Da manchete ao cofre: a máquina invisível dos fluxos de ETF
Quando lê que um ETF captou mil milhões, o que aconteceu mesmo? Abrimos a máquina por baixo do número: criação e resgate, custódia, comissões e o staking que agora rende.
Um número na manchete, uma máquina por baixo
No dia 1 de setembro de 2026, os terminais abriram com um número vermelho: os ETF de Bitcoin à vista cotados nos Estados Unidos perderam cerca de 236 milhões de dólares num único dia, e o fundo da BlackRock, o IBIT, respondeu por 85% dessa saída, segundo os dados de fluxos compilados pela KuCoin. Uma semana antes, a história era o oposto exato: agosto tinha sido o melhor mês de 2026, com entradas líquidas próximas dos 3,52 mil milhões de dólares. O mesmo instrumento, o mesmo ticker, dois humores contrários em sete dias.
O número que toda a gente cita, o fluxo, é a ponta visível de uma máquina que quase nenhum leitor chega a ver. Quando o Bitcoin negoceia acima dos 66 mil euros e o Ether perto dos 2.060 euros, de acordo com a CoinGecko, o preço é a parte fácil. O difícil, e o mais mal contado, é o que acontece nos bastidores para transformar uma manchete de entradas de mil milhões em Bitcoin verdadeiro guardado num cofre frio. Este artigo abre a máquina peça a peça: a criação e o resgate de participações, a troca em espécie que mudou as regras em 2025, a custódia concentrada, a arbitragem que cola o preço ao ativo, a guerra das comissões e o staking que, no Ethereum, passou a render dentro do próprio embrulho.
O que é (e o que não é) um fluxo
Comecemos por desfazer um mal-entendido comum. Um fluxo líquido de ETF não é a soma das ordens de compra e venda que passaram pela bolsa durante o dia. É outra coisa: é o saldo entre as participações criadas e as participações resgatadas ao longo de um período, convertido em dólares ao preço de fecho. Quando lê que o IBIT captou 479 milhões num dia, isso não significa que investidores de retalho correram a comprar às três da tarde. Significa que, no cômputo do dia, nasceram mais participações novas do que as que foram destruídas, e que o fundo ficou por isso obrigado a deter mais moeda.
A distinção importa porque separa dois mercados que os profissionais nunca confundem, mas que os títulos de imprensa juntam a toda a hora. Há o mercado secundário, onde eu e o leitor compramos e vendemos participações do ETF na bolsa, um contra o outro, sem tocar numa única moeda. E há o mercado primário, onde um punhado de intermediários autorizados cria e resgata participações em grandes blocos, e só aí é que a quantidade de Bitcoin dentro do fundo muda. O fluxo que os jornais publicam mede o segundo mercado, não o primeiro. É um agregado de fim de dia, atrasado por natureza, e é por isso que o preço intradiário e o fluxo diário divergem tantas vezes: um mede emoção ao minuto, o outro mede canalização ao fecho.
Convém saber, ainda, de onde vêm estes números. Nenhum regulador os publica em tempo real; são plataformas independentes, como a Farside Investors ou a SoSoValue, que compilam diariamente as criações e os resgates comunicados por cada emitente e os convertem em dólares. Por isso o mesmo dia pode ter um valor ligeiramente diferente consoante a fonte, e por isso os números são revistos: são estimativas de fim de dia, não uma leitura contínua e oficial do mercado.
A engrenagem central: criação e resgate
No coração de qualquer ETF está um mecanismo com quase trinta anos, herdado dos fundos de ações e de ouro: a criação e o resgate por intermediários autorizados, conhecidos pela sigla inglesa AP, de authorized participants. São bancos e formadores de mercado de grande dimensão, nomes como a Jane Street e os balcões institucionais da grande banca, que assinam contrato com o emitente do fundo para poderem trocar cestos de ativos por participações e vice-versa. O investidor comum nunca fala com um AP; beneficia do seu trabalho sem sequer o ver.
