O desenho dos AMM: a fórmula que move a bolsa on-chain em 2026
As DEX atingiram um recorde de 24% do volume à vista em 2026 e a Uniswap V4 já move metade delas. Explicamos como funcionam os AMM e porque dar liquidez é arriscado.
Em julho de 2026, o volume à vista das corretoras descentralizadas atingiu 24,16% do volume das centralizadas, o valor mais alto desde que o The Block começou a série em 2019 e um salto face aos menos de 10% que vigoraram durante quase todo o ano de 2024. Por trás deste avanço estrutural não está um livro de ordens nem uma mesa de negociação: está uma equação de três símbolos, x*y=k, e o mecanismo que a executa milhões de vezes por dia, o automated market maker (AMM).
O desenho dos AMM deixou de ser um detalhe técnico para se tornar o campo de batalha onde se decide quem ganha dinheiro na DeFi. A Uniswap V4, lançada em janeiro de 2025, já representa cerca de metade de todo o volume trimestral das DEX, segundo dados da Sentora, rivalizando sozinha com a Curve, a Balancer e a PancakeSwap somadas. Este artigo explica como funciona a máquina por dentro, porque é que fornecer liquidez é mais arriscado do que parece e como a guerra pelas comissões, pela perda impermanente e pelo MEV está a redesenhar o coração da bolsa on-chain.
O que é um AMM e porque destronou o livro de ordens
Um AMM é um contrato inteligente que substitui compradores e vendedores humanos por uma reserva de capital, o pool de liquidez, e por uma regra matemática que fixa o preço em função das quantidades depositadas. Numa bolsa tradicional, uma ordem de compra só é executada quando existe uma ordem de venda que lhe corresponda; alguém tem de estar do outro lado. Num AMM, o outro lado é sempre o pool. Quem quiser trocar ETH por uma stablecoin não precisa de encontrar contraparte: entrega ETH ao contrato, o contrato recalcula o preço segundo a fórmula e devolve a quantidade correspondente da stablecoin.
Essa reserva é alimentada por fornecedores de liquidez (liquidity providers, ou LP), que depositam pares de ativos e recebem em troca uma fatia das comissões cobradas a cada operação. O LP é passivo: não coloca ordens, não vigia o mercado, apenas empresta capital à curva. Em contrapartida, qualquer pessoa pode criar um mercado para qualquer par em segundos, sem pedir autorização e sem um intermediário a decidir que ativos podem ser listados. Foi esta ausência de porteiro que permitiu à DeFi listar dezenas de milhares de tokens que nenhuma corretora centralizada aceitaria.
O modelo tem um custo. Como o preço é definido pela fórmula e não por um confronto de ordens, uma operação grande move o preço ao longo da curva e o negociador sofre deslizamento (slippage). E porque a curva reage sempre com atraso ao preço externo, os LP ficam expostos a dois fenómenos que ocupam boa parte deste artigo: a perda impermanente e o loss-versus-rebalancing. Perceber estes dois custos é a única forma de saber se fornecer liquidez compensa ou destrói valor.
Vale a pena reter o nome técnico: um AMM é um constant function market maker, porque o que o define é a função (a invariante) que decide como o preço muda a cada operação. Trocar a função é trocar o comportamento do mercado, e foi exatamente aí que a inovação dos últimos anos se concentrou. O produto constante é apenas a invariante mais famosa, não a única, e cada família de curvas serve melhor um tipo de ativo: perceber isto é perceber porque é que, apesar de partilharem a mesma ideia base, um pool de stablecoins e um pool de um token volátil se comportam de forma tão diferente.
x*y=k: a fórmula que começou tudo
A regra mais simples e mais influente é o produto constante: x vezes y igual a k. Se um pool tiver x unidades de ETH e y unidades de uma stablecoin, o produto dos dois tem de permanecer igual a uma constante k a cada operação. O preço do ETH no pool é apenas o rácio y/x. Quando alguém compra ETH, retira ETH do pool (x desce) e adiciona stablecoin (y sobe); para manter k constante, o preço sobe automaticamente. Quanto maior a ordem face ao tamanho do pool, maior a subida, o que explica o deslizamento.
