Morpho em 2026: o banco invisível do crédito on-chain
A Morpho virou a infraestrutura de crédito por detrás da Coinbase e do Société Générale, com mais de 11 mil milhões em depósitos. O Standard Chartered projeta o token nos 60 dólares até 2030.
Há duas maneiras de olhar para a Morpho nesta semana de agosto de 2026. A primeira é o gráfico: o token MORPHO subiu cerca de 33% em sete dias e negoceia perto de 2,30 euros, enquanto a AAVE disparou mais de 60% no mesmo período, segundo os dados da CoinGecko, sinais de um regresso do apetite pelo crédito on-chain. A segunda, menos visível e bem mais importante, é que a Morpho deixou de ser apenas um protocolo para se tornar aquilo a que analistas já chamam o «backend» do crédito on-chain: a canalização por onde passam os empréstimos da Coinbase, do banco francês Société Générale e da gestora de ativos Apollo.
A distinção interessa porque explica por que motivo um banco tão conservador como o Standard Chartered iniciou cobertura sobre a Morpho no início de julho, com um alvo de 60 dólares para o token até 2030, de acordo com The Block. Não é uma aposta num produto de retalho brilhante; é uma aposta em infraestrutura, na ideia de que a maior parte do crédito on-chain dos próximos anos vai correr sobre carris que o utilizador final nunca chega a ver.
Este artigo desmonta a Morpho peça a peça: o núcleo mínimo e imutável (Morpho Blue), a camada de curadores e cofres onde vive quase todo o risco, a nova geração de empréstimos a taxa fixa e prazo fixo, as razões que levaram a Coinbase e o Société Générale a construir por cima dela, o modelo de negócio de comissão zero e, sobretudo, as lições duras deixadas pelos colapsos da Stream Finance e da Resolv. Termina com um guia prático para avaliar um cofre antes de lá depositar um euro.
Morpho em números: o retrato de agosto de 2026
Antes da anatomia, vale a pena fixar a escala. Convém um aviso: no crédito DeFi, os números dançam consoante a definição. «Depósitos totais» mede tudo o que foi fornecido; o «TVL líquido» que a DefiLlama publica desconta a parte que é reemprestada e recolocada. Por isso os valores abaixo não são contraditórios, medem coisas diferentes. A leitura simples: a Morpho é o segundo maior protocolo de crédito on-chain, atrás apenas da Aave, e o segundo lugar não está longe do primeiro em ambição.
| Indicador | Valor (agosto de 2026) | Fonte |
|---|---|---|
| Preço do token MORPHO | ~2,30 EUR (+32,8% em 7 dias) | CoinGecko |
| Capitalização de mercado | ~1,5 mil milhões EUR (#50) | CoinGecko |
| Máximo histórico | 4,05 EUR (janeiro de 2025) | CoinGecko |
| Depósitos totais | mais de 11 mil milhões USD (~9,4 mil milhões EUR) | DefiLlama |
| Valor bloqueado (TVL líquido) | ~7,5 mil milhões USD | DefiLlama |
| Empréstimos ativos | ~4,4 mil milhões USD | DefiLlama |
| Originados via Coinbase | mais de 2 mil milhões USD (reportado em 2026) | Coinbase |
| Redes | Ethereum, Base e outras redes EVM | morpho.org |
| Comissão do protocolo (take rate) | 0% no núcleo | Standard Chartered |
Repare-se no último dado, que é o mais estranho e o mais revelador: a Morpho cobra zero por cento de comissão no seu núcleo. Um protocolo que move mais de 11 mil milhões de dólares e não fica com um cêntimo do juro parece um contrassenso. É, na verdade, a chave de todo o modelo, e voltaremos a ela.
Do otimizador a rede de crédito: uma breve história
A Morpho nasceu em 2021, em Paris, das mãos de Paul Frambot e de uma equipa saída do Institut Polytechnique. A primeira versão, o Morpho Optimizer, não tentava substituir os gigantes do setor; sentava-se por cima da Aave e da Compound e emparelhava, sempre que possível, quem emprestava com quem pedia emprestado, de forma peer-to-peer. O efeito era apertar a diferença entre a taxa que o depositante recebia e a que o mutuário pagava, sem sacrificar a liquidez das pools por baixo. Era engenhoso, mas continuava dependente da arquitetura alheia.
