O chão que sobe: o rendimento real contra a taxa base em 2026
O discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole voltou a pôr a taxa base a subir. Para o rendimento real da DeFi, o chão deixou de estar parado e passou a correr atrás dos juros que os protocolos pagam.
Na sexta-feira, 28 de agosto, em Jackson Hole, Kevin Warsh fez exatamente o contrário daquilo que os mercados queriam ouvir. O presidente da Reserva Federal norte-americana disse que o banco central ainda tem «trabalho a fazer» para trazer a inflação de volta aos 2%, classificou a leitura mais recente do índice PCE de «preocupante» e deixou a porta aberta a uma subida de juros em setembro. A reação foi imediata: a taxa das Treasuries a dois anos saltou mais de 12 pontos base, para 4,356%, e as probabilidades de uma subida em setembro dispararam para 57,5%, contra 35,4% no dia anterior, segundo a ferramenta CME FedWatch.
Durante quase dois anos, a conversa sobre rendimento na DeFi girou à volta de uma única ideia: os rendimentos estavam a cair. Os juros dos protocolos comprimiam-se em direção a uma taxa base estável, ancorada nos bilhetes do Tesouro norte-americano em cerca de 3,42%. O discurso de Warsh introduz uma reviravolta que muda o cálculo por completo. E se a base não estiver parada? E se, em vez de os rendimentos caírem até ao chão, for o chão a subir ao encontro deles?
Este artigo percorre o que uma taxa base a subir faz a cada fonte de rendimento real on-chain: quem ganha (surpreendentemente, os tesouros tokenizados), quem fica espremido (as recompras, o funding, o staking) e o que tudo isto significa para um investidor que pensa em euros, apanhado entre dois bancos centrais subitamente agressivos. O rendimento real continua a ser a métrica que separa a receita a sério das emissões inflacionárias de tokens; o que mudou foi a fasquia que esse rendimento tem de superar.
O que Warsh disse, e porque conta para a cadeia
O discurso de abertura de Warsh no simpósio de Jackson Hole foi lido pelos mercados como deliberadamente restritivo. O presidente da Fed afirmou estar «impressionado» com a robustez da economia, mas preocupado por as «tendências subjacentes» da inflação não terem melhorado; recordou que o PCE se manteve em 3,7% em julho e reafirmou que os 2% são um «alvo firme e fixo». Nada disto soa a um banco central prestes a cortar juros. Como resumiu Vail Hartman, estratega de taxas do BMO, em declarações à CNBC, foi «um discurso deliberadamente agressivo que porá fim a qualquer dúvida sobre a disposição da Fed para subir juros».
O intervalo dos fed funds está em 3,50%-3,75% desde julho, o quinto encontro consecutivo sem alterações, segundo os dados da Trading Economics. A diferença é que, até agora, a expectativa dominante era de estabilidade ou de cortes. Depois de sexta-feira, o mercado passou a atribuir mais de metade da probabilidade a uma subida. Para quem investe em cripto, isto não é ruído macro distante: a taxa sem risco em dólares é a gravidade de todo o rendimento. Quando ela sobe, tudo o que rende menos do que ela, ajustado ao risco, perde atratividade. Foi precisamente esse mecanismo que analisámos em Warsh levanta o chão: a base dos futuros contra a taxa sem risco, e ele aplica-se com igual força ao rendimento on-chain.
Rendimento real, em três linhas
Convém fixar a definição antes de avançar. Rendimento real é o juro que vem de receita genuína de um protocolo: comissões de troca, juros de empréstimos, funding de perpétuos, MEV capturado, cupões de ativos do mundo real. Opõe-se ao rendimento inflacionário, aquele que um protocolo paga imprimindo mais unidades do seu próprio token e diluindo quem já o detém. O teste mais simples é mental: se o token de incentivos fosse a zero amanhã, o rendimento sobreviveria? Se sim, é real; se não, era uma emissão disfarçada.
A segunda regra é medir sempre o rendimento líquido de incentivos. Um pool que paga 12% mas distribui 10% em tokens novos oferece, na prática, 2% de rendimento real. A terceira regra, a que este artigo acrescenta, é que o número que interessa não é o rendimento nominal, mas o spread sobre a taxa base. Um protocolo que paga 4% num mundo de base a 3,42% oferece 0,58 pontos de prémio pelo risco de contrato inteligente, de peg e de liquidez que se assume. Se a base subir para 4%, esse prémio evapora-se, mesmo que o rendimento nominal do protocolo não mexa um único ponto. É esta a lente que muda tudo depois de Jackson Hole.
