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● Predictions & Forecasts

Fim de ano na cripto: cinco forças e três cenários até dezembro

A cripto entra no último trimestre de 2026 a meio caminho do máximo, sem euforia nem pânico. Menos um preço-alvo e mais um mapa: as cinco forças que decidem o desfecho e três cenários para dezembro.

A cripto entra no último trimestre de 2026 num equilíbrio desconfortável, longe da euforia e longe do pânico. Na manhã desta terça-feira, 11 de agosto, o Bitcoin transacionava perto dos 55.400 euros (cerca de 64.000 dólares), a meio caminho entre o máximo histórico de 6 de outubro de 2025 e o fundo de junho, com uma capitalização a rondar 1,15 biliões de euros; a Ethereum valia perto de 1.630 euros, ainda mais de 60% abaixo do seu próprio recorde, segundo os preços de abertura compilados pela Yahoo Finance. O mercado inteiro valia cerca de 1,96 biliões de euros, quase inalterado no dia.

Um balanço de fim de ano não é um número. É uma tentativa de mapear as forças que ainda estão por resolver e de traduzir essa incerteza numa distribuição de resultados. Este texto não repete o exercício de somar preços-alvo, nem a lista de datas do calendário; propõe outra coisa: cinco forças que decidem o desfecho até dezembro, o que o próprio mercado já tem no preço, três cenários com probabilidades, e um método para posicionar uma carteira sem fingir que se sabe o que vem aí.

O ponto de partida: a meio caminho do topo

Comecemos pelo retrato honesto. O Bitcoin caiu cerca de 49% desde o topo de 126.080 dólares (perto de 109.000 euros) de outubro de 2025. Parece muito, mas por comparação histórica é uma correção rasa: os três ciclos anteriores tiveram quedas de 75% a 85% do topo ao fundo. A Ethereum, a cerca de 1.630 euros, está mais castigada, mais de 60% abaixo do recorde de agosto de 2025. O mercado passou o verão preso num intervalo estreito, com o preço a bater repetidamente contra a média móvel de 50 dias (perto dos 63.400 dólares) e a apoiar-se numa zona de procura logo abaixo.

O comprador que definiu o ano é o ETF à vista, e a semana passada mostrou os seus dois rostos. Entre 3 e 7 de agosto, os fundos de Bitcoin nos Estados Unidos captaram cerca de 854 milhões de dólares (perto de 740 milhões de euros), a melhor semana desde abril, com o IBIT da BlackRock a representar cerca de 81% do total. Na segunda-feira seguinte, 10 de agosto, o fluxo inverteu-se: saídas líquidas de 144,6 milhões de dólares, com o próprio IBIT a liderar os resgates (53,6 milhões), quebrando uma sequência de cinco dias de entradas, de acordo com a FinanceFeeds. A pólvora seca das stablecoins, outro sinal de liquidez, está estável a ligeiramente em queda, com a USDT perto dos 183 mil milhões de dólares e a USDC nos 74 mil milhões. A rede continua sólida, com o hashrate perto de 920 exahash por segundo. Tudo aponta para um mercado que não está a fugir, mas também não está a acumular com convicção.

Uma perspetiva é uma distribuição, não um palpite

Há uma armadilha em qualquer texto de fim de ano: a tentação de fechar num número redondo. O problema é que o mercado só se move com a surpresa, ou seja, com a diferença entre o que acontece e o que já estava descontado. Um dado exatamente em linha com o consenso costuma mover pouco o preço, por muito importante que pareça. Por isso, prever bem não é adivinhar o resultado; é medir o que já está no preço e apostar onde a multidão está errada.

Isso obriga a pensar em distribuição, não em ponto. Em vez de «o Bitcoin vai a X», a pergunta útil é «qual a probabilidade de cada intervalo, e o que teria de mudar para saltar de um para outro». Já cobrimos o lado do calendário, evento a evento, em Perspetivas cripto até dezembro: o calendário que decide 2026, e a aritmética dos preços-alvo dos analistas noutro texto desta série. Aqui o ângulo é outro: ler o desfecho a partir das forças que ainda estão em aberto e do posicionamento do próprio mercado.