O salto conceptual veio no final de 2023 com o Morpho Blue, um primitivo de base concebido para ser o mais simples e o mais neutro possível. A partir daí, a linguagem da equipa mudou: a Morpho deixou de se apresentar como um otimizador e passou a descrever-se como uma «rede de crédito aberta para o mundo». O crescimento acompanhou a mudança de escala, de cerca de 500 milhões de dólares em depósitos no início de 2024 para os mais de 11 mil milhões de hoje. Como em qualquer projeto que se define pela figura do fundador, vale a pena separar a narrativa da engenharia, e é a engenharia que interessa a partir daqui.
Morpho Blue: o núcleo mínimo e imutável
O Morpho Blue é deliberadamente burro, e isso é uma virtude. O contrato central tem poucas centenas de linhas de Solidity, não pode ser atualizado nem pausado, e não conhece a noção de curador, de estratégia ou de gestor. Faz uma coisa só: permite a qualquer pessoa criar um mercado de crédito isolado. Cada mercado é definido por cinco parâmetros fixos no momento da criação: o ativo de colateral, o ativo emprestado, o rácio máximo de empréstimo (LLTV), o oráculo de preço e o modelo de taxa de juro. Depois de criado, nada muda.
Duas propriedades saem daqui. A primeira é o isolamento: um problema num mercado (por exemplo, um colateral que colapsa) fica contido nesse mercado e não contamina os restantes. A segunda é a imutabilidade, que reduz drasticamente a superfície de ataque. Não há chave de administrador que possa ser comprometida, não há voto de governação que possa reescrever as regras de um mercado ativo, não há botão para uma equipa mudar os parâmetros a meio do jogo. Num setor onde uma parte enorme das perdas históricas veio de chaves privadas e de poderes de administração, e não de bugs no código, essa sobriedade é uma escolha de segurança, não uma limitação.
Curadores e cofres: onde vive o risco
Se o núcleo é burro, a inteligência tem de estar noutro lado. Está nos cofres (vaults, antes chamados MetaMorpho, agora na sua segunda geração como Vaults V2). Um depositante comum não escolhe mercados isolados um a um; deposita num cofre, e um curador trata de distribuir esse capital pelos mercados subjacentes, dentro de um perfil de risco declarado. O curador é a figura central deste modelo: decide que mercados ligar, que limites (caps) impor, que oráculos aceitar e como reagir ao stress. Nomes como a Steakhouse Financial, a Gauntlet, a MEV Capital e a Sentora concentram hoje boa parte do capital institucional.
A arquitetura dos Vaults V2 formaliza esta divisão de trabalho com papéis distintos (proprietário, curador, alocador, sentinela), limites absolutos e relativos, timelocks e adaptadores, contratos que traduzem a alocação para qualquer protocolo subjacente e reportam o valor das posições. É a materialização daquilo a que a consultora Tiger Research chamou a «modularização» do crédito: separar a infraestrutura da gestão de risco, de forma a que uma seja neutra e imutável e a outra seja competitiva e substituível. Os curadores cobram uma comissão pelo serviço; o protocolo, por baixo, não cobra nada. O risco, em contrapartida, mudou de sítio: já não é do protocolo, é do curador em quem se confia.
Esta competição criou uma nova classe de intermediários. Um curador bem-sucedido gere hoje centenas de milhões em nome de terceiros e constrói uma marca à volta da sua disciplina de risco, tal como um gestor de fundos tradicional. O reverso é a concentração: depois dos sustos de 2025, o capital institucional acorreu a um punhado de nomes de confiança, o que reduz a diversidade de julgamento e cria pontos únicos de falha reputacional. Escolher um cofre da Morpho é, no fundo, escolher um gestor, com a diferença de que aqui não há um regulador a impor requisitos de capital nem a fiscalizar a conduta.
Morpho V2 e a curva de juro on-chain
Durante anos, o crédito DeFi só soube fazer uma coisa: taxas variáveis, que reapreçam a cada bloco em função da utilização. Faltava-lhe a peça que sustenta o crédito no mundo real, a taxa fixa e o prazo fixo. Em junho de 2025, a Morpho anunciou a V2, uma plataforma baseada em intenções (intent-based), como noticiou a CoinDesk. A ideia: em vez de aceitar a taxa que a pool ditar, quem empresta e quem pede exprime exatamente o que quer (taxa fixa, prazo fixo, colateral específico, até carteiras inteiras ou ativos do mundo real), e o sistema procura o melhor emparelhamento.
