O carry do Bitcoin em prova: sete anos de basis trade
Toda a gente cita os 40% da era dourada; quase ninguém mostra o P&L completo. Um backtest do carry do Bitcoin desde 2019 revela as duas caudas que o destruíram e porque a taxa a 4% mudou tudo.
Quando alguém quer vender-lhe o basis trade do Bitcoin, cita sempre o mesmo número: mais de 40% ao ano, «quase sem risco», em 2021. É um número real. Também é uma fotografia tirada numa única tarde de sol. Ponha o historial completo em cima da mesa, de 2019 até hoje, incluindo os dois dias em que o céu caiu, e a história muda por inteiro. Este é o backtest que quase ninguém publica.
Neste artigo reconstruímos o que o cash-and-carry do Bitcoin rendeu ao longo de sete anos, regime a regime, líquido da taxa sem risco; olhamos para os dois eventos de cauda (março de 2020 e o colapso de 2022) que a narrativa da arbitragem sem risco finge que não existem; e explicamos porque é que, depois de a Reserva Federal ter subido os juros para 3,75-4,00% em 16 de setembro, a base suave já negoceia abaixo do que rende um simples Bilhete do Tesouro. A conclusão não é que o basis trade seja mau. É que nunca foi o almoço grátis que a fotografia sugere.
A promessa e a fotografia enganadora
Todos os guias sobre a base repetem os picos: os 25% de fevereiro de 2024, os mais de 20% de novembro desse ano, os quase 50% da primavera de 2021. Os picos são a exceção, não a regra, e uma estratégia não se define pelos seus melhores dias, define-se pelos piores. O carry do Bitcoin passou grande parte de 2020 e 2021 a parecer uma máquina de imprimir dinheiro e, por duas vezes, devolveu uma fatia enorme desse lucro em poucas horas.
Há uma expressão na banca de derivados para estratégias com este perfil: apanhar moedas à frente de um rolo compressor. Nos dias normais, o chão está cheio de moedas e ninguém vê a máquina. O basis trade tem dois rolos compressores no seu historial. O primeiro é a liquidez: em março de 2020, quem estava dentro da posição foi forçado a desfazê-la no pior momento possível. O segundo é a contraparte: em 2022, a corretora que guardava a garantia e a perna vendida simplesmente deixou de existir. E há um terceiro perigo, mais lento e menos dramático, que domina 2026: a taxa sem risco a subir até alcançar e depois ultrapassar a base, apagando a vantagem sem qualquer estrondo.
O que é a base e porque é que se pode ganhar dinheiro com ela
A base é a diferença entre o preço do futuro e o preço à vista (spot). Quando o futuro está mais caro do que o spot, o mercado está em contango, normalmente sinal de otimismo e de procura alavancada; quando está mais barato, está em backwardation, sinal de tensão e de desalavancagem forçada. Para comparar prazos diferentes, anualiza-se: base anualizada = (base dividida pelo spot) multiplicada por 365 a dividir pelos dias até ao vencimento. Um prémio pequeno num contrato que vence daqui a uma semana pode traduzir-se num número anualizado enorme, um detalhe que, como veremos, engana muita gente.
O cash-and-carry monta-se assim: compra-se o Bitcoin à vista (hoje, tipicamente através de um ETF) e vende-se em simultâneo um futuro de nocional igual. Como as duas pernas se anulam em preço, a posição é neutra ao mercado: não interessa se o Bitcoin sobe ou desce. No vencimento, o futuro converge para o spot e o investidor embolsa a base inicial. Daí a fama de «quase sem risco». O problema está escondido na fórmula do preço justo do futuro: F = S (1 + r T), em que r é a taxa sem risco e T o tempo até ao vencimento. A base justa é, essencialmente, o custo de transporte do capital, ou seja, a própria taxa sem risco. Tudo o que exceda r é o verdadeiro prémio da cripto. Guarde esta ideia: quando r era zero, todo o carry era lucro extra; quando r é 4%, o carry tem primeiro de pagar esses 4% antes de valer a pena.