O que o mercado já tem no preço

Antes de olhar para fora, vale olhar para o retrato que o mercado faz de si próprio. Ao contrário dos analistas, os preços de opções, futuros e mercados de previsão publicam uma estimativa em tempo real, e essa estimativa não mente sobre o que o dinheiro receia.

  • Opções. A volatilidade implícita está comprimida e o skew (a diferença de procura entre opções de venda e de compra, seguido em plataformas como a Laevitas sobre dados da Deribit) está próximo do neutro, com um ligeiro viés defensivo. Tradução: o mercado paga pouco por proteção porque não espera um grande movimento, o que torna os seguros baratos e as caudas mais perigosas do que parecem.
  • Financiamento e base. As taxas de financiamento dos perpétuos e o prémio dos futuros estão baixos. Não há uma posição longa sobrelotada a alimentar, o que reduz o risco de uma liquidação em cascata, mas também retira combustível a uma subida rápida.
  • Mercados de previsão. No Polymarket, a probabilidade de a lei CLARITY ser promulgada em 2026 ronda os 25%, muito abaixo dos 82% de fevereiro, segundo o mercado dedicado. As apostas numa subida de juros do Fed em setembro caíram para a zona dos 40%.

O retrato agregado é claro: o consenso já espera um último trimestre lateral, de baixa convicção e com pouca proteção comprada. É a base a partir da qual se ganha ou se perde dinheiro, porque a surpresa mora sempre no que a multidão não tem no preço. Esta leitura de posicionamento, e as suas armadilhas, foi o tema de Posicionamento em derivados: o mapa não é o mercado, e vale a pena guardá-la: o posicionamento diz onde está a multidão, não para onde o mercado vai.

Força 1: A liquidez e o dólar

A primeira força é a mais antiga: o custo do dinheiro. A Reserva Federal mantém a taxa dos fundos federais no intervalo de 3,50% a 3,75% desde dezembro de 2025, com cinco pausas seguidas. A reunião de 29 de julho terminou numa votação de 9 contra 3, com a particularidade rara de os três dissidentes quererem subir os juros, não descê-los. O gráfico de pontos de junho apontava uma mediana de 3,8% para o fim do ano, e o presidente Kevin Warsh, no cargo desde maio, tem imposto um tom mais duro.

O calendário próximo tem três portões macro. O relatório de inflação de julho, publicado a 12 de agosto, é o primeiro: o consenso aponta para 3,4% homólogos no índice geral (contra 3,5%) e 2,5% no núcleo (contra 2,6%), um regresso modesto depois da descida surpresa de junho, segundo a CNBC. Depois vem Jackson Hole, de 27 a 29 de agosto, com o discurso de Warsh a 28 sob o tema da inovação financeira e dos pagamentos. E, por fim, a reunião de 15 e 16 de setembro, a primeira com um gráfico de pontos verdadeiramente da era Warsh, cujo calendário completo está no site da Reserva Federal. Do outro lado do Atlântico, o BCE mantém o juro de depósito em 2,25% e reúne a 10 de setembro.

O ponto contraintuitivo, que já tínhamos explicado em Reação ao FOMC: porque a cripto já não treme com o Fed em 2026, é que a sensibilidade da cripto ao Fed caiu. Uma pausa já descontada não move o preço. O que ainda morde é uma surpresa genuína, restritiva ou suave, e sobretudo o efeito no dólar e nos juros reais. Um dólar forte e juros reais a subir apertam todos os ativos de risco; o contrário abre-lhes espaço. O relatório de emprego de 7 de agosto, com uma perda de 23 mil postos, já puxou para baixo as apostas numa subida em setembro, e é essa a variável a acompanhar.

Força 2: Os fluxos

A segunda força é quem compra na margem. Em 2026, o comprador que faz o preço deixou de ser o retalho especulativo e passou a ser o fluxo institucional: os ETF à vista, as empresas de tesouraria em Bitcoin e, por trás de tudo, a oferta de stablecoins que serve de combustível. O problema é que esse comprador é volátil. A semana de 854 milhões de dólares em entradas e o dia seguinte de 145 milhões em saídas mostram um fluxo que ainda é tático, não estrutural. No acumulado do ano, o saldo dos ETF está perto do zero, com tendência negativa, o que explica por que razão o preço não descolou apesar do interesse institucional.