O mecanismo funciona como uma válvula de pressão. Quando a procura empurra o preço do ETF na bolsa para cima do valor dos ativos que ele representa, um AP cria participações novas: entrega o cesto de referência ao emitente e recebe participações, que vende no mercado, embolsando a diferença. Esse ato de arbitragem faz duas coisas ao mesmo tempo, empurra o preço do ETF de volta para junto do valor real e obriga o fundo a adquirir mais Bitcoin. Quando o preço cai abaixo do valor dos ativos, o processo inverte-se: o AP compra participações baratas na bolsa, resgata-as junto do emitente e recebe o ativo, retirando moeda do fundo. O fluxo que o leitor vê no ecrã é, no fundo, o saldo líquido destes cestos primários. É a mesma lógica invisível que descrevemos ao falar da moeda que não se vê no volume das exchanges: a parte que conta raramente é a que aparece na manchete.
Em espécie ou em dinheiro: a troca silenciosa de 2025
Durante o primeiro ano e meio de vida dos ETF de Bitcoin à vista, a engrenagem funcionava a meio gás. A SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, tinha exigido que a criação e o resgate se fizessem apenas em dinheiro: o AP entregava dólares e o emitente, ou o seu agente, comprava o Bitcoin no mercado. Parece um detalhe técnico, mas custava caro. Cada criação obrigava a uma transação no mercado à vista, com o seu spread e o seu custo, e gerava fricção fiscal desnecessária, porque a compra e a venda de moeda dentro do fundo podiam despoletar mais-valias tributáveis.
Isso mudou em julho de 2025. A SEC deu aprovação acelerada às alterações de regras propostas pela Nasdaq, pela Cboe e pela NYSE que passaram a permitir a criação e o resgate em espécie para todos os ETF de Bitcoin e de Ethereum à vista, como noticiou a CoinDesk. Em espécie significa que o AP entrega e recebe o próprio ativo, o Bitcoin, em vez de dinheiro, exatamente como funcionam os ETF de ouro há décadas. O ganho é triplo: custos mais baixos, spreads mais apertados e maior eficiência fiscal. O presidente da SEC, Paul Atkins, resumiu a mudança de tom do regulador ao afirmar que «é um novo dia na SEC» e que uma prioridade da sua presidência seria construir um enquadramento adequado para os mercados de criptoativos.
Convém, ainda assim, manter os pés na terra sobre o alcance da mudança. O analista sénior de ETF da Bloomberg, Eric Balchunas, sublinhou que a novidade beneficia sobretudo os grandes intermediários. Quando o IBIT baixou o mínimo de resgate em espécie de 25 milhões para 1 milhão de dólares, o gesto era dirigido aos AP, não ao investidor comum, e Balchunas descreveu-o como «uma correção de canalização» mais do que uma revolução, em declarações citadas pela Blockchain.News. A canalização, contudo, é precisamente o tema deste texto: é ela que decide quanto custa mover mil milhões e com que fidelidade o preço segue o ativo.
Onde as moedas dormem: custódia e concentração
Criada a participação, resta a pergunta mais física de todas: onde fica o Bitcoin? A resposta, para a esmagadora maioria dos ETF à vista norte-americanos, incluindo o IBIT, é um custodiante especializado que guarda as chaves privadas em armazenamento frio, desligado da internet, com procedimentos de reservas comprovadas e apólices de seguro sobre uma parte dos ativos. A Coinbase Custody tornou-se, por essa via, o guardião de uma fatia enorme do mercado, o que levanta uma questão que raramente entra na conversa sobre fluxos: a concentração.
