecimiento, a organização argentina por trás da cidade pop-up Aleph, montou um Aleph Hackathon com capítulos locais espalhados pelo mundo, ligados ao mesmo calendário, júri e prémios, para que ninguém ficasse de fora por não poder viajar.

O momento decisivo é a demo. Ao fim do fim de semana, cada equipa tem poucos minutos para mostrar o que fez a um júri de fundadores, investidores e engenheiros conhecidos. Ganhar não dá dinheiro que mude uma vida, mas dá uma coisa mais valiosa no início de uma carreira: a atenção das pessoas certas. Muitos protocolos que hoje movimentam milhares de milhões começaram como um projeto de hackathon que impressionou a plateia certa à hora certa. É por isso que o formato resiste: é o mecanismo mais eficiente que a indústria inventou para transformar um desconhecido talentoso num nome que circula.

A temporada das conferências: o calendário que ninguém oficializou

Acima do hackathon está a conferência, e é aqui que o circuito ganha escala industrial. O outono de 2026 é, mais uma vez, a época alta. A TOKEN2049 abre a temporada em Singapura, a 7 e 8 de outubro, e espera mais de 25 mil participantes, arrastando consigo uma «crypto week» de dezenas de festas e painéis paralelos. A Devcon, o encontro técnico da Ethereum, muda-se este ano para a Índia. A Web Summit enche Lisboa de 9 a 12 de novembro, com mais de 70 mil pessoas no recinto do Parque das Nações. E a Breakpoint da Solana aterra em Londres, no Olympia, de 15 a 17 de novembro, com mais de 8 mil participantes vindos de mais de cem países.

O que estas conferências vendem não é conhecimento, que está todo online e de graça. Vendem coincidências. O verdadeiro programa acontece nos corredores, nos jantares e nas festas «side event», onde se fecham rondas de financiamento, se contratam engenheiros e se decidem parcerias. O palco principal, com os seus keynotes coreografados, funciona sobretudo como teatro: é ali que um fundador declara vitória ou lança a próxima narrativa, e a plateia trata as suas previsões quase como profecias. Já escrevemos sobre a entrevista em que o fundador dá a guerra por ganha e sobre o fundador que usa o palco para prever o preço; a conferência é o cenário natural de ambos.

O quadro seguinte resume os principais pontos de paragem de 2026, dos eventos de dois dias às cidades de um mês.

ParagemQuando e onde (2026)EscalaTribo ou foco
TOKEN20497-8 out, Singapura25 mil+Investimento e negócio, pan-cripto
Devconnovembro, ÍndiamilharesEthereum, investigação e núcleo técnico
Web Summit9-12 nov, Lisboa70 mil+Tecnologia em geral, com forte presença cripto
Breakpoint15-17 nov, Londres8 mil+Solana
ETHGlobal (hackathons)todo o ano, global95+ eventos históricosBuilders de Ethereum
Aleph (cidade pop-up)início do ano, Buenos AiresmilharesAmérica Latina onchain
Edge Esmeralda (cidade pop-up)maio-junho, Califórniacentenasd/acc, longevidade, governação

A casa dos hackers: viver onde se constrói

Entre o evento e a cidade fica a hacker house. A ideia é antiga no Silicon Valley e foi importada para a cripto quase sem alterações: um grupo de builders aluga uma casa grande, muitas vezes durante uma conferência ou um hackathon, e vive ali em regime de trabalho contínuo. Come-se ao computador, dorme-se pouco, discute-se arquitetura de protocolos às três da manhã. As melhores casas tornaram-se lendárias e funcionam como incubadoras informais: muitas equipas que hoje gerem protocolos com milhares de milhões em depósitos conheceram-se num sofá emprestado.

A hacker house resolve um problema real. A confiança, na cripto, é cara e difícil de estabelecer à distância, sobretudo quando metade da indústria trabalha sob pseudónimo. Partilhar um teto durante um mês faz por uma relação o que meses de mensagens no Telegram não fazem. Mas tem um reverso que já descrevemos noutro lugar: a fusão total entre vida e trabalho, o mercado que nunca fecha e a pressão de estar sempre a construir são um caldo perfeito para o esgotamento. A casa que acelera um produto também consome quem o constrói.

Há ainda uma função menos falada: a hacker house é um filtro de seriedade. Quem aceita passar semanas longe de casa, num quarto partilhado, a trabalhar num projeto sem salário garantido, sinaliza um compromisso que nenhuma publicação no X consegue imitar. Para os fundos que procuram equipas em fase inicial, essa disposição vale quase tanto como o produto: mostra quem está disposto a apostar a própria vida na ideia, e não apenas a falar dela num painel.