A regra do backtest: medir o retorno a sério
Um backtest honesto não pode limitar-se a apontar a base bruta que aparece nos ecrãs. A base anualizada de manchete é um número bruto; o retorno realizado é outra coisa. Entre um e outro há uma pilha de custos que raramente entra na conversa: comissões de entrada e saída nas duas pernas, o custo de rolar a posição quando o contrato vence (a rolagem, que num trimestre mau pode comer boa parte do prémio), o deslize (slippage) na execução, o capital imobilizado como garantia que deixa de render noutro sítio, as chamadas de margem quando a volatilidade dispara e, o mais esquecido de todos, o risco da própria corretora onde a posição vive. Quem quiser ver o outro lado da rolagem, a mecânica de fechar um contrato a vencer e abrir o seguinte, encontra-o detalhado na rolagem que reinicia o tabuleiro a cada expiração trimestral.
Há ainda a armadilha da anualização. Um contrato de frente com um prémio modesto de 0,6% que vence daqui a um mês transforma-se, ao anualizar, em quase 8%. É um número verdadeiro mas frágil: assume que se consegue repetir aquele prémio doze vezes seguidas, o que quase nunca acontece. Por isso, ao longo deste backtest, distinguimos sempre a base de frente (volátil, sujeita a artefactos de anualização) da base suave a três meses (constante-maturidade), que é a que melhor descreve o retorno que um investidor institucional consegue mesmo replicar. E medimos tudo contra r, a taxa sem risco do período, porque só o excesso sobre r é retorno genuíno.
E há uma armadilha ainda mais traiçoeira: o enviesamento de sobrevivência. Metade das corretoras onde o carry brilhou em 2019 e 2020 já não existe ou mudou de forma irreconhecível (a FTX desapareceu, a BitMEX saiu do mercado norte-americano, a OKEx mudou de nome e de jurisdição). Um backtest que use apenas as plataformas que sobreviveram apaga precisamente os episódios em que a estratégia mais perdeu, inflacionando o retorno histórico. Medir o carry a sério obriga a incluir os mortos, não apenas os vivos.
2019-2020: a era pré-ETF e o primeiro rolo compressor
Em 2019, o basis trade vivia longe de Wall Street. As pernas montavam-se em corretoras offshore (BitMEX, OKEx, Deribit, mais tarde FTX), a base de dois dígitos era comum e a taxa sem risco andava perto de 2%. Era um negócio de nicho, tecnicamente exigente e cheio de risco operacional, mas o carry compensava. Depois chegou a Quinta-Feira Negra.
A 12 de março de 2020, com a pandemia a derreter todos os mercados, o Bitcoin caiu cerca de 40% num dia e o basis trade conheceu o seu primeiro rolo compressor. Segundo a análise da BTSE sobre a base dos futuros nessa data, os contratos na BitMEX chegaram a negociar com um desconto de cerca de 400 dólares face ao spot (cerca de -19%), enquanto a base na OKEx foi de +0,4% em contango na véspera para -15,1% em backwardation. Anualizada, a base a um mês afundou para -88,9% na Kraken e -154,1% na OKEx; a três meses, chegou a -62,8% na FTX, -49,2% na BitMEX e -44,2% na Deribit.
Repare no que isto significa para quem estava dentro da arbitragem. Em teoria, a posição era neutra: a perna vendida ganhava tudo o que a perna comprada perdia. Na prática, a delta estava coberta mas a liquidez não. As liquidações em cascata dispararam chamadas de margem que era preciso satisfazer com dinheiro vivo; várias corretoras acionaram mecanismos de auto-desalavancagem (ADL) que fecharam à força posições vendidas lucrativas, quebrando a cobertura no pior momento; e quem precisou de desfazer a posição fê-lo em pleno vácuo de liquidez. O trade «sem risco» deu prejuízo real a muita gente que fez tudo certo. A lição de março de 2020 não é sobre preço, é sobre a diferença entre estar coberto e estar liquido.