Um exemplo torna isto concreto. Imagine um pool hipotético com 100 ETH e 200.000 unidades de uma stablecoin: o produto k é 20 milhões e o preço implícito é de 2.000 por ETH. Se um negociador quiser comprar 10 ETH, o pool fica com 90 ETH e, para manter k constante, a reserva de stablecoin tem de subir para cerca de 222.222 unidades. O comprador paga, portanto, perto de 22.222 unidades por 10 ETH, ou seja um preço médio próximo de 2.222 por ETH, bem acima dos 2.000 iniciais. Essa diferença é o deslizamento, e cresce à medida que a ordem se aproxima do tamanho do pool.
A formulação foi popularizada por Vitalik Buterin num texto de março de 2018 no fórum ethresear.ch, onde discutia precisamente a resistência ao front-running (uma antevisão do que hoje chamamos MEV) e creditava a ideia à equipa da Gnosis. Meses antes, no final de 2017, Hayden Adams tinha começado a construir um protótipo com base na mesma intuição; com uma bolsa da Ethereum Foundation, transformou-o na Uniswap V1, lançada em novembro de 2018. A elegância do modelo é que cabe em poucas linhas de código e nunca fica sem liquidez: por muito que o preço se mova, há sempre alguma quantidade dos dois ativos no pool.
Essa mesma elegância é também a sua fraqueza. A curva não sabe qual é o preço «verdadeiro» do ETH no resto do mundo; limita-se a reagir a quem negoceia contra ela. São os arbitragistas que alinham o preço do pool com o mercado global, comprando quando o pool está barato e vendendo quando está caro. Cada um desses ajustes é um lucro para o arbitragista e, como veremos, um custo para o LP.
A escada de versões da Uniswap: de V1 a V4
Nenhum protocolo ilustra melhor a evolução do desenho de AMM do que a própria Uniswap. Em pouco mais de seis anos, o mesmo x*y=k passou de uma curva rudimentar a uma arquitetura programável que arrasta metade do volume on-chain.
| Versão | Lançamento | Inovação principal | Comissões |
|---|---|---|---|
| Uniswap V1 | Novembro de 2018 | Pares obrigatoriamente com ETH | 0,30% fixa |
| Uniswap V2 | Maio de 2020 | Qualquer par ERC-20; oráculo TWAP on-chain | 0,30% fixa |
| Uniswap V3 | Maio de 2021 | Liquidez concentrada; LP como NFT; até 4.000x de eficiência | 0,05% / 0,30% / 1,00% |
| Uniswap V4 | Janeiro de 2025 | Hooks; contrato singleton; flash accounting | Dinâmicas (via hooks) |
A V1 só permitia pares com ETH e cobrava uma comissão fixa de 0,30%. A V2, de maio de 2020, libertou os pares (qualquer ERC-20 contra qualquer ERC-20) e acrescentou um oráculo de preço TWAP on-chain, que passou a servir de referência a grande parte da DeFi. A V3, de maio de 2021, foi a grande rutura: introduziu a liquidez concentrada, transformou a posição do LP num NFT e criou vários escalões de comissão (0,05%, 0,30% e 1,00%) para diferentes perfis de risco, segundo a própria Uniswap. A V4, lançada a 31 de janeiro de 2025, não mexeu na matemática do produto constante mas reescreveu a arquitetura: um único contrato (singleton) para todos os pools, contabilidade relâmpago (flash accounting) que reduz drasticamente o custo de gás e, sobretudo, os hooks, pontos de extensão onde qualquer programador pode inserir lógica personalizada.
Liquidez concentrada: a revolução da V3
Na V1 e na V2, a liquidez de um LP espalhava-se por toda a curva de preços, de zero a infinito. O problema é evidente: se um par de stablecoins negoceia quase sempre entre 0,99 e 1,01, o capital colocado a um preço de 5 ou de 0,20 nunca é usado e não gera comissões. A liquidez concentrada resolve isto deixando o LP escolher a faixa de preços onde o seu capital fica ativo. Ao comprimir o mesmo capital numa banda estreita, a Uniswap estima ganhos de eficiência de capital até 4.000 vezes face à V2.