Paul Frambot resumiu a lógica sem rodeios: o crédito a taxa fixa é «fundamental para o funcionamento dos mercados de crédito globais; sem ele, os mercados on-chain ficam incompletos», declarou ao The Block. A concretização chegou com o Morpho Midnight, uma implementação de taxa fixa e prazo fixo lançada na rede Base em julho de 2026, e, a 17 de agosto, com a abertura do código de um Quoter Bot, um robô que cota os dois lados do mercado em torno de uma taxa de referência e que qualquer pessoa pode replicar, segundo o Crypto Times. Estamos, na prática, a assistir ao nascimento de uma curva de juro on-chain, um tema que se cruza com a leitura de prazos e prémios que abordámos a propósito do posicionamento em derivados e da superfície da volatilidade.
Coinbase, Société Générale, Apollo: porque escolheram a Morpho
O melhor argumento a favor da tese da «infraestrutura invisível» é a lista de quem já a usa. A Coinbase construiu os seus empréstimos garantidos por cripto sobre a Morpho, na Base: passou de mil milhões de dólares em originações em setembro de 2025, segundo o The Block, e continuou a crescer ao longo de 2026, com o serviço a chegar ao Reino Unido e a ativos como ETH, XRP, DOGE, ADA e LTC, de acordo com a crypto.news. O objetivo declarado por Brian Armstrong é chegar aos 100 mil milhões de dólares em originações on-chain. O ponto essencial: o cliente da Coinbase carrega num botão na aplicação e nunca vê a Morpho; a Morpho é o motor.
O ângulo europeu vem do Société Générale, cuja subsidiária SG-FORGE colocou as suas stablecoins reguladas pela MiCA (a EURCV, em euros, e a USDCV, em dólares) a funcionar em mercados da Morpho, com a MEV Capital como curadora. E o ângulo institucional puro vem da Apollo: o fundo de crédito tokenizado ACRED usa a Morpho, através da Securitize e da Gauntlet, para estratégias de alavancagem recursiva. Por trás destas escolhas está uma tendência de fundo, a entrada de tesourarias e gestores como fornecedores de capital, o mesmo movimento que analisámos ao explicar como ler uma tesouraria cripto em 2026 e a forma como estas entidades escolhem entre ações ou dívida para se financiarem. Cada vez mais, o colateral que sustenta estes mercados são Tesouros tokenizados, ativos estáveis que atraem capital mais paciente, como mostra o crescimento contínuo desse segmento na rwa.xyz.
A aposta do Standard Chartered: 60 dólares até 2030
Foi essa leitura de infraestrutura que levou o Standard Chartered a fazer algo raro para um banco global: pôr um preço numa criptomoeda DeFi. Geoff Kendrick, responsável de investigação de ativos digitais do banco, escreveu que a instituição está «otimista quanto às perspetivas da Morpho, o segundo maior protocolo de crédito DeFi depois da Aave», e traçou uma trajetória plurianual para o token.
| Ano | Alvo do Standard Chartered (MORPHO/USD) |
|---|---|
| 2026 | 3,50 USD |
| 2027 | 11 USD |
| 2028 | 22 USD |
| 2029 | 40 USD |
| 2030 | 60 USD |
A tese assenta em três pilares: a Morpho combina um protocolo de crédito com a infraestrutura de cofres que alimenta bancos e gestores on-chain; deverá beneficiar de uma expansão prevista de 37 vezes nos ativos aplicados em DeFi até 2030; e a sua comissão de zero por cento deixa todo o rendimento para os depositantes, ao contrário da Aave e da Uniswap, que introduziram comissões. Kendrick chega a sugerir que, nesse cenário, a MORPHO superaria o desempenho do Bitcoin e do Ethereum. Um aviso de bom senso: alvos de analistas a cinco anos são cenários, não promessas. O próprio máximo histórico do token, 4,05 euros em janeiro de 2025, foi seguido de uma queda de mais de metade, e o preço de hoje ainda está abaixo do primeiro marco da própria tabela.