2021: o pico dourado e a lenda dos 40%
Se há um ano que fundou a lenda do carry cripto, foi 2021. A recuperação pós-crash e a euforia de touros levaram a base a máximos que hoje parecem irreais. A CoinDesk noticiou em abril de 2021 que o prémio anualizado do contrato de junho chegava aos 44-48% nas corretoras offshore (cerca de 30% na Delta Exchange), subindo de uns 32% para mais de 40% à medida que o Bitcoin rompia os 60 mil dólares. Era aproximadamente três vezes o que rendia uma obrigação do Tesouro norte-americano. Patrick Heusser, então da Crypto Finance AG, resumiu o apetite institucional pela estratégia numa frase seca à CoinDesk: «That’s what we initiated today.»
Aqui está o detalhe que quase toda a gente omite quando invoca esse 44%: em 2021, a taxa sem risco era praticamente zero. A Fed mantinha os juros no chão desde o choque da pandemia, pelo que a totalidade daquele prémio era excesso, retorno puro acima do que rendia o dinheiro parado. Foi esse alinhamento raro (base altíssima e r nulo) que fez do biénio 2020-2021 a verdadeira era dourada. Não foi só o carry ser grande; foi não haver alternativa nenhuma a competir com ele. Quem recordar apenas o número da base e esquecer o zero da taxa sem risco está a comparar duas eras que não são comparáveis.
2022: o risco que dizia não existir
Se março de 2020 foi o rolo compressor da liquidez, 2022 foi o da contraparte, e este foi muito pior para o basis trade, porque atacou exatamente o ponto que a narrativa da arbitragem sem risco jurava ser seguro. O ano começou com o desmoronar da Terra/Luna em maio, seguiu-se a implosão do fundo Three Arrows Capital, depois Celsius e Voyager, e culminou em novembro com o colapso da FTX, na altura uma das maiores corretoras do mundo.
O segredo sujo do cash-and-carry é este: a garantia e a perna vendida vivem dentro de uma corretora. Se essa corretora falir, a posição «neutra ao mercado» transforma-se numa perda de 100% sobre o capital que lá ficou preso. Não interessa que a delta estivesse perfeitamente coberta; se a FTX congela os levantamentos, a cobertura vale zero. A literatura académica já dissecou esta fragilidade estrutural, incluindo o trabalho sobre a queda da FTX e a consolidação em torno da Binance, que mostra como o risco de contraparte se propagou por um sistema que se julgava desenhado para o eliminar. Para o backtest, 2022 é a prova de que o «sem risco» era publicidade: o risco não estava no preço do Bitcoin, estava na assinatura por baixo do contrato. Quem confundir uma estratégia neutra ao preço com uma estratégia sem risco vai descobrir a diferença da forma mais cara possível.
2024-2025: a industrialização e o início da compressão
Janeiro de 2024 mudou a mecânica da perna comprada. Com a aprovação dos ETF de Bitcoin à vista nos Estados Unidos, a arbitragem deixou de precisar de custodiar moedas em corretoras exóticas: bastava comprar um ETF regulado e vender o futuro na CME. A perna do dinheiro ficou limpa, barata e institucional. A análise da CF Benchmarks sobre a base do Bitcoin mostra a base anualizada da CME perto de 25% em fevereiro de 2024 e ainda acima de 20% em novembro, após as eleições norte-americanas, com o open interest a crescer mais de 80% desde o lançamento dos ETF. Foi a época do carry «aborrecido» de 15 a 25%, industrializado e aparentemente domesticado.
Aparentemente. Ao longo de 2025, mesmo com a Fed a cortar juros três vezes (setembro, outubro e dezembro), a base foi comprimindo. A alavancagem arrefeceu, a procura direcional recuou e, em fevereiro de 2025, aconteceu o quase impensável em plena maré alta: a base voltou a mergulhar abaixo de zero, backwardation, sem qualquer crash à vista. O excesso sobre r começou a encolher pelas duas pontas ao mesmo tempo: a base a cair e a taxa sem risco a manter-se teimosamente alta, entre 4% e 5%. O prémio que sobrava para o arbitragista era cada vez mais fino.