PeríodoFluxo líquido (ETF Bitcoin, EUA)IBIT (BlackRock)Contexto
3 a 7 ago 2026+854 M$ (~740 M€)+694 M$ (~81% do total)Melhor semana de entradas desde abril
10 ago 2026-144,6 M$ (~-125 M€)-53,6 M$ (maior resgate)Quebra de cinco dias seguidos de entradas
Acumulado do anoPerto do zero, viés negativoDomina 70% a 80% do fluxo diárioComprador marginal e tático, não estrutural

Há um segundo canal a vigiar: as empresas de tesouraria que financiam compras de Bitcoin com ações ou dívida. Enquanto as suas ações negoceiam acima do valor líquido dos ativos que detêm, o modelo alimenta-se a si próprio; se esse prémio se inverte e passam a valer menos do que os tokens no balanço, o incentivo troca-se e podem passar de compradores a vendedores. É um acelerador nos dois sentidos, e um dos fios que decidem o fim do ano.

Força 3: A regulação

A terceira força é a mais binária. Nos Estados Unidos, a lei de estrutura de mercado, a CLARITY, define que agência regula que ativo e cria um caminho para muitos tokens deixarem de ser tratados como valores mobiliários. Depois de falhar a votação antes das férias de verão, o líder da maioria no Senado, John Thune, apresentou a moção de encerramento do debate a 8 de agosto e agendou a primeira votação de procedimento para 15 de setembro, segundo o The Block. A barreira é de 60 votos, e com 53 senadores republicanos são precisos cerca de sete democratas, num texto ainda travado por questões de ética, responsabilidade dos programadores e rendimento das stablecoins.

Ao lado, a lei das stablecoins, a GENIUS, assinada em julho de 2025, avança na regulamentação: o Tesouro propôs a 7 de agosto as regras contra finanças ilícitas, e os efeitos plenos chegam no mais cedo de 18 de janeiro de 2027 ou 120 dias depois das regras finais. A SEC, por seu lado, mantém em análise a chamada Regulation Crypto, que criaria um porto seguro para novos projetos. Nada disto é um interruptor de curto prazo, mas define o pano de fundo institucional de 2027.

Para quem investe a partir de Portugal, o quadro relevante é europeu. O período transitório do MiCA terminou a 1 de julho de 2026, sem prorrogações, e só cerca de 17% das firmas pré-MiCA tinham licença de prestador de serviços até maio. Na prática, as stablecoins USDC e EURC estão autorizadas, e a USDT foi retirada da negociação à vista na União Europeia. Em Portugal, a CMVM supervisiona a conduta de mercado e o Banco de Portugal trata do registo dos prestadores e das stablecoins; a lei nacional de execução, a Lei n.º 69/2025, está em vigor desde 27 de dezembro de 2025, e o regime transitório para os antigos VASP terminou também a 1 de julho. É este o enquadramento a que qualquer plataforma usada por um residente deve obedecer.

Força 4: A estrutura on-chain

A quarta força vive dentro da própria cadeia, e é aqui que os dados on-chain contam a história que os preços escondem. A equipa de análise da Glassnode tem mapeado onde estão os pontos de tensão. O custo médio de aquisição dos detentores de curto prazo, os que compraram nos últimos 155 dias, situa-se perto dos 69.000 dólares: é a parede de recuperação que o mercado precisa de reconquistar para que os compradores recentes voltem ao lucro. Logo abaixo do preço atual há uma prateleira de procura por volta dos 63.000 dólares, uma zona onde se moveu perto de um décimo de toda a oferta em circulação, segundo o CryptoSlate.

Entre estes dois níveis desenha-se a mecânica do resto do ano. Se a prateleira dos 63.000 dólares aguentar, o mercado tem chão. Se ceder, o mapa on-chain aponta para uma zona de vazio até aos 58.000 ou 60.000 dólares, onde há poucas moedas a mudar de mãos e, portanto, pouco suporte. Na direção contrária, reconquistar os 69.000 abre um bolsão de ar que pode levar o preço mais depressa até perto dos 84.000. Ler estes fluxos de grandes carteiras sem cair em falsos sinais é uma arte por si só. A conclusão prática é simples: a estrutura on-chain diz-nos que o mercado está sentado exatamente sobre o seu maior nível de suporte, e o dado de inflação de 12 de agosto vai testá-lo.