Comissão zero e o enigma do token MORPHO
Voltemos ao dado estranho. Se o protocolo não cobra comissão, como é que o token vale mais de mil milhões de euros? A resposta obriga a separar duas coisas que muitos confundem. O MORPHO é um token de governação: dá direito a votar em atualizações e parâmetros, não a receber um dividendo do protocolo. Quem ganha dinheiro no dia a dia são os curadores e as interfaces (a Coinbase, o Société Générale) que constroem produtos por cima e cobram as suas próprias margens. O protocolo, no meio, mantém-se neutro e barato, e é precisamente essa neutralidade que o torna atraente como base.
A estrutura por trás do token é invulgarmente sóbria. A Morpho é governada pela Morpho Association, uma associação sem fins lucrativos de direito francês que, por lei, não pode ter acionistas, distribuir lucros nem ser vendida. Em 2025, a Morpho Labs tornou-se subsidiária integral dessa associação, uma decisão pensada para eliminar o conflito entre o valor de uma equity privada e o valor do token, como noticiou a DL News. O passo seguinte foi a proposta MIP-75, que criou o wrapper para tornar o MORPHO transferível e rastreável em votação on-chain, consagrando-o como o «único ativo» do ecossistema, conforme explica o próprio blogue da Morpho. Fica em aberto a pergunta de captura de valor: com take rate a zero, a DAO poderá um dia ativar uma comissão, e essa decisão será um teste à promessa de neutralidade.
Stream, Resolv e as lições dos curadores
Nenhuma anatomia da Morpho está completa sem os episódios que quase a marcaram. O maior foi o colapso da Stream Finance, em novembro de 2025: uma perda fora da cadeia de cerca de 93 milhões de dólares fez a stablecoin xUSD cair perto de 77%, para lá dos 0,26 dólares, e desencadeou um contágio estimado em 285 milhões através de vários protocolos, com saídas de capital superiores a mil milhões em toda a DeFi, segundo a reconstituição da BlockEden. O detalhe que salva a arquitetura da Morpho: dos cerca de 320 cofres, apenas um (o da MEV Capital) tinha exposição direta ao xUSD, gerando aproximadamente 700 mil dólares de dívida incobrável. O isolamento funcionou, a perda ficou onde tinha de ficar.
Meses depois, o exploit da Resolv reforçou a mesma lição por outro caminho. Um atacante comprometeu uma chave de serviço na nuvem e explorou a diferença entre o preço real de um colateral e um oráculo com preço fixo («hardcoded»). Omer Goldberg, fundador da Chaos Labs, apontou o dedo à raiz do problema: o ativo «era colateral em vários mercados e cofres de crédito», e muitos «usavam preços fixos, sem barreiras de risco», escreveu na sua conta pública. A moral é desconfortável para quem procura culpados fáceis: o protocolo é neutro; o risco é o julgamento do curador. E há um mecanismo específico a vigiar, o looping, em que se pede emprestado contra um colateral para comprar mais desse colateral, uma prática que multiplica a pegada aparente de um ativo sem lhe acrescentar lastro real, como detalhámos ao analisar o stETH como colateral de reserva da DeFi.
Morpho contra Aave: dois modelos de banco on-chain
A melhor forma de perceber a Morpho é contrastá-la com a líder. A Aave funciona como um banco universal: pools partilhadas, gestão de risco centralizada na governação, uma comissão que financia a recompra do token AAVE e um mecanismo de backstop (o Umbrella) que pode cobrir dívida incobrável a nível do protocolo. A Morpho funciona como um prime broker: um núcleo neutro que se limita a executar, e curadores externos que competem pela gestão do risco. Cada modelo tem o seu ponto fraco. O isolamento da Morpho contém o rombo de um mercado, mas fragmenta a liquidez: quando muitos depositantes querem sair ao mesmo tempo, formam-se filas, porque não há uma pool comum a absorver o choque nem um fundo central a acudir.