Há concentração a dois níveis. Do lado do custodiante, um único operador detém as chaves de uma parte desproporcionada de todo o Bitcoin embrulhado em ETF, o que cria um ponto único de possível falha que reguladores e gestores de risco vigiam de perto. Do lado do produto, um único fundo, o IBIT, acumulou 782.210 Bitcoin em entradas líquidas e cerca de 59 mil milhões de dólares em ativos, de acordo com a contagem da Bitcoin.com. Quando um só cofre e um só fundo pesam tanto, o fluxo do mercado é muitas vezes, na prática, o fluxo de uma única casa. Perceber onde as moedas realmente assentam ajuda a ler o mapa mais amplo de liquidez que explorámos na geografia do volume, porque a custódia é o outro lado da mesma moeda: quem guarda, comanda.
A concentração explica também por que a transparência da custódia se tornou tema central. Os emitentes publicam os endereços em cadeia e recorrem a auditores para atestar que cada participação está coberta por Bitcoin real, e não por promessas. O debate que fica em aberto é o da reutilização: um custodiante que sirva ao mesmo tempo o fundo, a corretora e o programa de empréstimo tem de provar que não rehipoteca as mesmas moedas em mais do que um sítio. Enquanto os ETF crescem, é esta a linha de água que os supervisores vigiam com mais atenção.
Como o preço do ETF cola ao ativo: valor, prémio e desconto
Se o fundo detém Bitcoin e as participações se transacionam na bolsa, como é que se garante que uma participação vale sempre a fração de Bitcoin que promete? A cola chama-se valor patrimonial líquido, em inglês NAV. Uma vez por dia, ao fecho, o emitente calcula o valor de todos os ativos do fundo, subtrai as despesas e divide pelo número de participações. Esse é o valor de referência a partir do qual tudo o resto se mede.
Durante o dia, o preço de mercado da participação oscila em torno desse valor. Se sobe demasiado acima, diz-se que negoceia com prémio; se cai abaixo, com desconto. E é aqui que a engrenagem da criação e do resgate volta a entrar: o prémio ou o desconto abrem uma oportunidade de arbitragem que os AP fecham quase instantaneamente, criando participações quando há prémio e resgatando-as quando há desconto. O resultado é que os ETF à vista de Bitcoin e Ethereum seguem o ativo com um erro de seguimento pequeno, embora nunca nulo. Há sempre um resíduo, feito de comissões, do momento exato em que o valor é fixado e de custos de transação. O ETF é um retrato fiel do ativo, não um espelho perfeito, e quem confunde as duas coisas paga a diferença sem dar por ela.
O ciclo de vida de uma entrada de mil milhões
Vale a pena seguir uma única entrada do princípio ao fim, porque é aí que todas as peças encaixam. Imagine um grande alocador, um fundo de pensões ou uma gestora de patrimónios, que decide acrescentar exposição a Bitcoin. Não liga à BlackRock; passa a ordem através da sua corretora habitual, como quem compra qualquer ação. Se, no conjunto do dia, a procura por participações do ETF superar a oferta e empurrar o preço para prémio, os intermediários autorizados entram em cena e criam participações novas em blocos, entregando Bitcoin ao custodiante em troca dessas participações.
As moedas assentam então em armazenamento frio, ao fecho calcula-se o valor patrimonial, e só na manhã seguinte é que os agregadores de dados publicam o saldo líquido do dia. É essa a linha que acaba na manchete: uma entrada de mil milhões. Repare no percurso: entre a decisão do investidor e o número que lê no jornal houve uma ordem de bolsa, um ato de arbitragem de um AP, uma entrega de Bitcoin, um assento em cofre frio e um cálculo ao fecho. Nenhuma dessas etapas é visível na manchete, e todas elas moldam o que o número realmente significa.
