Quando o funding vira gasolina: a anatomia das liquidações
Cada grande colapso da cripto deixou a mesma impressão digital no funding dos perpétuos. Da purga de 2021 aos 19 mil milhões de dólares de outubro de 2025, a anatomia de como a alavancagem parte.
A 14 de setembro de 2026, a Bitcoin negoceia na casa dos 67 mil euros e o funding dos perpétuos está morno: o índice KFRI da CF Benchmarks, que segue o funding do perpétuo de Bitcoin da Kraken, fixou-se em +8,14% anualizados na leitura de 13 de setembro. É um número quase aborrecido, ligeiramente positivo, do tipo que não faz manchete. E, no entanto, são precisamente os números aborrecidos que interessam a quem estuda a mecânica dos colapsos, porque quase todos os grandes desastres da cripto começaram com um funding que ninguém achava perigoso, até deixar de o ser.
O funding, sozinho, não derruba um mercado. Mas funciona como o medidor de combustível da alavancagem: diz quanta gente está do mesmo lado da mesa e quanto está disposta a pagar para lá continuar. Quando esse medidor está no vermelho, basta um fósforo (um tweet, um dado macroeconómico, uma insolvência) para transformar uma correção banal numa cascata de liquidações. Este texto percorre a anatomia dessa dinâmica, dos primeiros perpétuos de 2016 ao recorde absoluto de 10 de outubro de 2025, e mostra como ler o mesmo sinal que antecedeu cada estrondo. Para a mecânica da fórmula em si, fica o nosso guia dedicado; aqui, o foco é o que acontece quando ela se rompe.
O medidor de combustível do mercado
Um contrato perpétuo é um futuro sem data de vencimento. Como nunca expira, precisa de um mecanismo que o mantenha colado ao preço à vista (spot): é o funding, um pagamento periódico trocado diretamente entre quem está comprado (long) e quem está vendido (short). Quando o perpétuo negoceia acima do spot, sinal de procura alavancada por subidas, os longs pagam aos shorts; quando negoceia abaixo, os shorts pagam aos longs. O pagamento é pequeno, tipicamente uma fração de ponto percentual a cada oito horas, mas o que revela é enorme: um censo em tempo real de quem está a pagar para manter a aposta.
É aqui que o funding deixa de ser contabilidade e passa a ser diagnóstico. Um funding persistentemente positivo e elevado significa que a multidão está comprada e a subsidiar essa posição hora após hora. Essa multidão é o combustível. Não é preciso que esteja errada; basta que esteja concentrada. Porque quando um preço já refletiu todo o otimismo alavancado disponível, o caminho de menor resistência deixa de ser para cima e passa a ser para baixo, na direção onde estão as ordens de liquidação. O funding não diz quando chega o fósforo. Diz quanto combustível está empilhado à espera dele.
O que o funding mede, em 30 segundos
Na maioria das plataformas, o funding tem duas peças: um índice de prémio (a distância entre o preço do perpétuo e o do spot) e uma componente de juro fixa, na ordem dos 0,01% por período em regime neutro. Bolsas como a Binance ou a Bybit liquidam-no a cada oito horas; a Hyperliquid e outras cobram-no de hora a hora. O detalhe que mais confunde principiantes é que o funding não é uma comissão paga à corretora: é uma transferência entre traders. Quem está do lado sobrelotado paga a quem está do lado contrário.
Em termos absolutos, 0,01% em oito horas parece irrisório. Anualizado, dá cerca de 11%, e em episódios de euforia pode disparar para lá dos 30% ou 40%. Mas o valor do funding como sinal não está no custo: está na direção e na persistência. Um funding que se mantém alto durante semanas descreve um mercado de um só lado, e um mercado de um só lado é, por definição, um mercado com pouca gente pronta a comprar a queda. Para ler o funding como uma curva a prazo, e não como um número solto, escrevemos uma peça só sobre isso; para a anatomia dos colapsos, basta reter que o funding é o termómetro do posicionamento.
Vale a pena fazer as contas para não subestimar o custo. Um funding de 0,03% a cada oito horas, valor típico de um mercado moderadamente comprado, soma cerca de 0,09% por dia e mais de 30% anualizados. Quem mantém uma posição comprada alavancada durante semanas num regime destes está a pagar, só de funding, uma fatia que pode ultrapassar o próprio movimento de preço que espera capturar. O funding não é apenas um sinal de multidão: é um relógio a correr contra quem chegou tarde, e caro, à mesma aposta de toda a gente.