2026: o carry passa por baixo do Tesouro
Chegamos a 2026 com a base a fazer algo que nunca fizera de forma tão prolongada: render menos do que a dívida pública. O analista Marc Baumann calculou que a base tinha ficado abaixo do referencial governamental durante 157 dias consecutivos antes de agosto, segundo dados compilados pela CryptoSlate. Quando o rali de agosto reanimou os números (7,89% no contrato de frente, 6,25% em setembro, 5,69% em dezembro, contra 4,19% da nota do Tesouro a 2 anos), o 7,89% era precisamente o tal artefacto de anualização de um prémio de curtíssimo prazo; a base suave a três meses andava perto de 3%, já abaixo do Bilhete do Tesouro a três meses, nos 4%.
Este padrão não é medo, é mecânica. Michael Marshall, responsável de investigação da Amberdata, tinha descrito o episódio análogo do outono de 2025 à CoinDesk como «a mechanical basis trade unwind, not broad investor fear»: a base anualizada a 30 dias comprimira de 6,63% para 4,46%, 93% dos dias ficaram abaixo do limiar de rentabilidade de 5% e o mercado, dizia, ficou «cleaner». Quem saiu foram as bancas de arbitragem, não os investidores de longo prazo. O relatório 13F da CoinShares para o primeiro trimestre de 2026 mostra os hedge funds a cortarem cerca de 31.400 BTC de exposição via ETF (menos 39%), enquanto os bancos mais do que triplicaram a sua posição, subindo 339% para 15.200 BTC. O carry deixou de compensar para quem o fazia por arbitragem; a compra passou a ser de convicção. Para o pano de fundo macro em que tudo isto acontece, veja se o inverno cripto realmente acabou.
A tabela: sete anos de regimes
Junte tudo numa só imagem e o backtest deixa de ser uma coleção de anedotas para se tornar um padrão claro. A tabela seguinte resume o carry regime a regime, sempre confrontado com a taxa sem risco do período (aproximada pelo Bilhete do Tesouro a três meses, série DTB3 da Reserva Federal de St. Louis). As percentagens de base provêm das fontes já citadas (BTSE, CoinDesk, CF Benchmarks, CryptoSlate) e são aproximações destinadas a mostrar a ordem de grandeza, não cotações ao cêntimo.
| Período / regime | Base anualizada (aprox.) | Taxa sem risco (T-bill 3M) | Excesso sobre r |
|---|---|---|---|
| 2019 (offshore, nicho) | ~10 a 15% | ~2,1% | ~+8 a +13% |
| Março 2020 (Quinta-Feira Negra) | negativa (backwardation) | ~1% | perda (liquidez) |
| 2020 H2-2021 (era dourada) | 20 a 48% | ~0,05% | +20 a +48% |
| 2022 (contágio de contraparte) | colapso / negativa | ~2,0% | perda (contraparte) |
| 2024 (pós-ETF, industrialização) | ~25% | ~4,8% | ~+20% |
| Fim de 2024 (pós-eleições EUA) | >20% | ~4,5% | ~+16% |
| 2025 (compressão) | <0% em fevereiro | ~3,8% | ~0 ou negativo |
| 2026 (base suave 3M) | ~3% | ~4,0% | negativo (~-1%) |
A leitura é imediata. O carry só foi verdadeiramente extraordinário quando a taxa sem risco era zero (2020-2021). Em 2024, a base de 25% parece igualmente brilhante, mas com r a 5% o excesso real era mais próximo dos 20% do que dos 25%. E em 2026 o excesso é negativo: a base já não paga sequer o custo do dinheiro. O número da manchete continua positivo; o número que interessa deixou de estar.
A cauda esquerda: Sharpe, assimetria e o rolo compressor
Aqui está a parte que os folhetos de venda nunca mostram. Em mais de 95% dos dias, o basis trade produz um carry pequeno e regular, com pouquíssima volatilidade diária. Se medir o rácio de Sharpe (retorno por unidade de risco) apenas durante um período de bonança, obtém um número deslumbrante que faz a estratégia parecer uma máquina quase perfeita. É uma ilusão de amostra. Basta incluir março de 2020 e novembro de 2022 para a distribuição revelar a sua verdadeira forma: assimetria negativa acentuada e uma cauda esquerda gorda. Muitos ganhos minúsculos e, de vez em quando, uma perda que apaga anos de carry acumulado.