A guerra das comissões
Nada ilustra melhor a maturação do produto do que a guerra das comissões. A taxa de gestão de um ETF, a chamada expense ratio, é a fatia que o emitente retira todos os dias do valor do fundo. Parece pequena, mas ao longo de anos e sobre milhares de milhões faz diferença, e os emitentes sabem-no. O IBIT cobra 0,25%, mas já não é o mais barato do mercado: a corrida para o fundo levou vários concorrentes para a casa dos 0,15% a 0,20%, segundo a comparação de comissões da Motley Fool.
| Fundo (ETF de Bitcoin à vista) | Ticker | Comissão anual | Nota |
|---|---|---|---|
| Grayscale Bitcoin Mini Trust | BTC | 0,15% | a mais baixa em permanência |
| Franklin Bitcoin ETF | EZBC | 0,19% | emitente tradicional |
| Bitwise Bitcoin ETF | BITB | 0,20% | casa focada em cripto |
| VanEck Bitcoin ETF | HODL | 0,20% | isenção total até 31 de julho de 2026 |
| iShares Bitcoin Trust (BlackRock) | IBIT | 0,25% | o maior por ativos |
O paradoxo é que o fundo mais caro continua a ser, de longe, o maior. A comissão não é a única coisa que o investidor institucional pondera: a liquidez, a profundidade do livro de ordens e a facilidade de entrar e sair de posições grandes sem mover o preço pesam tanto ou mais do que uns pontos base de comissão. É por isso que o dinheiro grande tolera pagar mais no IBIT, paga pela porta larga. Para o investidor de longo prazo que compra e guarda, porém, a matemática inverte-se, e cada décimo de ponto percentual compõe-se ano após ano contra o retorno final.
IBIT, o gigante que distorce o quadro
Convém encarar de frente o efeito de escala do IBIT, porque ele contamina a leitura de quase todos os fluxos. Com cerca de 59 mil milhões de dólares em ativos e uma quota que ronda os três quintos de toda a categoria, o fundo da BlackRock não é um participante entre muitos: é o mercado. Quando agosto fechou como o melhor mês de 2026, com 3,52 mil milhões de dólares em entradas líquidas e os ativos totais a saltarem de cerca de 76 para perto de 100 mil milhões de dólares, segundo a compilação da KuCoin, o IBIT esteve por trás da maior parte do movimento. E quando setembro abriu a vermelho, o mesmo fundo respondeu por 85% da saída.
Isto tem uma consequência prática para quem lê fluxos: muitas vezes, o fluxo do mercado e o fluxo do IBIT são a mesma frase. Uma decisão de um só gestor de carteiras, um só reequilíbrio trimestral de um grande alocador, chega para tingir o número de todo o setor. A cauda longa dos fundos mais pequenos existe, mas mexe pouco. O placar abaixo resume o estado de coisas no fim de agosto e no arranque de setembro de 2026.
| Métrica (2026) | ETF de Bitcoin à vista | ETF de Ethereum à vista |
|---|---|---|
| Entradas líquidas em agosto | cerca de 3,52 mil milhões de dólares, o melhor mês de 2026 | cerca de 1,42 mil milhões em nove sessões seguidas (17 a 28 de agosto) |
| Ativos totais e fundo líder | perto de 100 mil milhões; IBIT com cerca de 59 mil milhões | ETHA com cerca de 12,74 mil milhões |
| Concentração no líder | IBIT com 85% da saída de 1 de setembro | ETHA com cerca de 72% das entradas do período |
| Sinal estrutural | 782.210 BTC acumulados no IBIT | mais de 42 milhões de ETH em staking |
O caso do Ethereum: quando o embrulho passou a render
O Ethereum acrescenta uma peça que o Bitcoin não tem: o staking. Quem detém Ether pode bloqueá-lo para ajudar a validar a rede e receber uma recompensa por isso, um rendimento nativo na casa dos poucos por cento ao ano. Durante o primeiro ano dos ETF de Ether, esse rendimento ficava em cima da mesa: os fundos detinham Ether mas não o punham a trabalhar, e o investidor perdia o juro. Agosto de 2026 mostrou o apetite renovado pela classe, com cerca de 1,42 mil milhões de dólares a entrarem em nove sessões consecutivas e o fundo da BlackRock, o ETHA, a captar cerca de 72% desse total, segundo a crypto.news.