A diferença nos mecanismos de defesa é reveladora. Quando um mercado da Aave acumula dívida incobrável, o protocolo pode recorrer ao Umbrella, um sistema que corta automaticamente colateral depositado por quem opta por segurar o risco em troca de rendimento, socializando a perda de forma ordenada. Na Morpho não existe rede equivalente ao nível do protocolo: a perda é do mercado e de mais ninguém. Para um depositante prudente, isto pode ser uma vantagem (não subsidia os erros dos outros) ou uma desvantagem (não é socorrido se o erro for o seu). Não há resposta certa, há apenas uma escolha consciente entre mutualização e isolamento.
| Dimensão | Morpho | Aave |
|---|---|---|
| Arquitetura | Núcleo mínimo + curadores externos | Hub-and-spoke integrado |
| Metáfora | Prime broker | Banco universal |
| Comissão do protocolo | 0% no núcleo | Comissão + recompra de AAVE |
| Modelo de risco | Mercados isolados (perda fica no mercado) | Pool partilhada + backstop Umbrella |
| Governação | DAO + Morpho Association (sem fins lucrativos) | DAO Aave + Aavenomics |
| Depósitos | >11 mil milhões USD (2.o lugar) | Várias vezes maior (líder) |
A AAVE, recorde-se, também vive uma semana forte, com um ganho superior a 60% em sete dias segundo a CoinGecko, sinal de que o mercado não está a escolher entre os dois modelos, mas a reavaliar o crédito on-chain como um todo.
A Base e o eixo das stablecoins
Há um padrão que atravessa tudo o que foi dito: a maior parte dos empréstimos na Morpho são empréstimos de stablecoins, ou seja, alguém deposita dólares digitais e outro alguém pede dólares digitais emprestados contra cripto ou contra Tesouros tokenizados. E o palco preferido é a Base, a rede de camada 2 da Coinbase, onde as taxas de transação são baixas o suficiente para que um empréstimo de algumas centenas de euros faça sentido económico. É aqui que o «banco invisível» toca a vida real, porque a mesma infraestrutura de stablecoins baratas que move o crédito também move pagamentos e remessas, o combate que descrevemos ao perguntar se as remessas em stablecoin vencem até 2028. Crédito e pagamentos convergem no mesmo trilho, e a Morpho posiciona-se no lado do crédito desse trilho.
Vale a pena reparar na integração vertical que isto representa. A Coinbase é dona da Base (a rede), opera a maior casa de câmbio regulada dos Estados Unidos e agora oferece crédito assente na Morpho, tudo no mesmo ambiente. Para o utilizador, o resultado é um produto que se parece com a banca de sempre: deposita-se, pede-se emprestado, paga-se juro. Por baixo, porém, o dinheiro corre por contratos públicos e auditáveis, e a mesma posição pode servir de peça noutra aplicação, a chamada composabilidade. É essa combinação, interface familiar e infraestrutura aberta, que faz da Morpho um candidato credível a substituir os carris de crédito tradicionais, em vez de apenas os imitar.
Regulação: MiCA, a CMVM e o perímetro da DeFi
Aqui reside a subtileza que qualquer investidor português precisa de interiorizar. A MiCA regula os prestadores de serviços de criptoativos (os CASP) e os emitentes, não os protocolos autónomos. Interagir diretamente com o Morpho Blue, sem intermediário, situa-se fora da supervisão: não há fundo de garantia de depósitos, não há credor de última instância, a dívida incobrável recai sobre quem forneceu o capital. O relatório conjunto da EBA e da ESMA, ao abrigo do artigo 142.o, classificou a DeFi como um segmento de nicho, cerca de 4% do valor global, e a Comissão Europeia não a colocou como prioridade, embora a consulta de revisão da MiCA (com respostas até 31 de agosto de 2026) volte a abrir a fronteira entre o regulado e o não regulado. O GAFI, por seu lado, tem alertado que uma entidade tradicional que use protocolos como a Morpho assume por inteiro o risco de branqueamento de capitais.
Em Portugal, a supervisão reparte-se entre a CMVM, para a conduta de mercado, e o Banco de Portugal, para o registo de CASP e as stablecoins, com a Lei n.o 69/2025 em vigor desde 27 de dezembro de 2025 e o regime transitório dos antigos VASP terminado a 1 de julho de 2026. A consequência prática é clara: a entidade regulada é a interface (a Coinbase, o Société Générale), não o protocolo. Um aforrador que aceda ao crédito através de um CASP licenciado tem proteções de consumidor que o utilizador que interage diretamente na cadeia não tem. E há implicações fiscais sobre o rendimento de juro que devem ser confirmadas junto da Autoridade Tributária. No plano macro, o pano de fundo é uma taxa de facilidade de depósito do BCE em 2,25%, que mantém atrativo o rendimento sem risco em euros contra o qual todo o crédito DeFi tem de competir.