O ganho tem contrapartidas duras. Uma posição concentrada só cobra comissões enquanto o preço permanecer dentro da faixa escolhida; se o mercado sair da banda, a posição deixa de negociar e fica inteiramente convertida no ativo que se desvalorizou, uma versão amplificada da perda impermanente. Gerir liquidez concentrada tornou-se, por isso, uma atividade quase profissional, com fornecedores a reposicionar faixas continuamente e a competir com estratégias automatizadas. A liquidez deixou de ser passiva; passou a exigir vigilância, o que abriu caminho a gestores especializados e a protocolos que automatizam o reposicionamento em nome de quem prefere não estar colado ao ecrã.
Esta tensão deu origem a uma nova categoria de intervenientes. Fundos e bots especializados fornecem a chamada liquidez just-in-time, entrando num único bloco para capturar a comissão de uma grande operação e saindo logo a seguir, uma prática que divide a comunidade entre quem a vê como serviço e quem a vê como parasitismo dos LP passivos. Ao mesmo tempo, protocolos de gestão automatizada prometem reposicionar as faixas por quem não quer gerir a posição manualmente, cobrando por isso uma parte do rendimento. A promessa da liquidez concentrada, mais eficiência, veio acompanhada de mais complexidade e de mais formas de perder dinheiro.
Nem tudo é x*y=k: StableSwap, pools ponderadas e outras invariantes
O produto constante é ótimo para pares voláteis, mas péssimo para ativos que deviam valer o mesmo, como duas stablecoins ou um token e a sua versão em staking. Aí, a curva x*y=k impõe deslizamento desnecessário. A resposta veio em 2019 com a StableSwap da Curve, desenhada por Michael Egorov: mistura a soma constante (que dá preço plano e deslizamento quase nulo perto da paridade) com o produto constante (que garante liquidez nos extremos), regulada por um coeficiente de amplificação A que decide quão «plana» é a curva. É por isso que a Curve domina a troca de stablecoins e de ativos correlacionados.
No mesmo ano, a Balancer generalizou a ideia noutra direção: pools ponderadas de várias dimensões, onde é possível ter, por exemplo, 80% de um token e 20% de outro, ou cabazes de oito ativos que funcionam como um fundo de índice que se reequilibra sozinho. Estas famílias de invariantes são hoje as peças de Lego com que se constrói qualquer AMM.
| Modelo | Invariante | Ideal para | Exemplo |
|---|---|---|---|
| Produto constante | x*y=k | Pares voláteis | Uniswap V2 |
| StableSwap | Soma + produto constante | Ativos de igual valor (stablecoins) | Curve |
| Pools ponderadas | Produto ponderado | Cabazes multi-ativos | Balancer |
| Liquidez concentrada | x*y=k por faixa | Máxima eficiência de capital | Uniswap V3/V4 |
| Leilão em lote | Maximiza a função de produção | Anti-LVR e anti-MEV | CoW AMM |
Perda impermanente: o imposto silencioso do fornecedor de liquidez
A perda impermanente é a diferença entre manter os tokens na carteira e depositá-los num AMM quando o preço se move. Quando o rácio dos dois ativos muda, os arbitragistas reequilibram o pool, e o LP acaba sempre com mais do ativo que caiu e menos do que subiu. Comparado com quem simplesmente ficou com os tokens (HODL), o LP fica para trás. Chama-se «impermanente» porque a perda só se materializa se o LP levantar a liquidez com o preço deslocado; se o preço regressar ao ponto inicial, evapora-se.