A viragem regulatória veio em março de 2026, quando a SEC e a CFTC publicaram uma interpretação conjunta a classificar o staking, incluindo o staking líquido, como uma atividade que não constitui, por si, a oferta de um valor mobiliário, como resumiu a análise da Ropes & Gray. Foi essa clareza que destrancou os fundos com staking. A BlackRock lançou o iShares Staked Ethereum Trust, de ticker ETHB, que faz staking de uma parte do Ether e distribui as recompensas líquidas de comissões; a taxa foi reduzida para 0,12% sobre os primeiros 2,5 mil milhões de dólares de ativos durante os primeiros doze meses, segundo a ficha do produto da iShares. Antes disso, no início de 2026, um produto da Grayscale tinha-se tornado o primeiro ETP de cripto à vista dos Estados Unidos a distribuir recompensas de staking, noticiou a Bitcoin.com. Note-se a diferença dentro da própria casa BlackRock: o ETHA, o fundo à vista clássico e ainda o maior, não faz staking; o ETHB, mais recente, faz.
O rendimento não vem de graça. O Ether em staking está sujeito a filas de entrada e de saída da rede, o que cria uma tensão de liquidez: um fundo que promete resgates rápidos não pode ter todo o seu Ether bloqueado, sob pena de não conseguir devolver moeda a tempo. Gerir esse equilíbrio entre render mais e poder resgatar depressa é o novo desafio destes produtos, e é uma variação do debate mais amplo sobre o rendimento real contra a taxa base que percorre toda a cripto em 2026. Quando as taxas dos bancos centrais estão altas, um juro de staking de poucos por cento tem de competir com a dívida pública sem risco, e a atratividade do embrulho que rende sobe ou desce ao ritmo dessa comparação.
Há ainda um efeito de segunda ordem que merece nota. Quando a procura dos ETF e o staking retiram Ether de circulação ao mesmo tempo, a fração de moeda facilmente disponível para venda encolhe, e uma oferta mais apertada tende a amplificar tanto as subidas como as descidas. É um lembrete de que os fluxos não atuam no vácuo: interagem com quanto ativo existe de facto solto no mercado, e um embrulho que ao mesmo tempo compra e bloqueia moeda tem um efeito diferente de um que apenas compra.
Ler o fluxo sem se enganar
Chegados aqui, o leitor tem a máquina montada na cabeça e pode fazer a pergunta mais útil de todas: o que é que um fluxo positivo realmente diz sobre o mercado? Menos do que parece. Uma parte significativa das entradas não é convicção direcional nenhuma; é arbitragem. O negócio de base, o carry, consiste em comprar o ativo à vista, ou o ETF, e vender em simultâneo futuros na CME para capturar o prémio entre os dois, numa posição neutra ao preço. Quando esse prémio está gordo, entra dinheiro no ETF que nada tem que ver com apostas na subida do Bitcoin; é pura extração de spread, como explicámos ao destrinçar a base dos futuros que virou moeda. Ler uma entrada dessas como otimismo é confundir o mecânico com o piloto.
Há mais ruído a filtrar: reequilíbrios de fim de trimestre, alocações de carteiras modelo que entram todas no mesmo dia, colheita de prejuízos fiscais no fim do ano. Tudo isto move o fluxo sem mover a tese. Não surpreende, por isso, que os analistas que acompanham estes produtos há mais tempo peçam calma perante os números diários. Eric Balchunas argumentou que as saídas dos ETF de Bitcoin são «ruído» enquanto Wall Street reforça a aposta na cripto, em análise citada pela CoinDesk; ele e Nate Geraci, presidente da The ETF Store, têm descrito as saídas recentes como «mecânica normal de mercado», e não como perda de convicção institucional. A lição para o leitor é simples: um único dia de fluxo diz quase nada; a direção ao longo de semanas diz alguma coisa; e mesmo essa tem de ser lida sabendo quanto do total é arbitragem disfarçada de fé.