Como avaliar um cofre da Morpho antes de depositar
Depositar num cofre da Morpho não é depositar num banco, é confiar num curador. O rendimento anunciado nunca é grátis; ou se identifica a fonte do risco, ou se está apenas a apostar sem saber. Antes de fornecer capital, vale a pena percorrer esta lista.
- Quem é o curador? Historial, capital sob gestão e comportamento em episódios anteriores de stress (a Stream é um bom filtro).
- Que colateral sustenta os mercados do cofre? Stablecoins líquidas e Tesouros tokenizados são uma coisa; ativos exóticos, sintéticos ou ilíquidos são outra bem diferente.
- Que LLTV e, sobretudo, que oráculo? Um preço de mercado real é aceitável; um preço fixo («hardcoded») foi a raiz dos maiores desastres de 2025 e 2026.
- Que limites (caps) e timelocks protegem o cofre de mudanças bruscas de alocação?
- Que liquidez existe em cenário de saída em massa? Lembre-se das filas que o modelo isolado pode gerar.
- Há auditorias e qual é a exposição isolada? Um cofre mau não contamina os outros, mas o seu cofre pode ser o mau.
- Qual é o risco cambial? Um rendimento em dólares expõe um investidor da zona euro ao par EUR/USD; com o euro perto de 1,17, segundo a Trading Economics, um movimento cambial pode apagar um ano inteiro de juro.
Frequently Asked Questions
O que é a Morpho e como funciona?
A Morpho é um protocolo de crédito descentralizado que funciona como infraestrutura de base. O seu núcleo (Morpho Blue) é um contrato mínimo e imutável que permite criar mercados de empréstimo isolados, cada um definido por colateral, ativo emprestado, rácio máximo, oráculo e modelo de taxa. Por cima ficam os cofres, geridos por curadores que distribuem o capital dos depositantes pelos mercados, dentro de um perfil de risco. Empresas como a Coinbase constroem os seus produtos de empréstimo sobre esta base, muitas vezes sem que o utilizador final saiba que está a usar a Morpho.
É seguro depositar na Morpho?
O protocolo é neutro e imutável, o que reduz riscos de código e de administração, mas o risco não desaparece: passa para o curador do cofre escolhido. Os colapsos da Stream Finance e da Resolv mostraram que curadores que aceitam colateral duvidoso ou oráculos com preço fixo podem gerar dívida incobrável. Graças ao isolamento de mercados, uma perda fica contida no cofre afetado e não contamina os restantes, mas quem estiver nesse cofre suporta o prejuízo. Não existe fundo de garantia de depósitos nem credor de última instância.
Qual é a diferença entre a Morpho e a Aave?
A Aave é como um banco universal: pools partilhadas, gestão de risco centralizada na governação, uma comissão de protocolo que financia a recompra do token e um mecanismo de backstop. A Morpho é como um prime broker: um núcleo neutro e sem comissão, com curadores externos a competir pela gestão do risco em mercados isolados. A Aave lidera em dimensão; a Morpho é a segunda maior e cresce como infraestrutura para bancos e gestores. Os dois modelos representam apostas diferentes sobre como deve ser organizado o crédito on-chain.
O que é o token MORPHO e para que serve?
O MORPHO é um token de governação: dá direito a votar em atualizações e parâmetros do protocolo através da DAO, e não a receber um dividendo. A Morpho é governada pela Morpho Association, uma entidade sem fins lucrativos de direito francês, e a Morpho Labs tornou-se sua subsidiária para alinhar interesses. Como o protocolo cobra zero por cento de comissão no núcleo, a captura de valor pelo token depende de decisões futuras da governação, por exemplo, de uma eventual ativação de uma comissão.
A Morpho é regulada em Portugal?
O protocolo em si não é regulado: a MiCA supervisiona os prestadores de serviços de criptoativos e os emitentes, não os protocolos autónomos. Em Portugal, a CMVM cuida da conduta de mercado e o Banco de Portugal do registo de CASP e das stablecoins, ao abrigo da Lei n.o 69/2025. Na prática, a entidade regulada é a interface através da qual se acede ao crédito (por exemplo, uma casa de câmbio licenciada), não a Morpho. Quem interage diretamente na cadeia fica fora do perímetro de supervisão e das proteções de consumidor.
Yuki Tanaka cobre DeFi e mercados de crédito on-chain para a HOGE Wire.