A magnitude depende só da variação relativa de preço, e é simétrica: uma subida para o dobro dói tanto como uma descida para metade. Os valores clássicos, derivados da fórmula do produto constante e tabelados pela Binance Academy, são um bom mapa mental.
| Variação de preço | Perda impermanente face ao HODL |
|---|---|
| 1,25x | 0,6% |
| 1,5x | 2,0% |
| 2x | 5,7% |
| 3x | 13,4% |
| 4x | 20,0% |
| 5x | 25,5% |
Repare-se que a perda é modesta para pequenas oscilações mas cresce depressa: uma duplicação de preço custa 5,7% face ao HODL, e um movimento de cinco vezes tira mais de um quarto do valor. As comissões cobradas aos negociadores existem precisamente para compensar esta perda; se não a cobrirem, fornecer liquidez destrói valor. O erro clássico do principiante é olhar só para o rendimento anunciado das comissões e ignorar o buraco que a perda impermanente abre por baixo.
LVR: a conta verdadeira que o LP paga
A perda impermanente compara o LP com o HODL, mas não capta tudo. Em 2022, um grupo de investigadores (Jason Milionis, Ciamac Moallemi, Tim Roughgarden e Anthony Lee Zhang) propôs uma métrica mais fiel: o loss-versus-rebalancing, ou LVR. O LVR mede quanto o LP perde face a uma carteira que se reequilibra continuamente ao preço de mercado, isolando exatamente o dinheiro que escapa para os arbitragistas. É, no fundo, o MEV de arbitragem visto do lado de quem o paga.
Os números são desconfortáveis. Segundo o trabalho publicado pela a16z crypto, um pool ETH-USDC no estilo V2, com 5% de volatilidade diária, perde cerca de 3,125 pontos base por dia só em LVR, o equivalente a perto de 11% ao ano. A tese central dos autores, entre eles Tim Roughgarden, responsável de investigação da a16z crypto, é direta: um AMM só prospera se os seus LP estiverem satisfeitos, e para isso as comissões têm de acompanhar o LVR, caso contrário o capital foge.
A intuição por trás do LVR é a da seleção adversa. O pool oferece sempre o mesmo preço a toda a gente, mas quem chega primeiro para negociar contra ele é, quase por definição, quem tem melhor informação: o arbitragista que já viu o preço mexer noutro mercado. O LP está, por isso, permanentemente a vender barato e a comprar caro face a quem sabe mais. As comissões são a única defesa estrutural contra esta sangria, e é por isso que o debate sobre comissões dinâmicas, que sobem quando a volatilidade aumenta, se tornou central no desenho moderno.
É também aqui que entra o custo de oportunidade. Com a taxa sem risco outra vez relevante depois do tom mais duro saído de Jackson Hole, cada euro imobilizado num pool compete com o rendimento seguro da dívida de curto prazo, um contraste que já analisámos a propósito da base dos futuros contra a taxa sem risco. O LVR só agrava essa comparação: o LP não está apenas a arriscar, está a arriscar para talvez ficar atrás de um bilhete do tesouro.
MEV e fluxo tóxico: quem come o spread
Cada vez que o preço de um pool se desalinha do mercado, alguém corre para capturar a diferença. Essa corrida é o MEV (maximal extractable value), o valor que validadores e bots extraem ao reordenar, inserir ou censurar transações. Nos AMM, o MEV aparece em duas formas: a arbitragem, que é o LVR realizado e que os LP pagam de forma difusa, e o sandwich, em que um bot deteta a ordem de um utilizador na mempool, compra imediatamente antes para empurrar o preço, deixa a vítima executar mais caro e vende logo a seguir. Bots notórios, como o conhecido JaredfromSubway, tornaram-se sinónimo desta prática.
Aos negociadores que movem o preço de forma previsível chama-se «fluxo tóxico»: são precisamente as ordens de quem sabe algo que o pool ainda não sabe, e são a fonte da perda dos LP. Muito do desenho de AMM em 2026 é uma tentativa de separar o fluxo tóxico do fluxo benigno (o do pequeno utilizador que só quer trocar) e de devolver aos LP parte do valor que hoje escapa para a cadeia de fornecimento do MEV. As soluções vão desde mempools encriptadas, um caminho que detalhámos em encriptar o mempool para travar o sandwich, até leilões que redistribuem o MEV, passando por comissões que sobem quando o mercado está volátil.