A realidade europeia: porque não pode comprar o IBIT
Aqui chega o ponto que mais interessa a quem lê a partir de Lisboa ou do Porto: nada disto está, na prática, ao seu alcance direto. O IBIT e os seus pares são fundos cotados e registados nos Estados Unidos, sem o documento de informação fundamental exigido pela regulação europeia PRIIPs, o que significa que não podem ser comercializados junto do investidor de retalho na União Europeia. Uma corretora que sirva clientes portugueses não os oferece a retalho, e a razão não é caprichosa.
Há também um obstáculo estrutural mais fundo. O selo UCITS, que define o fundo de investimento europeu vendável a retalho, exige diversificação e uma lista de ativos elegíveis onde uma única criptomoeda à vista não cabe. Por isso não existe, nem pode existir por enquanto, um ETF de Bitcoin à vista à americana dentro do quadro UCITS. O que a Europa oferece é outra coisa: os ETP, produtos negociados em bolsa fisicamente garantidos, emitidos por casas como a 21Shares, a WisdomTree, a CoinShares, a Bitwise ou a Hashdex, e cotados em praças como a Deutsche Börse Xetra, a SIX suíça ou a Euronext. O regulador britânico chegou mesmo a abrir o acesso destes ETP ao retalho em 2026, noticiou o The Block.
A diferença entre um ETF e um ETP não é semântica. Um ETF norte-americano é um fundo que detém o ativo em nome dos participantes. Um ETP europeu é, tecnicamente, um título de dívida, uma nota emitida por um veículo e garantida a 100% pela criptomoeda que ele guarda com um custodiante. Na prática, isto introduz um risco de emitente e de contraparte que o modelo de fundo não tem, ainda que os bons emitentes o mitiguem com colateral físico segregado e auditado. Para o investidor português, o caminho passa por estes ETP, através da sua corretora, com o documento PRIIPs a explicar os riscos e sob a alçada da CMVM enquanto autoridade nacional que supervisiona a comercialização e a informação ao cliente. Vale a pena ler esse documento até ao fim antes de confundir um ETP europeu com o IBIT que aparece nas manchetes.
| Característica | ETF à vista (EUA) | ETP de cripto (Europa) |
|---|---|---|
| Estrutura jurídica | fundo que detém o ativo | título de dívida garantido por ativo |
| Exemplos | IBIT, ETHA, ETHB, HODL | 21Shares, WisdomTree, CoinShares, Bitwise |
| Acesso do retalho na UE | não, por falta de documento PRIIPs | sim, via corretora, com documento PRIIPs |
| Risco de emitente e contraparte | baixo, pelo modelo de fundo | presente, mitigado por colateral físico segregado |
| Supervisão relevante em Portugal | SEC, nos EUA | CMVM e regras europeias (MiCA, PRIIPs) |
A camada de derivados por cima do embrulho
Uma última peça, muitas vezes esquecida, senta-se por cima de tudo o resto: os derivados sobre o próprio ETF. Desde que passaram a existir opções cotadas sobre o IBIT, formou-se uma camada inteira de estratégias por cima do fundo, das calls cobertas que geram rendimento às puts de proteção que limitam perdas. Essa camada não é decorativa: quando os criadores de mercado que vendem essas opções se cobrem comprando ou vendendo participações do ETF, alimentam de volta o mesmo mecanismo de criação e resgate que descrevemos, e podem amplificar movimentos em dias de grande exposição. O embrulho gerou o seu próprio ecossistema, e o fluxo que lemos já incorpora, sem o dizer, a sombra desses hedges.