Zuzalu: a experiência que virou movimento

Em 2023, Vitalik Buterin quis testar uma hipótese: e se juntássemos os encontros fortuitos de uma conferência, o foco técnico e a duração de uma hacker house e a ética de baixo para cima da Web3, tudo no mesmo sítio e durante dois meses? O resultado chamou-se Zuzalu. De final de março a final de maio, cerca de 200 residentes viveram em Lustica Bay, no Montenegro, a construir software, a discutir governação, a fazer testes de longevidade e a experimentar novas formas de identidade digital. Uma delas, o Zupass, um sistema de credenciais assente em provas de conhecimento zero, saiu dali para produção.

O que tornou Zuzalu importante não foi a estadia, foi o que veio a seguir. No espaço de ano e meio nasceram mais de vinte «Zu-villages» pelo mundo, réplicas mais pequenas do modelo, com o próprio Buterin a financiar bolsas para as fomentar, segundo a CoinDesk. A cidade pop-up passou de experiência única a categoria com nome próprio.

Buterin, que costuma ser o primeiro a moderar o entusiasmo da sua própria comunidade, foi cauteloso na avaliação. Concluiu que as cidades pop-up tinham «product market fit», ou seja, que havia procura genuína pelo formato, mas que os problemas por resolver eram a governação e, sobretudo, a definição de quem pode ser membro, disse à CCN depois do teste. Quem entra, quem decide e como se sai sem que a comunidade se desfaça: são as mesmas perguntas que atormentam qualquer DAO, agora transpostas para pessoas que partilham a mesma rua.

Edge City e a cidade pop-up profissionalizada

Se Zuzalu foi o protótipo, a Edge City é a versão que se profissionalizou. Fundada por Timour Kosters e pela equipa que orbitava Zuzalu, tornou-se um negócio autossustentável que organiza aldeias pop-up recorrentes. A mais conhecida é a Edge Esmeralda, montada em Healdsburg, no condado de Sonoma, na Califórnia. A edição de 2026 decorre de 30 de maio a 27 de junho e junta cerca de 500 residentes que vivem, trabalham e constroem em conjunto durante um mês, segundo a Edge City. Em edições anteriores, os participantes chegaram a testar laboratórios de biologia no local, interfaces neuronais e protocolos de longevidade, a par das habituais experiências de governação.

A lógica é a mesma da hacker house, mas à escala de uma vila. Em vez de uma dúzia de programadores, são centenas de pessoas com famílias, filhos e projetos de vida. E o modelo espalhou-se: em Buenos Aires, a Crecimiento organiza a Aleph, uma cidade pop-up de cerca de um mês com o lema «Bring Argentina Onchain», que aproveita a energia de um país onde a cripto é ferramenta de sobrevivência financeira, e não passatempo especulativo. A Argentina, com a sua inflação crónica, tornou-se um dos palcos mais vivos deste movimento, prova de que a cidade pop-up funciona melhor onde a moeda oficial funciona pior.

O estado-rede: quando a comunidade quer território

No topo da pirâmide de ambição está uma ideia que deixou de ser piada e passou a ter conferências, financiamento e advogados: o estado-rede. O termo foi popularizado por Balaji Srinivasan, antigo diretor de tecnologia da Coinbase, num livro de 2022. A sua definição, que se tornou quase um slogan, descreve o estado-rede como «uma comunidade online altamente alinhada, com capacidade de ação coletiva, que angaria fundos para adquirir território pelo mundo e acaba por obter reconhecimento diplomático de Estados já existentes».

A receita, na teoria de Balaji, inverte a ordem tradicional: primeiro a nuvem, depois a terra. Começa-se por uma «startup society», uma comunidade digital com um propósito claro; ganha-se coesão e músculo económico; depois compra-se território, primeiro disperso, depois concentrado; e, no fim de um longo caminho, negoceia-se algum grau de reconhecimento. É a lógica da saída, do «exit», levada ao extremo: em vez de tentar reformar as instituições existentes, criam-se instituições novas de raiz e convida-se quem quiser a emigrar para elas.

A ideia não caiu do céu. Bebe de uma linhagem intelectual mais antiga: do conceito de «saída» que o economista Albert Hirschman opôs à «voz» em 1970 (abandonar uma organização em vez de tentar mudá-la por dentro) e do seasteading, o movimento das cidades flutuantes em águas internacionais que Patri Friedman e o investidor Peter Thiel promoveram no final da década de 2000. O estado-rede é a versão nativa da internet dessa tradição: em vez de fugir para o mar, começa-se na nuvem e só depois se procura terra firme.