Do lado das defesas, a resposta organizou-se em torno da separação entre quem propõe e quem ordena as transações. A proposer-builder separation, os leilões de fluxo de ordens (order flow auctions) e os construtores privados tentam garantir que o valor extraído volte, pelo menos em parte, para quem o gera. Nenhuma destas soluções é perfeita, e algumas apenas deslocam o problema para outro ponto da cadeia, mas em conjunto reduziram a fatia mais visível do MEV, o sandwich ao pequeno utilizador, face aos piores anos.
Os hooks da V4: quando o AMM vira plataforma
A grande aposta da V4 são os hooks: gatilhos que executam código próprio em momentos-chave do ciclo de vida de um pool (antes e depois de uma troca, ao adicionar ou remover liquidez). Na prática, transformam o AMM de produto fechado em plataforma programável. Um hook pode impor comissões dinâmicas que sobem com a volatilidade, redirecionar liquidez ociosa para protocolos de crédito, criar ordens-limite on-chain ou aplicar mecanismos anti-MEV, tudo sem sair do mesmo contrato.
Um dos desenhos mais discutidos é o am-AMM (auction-managed AMM), proposto por Austin Adams, Ciamac Moallemi, Sara Reynolds e Dan Robinson: em vez de fixar a comissão, o pool leiloa continuamente o direito de ser o «gestor» temporário, que define a comissão e fica com a receita durante o seu mandato. A ideia é que quem melhor souber precificar o fluxo pague mais pelo lugar, capturando o MEV para o pool em vez de o deixar fugir. Implementações como a Bunni construíram sobre a V4 comissões dinâmicas e reafetação de liquidez ociosa, e a Arrakis lançou o primeiro hook de comissões dinâmicas autorizado na V4. O AMM deixou de ser uma curva estática: passou a ser um espaço de desenho onde cada equipa tenta resolver o problema do LVR à sua maneira.
CoW AMM e leilões em lote: matar o LVR na origem
Se o LVR nasce de os arbitragistas chegarem primeiro ao pool, uma solução radical é mudar a forma como as ordens são executadas. É a aposta do CoW AMM, desenvolvido no ecossistema CoW Protocol e ativo na Balancer. Em vez de processar cada operação isoladamente pela ordem de chegada, agrupa as ordens num lote e liquida-as todas ao mesmo preço uniforme; agentes especializados, os solvers, competem entre si para propor a solução que mais desloca a curva a favor dos LP. Quem quiser capturar a arbitragem tem de o fazer devolvendo esse valor ao pool, não retirando-o.
Convém não exagerar na promessa. Os leilões em lote introduzem latência (é preciso esperar pela formação do lote) e dependem de uma rede de solvers competitiva e honesta; se essa concorrência enfraquecer, o valor volta a concentrar-se em poucos intervenientes. Ainda assim, ao mudar a unidade de execução da transação isolada para o lote, o CoW AMM ataca a raiz económica do problema, e não apenas os seus sintomas. É uma das razões pelas quais o desenho de AMM em 2026 se parece cada vez menos com uma curva solitária e cada vez mais com um mercado de leilões sobreposto a essa curva.
O efeito é duplo: elimina a maior parte do LVR e neutraliza os sandwiches, porque num lote a preço único não há vantagem em ordenar transações. Esta lógica aproxima os AMM do velho livro de ordens, mas sem abdicar da liquidez sempre disponível. Aliás, uma parte crescente da indústria acredita que o futuro é híbrido: curvas para garantir liquidez de base, leilões e intenções (intents) para a execução, tal como já acontece nos mercados de perpétuos, onde o modelo de livro de ordens convive com pools e onde se decide, como explicámos na máquina de carry do funding dos perpétuos, quem fica com o rendimento.
A guerra pela taxa: a UNIfication e o LP espremido por três lados
Durante anos, a comissão de 0,30% da Uniswap foi integralmente para os LP. Isso mudou com a UNIfication, a proposta apresentada em novembro de 2025 para ligar a «taxa de protocolo» e usar a receita para queimar UNI. A votação de governação fechou no final de dezembro de 2025 com apoio esmagador (perto de 99,9% dos votos) e incluiu a queima única de 100 milhões de UNI da tesouraria, na altura avaliados em cerca de 596 milhões de dólares, segundo a CoinDesk. Para os pools V2, a comissão do LP desce de 0,30% para 0,25%, com os restantes 0,05% a alimentar a queima.