O que vigiar a seguir
Setembro de 2026 é um mês de dados densos, e os fluxos vão balançar ao ritmo das expectativas de taxas de juro: o relatório de emprego, a inflação e a reunião da Reserva Federal ditam o apetite por risco, e cada surpresa reescreve o sinal dos ETF em poucas horas. Vale a pena ler esse calendário pelas probabilidades, como fizemos ao acompanhar o setembro cripto lido pelas apostas, em vez de reagir a cada número diário como se fosse veredito.
- A fasquia dos 100 mil milhões de dólares em ativos, que a categoria de Bitcoin tocou de raspão no fim de agosto e que, uma vez cruzada em permanência, muda a escala do produto.
- O amadurecimento da era em espécie: à medida que a criação e o resgate em Bitcoin se generalizam, os spreads deverão apertar e a fricção fiscal cair, tornando os fundos ainda mais eficientes.
- O fosso do staking no Ethereum: se os fundos que rendem, como o ETHB, começarem a drenar ativos dos que não rendem, como o ETHA, o rendimento passará a ser um critério tão decisivo como a comissão.
Fica a ideia central para levar para casa. O fluxo é um número honesto, mas incompleto. Por baixo dele há intermediários, cestos, custódia fria, arbitragem e, agora, juro de staking. Quem souber ler a máquina por baixo do número estará melhor preparado para distinguir a maré real da espuma diária, e para não comprar euforia nem vender pânico só porque uma linha ficou verde ou vermelha ao fecho.
Perguntas frequentes
O que é exatamente um fluxo de ETF?
É o saldo líquido entre as participações criadas e resgatadas de um ETF num período, convertido em dólares. Um fluxo positivo significa que nasceram mais participações do que as destruídas, obrigando o fundo a deter mais ativo. Não é o mesmo que a pressão de compra e venda na bolsa ao longo do dia, que ocorre no mercado secundário sem alterar a quantidade de Bitcoin dentro do fundo.
Um investidor em Portugal pode comprar o IBIT da BlackRock?
Em regra não, a retalho. O IBIT é um fundo registado nos Estados Unidos e não dispõe do documento de informação fundamental PRIIPs exigido na União Europeia, pelo que não é comercializado junto do investidor de retalho europeu. O caminho habitual é através de ETP de cripto fisicamente garantidos, emitidos por casas europeias e cotados em bolsas da UE, adquiridos por meio de uma corretora e sob supervisão da CMVM.
Qual é a diferença entre um ETF e um ETP de cripto?
Um ETF é um fundo que detém o ativo em nome dos participantes. Um ETP europeu é, do ponto de vista jurídico, um título de dívida garantido a 100% pela criptomoeda que guarda com um custodiante. A exposição ao preço é semelhante, mas o ETP acrescenta um risco de emitente e de contraparte que os bons emitentes procuram mitigar com colateral físico segregado e auditado.
O que mudou com a criação e o resgate em espécie?
Em julho de 2025, a SEC passou a permitir a criação e o resgate em espécie para os ETF de Bitcoin e Ethereum à vista, ou seja, a troca de participações pelo próprio ativo em vez de dinheiro. A mudança reduz custos, aperta spreads e melhora a eficiência fiscal, alinhando estes fundos com o funcionamento dos ETF de ouro. O benefício direto é sobretudo para os intermediários autorizados que gerem os cestos.
Os ETF de Ethereum pagam o rendimento do staking?
Alguns sim, desde 2026. Depois de a SEC e a CFTC esclarecerem, em março de 2026, que o staking não constitui por si a oferta de um valor mobiliário, surgiram fundos que fazem staking do Ether e distribuem as recompensas líquidas de comissões, como o iShares Staked Ethereum Trust (ETHB). Outros, como o ETHA, continuam a deter Ether sem o pôr a render. O rendimento tem como contrapartida filas de entrada e saída na rede, que criam tensão com a liquidez dos resgates.
Rita Ferreira é editora de mercados da HOGE Wire e escreve sobre estrutura de mercado, ETP e fluxos institucionais em cripto.