| Evento | Tipo de risco | O que aconteceu | Magnitude |
|---|---|---|---|
| Março 2020 | Liquidez / margem / ADL | Queda de ~40% num dia; backwardation extrema; cobertura quebrada à força por auto-desalavancagem | Base 1M anualizada até -88,9% (Kraken) e -154,1% (OKEx) |
| Novembro 2022 | Contraparte | Corretora insolvente (FTX) congela garantia e perna vendida | Perda potencial de 100% do capital preso |
| Fevereiro 2025 | Base / backwardation | Base abaixo de zero sem crash; carry negativo para quem estava em contango | Carry negativo, perda ligeira |
| 2026 (contínuo) | Taxa sem risco | r a ~4% ultrapassa a base suave a ~3% | Excesso negativo, sem qualquer estrondo |
Visto por esta lente, o cash-and-carry não é uma arbitragem, é uma estratégia de venda de volatilidade e de venda de risco de cauda disfarçada de arbitragem. O arbitragista é pago um prémio regular para armazenar o risco de que, um dia, a liquidez desapareça ou uma contraparte rebente. O working paper 1087 do Banco de Pagamentos Internacionais sobre o crypto carry chega a uma conclusão que devia estar impressa em qualquer prospeto: o carry médio ronda mais de 10% ao ano, com picos acima de 40%, mas os períodos de carry mais alto tendem a preceder as quedas, não a evitá-las. Traduzindo: quando o carry está gordo, é porque a alavancagem e o risco também estão. Querer o carry de volta é, no fundo, querer a espuma de volta.
O verdadeiro adversário: a taxa sem risco a 4%
Voltemos à fórmula F = S (1 + r T). A taxa sem risco r aparece lá duas vezes na vida do arbitragista: é o piso embutido no preço justo do futuro (a base «devia» valer pelo menos r) e é o custo de oportunidade do capital (podia estar num Bilhete do Tesouro a render r sem qualquer risco de contraparte). Por isso, o retorno que interessa nunca é a base, é a base menos r. E r acaba de subir outra vez.
A 16 de setembro, a Reserva Federal subiu a taxa diretora para 3,75-4,00%, a primeira subida desde julho de 2023 e o primeiro gráfico de pontos sob a presidência de Kevin Warsh, com a maioria dos membros a projetar pelo menos mais um passo em dezembro. Do outro lado do Atlântico, o Banco Central Europeu levou a taxa de depósito para 2,50% a 10 de setembro. O tom de Warsh não deixa margem para dúvidas sobre a direção: no seu discurso de Jackson Hole, disse que «I would be hard pressed to describe broad financial conditions as restrictive». Por outras palavras, o dinheiro ainda não está caro o suficiente para o gosto do banco central.
Para o basis trade, isto é decisivo. Com r perto de 4% e a base suave a três meses perto de 3%, o excesso é negativo: o carry já nem paga o custo do dinheiro. E, ao contrário do que muitos esperavam, a recuperação do preço não trouxe o carry de volta. O Bitcoin subiu para cerca de 86 mil dólares (perto de 73.500 euros) em finais de setembro, um máximo de nove meses, ainda assim uns 32% abaixo do recorde de 126.080 dólares de 6 de outubro de 2025, mas essa subida foi liderada pela procura à vista e pelos ETF, não pela alavancagem. Sem procura alavancada a empurrar os futuros para prémio, a base fica plana mesmo com o preço em máximos. Para o carry voltar aos dois dígitos teriam de acontecer duas coisas ao mesmo tempo: o regresso da procura direcional alavancada e uma descida da taxa sem risco. Nenhuma das duas está no horizonte imediato.
Há ainda uma nuance entre ativos que o backtest não pode ignorar. No Bitcoin, o único obstáculo do carry é a taxa sem risco. No Ethereum, há um segundo: o ETH à vista pode ser colocado em staking a render qualquer coisa como 3 a 4% ao ano, pelo que a perna comprada de um cash-and-carry em ETH tem um custo de oportunidade adicional. Para valer a pena, a base do ETH tem de bater não só o Bilhete do Tesouro, mas também o rendimento de staking a que se renuncia. É por isso que, muitas vezes, a base do ETH parece pior do que a do Bitcoin mesmo quando os números brutos são parecidos.