A taxa base deixou de ser um chão parado
Durante 2026, a narrativa foi a da compressão: os rendimentos exuberantes de 2024 e 2025 caíam, um a um, em direção à taxa dos bilhetes do Tesouro tokenizados, que servia de âncora estável. A tese assentava num pressuposto: a Fed estava em pausa, logo a base aguentava-se. O discurso de Warsh ataca esse pressuposto. Se a Fed subir em setembro, o intervalo passa para 3,75%-4,00% e os rendimentos de curto prazo em dólares acompanham. A taxa SOFR, referência do dinheiro overnight em dólares, já rondava os 3,64% no final de agosto. A tabela seguinte mostra o empilhamento da taxa base tal como estava a fechar o mês.
| Referência | Nível (fim de agosto 2026) | Direção |
|---|---|---|
| Fed funds (limite superior) | 3,75% | pressão de subida (setembro ~57,5%) |
| Treasury a 2 anos | 4,356% | +12 pb no dia do discurso |
| SOFR (overnight) | ~3,64% | acompanha a Fed |
| Bilhetes do Tesouro tokenizados (APY 7d) | ~3,42% | a subir com a base |
| Taxa de depósito do BCE | 2,25% | +25 pb esperados em setembro |
| sUSDe (Ethena) | ~4,1% | a comprimir |
| Sky Savings Rate | 3,75% | definida por governação |
O ponto da tabela não é cada linha isolada, mas a seta na última coluna. Pela primeira vez em muitos meses, a maioria das referências aponta para cima. O chão que servia de âncora aos rendimentos on-chain começou, ele próprio, a mexer, e a mexer no sentido que menos convém a quem depende de um prémio fino sobre ele. Repare-se que já hoje várias fontes de rendimento cripto, como o staking de ETH a menos de 3%, rendem abaixo da taxa base; uma subida só alarga esse fosso.
Os tesouros tokenizados: o vencedor paradoxal
Há uma categoria que não teme uma taxa base a subir: aquela que é a própria taxa base. Os tesouros tokenizados, fundos que detêm dívida de curto prazo do Tesouro norte-americano e emitem um token que representa essa posição, não lutam contra a Fed; passam-na diretamente ao investidor. Se a Fed subir, o cupão sobe com ela. Num mundo em que quase tudo o resto vê o seu prémio encolher, o produto que replica a base torna-se, paradoxalmente, mais atraente.
Os números confirmam a corrida. Segundo o painel da rwa.xyz, o valor dos tesouros tokenizados chegou a cerca de 16,21 mil milhões de dólares (perto de 13,9 mil milhões de euros) distribuídos por 87 produtos, dentro de um mercado total de ativos do mundo real que ultrapassou os 38 mil milhões de dólares a 9 de agosto. À cabeça estão a USYC da Circle, com cerca de 3 mil milhões, o BUIDL da BlackRock, com 2,68 mil milhões, o USDY da Ondo, com 2,14 mil milhões, e o iBENJI da Franklin Templeton, com 1,72 mil milhões. O número de detentores de ativos tokenizados subiu mais de 56% num único mês, para perto de 1,7 milhões de carteiras.
Há, no entanto, uma nota de rodapé importante para o leitor português. Estes produtos entregam a taxa base menos as comissões de gestão, custódia e emissão, e pouco mais. O prémio sobre o Tesouro é praticamente nulo, porque o produto é o Tesouro. O rendimento não vem de um risco cripto compensado, mas do próprio risco soberano dos Estados Unidos, mais o risco de contraparte do emitente do token. E, para quem investe em euros, há ainda uma camada de risco cambial que voltaremos a abordar mais à frente, porque é aí que o cálculo se complica.
A compressão ao contrário
A grande história de 2026 foi a compressão: rendimentos a caírem em direção à base. O que o discurso de Warsh introduz é a compressão ao contrário. O spread que importa, rendimento menos taxa base, pode estreitar-se de duas maneiras. A primeira é o rendimento cair, e isso já vinha a acontecer em quase todo o lado. A segunda, nova, é a base subir para o encontrar. Somadas, as duas apertam o prémio pelas duas pontas ao mesmo tempo.