Para o fornecedor de liquidez, o significado é claro: além de já perder para o LVR e para o MEV, passa agora a partilhar a comissão com o próprio protocolo. É o LP espremido por três lados ao mesmo tempo. A decisão, tomada por votação num token de governação, é também um lembrete de que estes protocolos são geridos por DAO cujas escolhas movem centenas de milhões de euros, um terreno onde o poder e a tesouraria nem sempre se alinham com quem fornece o capital, como se viu no drama das DAO em 2026.
O estado do mercado em 2026: a bolsa on-chain a comer a centralizada
Os números de 2026 explicam porque é que o desenho de AMM se tornou tão disputado. Em julho, o rácio entre o volume à vista das DEX e o das corretoras centralizadas chegou a 24,16%, recorde da série do The Block desde 2019, apesar de o volume absoluto das DEX ter recuado cerca de 26% no mês, para perto de 131 mil milhões de dólares: as DEX ganharam quota porque as centralizadas caíram ainda mais. No topo desta pilha está a Uniswap V4, que segundo dados da Sentora já concentra cerca de metade de todo o volume trimestral das DEX, rivalizando sozinha com a Curve, a Balancer e a PancakeSwap somadas.
A subida não é aleatória. Segundo o próprio The Block, o avanço das DEX foi impulsionado sobretudo pelos ecossistemas da Solana, da Base e da BNB Chain, onde a negociação rápida e sem autorização de tokens novos, incluindo memecoins, encontrou um público que as corretoras centralizadas demoram a servir. A isto soma-se a preferência crescente pela autocustódia e por listagens imediatas, num ano em que a confiança nas plataformas centralizadas voltou a ser testada. O resultado é uma transferência estrutural de volume para os trilhos on-chain, mesmo quando o mercado no seu todo abranda.
Os preços dão a escala do que está em jogo. O ETH, o ativo de base da maioria dos pools, negoceia perto de 2.150 euros, segundo a CoinGecko, enquanto o token de governação da Uniswap, o UNI, ronda os 3,92 euros, para uma capitalização de cerca de 2,45 mil milhões de euros, também segundo a CoinGecko. Convém desfazer um equívoco recorrente: a Hyperliquid, muitas vezes citada entre os líderes de volume on-chain, não é um AMM, mas sim um livro de ordens para perpétuos; a comparação direta com a Uniswap induz em erro.
Regulação: MiCA, a CMVM e o limbo dos protocolos sem dono
Do lado regulatório, os AMM vivem numa zona cinzenta. O regulamento europeu MiCA, plenamente aplicável desde o final de 2024, regula emitentes e prestadores de serviços de criptoativos (as CASP), não protocolos. O seu considerando 22 é explícito: os serviços prestados de forma totalmente descentralizada, sem qualquer intermediário, ficam fora do âmbito. O problema é que o MiCA não define o que é «totalmente descentralizado», e os juristas dividem-se sobre se um AMM com interface, tesouraria e DAO cumpre mesmo esse critério.
Em Portugal, a Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, executa o MiCA e reparte a supervisão entre o Banco de Portugal e a CMVM: à CMVM cabe a supervisão comportamental, o abuso de mercado e a admissão à negociação, com coimas que podem chegar a 15% do volume de negócios. O período transitório para os antigos VASP nacionais termina a 1 de julho de 2026. Nos Estados Unidos, o caminho foi outro: a SEC chegou a enviar um Wells notice à Uniswap Labs em 2024, mas encerrou a investigação sem qualquer ação em fevereiro de 2025. A tendência regulatória é apertar sobre os intermediários visíveis (interfaces, carteiras, corretoras) e deixar o contrato inteligente, esse, num limbo.