Quem consegue mesmo capturar o carry
O working paper do BPI explica porque é que o carry existe de todo: procura alavancada de retalho a perseguir tendências, capital de arbitragem limitado (não há dinheiro institucional infinito para fechar o desvio) e um prémio de conveniência. Ou seja, o carry é uma compensação por risco e por escassez de capital, não uma ineficiência de graça. E a maior parte dos investidores individuais não o consegue capturar, porque a distância entre a base bruta e o retorno líquido é enorme. O exemplo ilustrativo abaixo, para um particular em Portugal com uma base bruta de 3%, mostra como cada camada de custo come o prémio até quase nada.
| Etapa | Impacto aproximado | Resta (aprox.) |
|---|---|---|
| Base bruta suave (3 meses) | ponto de partida | ~3,0% |
| Comissões nas duas pernas + deslize | -0,3 a -0,7 pp | ~2,4% |
| Rolagem trimestral do futuro | -0,3 a -0,8 pp | ~1,8% |
| Custo do capital / margem imobilizada | -0,3 a -0,6 pp | ~1,3% |
| Prémio implícito de risco de contraparte | -0,3 a -0,5 pp | ~1,0% |
| Imposto (28%, categoria G) | -0,28 sobre o ganho | ~0,7% |
| Comparação: taxa sem risco / depósito BCE | referência | ~4,0% / 2,50% |
O resultado é demolidor: cerca de 0,7% líquido para o particular, contra 4% que rende sem esforço nem risco um Bilhete do Tesouro. Hoje, o carry de retalho é um negócio perdedor antes sequer de o rolo compressor aparecer. As instituições (com a perna do dinheiro num ETF, corretagem de primeira linha e financiamento barato) ainda capturam o que sobra, mas os números do 13F mostram que até elas saíram em peso. E é aqui que a distinção entre lucro contabilístico e caixa real importa, um tema que exploramos a propósito das tesourarias que perdem mil milhões sem vender nada: um carry que parece positivo no ecrã pode ser negativo depois de custos e imposto.
O que a base diz agora (e o que o backtest ensina)
A coisa mais útil a fazer com a base em 2026 não é colhê-la, é lê-la. A base é um medidor do preço da alavancagem. A CF Benchmarks mostrou que ela é coincidente com o momento do mercado (correlações de 0,50 e 0,54), não um indicador avançado: não prevê o mercado, descreve o estado atual da alavancagem. Uma base baixa e plana diz que a alavancagem está barata ou ausente. Interpretá-la bem é uma competência, tal como aprender a ler o volume, do número bruto ao sinal de negociação.
Isto reenquadra 2026. Uma base colada à taxa sem risco enquanto o preço está num máximo de nove meses não é fraqueza, é provavelmente saúde: não há espuma de alavancagem à espera de rebentar. E o próprio BPI lembra que o carry alto precede as quedas, pelo que querer o carry gordo de volta é querer de volta a fragilidade que costuma vir com ele. O backtest ensina precisamente isto: a história de «arbitragem sem risco» esteve sempre errada; o cash-and-carry é uma estratégia de carry positivo e assimetria negativa cuja vantagem sobre o dinheiro colapsou por razões estruturais, não por acidente.
Para quem investe, o backtest deixa três lições práticas. Primeira: nunca olhe para a base sem olhar ao lado para a taxa sem risco, porque é a diferença entre as duas que paga. Segunda: uma base muito alta não é um convite, é um aviso de que a alavancagem, e o risco de cauda que a acompanha, está a acumular-se. Terceira: se decidir mesmo montar o trade, o risco que o pode arruinar não é o preço do Bitcoin, é a corretora onde a posição vive; escolha-a como se um dia fosse falir, porque já aconteceu antes.