Porque a alavancagem e o funding andam sempre juntos
Uma cascata de liquidações tem sempre a mesma coreografia. A alavancagem faz com que um movimento pequeno de preço force o encerramento automático de posições. Esse encerramento é executado como uma ordem de mercado, que por sua vez empurra o preço mais além, o que aciona a liquidação seguinte, e assim sucessivamente. O motor não é o pânico humano; é a matemática da margem. E o funding é o instrumento que, antes de tudo isto começar, nos diz de que lado está empilhada a lenha.
Há um agravante estrutural moderno: a margem cruzada. Em contas que partilham colateral entre vários ativos, um choque num único token pode arrastar a conta inteira, e com ela posições que nada tinham a ver com o gatilho original. A investigação académica dá base a esta fragilidade: o working paper 1087 do BIS, sobre o «carry» da cripto, conclui que a taxa de carry (de que o funding é a expressão de curtíssimo prazo) atinge em média mais de 10% ao ano, com picos perto dos 60%, e que «um carry elevado prevê quedas de preço futuras». Traduzido: quando pagar para estar comprado fica caro de mais, o mercado costuma estar a preparar a conta.
Um exemplo torna a dinâmica concreta. Um trader com alavancagem de cinco vezes é liquidado com uma queda de cerca de 20% no preço; a dez vezes, bastam uns 10%; a vinte e cinco vezes, menos de 4%. Quando milhares de posições partilham níveis de liquidação próximos, a primeira vaga de encerramentos empurra o preço até ao gatilho seguinte, que aciona a vaga seguinte. O funding elevado das horas anteriores é precisamente o que nos diz que essa muralha de posições existe e de que lado está. Um funding sobreaquecido não é uma curiosidade estatística: é o mapa da munição.
2016: a BitMEX constrói a máquina
O perpétuo moderno nasce em maio de 2016, quando a BitMEX lança o contrato XBTUSD. O objetivo declarado do seu cofundador, Arthur Hayes, era concentrar liquidez: em vez de dispersar o interesse por dezenas de futuros com vencimentos diferentes, criar um único produto sem expiração. O problema técnico era óbvio, sem uma data de entrega, o que impede o preço de derivar para longe do spot? A resposta foi o funding. Num texto retrospetivo, Hayes resume a mecânica com um exemplo simples: se o perpétuo negociou, em média, com um prémio de 1% sobre o spot nas últimas oito horas, os longs pagam 1% aos shorts. O prémio incentiva a arbitragem que reata o elástico.
A engenharia funcionou tão bem que se tornou o padrão de toda a indústria. Mas teve um efeito colateral que molda tudo o que se segue neste artigo: criou uma máquina de alavancagem sempre ligada, sem os vencimentos que, no mundo dos futuros tradicionais, forçam periodicamente a limpeza das posições. Um futuro com data obriga o mercado a acertar contas em cada expiração. O perpétuo nunca obriga ninguém a sair. Só o funding, e as liquidações, o fazem.
Maio de 2021: o arquétipo da purga
Se há um molde para tudo o que veio depois, é a queda de maio de 2021. Depois de meses de mercado em alta, com o funding ricamente positivo em quase todas as bolsas, a Bitcoin tinha atraído uma camada espessa de posições compradas alavancadas. O gatilho visível foi a Tesla a suspender os pagamentos em Bitcoin, invocando o consumo energético da mineração; o gatilho real era a lenha acumulada. Quando a narrativa estalou, os longs sobrealavancados foram encerrados em cadeia, e o que demorara meses a construir apagou-se em horas.
O padrão ficou desde então gravado: euforia, funding quente durante semanas, um único título de jornal e uma descida vertical. Não foi, na sua maioria, uma debandada de pequenos investidores em spot; foi uma purga de alavancagem entre traders profissionais e nativos da cripto. A lição que o mercado deveria ter interiorizado, e que voltaria repetidamente a esquecer, é que o funding elevado não é um troféu de tese vencedora: é uma fatura de risco a acumular, cobrada de uma só vez quando menos convém.
2022: o desmoronar em câmara lenta
Nem todos os colapsos são instantâneos. O ano de 2022 foi o do desmoronamento em câmara lenta: o fundo Three Arrows Capital, a plataforma Celsius e, em novembro, a FTX caíram uns atrás dos outros, num efeito dominó de crédito e contraparte mais do que de liquidação intradiária. Curiosamente, o episódio da FTX provocou «apenas» cerca de mil milhões de dólares em liquidações diretas, um valor que, à luz do que veio depois, parece quase modesto.