Um exemplo concreto ajuda. Uma stablecoin de rendimento que pagava 4,5% com a base em 3,42% oferecia pouco mais de um ponto de prémio. Se o rendimento descer para 4,1% e a base subir para 3,9%, o prémio cai para 0,2 pontos, uma quase-nulidade que dificilmente compensa o risco de despeg, de exploração de contrato ou de falha de oráculo. Ninguém precisou de anunciar um corte de juros dramático; bastou o chão mover-se meio ponto para transformar um investimento marginalmente atrativo num que não paga o seu próprio risco. É este o silencioso teste de stress que a cadeia enfrenta nas próximas semanas.
Hyperliquid e a recompra que encolhe
Nenhum protocolo ilustra melhor o aperto do que a Hyperliquid, a bolsa de perpétuos que lidera o ranking de rendimento distribuído a detentores. O seu Assistance Fund canaliza cerca de 97% das comissões para recomprar HYPE no mercado aberto e retirá-lo de circulação; já foram retirados cerca de 44,5 milhões de tokens. O problema é a tendência. A recompra trimestral caiu de cerca de 290 milhões de dólares no terceiro trimestre de 2025 para perto de 149 milhões (cerca de 128 milhões de euros) no segundo trimestre de 2026, uma queda de aproximadamente 51%. A receita bruta seguiu o mesmo caminho, de um pico de cerca de 357 milhões para perto de 202 milhões, uma descida de aproximadamente 43%, segundo dados da DefiLlama.
A causa é reveladora. Os mercados criados por terceiros ao abrigo do HIP-3, dominados pelos perpétuos de ativos do mundo real da Trade.xyz, já representam mais de metade do volume, contra cerca de 2% no início do ano, mas partilham uma fatia muito maior das comissões com quem os implementa. A CoinDesk resumiu-o numa frase: o boom dos perpétuos de RWA está a comer a receita que sustenta o HYPE. A dinâmica é a mesma que dissecámos em A máquina de carry: quem ganha o funding dos perpétuos: quando o funding e as comissões se repartem por mais intervenientes, sobra menos para o token.
A resposta em cima da mesa divide os analistas. A Hyperliquid estuda triplicar as comissões do HIP-3, retirando o desconto de 90% que hoje protege quem opera em modo de crescimento. Ryan Watkins, da Syncracy Capital, é otimista e defende que «aumentos graduais de comissões estão no horizonte, e até pequenas mudanças levam a receitas várias vezes maiores». O analista Wazz discorda: subir as comissões, argumenta, elimina a vantagem de preço da plataforma e empurra os traders para alternativas mais baratas, uma jogada que classifica de «insana». No fundo, é o dilema de qualquer fonte de rendimento real quando a base sobe: cobrar mais para manter o prémio, arriscando espantar os utilizadores que geram esse prémio.
Aave, Uniswap e a engenharia das recompras
A Aave mostra a mesma pressão gerida com mais frieza contabilística. O protocolo gera cerca de 402 milhões de dólares de receita anualizada (perto de 345 milhões de euros), com comissões acumuladas acima de 2,21 mil milhões, e desde a entrada em vigor da Aavenomics 3.0 recompra AAVE de forma automática e imutável, ao ritmo de cerca de 292 tokens por dia. Stani Kulechov, fundador da Aave, descreveu o desenho, segundo a The Defiant, como «recompras imutáveis e automáticas de AAVE». Mas o sinal mais eloquente é outro: em março, a governação cortou o orçamento anual de recompra de cerca de 50 para 30 milhões de dólares, invocando uma quebra de 25% na receita de juros de empréstimo face ao pico. Um protocolo que reduz a sua própria recompra está, na prática, a admitir que o prémio encolheu.
A Uniswap tomou o caminho oposto: ligou a torneira. A 28 de dezembro de 2025, a proposta UNIfication ativou o fee switch com uma votação esmagadora (125 milhões de tokens a favor, 742 contra), redirecionando cerca de um sexto das comissões de troca para contratos que compram e queimam UNI em sete redes. O arranque queimou de imediato 100 milhões de UNI, na altura perto de 600 milhões de dólares (cerca de 515 milhões de euros), e a Ark Invest estima queimas anualizadas na ordem dos 90 milhões. É a mesma máquina de captura de valor que descrevemos em O desenho dos AMM: a fórmula que move a bolsa on-chain: a comissão de troca é rendimento real, e a única questão é para onde ela flui.