Não é difícil ver o fio que liga isto tudo. Uma DAO é uma tentativa de governar recursos sem chefes; uma cidade pop-up é uma DAO que partilha morada durante um mês; um estado-rede é uma cidade pop-up que não quer acabar. As mesmas perguntas de governação reaparecem, com muito mais em jogo, quando uma comunidade deixa de gerir um tesouro e passa a gerir vidas, vistos e leis. E há uma dimensão política inevitável: um movimento que quer «reconhecimento diplomático» é, por definição, um ator político, com tudo o que isso implica quando a cripto entra na arena eleitoral.

Do sonho ao imóvel: o choque com os Estados

A teoria é limpa. A prática colide com fronteiras, ministérios e tribunais. O caso que melhor mostra o choque é o da Próspera, uma cidade privada erguida numa zona económica especial na ilha de Roatán, nas Caraíbas hondurenhas. Assente numa lei de 2013 que permitia zonas com regras próprias, a Próspera criou o seu sistema legal e fiscal num terreno de cerca de 23 hectares. Tem poucas centenas de residentes efetivos e alguns milhares de «e-residentes» inscritos à distância, mais um símbolo do que uma cidade cheia.

Em 2022, um novo governo hondurenho revogou a lei que sustentava o projeto. A resposta foi um processo de arbitragem internacional no ICSID, o tribunal do Banco Mundial para litígios entre investidores e Estados. O pedido inicial de indemnização rondou os 11 mil milhões de dólares (perto de 9,5 mil milhões de euros), uma soma equivalente a uma fatia gigantesca do orçamento nacional de Honduras, segundo a CorpWatch. O valor foi mais tarde reduzido de forma substancial, mas o simbolismo ficou: uma cidade privada, apoiada por capital tecnológico, a processar um Estado soberano por ter mudado de ideias.

O próprio Balaji levou a teoria à prática com a Network School, um campus que abriu em 2024 em Forest City, um empreendimento imobiliário semiabandonado na Malásia, para reunir algumas centenas de residentes em torno da ideia de estado-rede. Durou pouco. Em julho de 2026, as autoridades malaias revogaram a licença de funcionamento e mandaram parar a operação, alegando violações das leis de imigração; Balaji anunciou logo a seguir um memorando de entendimento para abrir o próximo campus no Cazaquistão, noticiou a TechNode. A lição foi imediata: por muito «cloud first» que seja a filosofia, a terra continua a pertencer a alguém, e esse alguém tem polícia de fronteiras.

A crítica: saída, colonialismo e o «tech fascism»

Nem toda a gente vê nestes projetos uma utopia de programadores. Para uma parte crescente de críticos, o estado-rede é uma forma educada de dizer que os muito ricos querem comprar a saída das regras que se aplicam a todos os outros. O jornalista Gil Duran, autor do livro «The Nerd Reich» (2026), é dos mais contundentes: descreveu o estado-rede não como uma «fantasia marginal», mas como um «plano em construção para um autoritarismo apoiado na tecnologia», uma tentativa de substituir a democracia por aquilo a que chama «tech fascism», em declarações à Tech Policy Press.

O argumento tem duas pontas. A primeira é o «colonialismo de alta tecnologia»: projetos como a Próspera e a Network School instalam-se em países mais pobres, negoceiam isenções legais e fiscais que nenhum cidadão local obteria e, quando o governo muda de posição, respondem com processos de milhares de milhões. Foi precisamente o receio de repetir o caso hondurenho que pesou na decisão da Malásia. A segunda ponta é democrática: se os builders mais poderosos deixam de tentar melhorar as instituições comuns e passam a construir enclaves só para si, quem fica para trás herda instituições ainda mais fracas.

Os defensores respondem que a saída é um direito, que a concorrência entre jurisdições melhora a governação e que ninguém é obrigado a mudar-se. A tensão não se resolve num artigo. Mas é honesto reconhecê-la: o mesmo circuito que produz hackathons inofensivos e vilas de longevidade produz, no seu extremo, uma das ideias mais controversas da tecnologia contemporânea. Ignorar essa ponta seria contar só metade da história de onde os builders decidiram construir.