O mais instrutivo, para quem lê o funding, foi o que aconteceu a seguir. Com a Bitcoin esmagada na casa dos 15.500 dólares e o medo generalizado, o funding virou negativo e ali ficou durante cerca de mês e meio: os shorts estavam agora sobrelotados e a pagar aos longs. Historicamente, é esse o sinal clássico de capitulação. O funding profundamente negativo raramente marca o auge do pessimismo racional; marca o momento em que apostar na descida se tornou a operação da moda, e, portanto, a mais frágil a um repique. Foi mais ou menos o que sucedeu: o fundo estava próximo, e quem leu o sinal ao contrário da multidão foi recompensado.
10 de outubro de 2025: o dia em que a infraestrutura partiu
Se maio de 2021 foi o arquétipo, 10 de outubro de 2025 foi a versão levada ao extremo, o maior evento de liquidação da história da cripto. E o funding tinha avisado. Segundo a autópsia da FTI Consulting, o funding tinha subido de cerca de 10% para quase 30% anualizados até 6 de outubro, empurrado por um rali do Ethereum que encheu o livro de posições compradas. O interesse em aberto agregado em contratos alavancados chegou aos 217 mil milhões de dólares. O medidor de combustível estava no vermelho havia dias.
O fósforo chegou de Washington: um anúncio de Donald Trump de uma tarifa de 100% sobre as importações chinesas. O que se seguiu está documentado pela CoinGecko: mais de 19 mil milhões de dólares em posições alavancadas liquidados em 24 horas, 1,6 milhões de contas encerradas, um evento «nove vezes maior do que qualquer liquidação diária anterior». Para dimensionar, isso faz a queda da FTX, com o seu mil milhão de dólares, parecer um arredondamento. A Bitcoin caiu de 122.574 para 104.782 dólares, cerca de 14,5%, e a velocidade foi o mais assustador: perto de 70% das liquidações, uns 6,93 mil milhões de dólares, concentraram-se em 40 minutos, com 3,21 mil milhões a evaporarem-se num único minuto.
A conclusão da FTI é a tese central deste artigo, e vale a pena citá-la: «foi a própria infraestrutura, não fraude nem insolvência, que transformou uma correção normal numa cascata». A margem cruzada amarrou as carteiras aos seus ativos mais fracos; a alavancagem, sinalizada pelo funding sobreaquecido, forneceu o combustível; a tarifa foi apenas o fósforo. Não houve um vilão. Houve um sistema desenhado para ser eficiente que, sob stress, se autoflagelou. Postos lado a lado, os grandes episódios não se parecem no gatilho, mas rimam no que o funding mostrava antes.
| Evento | Escala das liquidações | Gatilho | O que o funding mostrava |
|---|---|---|---|
| Purga da alavancagem (maio 2021) | Vários mil milhões USD num dia | Tesla trava pagamentos em BTC | Positivo e quente havia meses |
| Colapso da FTX (nov 2022) | ≈1 mil milhão USD (diretas) | Insolvência FTX/Alameda | Negativo ≈46 dias (capitulação) |
| Flash crash 10/10 (out 2025) | >19 mil milhões USD / 24h | Tarifa de 100% sobre a China | Subiu de ≈10% para ≈30% anualizado |
| Short squeeze (ago 2026) | ≈1,74 mil milhões USD (shorts) | Recompra de dívida do Tesouro | Negativo (shorts sobrelotados) |
2026: o ano em que o funding não parou quieto
O ano de 2026 foi uma aula acelerada sobre a volatilidade do próprio funding. Começou quente: em janeiro, com a Bitcoin a testar máximos, o funding na Deribit saltou para lá dos 30% anualizados, um sinal de alavancagem esticada que analistas leram como aviso de correção. Depois inverteu-se. Em fevereiro e abril, o funding mergulhou em terreno negativo em várias ocasiões, e a partir daí veio o episódio mais notável do lado dos shorts.
Segundo a CoinDesk, o funding da Bitcoin manteve-se negativo durante 67 dias consecutivos até início de maio, o mais longo em dez anos (dados da K33 Research), batendo o recorde de 62 dias do crash da COVID em 2020. Foram 201 pagamentos seguidos em que quem estava vendido subsidiou quem estava comprado. Um mar de shorts sobrelotados é, pela mesma lógica de sempre, combustível, só que a apontar para o lado contrário.