Convém distinguir os três mecanismos, porque não são equivalentes. A recompra usa receita para comprar o token no mercado e distribui valor de forma indireta, sensível ao preço. A queima destrói unidades e beneficia todos os detentores por escassez, mas nada devolve em dinheiro. A partilha de comissões paga diretamente em stablecoins ou ETH a quem faz staking do token. Num ambiente de base a subir, o mecanismo importa menos do que a pergunta anterior: existe receita real e crescente para alimentar qualquer um deles? Se a receita cai, todos os três encolhem juntos.
Ethena e Sky: o rendimento vive no wrapper
As stablecoins de rendimento contam a história da compressão de forma quase didática. O sUSDe da Ethena pagava mais de 20% em 2024; caiu para 9,4% em abril, 7,1% em junho e ronda hoje os 4% a 4,5%, à medida que o funding dos perpétuos arrefeceu e o protocolo migrou parte das reservas para crédito institucional sobrecolateralizado e ativos do mundo real. A oferta de USDe situa-se em torno de 4,47 mil milhões de dólares, de acordo com a DefiLlama. Com a base a caminhar para os 4%, um rendimento de 4,1% deixa de ser um prémio; é praticamente a base, com risco cripto por cima.
A Sky, antiga MakerDAO, oferece o contraste do rendimento administrado. A Sky Savings Rate está fixada em cerca de 3,75%, definida por governação e financiada por receita real, sobretudo cupões de bilhetes do Tesouro na sua reserva. O sUSDS acumulou perto de 3,4 mil milhões de dólares e já distribuiu mais de 250 milhões em rendimento desde o lançamento, segundo a própria Sky. Aqui há um ponto regulatório que o investidor europeu não pode ignorar: ao abrigo do MiCA, o emitente de uma stablecoin não pode pagar juros sobre a moeda em si. Por isso o rendimento vive sempre no wrapper, o sUSDS ou o sUSDe, e nunca no USDS ou no USDe simples. Não é um detalhe técnico; é a fronteira legal que decide onde o rendimento pode existir.
O staking de ETH contra a nova fasquia
O staking nativo de Ethereum é o exemplo mais nítido de um rendimento que já perdeu a corrida contra a base. A taxa base de consenso ronda os 2,7%, e mesmo somando comissões de prioridade e MEV, os validadores bem geridos ficam entre 3% e 3,8%. Estes são os rendimentos mais baixos em três anos, precisamente quando a participação atingiu um máximo histórico: cerca de 33,98% de todo o ETH está em staking, mais de 41 milhões de moedas distribuídas por perto de 900 mil validadores. Mais capital a perseguir a mesma recompensa significa menos recompensa por unidade.
Quando a base estava em 3,42%, um rendimento de staking de 2,7% já ficava abaixo do bilhete do Tesouro. Se a Fed subir, o fosso alarga-se para quase um ponto e meio. É certo que o staking de ETH não é comparável a um Tesouro em dólares: expõe o investidor à valorização do ETH, que pode superar qualquer juro, e comporta risco de slashing e de saída da fila de validadores. Mas quem faz staking apenas pelo rendimento, e não pela exposição ao ativo, está a aceitar render menos do que a alternativa sem risco. É uma das tensões que exploramos em O muro dos 50%: o staking que vai decidir a oferta do ETH, e a taxa base a subir só a torna mais aguda.
A concentração do rendimento
Há um segundo risco que a compressão amplifica: quase todo o rendimento real distribuído na DeFi vem de um punhado de protocolos. Ao longo dos últimos 30 dias, os dez maiores geraram 87% de todo o rendimento pago a detentores, enquanto os restantes 90% dos protocolos repartiram apenas 13%, segundo dados compilados pela Crypto Briefing a partir da DefiLlama. Só três nomes, Hyperliquid, edgeX e Pump.fun, concentraram mais de 71% do total.