Porque é que a morada importa num mundo sem fronteiras

Posto tudo isto, fica a pergunta de fundo: porque é que uma indústria nativa da internet precisa tanto de se encontrar em pessoa? A resposta é uma mistura de coisas racionais e humanas. A confiança forma-se mais depressa cara a cara. O capital, por muito global que seja, ainda prefere financiar quem conhece. As melhores contratações fazem-se por indicação de alguém que trabalhou ao lado do candidato, e não por um currículo. E há o puro efeito de rede: quanto mais gente relevante está numa sala, mais vale a pena estar nessa sala, o que se auto-alimenta até uma cidade ganhar gravidade própria.

Foi assim que nasceu uma figura muito concreta destes anos: o builder nómada, de mochila e portátil, que passa o ano a saltar entre conferências, hacker houses e cidades pop-up sem morada fixa. Para alguns, é a liberdade máxima; para outros, uma vida sem raízes que acaba por cobrar a fatura no cansaço e no isolamento. De qualquer forma, tornou-se um arquétipo reconhecível, quase um cliché, e ajuda a explicar porque é que o circuito parece, visto de fora, uma tribo sempre em trânsito.

Há também um lado menos nobre. O circuito é caro. Voar para Singapura, Buenos Aires e Lisboa no mesmo trimestre, pagar bilhetes de conferência e alojamento em cidades sobrelotadas, tirar semanas para viver numa cidade pop-up: nada disto está ao alcance de um builder de dezanove anos numa cidade do interior de um país em desenvolvimento, por muito bom que seja o seu código. O visto é outra barreira invisível, porque nem todos os passaportes abrem as mesmas portas. Assim, a mesma presença física que gera confiança também filtra, e nem sempre pelas razões certas. Quem lê perfis de builders faria bem em lembrar-se de que a ausência de um nome do circuito diz, muitas vezes, mais sobre geografia e dinheiro do que sobre talento.

Lisboa, capital do circuito lusófono

Para o leitor português, esta história não é abstrata. Lisboa é, hoje, uma das capitais do circuito. A Web Summit fixou-se na cidade em 2016 e transformou novembro num íman anual para dezenas de milhares de fundadores, investidores e programadores; a edição de 2026 espera mais de 70 mil pessoas. Em torno dela cresceu um ecossistema próprio: hackathons da ETHGlobal, a Onchain Lisbon Week, um punhado de hacker houses e campus de startups como o Hub Criativo do Beato, instalado numa antiga zona industrial reconvertida.

A cidade não chegou aqui por acaso. Portugal ganhou fama de destino amigável para quem vive de cripto: durante anos, os ganhos com criptoativos detidos há mais de um ano estiveram, e continuam, isentos de imposto, enquanto os de curto prazo passaram a ser tributados; o país criou vistos para nómadas digitais que atraíram programadores remotos de meio mundo. Juntou-se o clima, um custo de vida ainda comportável à escala da Europa Ocidental e uma comunidade local que foi crescendo. O resultado é uma massa crítica de builders que já não precisam de apanhar um avião para estar «no circuito»: o circuito vem a Lisboa.

Este sucesso tem um custo que a cidade discute em voz alta. A chegada de estrangeiros com salários em dólares, e por vezes em cripto, pressionou as rendas e alimentou um debate azedo sobre gentrificação e habitação, num país onde o salário médio está longe dos valores do Vale do Silício. O mesmo íman que traz talento e capital também empurra moradores para fora dos bairros centrais. É a versão portuguesa de uma tensão que percorre todo o circuito: a presença que enriquece um lugar nem sempre beneficia quem já lá vivia.

Há também construtores portugueses de raiz. O exemplo mais citado é a Utrust, fundada em Portugal por volta de 2017 para permitir pagamentos em cripto com proteção do comprador, mais tarde adquirida pela Elrond (hoje MultiversX) e rebatizada xMoney. Não é um estado-rede nem uma cidade pop-up, é uma empresa com produto e clientes; mas mostra que o país tem talento capaz de exportar, e não apenas hotéis cheios durante uma semana de novembro. Do outro lado do Atlântico, São Paulo e o Brasil oferecem o maior mercado retalhista lusófono, o que faz de Lisboa a ponte natural entre a Europa e essa base.

O que o regulador vê no circuito

Uma conferência não é uma atividade regulada, e um hackathon também não. Mas o que acontece dentro deles pode ser. Quando num painel se lança um token, quando num jantar se fecha uma ronda de financiamento ou quando uma equipa começa a guardar fundos de terceiros, entram em cena regras concretas. Em Portugal, a supervisão de conduta cabe à CMVM, e o registo dos prestadores de serviços de criptoativos e as questões de stablecoins ao Banco de Portugal, com o quadro europeu do MiCA por cima. O período de transição para os antigos prestadores portugueses termina a 1 de julho de 2026, o que torna este outono um momento sensível para quem opera a partir do país.