A fatura chegou em agosto. A 19 e 20 de agosto, o short squeeze apanhou os vendedores: cerca de 1,74 mil milhões de dólares em shorts liquidados em 24 horas, o segundo maior evento do género de sempre (atrás dos 2,47 mil milhões de 10 de outubro de 2025, segundo a CoinGlass), com aproximadamente 92% das liquidações do lado curto. A Bitcoin subiu 10% num dia para lá dos 72.000 dólares. O estopim foi macro (o Tesouro dos EUA a duplicar as recompras de dívida de longo prazo), mas a lenha era o posicionamento vendido que o funding negativo denunciava havia semanas. Alguns meios noticiaram totais próximos dos três mil milhões de dólares, consoante a metodologia; a direção é o que importa.
Memecoins e ADL: o colapso feito à medida
Na cauda da curva de risco, os perpétuos de memecoins colapsam de uma maneira própria, onde a alavancagem se cruza com a manipulação e com os próprios mecanismos de defesa das plataformas. O caso da FARTCOIN, em abril de 2026, é o manual. Segundo a CoinDesk, duas carteiras montaram na Hyperliquid uma posição comprada de cerca de 145 milhões de tokens através de ordens programadas, empurrando o preço para cima, antes de tudo desabar 50% numa única vela horária. O autor da jogada perdeu cerca de três milhões de dólares.
O que este episódio acrescenta é o papel do auto-deleveraging (ADL). Quando um trader é liquidado e não há liquidez para absorver a posição sem pôr o fundo de seguro em risco, algumas bolsas fecham à força as posições rentáveis do lado contrário para socializar a perda. É uma rede de segurança que evita que a plataforma fique insolvente, mas que também significa que um trader do lado certo pode ser expulso do lucro sem aviso. Nos ativos finos e muito alavancados, o funding é apenas o primeiro dos riscos; o ADL é o que fecha a armadilha, e é uma peça da mecânica que os perpétuos de memecoins expõem melhor do que qualquer manual.
Do outro lado da mesa: quem lucra com a queda
O funding é um jogo de soma zero: cada euro que o long sobrealavancado paga vai parar ao bolso de alguém do lado contrário. E há quem esteja estruturalmente sentado nesse lado. A stablecoin USDe, da Ethena, é o exemplo mais visível: mantém uma posição delta-neutra (comprada no colateral à vista, vendida em perpétuos de valor equivalente) e transforma o funding positivo que os longs pagam em rendimento distribuído aos detentores. As mesas de arbitragem e os criadores de mercado fazem o mesmo com a operação clássica de cash-and-carry: compram spot, vendem o perpétuo e colhem a diferença.
Quando os longs são varridos numa cascata, estes agentes estavam, por construção, do lado que recebeu. Mas não é dinheiro grátis. Em regimes de funding negativo, a colheita inverte-se e passa a ser um custo; e a própria USDe perdeu brevemente a paridade durante o pânico de outubro de 2025, um lembrete de que estar «coberto» não é o mesmo que estar imune. Quem vende volatilidade e colhe carry ganha na esmagadora maioria dos dias e devolve tudo, muitas vezes com juros, nos poucos dias verdadeiramente maus. É o retrato do funding visto do lado do credor, e explica porque as cascatas nunca são um desastre para toda a gente.
Convém, ainda assim, não romantizar a colheita. A estratégia delta-neutra parece dinheiro fácil numa folha de cálculo, mas concentra riscos que só aparecem nos piores dias: a bolsa onde está o short pode falhar, o colateral à vista pode desvalorizar mais depressa do que o perpétuo, e o ADL pode fechar a perna vendida no pior momento possível. Historicamente, o carry positivo paga um pingo constante durante meses e depois exige devolver vários desses meses de uma só vez. É a mesma assimetria que o BIS descreve para o mercado no seu todo, agora vista do ponto de vista de quem julgava estar do lado seguro.
Ler o funding para ver o colapso a chegar
O erro mais comum é olhar para o funding isolado. Sozinho, é ruído: oscila com cada vela. O sinal aparece quando se cruza o funding com o interesse em aberto (OI) e com o preço. A regra prática: funding a subir com OI a subir e preço estagnado significa alavancagem nova a empilhar-se, ou seja, fragilidade à descida. Funding profundamente negativo depois de uma capitulação significa shorts sobrelotados, ou seja, fragilidade a um squeeze.