Força 5: Os catalisadores nativos e o debate do ciclo

A quinta força é interna à própria cripto. Do lado da Ethereum, a agenda técnica traz as atualizações de escalabilidade Fusaka e Glamsterdam, mais os primeiros ETF com staking, que podem alterar a economia de taxas e o rendimento oferecido a quem detém a moeda. Do lado do Bitcoin, o tema é o ciclo. E é aqui que se trava o debate mais interessante do ano, entre dois nomes que ninguém acusa de ligeireza.

Matt Hougan, diretor de investimentos da Bitwise, escreveu um memorando com um título que virou bandeira: «The Four-Year Cycle Is Dead. Welcome to the Ten-Year Grind.» A tese é que as forças que moviam os ciclos antigos, o halving, a alavancagem, os cortes bruscos de juros, enfraqueceram à medida que a adoção institucional amadureceu. No lugar da montanha-russa de quatro anos, Hougan vê uma subida lenta de uma década, com novos máximos ainda em 2026, mas retornos «fortes, não espetaculares» e menos volatilidade. «A subida lenta é o que acontece quando uma classe de ativos cresce», resume.

Do outro lado está Jurrien Timmer, diretor de macro global da Fidelity. Para ele, nada nos gráficos diz que o ciclo morreu: o topo de 125.000 dólares em outubro, às 145 semanas do fundo anterior, encaixa quase perfeitamente no padrão histórico, e os mercados de baixa que se seguem costumam durar cerca de um ano. A sua conclusão, publicada na CoinDesk, é que «2026 pode ser um ano de pausa», com suporte entre 65.000 e 75.000 dólares. O detalhe incómodo para os otimistas é que o preço atual já está abaixo desse suporte. A queda de cerca de 49%, no entanto, é mais rasa do que os 75% a 85% dos ciclos anteriores, o que dá um ponto à leitura de Hougan. Nenhum dos dois é claramente refutado pelos dados de agosto, e é essa indefinição que torna o fim do ano genuinamente aberto.

A rotação: onde estará o capital em dezembro

Uma perspetiva de fim de ano que só olha para o preço do Bitcoin perde metade da história. A pergunta prática, para quem constrói uma carteira, não é apenas «quanto vale o Bitcoin em dezembro», mas «onde estará o capital dentro da cripto». Num mundo de juros altos e crescimento lateral, o dinheiro tende a procurar fluxo de caixa e adoção real, e a fugir da narrativa pura, a menos que uma virada macro reacenda o apetite pelo risco.

O bloco mais interessante é o do crédito on-chain e dos ativos do mundo real. À medida que as taxas fixas e a tokenização entram no espaço, a promessa de rendimento com origem em receita, não em emissão de tokens, atrai capital institucional, um movimento que descrevemos em Crédito on-chain institucional: quando Wall Street entra na DeFi. As stablecoins são o termómetro: quando a sua oferta cresce, há liquidez a chegar; quando encolhe, como agora, há um travão silencioso. O quadro seguinte resume a leitura setor a setor.

SetorCatalisador até dezembroRisco principalLeitura
BitcoinETF, tesourarias, dominância perto de 56%Resgates nos ETF, choque macroÂncora do mercado
Ethereum e Layer 2Fusaka e Glamsterdam, ETF com stakingCanibalização de taxas pelas L2Beta com catalisador técnico
DeFi, RWA e crédito on-chainRendimento real, tokenização, entrada institucionalRisco de contraparte e de curadoriaBolsa de crescimento estrutural
Agentes de IANarrativa, fluxo especulativoVolatilidade, promessas por cumprirAlto beta, alto risco
StablecoinsLei GENIUS, pagamentosFragmentação regulatória (MiCA vs EUA)O termómetro da liquidez

A leitura de base é de rotação defensiva: enquanto o macro não virar, os segmentos com receita e adoção real (crédito on-chain, RWA, infraestrutura de stablecoins) tendem a resistir melhor do que o beta narrativo. Um sinal claro de alívio monetário inverteria isto depressa, empurrando capital de volta para os setores de maior risco.

Três cenários para dezembro

Juntando as cinco forças, o desfecho até dezembro cabe em três grandes ramos. As probabilidades abaixo são uma leitura subjetiva, não uma medição, e servem para disciplinar o raciocínio, não para dar falsa precisão. O que importa são os gatilhos: são eles que fazem o mercado saltar de um cenário para o outro.