| Protocolo | Rendimento a detentores (30d) | Quota do total DeFi | Mecanismo |
|---|---|---|---|
| Hyperliquid | ~53,5 milhões de dólares | 38,4% | recompra (Assistance Fund) |
| edgeX | ~23,3 milhões de dólares | 16,7% | recompra e partilha |
| Pump.fun | ~22,9 milhões de dólares | 16,4% | recompra |
| Top 10 (agregado) | 87% do total | – | vários |
| Restantes 90% dos protocolos | 13% do total | – | vários |
Esta concentração é uma fragilidade. Se a receita do líder cair, como está a acontecer com a Hyperliquid, uma fatia enorme do rendimento real de toda a DeFi cai com ela. É a mesma dinâmica de vencedor que descrevemos noutro contexto em O vencedor leva tudo: fluxos de ETF e a longa cauda que morre: o topo captura quase tudo e a cauda longa definha. Para quem constrói uma carteira de rendimento, isto significa que a diversificação entre dez protocolos pode ser, na verdade, uma aposta concentrada em duas ou três fontes de receita correlacionadas.
O euro entre dois bancos centrais agressivos
Aqui está a reviravolta que distingue esta fase das anteriores. Nas discussões de rendimento real de há uns meses, o investidor europeu era retratado a perseguir um rendimento em dólares com um euro fraco. Agora não é bem assim. O EUR/USD fechou o dia do discurso de Warsh perto de 1,164, junto de um máximo de três meses, porque o Banco Central Europeu também virou agressivo. A taxa de depósito está em 2,25%, uma subida de 25 pontos base em setembro está quase totalmente descontada e o mercado chega a antecipar 2,80% até março. Não é uma corrida de um banco central; são dois a subir ao mesmo tempo.
Para o investidor em euros, isto muda o cálculo em dois sentidos. Primeiro, a taxa sem risco em casa também sobe, o que estreita o ganho de perseguir um rendimento em dólares. Segundo, o risco cambial deixou de apontar sempre a favor: se o BCE for mais agressivo do que a Fed, o euro reforça-se e um rendimento em dólares perde valor quando convertido de volta. A tabela seguinte mostra, num cenário ilustrativo a doze meses, o que acontece a um rendimento em dólares de cerca de 3,4% consoante o movimento do EUR/USD.
| Cenário EUR/USD (12 meses) | Efeito cambial | Rendimento em dólares | Retorno líquido em euros |
|---|---|---|---|
| Dólar reforça 3% (1,164 para 1,129) | favorável | +3,4% | ~+6,5% |
| Estável (1,164) | neutro | +3,4% | ~+3,4% |
| Euro reforça 3% (1,164 para 1,199) | adverso | +3,4% | ~+0,4% |
| Euro reforça 5% (1,164 para 1,222) | adverso | +3,4% | ~-1,5% |
A leitura é desconfortável: um movimento de 5% no EUR/USD, algo perfeitamente comum num ano, apaga por completo o rendimento e ainda deixa o investidor em prejuízo. O prémio fino que a taxa base a subir já estava a comprimir pode ser inteiramente engolido pelo câmbio antes sequer de se falar de risco de contrato inteligente. Para um leitor português, a moeda não é um detalhe; é muitas vezes o maior risco da posição.
CMVM, Banco de Portugal e o enquadramento MiCA
Do lado regulatório, o quadro em Portugal é claro na estrutura, ainda que cinzento nos detalhes. A CMVM é a autoridade de conduta de mercado, enquanto o Banco de Portugal trata do registo dos prestadores de serviços de criptoativos e das questões prudenciais e de stablecoins. Acima de ambos está o MiCA, cujo período transitório para os antigos prestadores nacionais termina a 1 de julho de 2026; a lei portuguesa que o concretiza, a Lei n.º 69/2025, está em vigor desde 27 de dezembro de 2025. Quem opera com produtos de rendimento em cripto deve confirmar que a plataforma que usa está autorizada, e não apenas em regime transitório a caminho do fim.
O ponto do MiCA que mais afeta o rendimento real já foi referido: os artigos que regem as stablecoins proíbem o pagamento de juros sobre a própria moeda. É por isso que o rendimento se aloja sempre nos wrappers, e é por isso que um produto que promete juros diretos sobre uma stablecoin deve acender um sinal de alerta. A separação entre a moeda e o instrumento que rende não é uma subtileza de marketing; é uma exigência legal com consequências sobre onde e como o rendimento pode ser oferecido a residentes na União Europeia.