As cidades pop-up e os estados-rede são um problema de natureza diferente, e maior. Não são criptoativos, por isso não cabem no MiCA; são questões de soberania, imigração, direito fiscal e, por vezes, sanções internacionais. Foi por aí que a Malásia travou a Network School, e é por aí que a Próspera se digladia com Honduras. Para o builder comum, a lição prática é mais modesta: a euforia de uma semana de conferências não suspende as regras, e o entusiasmo de fim de ano, que analisámos na perspetiva do quarto trimestre, convive com um calendário regulatório que não tira férias.

Como ler um builder pela sua morada

Se a presença física virou sinal, então vale a pena aprender a lê-la, sem a sobrevalorizar nem a ignorar. Estar no circuito não prova que alguém constrói coisas úteis; prova que tem acesso, tempo e dinheiro para lá estar. Há builders excecionais que nunca põem os pés numa conferência e turistas de crachá que colecionam palcos sem enviar uma linha de código para produção. O truque é distinguir a substância do turismo.

  • Pergunte o que a pessoa construiu em cada paragem, não apenas onde esteve. Um projeto de hackathon que sobreviveu ao fim de semana vale mais do que dez fotografias em painéis.
  • Desconfie de quem só aparece nas festas e nunca nas salas de trabalho. O sinal está na hacker house, não no after.
  • Verifique se a presença tem continuidade. Um mês numa cidade pop-up diz mais sobre compromisso do que um dia de conferência com bilhete pago pelo patrocinador.
  • Distinga a ambição da retórica. Falar em estado-rede é fácil; a pergunta é o que essa pessoa entregou a uma comunidade real.
  • Lembre-se do filtro. A ausência de alguém do circuito pode dizer mais sobre o preço de um bilhete de avião do que sobre o seu valor.

No fundo, a morada de um builder é apenas mais uma peça do retrato, ao lado do código, da reputação on-chain e das companhias que mantém. Diz-nos onde a pessoa escolheu gastar o recurso mais escasso que tem, o tempo, e com quem. Num setor que promete abolir a geografia, é revelador que continue a decidir-se tanto em pessoa. A camada física da cripto não vai desaparecer; vai continuar a crescer, dos hackathons de fim de semana às cidades que sonham tornar-se países. Ler bem essa camada é, cada vez mais, parte de ler bem quem constrói.

Perguntas frequentes

O que é uma cidade pop-up na cripto?

É uma comunidade temporária que aluga ou ocupa um espaço físico durante semanas ou meses para que centenas de pessoas vivam, trabalhem e construam juntas. O exemplo fundador foi a Zuzalu, criada por Vitalik Buterin no Montenegro em 2023; sucessores como a Edge Esmeralda, na Califórnia, e a Aleph, em Buenos Aires, repetem o modelo todos os anos.

O que é um estado-rede (network state)?

É um conceito popularizado por Balaji Srinivasan para descrever uma comunidade online muito alinhada que angaria fundos para comprar território disperso e, no limite, procura reconhecimento diplomático de outros Estados. Projetos como a Network School e a Próspera são tentativas de o aproximar da realidade, com resultados até agora contestados.

Porque é que Lisboa é considerada um centro de builders cripto?

Porque juntou vários fatores ao mesmo tempo: a Web Summit fixou-se na cidade em 2016 e atrai dezenas de milhares de pessoas todos os novembros, Portugal criou um regime fiscal e de vistos atrativo para quem vive de tecnologia, e cresceu à volta uma comunidade local com hackathons, hacker houses e campus de startups. O circuito internacional passa por Lisboa com regularidade.

Vale a pena ir a conferências e hackathons de cripto?

Depende do objetivo. Para quem constrói, os hackathons são uma forma eficaz de aprender, formar equipa e ser notado por fundos e protocolos. As conferências valem sobretudo pelas conversas de corredor e pelos contactos, não pelos palcos. Mas o circuito é caro e exige tempo, por isso convém escolher poucas paragens com intenção, em vez de tentar estar em todas.

As cidades pop-up e os estados-rede são legais?

As cidades pop-up costumam funcionar como eventos privados de longa duração e não levantam problemas de maior. Os estados-rede são outra história: tocam em soberania, imigração e direito fiscal, e já geraram conflitos sérios, como a revogação da licença da Network School na Malásia ou a arbitragem entre a Próspera e Honduras. Não são criptoativos, por isso não é o MiCA que os enquadra, mas sim o direito de cada país.

Por Marcus Okafor, editor sénior da HOGE Wire.

Share 𝕏 Post Telegram