CenárioProbabilidade (leitura)Bitcoin em dez (EUR)Ethereum em dez (EUR)Gatilhos
Base (consolidação)~50%48.000 a 65.0001.400 a 2.000CPI em linha, Fed em pausa, CLARITY adiada ou aprovada mas já descontada, ETF irregulares
Otimista (rutura em alta)~22%70.000 a 95.000 ou mais2.600 a 3.500CPI baixo, Warsh mais suave, CLARITY aprovada, ETF a reacelerar, aperto de oferta
Pessimista (quebra)~28%38.000 a 48.0001.000 a 1.300CPI alto, surpresa restritiva, CLARITY falha, saídas nos ETF, hack sistémico

No cenário-base, o mais provável, o preço continua a oscilar em torno dos níveis atuais, com o intervalo definido pela prateleira de procura em baixo e pela parede dos detentores de curto prazo em cima. Um novo máximo histórico não é impossível, mas cabe sobretudo no cenário otimista, e exigiria quase duplicar a partir dos 55.400 euros de hoje. Por isso os intervalos dizem mais do que qualquer número único: mostram o risco que se corre em cada ramo da distribuição.

Os riscos de cauda, dos dois lados

Os três cenários cobrem o centro da distribuição. As caudas, os resultados improváveis mas de grande impacto, estão subvalorizadas precisamente porque o mercado de opções paga pouco por proteção. Vale a pena nomeá-las, dos dois lados.

  • Cauda de alta. Um aperto súbito de oferta, com o preço a subir e a forçar vendedores a descoberto a recomprar; uma viragem macro abrupta, se uma recessão obrigar o Fed a cortar mais depressa do que o previsto; uma vitória regulatória de peso, com a CLARITY a passar limpa; ou a entrada de um comprador soberano ou empresarial de grande escala.
  • Cauda de baixa. Um ataque sistémico a uma ponte ou protocolo, o elo mais frágil da DeFi, tema que dissecámos em Segurança das bridges: o elo mais fraco da DeFi em 2026; a perda de paridade de uma stablecoin relevante; uma cascata de vendas forçadas de empresas de tesouraria cujo prémio se inverteu; ou um acidente de liquidez no crédito tradicional que arraste todos os ativos de risco.

A lição não é ter medo de todas, mas dimensionar a carteira para sobreviver às de baixa e manter alguma exposição às de alta. A assimetria que interessa é esta: com a volatilidade barata, comprar um pouco de proteção contra a cauda negativa custa pouco, e é a altura certa para o fazer.

Como se posicionar até ao fim do ano

De um mapa de forças não sai um sinal de compra; sai um método. Alguns princípios práticos, sem promessas de rentabilidade:

  • Comece pela distribuição, não pelo alvo. Dimensione a posição para aguentar o cenário pessimista sem ser forçado a vender no pior momento. Se o ramo dos 38.000 euros o assusta ao ponto de o obrigar a liquidar, a posição é grande demais.
  • Compre por regra, não por print. Tentar cronometrar o dado de inflação ou a reunião do Fed é apostar na surpresa, que por definição não se prevê. Compras periódicas e automáticas removem a emoção da equação.
  • Guarde pólvora seca. O bolsão de ar funciona nos dois sentidos: uma descida à zona dos 48.000 a 50.000 euros é dolorosa para quem já está dentro, mas é uma zona de compra para quem acredita no cenário-base e tem liquidez à espera.
  • Cubra o risco de evento enquanto está barato. Com as opções a preço reduzido, proteger as datas quentes de setembro custa menos do que costuma custar.
  • Reequilibre com disciplina. Definir pesos-alvo por setor e voltar a eles em datas fixas evita a tentação de perseguir o que subiu ontem.

Há ainda o lado fiscal, que em Portugal tem regras próprias. Desde 2023, as mais-valias com criptoativos detidos há menos de 365 dias são tributadas a 28% na categoria G, enquanto os ganhos com ativos detidos há mais de um ano estão isentos para atividade não profissional, com exceções para certos tokens. Antes de fechar posições no fim do ano, vale confirmar o enquadramento com um contabilista e usar apenas plataformas autorizadas ao abrigo do MiCA e supervisionadas pela CMVM.