Na fiscalidade, a regra portuguesa distingue dois mundos. Os rendimentos periódicos, como as recompensas de staking, tendem a ser tratados como rendimentos de capitais, na Categoria E, tributados a 28% no momento em que são recebidos, sem beneficiarem da isenção dos 365 dias. Essa isenção aplica-se às mais-valias na alienação de criptoativos detidos há mais de um ano, um regime distinto. O tratamento de tokens que acumulam valor internamente, como o sUSDS que se valoriza sem pagar nada em dinheiro, permanece ambíguo à luz da orientação atual da Autoridade Tributária, pelo que qualquer investidor com posições relevantes deve procurar aconselhamento antes de assumir um enquadramento.
Como medir o rendimento real quando o chão sobe
Se a taxa base deixou de estar parada, a forma de avaliar um rendimento tem de mudar com ela. Em vez de olhar para o número grande no ecrã, vale a pena passar cada oportunidade por uma sequência curta de perguntas antes de comprometer capital.
- Qual é o spread sobre a taxa base, e não o rendimento nominal? Se a diferença for inferior a um ponto, o prémio pode não pagar o risco cripto.
- O rendimento sobrevive se o token de incentivos for a zero? Só assim se trata de receita real e não de emissão disfarçada.
- A receita do protocolo está a crescer ou a cair? A recompra da Hyperliquid encolheu cerca de metade num ano; uma receita em queda arrasta consigo qualquer mecanismo de distribuição.
- Quem recebe o valor, e como? Recompra, queima ou partilha de comissões, e o mecanismo é automático e imutável ou depende de votação a cada ciclo?
- Em que moeda está o risco? Para um investidor em euros, um rendimento em dólares pode ser apagado por um movimento cambial de poucos pontos percentuais.
- Onde vive o rendimento e como é tributado? Se é um wrapper, confirme o enquadramento na Categoria E ou em mais-valias antes de contar com o valor líquido.
Nenhuma destas perguntas é nova, mas a taxa base a subir torna-as todas mais exigentes ao mesmo tempo. O rendimento real não desapareceu; apenas passou a competir com um chão que se recusa a ficar quieto. Quem medir o prémio, e não o número, continuará a encontrar oportunidades genuínas. Quem olhar apenas para o rendimento nominal arrisca-se a descobrir, no fim do ano, que a taxa sem risco fez o trabalho todo com metade do risco.
Perguntas Frequentes
O que é o rendimento real na DeFi?
É o juro que provém de receita genuína de um protocolo, como comissões, juros de empréstimos, funding de perpétuos ou cupões de ativos do mundo real, por oposição ao rendimento pago com a emissão de novos tokens. O teste prático é perguntar se o rendimento sobreviveria caso o token de incentivos fosse a zero; se sobreviver, é real.
Porque é que uma subida da taxa base prejudica o rendimento cripto?
Porque o que interessa não é o rendimento nominal, mas o spread sobre a taxa sem risco em dólares. Se os bilhetes do Tesouro passarem a render mais depois de uma subida da Fed, um protocolo que paga 4% deixa de compensar o risco de contrato inteligente, de peg e de liquidez que se assume para o obter.
O que são tesouros tokenizados e porque crescem tanto?
São fundos que detêm dívida de curto prazo do Tesouro norte-americano e emitem um token que representa essa posição on-chain. Crescem porque passam diretamente ao investidor a taxa base em dólares; num ambiente de juros a subir, tornam-se ainda mais atrativos. Rondavam os 16 mil milhões de dólares no final de agosto de 2026.
Como é tributado o rendimento de staking e DeFi em Portugal?
Em regra, os rendimentos periódicos, como o staking, são tributados como rendimentos de capitais (Categoria E) à taxa de 28% no momento em que são recebidos, sem a isenção dos 365 dias. As mais-valias na venda de cripto detida há mais de 365 dias podem estar isentas, mas o tratamento de tokens que acumulam valor internamente ainda é ambíguo; convém confirmar com um contabilista.
Vale a pena para um investidor em euros perseguir um rendimento em dólares?
Depende do risco cambial. Um rendimento de cerca de 3,4% em dólares pode ser totalmente apagado por uma valorização de 5% do euro em doze meses, algo comum. Com o BCE também a subir juros, a diferença entre a taxa base em euros e a taxa em dólares estreita-se, o que reduz o incentivo a assumir esse risco cambial.
Por Yuki Tanaka, editor de mercados on-chain da HOGE Wire.