Riscos, limites e o futuro do desenho de AMM
Nenhum AMM está livre de risco. O primeiro é o contrato inteligente: uma falha no código pode drenar um pool inteiro, e o histórico de exploits da DeFi é longo. O segundo é o preço: como os AMM também servem de oráculo, pools de baixa liquidez são alvo fácil de manipulação, um vetor que já esteve na origem de vários ataques a protocolos de crédito, como recordámos ao falar dos oráculos e do crédito malparado da DeFi. O terceiro é a concentração: se uma única versão de um único protocolo passa a mover metade do volume, o ecossistema ganha um ponto único de falha, tanto técnico como de governação.
Há ainda um risco menos falado, o da fragmentação. Cada hook, cada nova invariante e cada L2 cria um pedaço de liquidez que não conversa automaticamente com os outros, e cabe aos agregadores e à execução por intenções voltar a costurar essa liquidez dispersa num preço único para o utilizador. O desenho de AMM não vive isolado: depende de toda uma camada de roteamento que decide, a cada operação, por onde passar. Quando essa camada falha ou é capturada, o utilizador paga a conta sem sequer perceber porquê.
O futuro do desenho aponta para três direções que já se cruzam: comissões dinâmicas que reagem à volatilidade e ao fluxo tóxico; leilões (am-AMM, CoW AMM, execução por intenções) que capturam o MEV para os LP em vez de o deixar escapar; e uma convergência com o livro de ordens, em que a curva garante liquidez e o leilão trata da execução. Hayden Adams, fundador da Uniswap, rejeitou publicamente a tese de que os AMM são insustentáveis, argumentando que a sua vantagem em capital barato e componibilidade está intacta e que «os AMM ainda agora começaram». O desenho que vencer esta década será o que melhor resolver uma equação simples de enunciar e difícil de fechar: como manter o LP satisfeito sem afastar o negociador.
Perguntas frequentes
O que é um AMM em termos simples?
Um automated market maker é um contrato inteligente que permite trocar criptoativos sem contraparte humana. Em vez de casar ordens de compra e venda, mantém uma reserva de dois ativos (o pool de liquidez) e usa uma fórmula matemática, tipicamente x*y=k, para calcular o preço a cada troca. Quem negoceia troca com o pool; quem fornece liquidez ganha uma parte das comissões cobradas.
O que é a perda impermanente?
É a diferença de valor entre manter tokens na carteira e depositá-los num AMM quando o preço se move. Como os arbitragistas reequilibram o pool, o fornecedor de liquidez fica sempre com mais do ativo que desvalorizou. A perda é simétrica (uma subida para o dobro custa o mesmo que uma descida para metade) e só se torna real se levantar a liquidez com o preço deslocado; daí ser «impermanente».
Qual é a diferença entre perda impermanente e LVR?
A perda impermanente compara o LP com quem faz HODL. O LVR (loss-versus-rebalancing) compara-o com uma carteira que se reequilibra continuamente ao preço de mercado, medindo com precisão o valor que escapa para os arbitragistas. O LVR é considerado a métrica mais rigorosa do custo real de fornecer liquidez, e é essencialmente o MEV de arbitragem visto do lado de quem o paga.
A Uniswap e os AMM são legais em Portugal?
Usar um AMM não é ilegal. O MiCA regula prestadores de serviços de criptoativos, não os protocolos totalmente descentralizados (considerando 22). Em Portugal, a Lei n.º 69/2025 reparte a supervisão entre a CMVM (conduta de mercado e abuso) e o Banco de Portugal, e o período transitório para os antigos VASP termina a 1 de julho de 2026. As obrigações recaem sobre intermediários (corretoras, carteiras, interfaces), não sobre o contrato em si.
Porque é que a Uniswap V4 é tão dominante em 2026?
A V4 introduziu os hooks, que permitem personalizar cada pool (comissões dinâmicas, anti-MEV, liquidez redirecionada), além de um contrato singleton e da contabilidade relâmpago que baixam o custo de gás. Segundo dados da Sentora, cerca de 18 meses após o lançamento já representa perto de metade do volume trimestral das DEX. Essa flexibilidade atraiu tanto o retalho como o capital institucional.
Por Tomás Ferreira, editor de DeFi e mercados on-chain na HOGE Wire.