O painel a vigiar até dezembro

Se o calendário lista datas, o painel lista variáveis. É a diferença entre saber quando algo acontece e saber o que observar quando acontece. Estes são os mostradores que traduzem as cinco forças em sinais acionáveis, e o que importa em cada um é a segunda derivada, a mudança, porque é aí que vive a surpresa.

  • O dólar e os juros reais. A direção do índice do dólar e das yields reais é o canal mais rápido do macro para a cripto.
  • O fluxo líquido dos ETF. O comprador marginal do ano. Uma sequência de dias no verde ou no vermelho diz mais do que qualquer título.
  • O custo dos detentores de curto prazo (~69.000 dólares) e a prateleira de procura (~63.000). Os dois níveis on-chain que definem a estrutura.
  • Financiamento e skew de opções. Indicam quando o posicionamento fica esticado num dos lados.
  • A oferta de stablecoins. A pólvora seca. A crescer é liquidez a chegar; a encolher é um travão.
  • A probabilidade da CLARITY no Polymarket. O melhor sensor em tempo real do interruptor regulatório.
  • A dominância do Bitcoin. A bússola da rotação entre o Bitcoin e o resto do mercado.

Nenhum destes mostradores prevê o futuro sozinho. Juntos, transformam um mercado que parece caótico numa distribuição que se pode ler, e é isso que um balanço de fim de ano deve entregar: não a resposta, mas as perguntas certas e o painel para as responder à medida que dezembro se aproxima.

Frequently Asked Questions

A cripto vai fazer um novo máximo histórico até dezembro de 2026?

É possível, mas não é o cenário mais provável. Com o Bitcoin perto dos 55.400 euros, seria preciso quase duplicar para superar o recorde de outubro de 2025, o que exigiria uma combinação de inflação benigna, um Fed mais suave, a aprovação da lei CLARITY e um regresso forte das entradas nos ETF. O cenário-base aponta para consolidação, com o novo máximo a caber sobretudo no ramo otimista da distribuição.

O que pesa mais no preço do Bitcoin até ao fim do ano, o Fed ou a regulação?

Atuam por canais diferentes. A Reserva Federal move a liquidez e o dólar, e domina nas semanas de dados macro, como o CPI e o FOMC. A regulação, sobretudo a lei CLARITY, é um interruptor mais binário: se passar em setembro, abre a porta a fluxos institucionais estruturais; se falhar, adia essa tese sem quebrar o mercado. No curto prazo pesa mais o macro; no médio prazo, a estrutura regulatória.

O ciclo de quatro anos do Bitcoin ainda funciona?

É o grande debate de 2026. Jurrien Timmer, da Fidelity, defende que o ciclo está intacto e que 2026 é um ano de pausa, com suporte entre 65.000 e 75.000 dólares. Matt Hougan, da Bitwise, argumenta que o ciclo de quatro anos morreu e deu lugar a uma subida lenta de uma década, com retornos fortes mas menos espetaculares. A queda de cerca de 49% desde o topo é mais rasa do que os 75% a 85% dos ciclos anteriores, o que dá algum apoio à tese de Hougan.

Como é que a lei CLARITY afeta o mercado cripto?

A CLARITY define que agências regulam que ativos nos Estados Unidos e cria um caminho para muitos tokens deixarem de ser tratados como valores mobiliários. O Senado agendou uma primeira votação de procedimento para 15 de setembro, com uma barreira de 60 votos e uma maioria que precisa de vários democratas. A aprovação seria um catalisador estrutural; o adiamento, já em parte descontado pelos mercados de previsão, mantém a incerteza sem a agravar.

Como deve um investidor em Portugal tratar os impostos sobre cripto em 2026?

Desde 2023, as mais-valias com criptoativos detidos há menos de 365 dias são tributadas a 28% na categoria G, enquanto os ganhos com ativos detidos há mais de um ano estão isentos para atividade não profissional, com exceções para certos tokens. Vale a pena usar plataformas autorizadas ao abrigo do MiCA e supervisionadas pela CMVM, e confirmar o enquadramento com um contabilista antes de fechar posições no fim do ano.

Por Priya Reddy, editora sénior da HOGE Wire. Este artigo é análise editorial e não constitui aconselhamento financeiro.

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