O analista on-chain Axel Adler Jr. formulou bem esta leitura combinada num comentário de finais de agosto: com o interesse em aberto a recuar de 331.100 para 318.600 BTC, dizia que o mercado «ainda não está sobreaquecido», mas está «cada vez mais sensível a movimentos de descida», e avisava que «se o interesse em aberto voltar a subir enquanto o funding continua a trepar, a alavancagem comprada reconstrói-se depressa» e «o risco de um long squeeze pode aumentar bruscamente se os preços caírem». É a coreografia da cascata, descrita antes de acontecer.
Há ainda a questão do sítio onde se olha. O funding on-chain, em plataformas dominadas por traders de retalho com forte viés comprado como a Hyperliquid, tende a correr estruturalmente mais quente do que o das grandes bolsas centralizadas, o que faz da mesma leitura um sinal de intensidade diferente consoante o local. Uma multidão que aceita pagar caro pela alavancagem produz um funding mais alto e mais volátil. Ler o funding é também saber qual multidão se está a medir. A grelha seguinte resume como traduzir cada regime num diagnóstico de risco.
| Regime de funding | O que significa | Risco dominante | Precedente |
|---|---|---|---|
| Muito positivo e a subir, com OI a subir | Longs sobrelotados, alavancagem nova | Cascata de descida | Out 2025 (10% a 30%) |
| Positivo e estável | Otimismo saudável, carry normal | Baixo, mas a vigiar | Setembro 2026 (KFRI +8,14%) |
| Negativo pontual | Cobertura ou fluxo estrutural | Ambíguo (ver secção seguinte) | Fev e abr 2026 |
| Muito negativo e persistente | Shorts sobrelotados, capitulação | Short squeeze | Maio 2026 (67 dias) |
Quando o funding mente
A leitura contrária tem uma armadilha: o funding nem sempre reflete sentimento. Às vezes reflete mecânica. No início de 2026, o funding chegou a uma média de -5% mesmo enquanto a Bitcoin subia 15%. O fundador da 10x Research, Markus Thielen, alertou na CoinDesk que «algo estrutural está a acontecer no mercado de futuros, não uma mudança de sentimento», e que se tratava de «operações mecânicas de gestão de risco, não de apostas pessimistas»: coberturas de resgates de fundos, operações de base ligadas às ações da Strategy e coberturas de mineradores a migrar para a inteligência artificial.
E há o outro lado do espelho: o funding negativo é, historicamente, mais sinal de compra do que de alarme. A VanEck, pela mão do seu responsável de investigação de ativos digitais, Matthew Sigel, documentou que, desde 2020, os períodos de funding negativo precederam retornos médios de 11,5% a 30 dias, contra 4,5% de média geral, com uma taxa de acerto de 77%. Ou seja: a mesma leitura (funding negativo) pode significar «fundo próximo» ou «fluxo estrutural a distorcer o sinal». Distinguir os dois exige saber porquê, não apenas quanto. O funding é um termómetro fiável; a interpretação é que não é automática. Vale para os perpétuos o mesmo cuidado que descrevemos ao ler o risco por trás dos juros on-chain: o número diz-lhe o estado, não a causa.
O que a CMVM e a ESMA veem nos perpétuos
Para o investidor de retalho na Europa, um perpétuo de cripto não é, do ponto de vista legal, um «ativo cripto» à vista. É um derivado, um contrato por diferenças (CFD), e, como tal, um instrumento financeiro sob a diretiva MiFID II, supervisionado em Portugal pela CMVM, e não pelo regulamento MiCA (que cobre o spot e os prestadores de serviços de criptoativos). Num comunicado de 24 de fevereiro de 2026, a ESMA foi explícita: os perpétuos são CFD independentemente do nome comercial, e o próprio mecanismo de funding «não altera a classificação» do produto.
A consequência prática é dura. Para clientes não profissionais, a alavancagem em cripto está limitada a 2:1, com encerramento automático por margem, proteção contra saldo negativo e avisos de risco obrigatórios. Porquê tanta cautela? Porque, como recordou o Jornal Económico a propósito das regras da CMVM, entre 74% e 89% dos investidores não profissionais que negoceiam CFD perdem dinheiro, com prejuízos médios entre 1.600 e 29.000 euros. As cascatas que este artigo percorre são, no fundo, a razão de existirem estas grades de proteção. O funding que sobreaquece antes de um colapso é exatamente o tipo de sinal que o regulador teme que o pequeno investidor não saiba ler a tempo. E como o calendário macro de setembro, com a decisão da Fed no radar, volta a agitar a alavancagem, vale a pena rever o nosso guião para a reunião do FOMC.
Como acompanhar o funding em tempo real
A boa notícia é que o funding é um dos dados mais transparentes da cripto. Para quem quer acompanhar o medidor de combustível sem depender de uma só bolsa, há três camadas úteis: um índice de referência institucional, agregadores de mercado e os mapas de liquidação. A tabela reúne as ferramentas mais usadas nas redações e nas mesas de trading.
| Ferramenta | O que dá | Melhor para |
|---|---|---|
| KFRI (CF Benchmarks) | Índice de referência do funding de BTC | Um número «oficial» e comparável no tempo |
| CoinGlass | Funding por bolsa, OI e mapa de liquidações | Ver onde estão os stops agrupados |
| Coinalyze | Funding agregado e histórico multi-bolsa | Comparar venues e detetar divergências |
| Páginas das próprias bolsas | Funding em vigor e previsto do contrato | Confirmar o custo antes de abrir posição |
O que vigiar não é o valor de um único período, mas três coisas em conjunto: o funding agregado entre bolsas (para não ser enganado por uma só), a relação entre funding e interesse em aberto (a alavancagem a reconstruir-se) e o mapa de liquidações (onde uma vela pode desencadear a cascata). Foi exatamente o que faltou a milhões de contas a 10 de outubro de 2025. O sinal estava lá, à vista, dias antes. A diferença entre quem o leu e quem foi apanhado não foi informação privilegiada; foi hábito de olhar para o medidor certo.
No fim, a lição de uma década de colapsos é modesta e incómoda: o funding não prevê o dia nem a hora, mas raramente mente sobre o estado do mercado. Diz quando a alavancagem está esticada, de que lado, e quão depressa se reconstrói. Não substitui a gestão de risco, o dimensionamento da posição ou os stops; complementa-os. Quem trata o funding como um dos instrumentos do painel, e não como uma bola de cristal, evita os dois erros clássicos: ignorar o medidor e confiar cegamente nele.
Perguntas frequentes
O que é o funding dos perpétuos?
O funding é um pagamento periódico, normalmente a cada oito horas, trocado entre traders comprados e vendidos num contrato perpétuo, para manter o preço do derivado colado ao preço à vista. Quando o perpétuo negoceia acima do spot, os longs pagam aos shorts; quando negoceia abaixo, os shorts pagam aos longs. Não é uma comissão da bolsa, é uma transferência entre as duas pontas.
O funding pode causar uma queda de mercado?
Sozinho, não. O funding não move o preço diretamente; mede quanta alavancagem está concentrada de um lado. Quando fica muito elevado durante dias, sinaliza uma multidão comprada e frágil, o combustível de uma futura cascata. Basta então um gatilho externo, como uma notícia ou um dado macroeconómico, para desencadear as liquidações. O funding avisa, não dispara.
Funding negativo é bom ou mau sinal?
Depende do porquê. Historicamente, o funding profundamente negativo tem sido mais sinal de compra contrária do que de alarme, com retornos médios superiores após esses períodos segundo dados da VanEck. Mas pode também refletir fluxos estruturais, como coberturas e operações de base, e não pessimismo, como notou a 10x Research em 2026. A leitura correta exige perceber a causa, não apenas o número.
Qual foi a maior liquidação da história da cripto?
O flash crash de 10 de outubro de 2025, quando mais de 19 mil milhões de dólares em posições alavancadas foram liquidados em 24 horas e 1,6 milhões de contas encerradas, um evento cerca de nove vezes maior do que qualquer liquidação diária anterior, segundo a CoinGecko. O funding tinha subido de cerca de 10% para quase 30% anualizados nos dias anteriores.
Como é que Portugal regula os perpétuos de cripto?
Os perpétuos são tratados como contratos por diferenças (CFD), instrumentos financeiros sob a MiFID II supervisionados pela CMVM, e não pelo MiCA. Para investidores de retalho, a alavancagem em cripto está limitada a 2:1, com proteção contra saldo negativo e avisos de risco. A ESMA confirmou em 2026 que o mecanismo de funding não altera esta classificação.
Por Liam Brennan, editor de mercados da HOGE Wire.