Curiosamente, a canalização foi reconstruída mesmo enquanto a água escorria. A CFTC aprovou o BTCPERP da Kalshi, o primeiro perpétuo de Bitcoin regulado nos Estados Unidos, e a CME passou a negociar 24 horas por dia, sete dias por semana, acabando com o buraco de fim de semana que distorcia a base. A perna overnight desta curva, o funding dos perpétuos, é hoje onde vive boa parte da alavancagem, e on-chain essa batalha trava-se nas perp DEX da Solana depois do hack da Drift. O presidente da CFTC, Mike Selig, chamou ao perpétuo regulado «a foundational risk management and price discovery tool». Melhor canalização, menos água: o trade ficou mais seguro de montar e mais pequeno de lucrar.
Portugal: como declarar o carry
Para um investidor em Portugal, a primeira coisa a acertar é a caixa legal. Os futuros e os perpétuos são instrumentos financeiros ao abrigo da DMIF II (MiFID II), supervisionados pela CMVM, e ficam fora do MiCA, que cobre apenas os criptoativos à vista e os prestadores de serviços (CASP). Os CFD sobre cripto para clientes de retalho (o invólucro que a maioria dos perpétuos de retalho usa) têm a alavancagem limitada a 2:1 por decisão da ESMA.
Quanto a impostos, os ganhos com criptoativos simples detidos menos de 365 dias entram na categoria G e são tributados à taxa autónoma de 28%, segundo o portal Todos Contam, gerido pelos supervisores financeiros portugueses. E há um detalhe decisivo para quem faz carry: ao contrário dos criptoativos simples, os derivados não beneficiam da isenção por deterem o ativo mais de 365 dias, pelo que um basis trade com futuros é tributado a 28% independentemente do prazo. É essa a linha dos 28% da tabela de custos acima, e é uma das razões pelas quais o carry líquido de retalho é tão magro.
O enquadramento apertou-se no final de 2025. A Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, implementa o MiCA em Portugal, com a CMVM e o Banco de Portugal a partilharem a supervisão e coimas que podem ascender a vários milhões de euros; o período transitório do MiCA para os prestadores portugueses terminou a 1 de julho de 2026. Nada disto altera o veredito do backtest, mas altera quem pode realisticamente montar o trade de forma regulada e quanto do carry, já de si fino, sobrevive ao fisco.
Perguntas frequentes
O que é o basis trade do Bitcoin?
É uma estratégia neutra ao preço: compra-se Bitcoin à vista, hoje tipicamente através de um ETF, e vende-se em simultâneo um futuro de nocional igual, capturando a base quando o futuro converge para o spot no vencimento. Ganha-se independentemente de o Bitcoin subir ou descer, o que lhe valeu a fama de quase sem risco.
Quanto rendeu o basis trade do Bitcoin ao longo dos anos?
Na era dourada de 2020-2021, com a taxa sem risco perto de zero, o prémio anualizado chegou aos 44-48% nas corretoras offshore. Em 2024, já depois dos ETF, rondou os 25%. Em 2026, a base suave a três meses caiu para cerca de 3%, abaixo dos cerca de 4% de um Bilhete do Tesouro, tornando o excesso de retorno negativo.
O basis trade é mesmo sem risco?
Não. É neutro ao preço, mas não sem risco. O historial tem duas perdas de cauda severas: março de 2020, uma crise de liquidez que forçou desmontagens e auto-desalavancagem, e 2022, o colapso de contrapartes como a FTX, que congelou garantias. A distribuição de retornos tem assimetria negativa: muitos ganhos pequenos e raras perdas enormes.
Porque é que a base dos futuros caiu tanto em 2026?
Porque a taxa sem risco subiu, com a Fed a levar os juros para 3,75-4,00% em setembro, enquanto a alavancagem arrefeceu e as bancas de arbitragem saíram; os hedge funds cortaram cerca de 39% da exposição via ETF no primeiro trimestre. A recuperação do preço foi liderada pela procura à vista e pelos ETF, não pela alavancagem, pelo que a base ficou plana.
Como se pagam impostos sobre o basis trade em Portugal?
Os futuros e perpétuos são instrumentos financeiros sob a DMIF II, supervisionados pela CMVM e fora do MiCA. Os ganhos entram na categoria G e são tributados à taxa autónoma de 28%; ao contrário dos criptoativos simples detidos mais de 365 dias, os derivados não beneficiam da isenção por prazo de detenção.
Liam Brennan escreve sobre mercados e derivados de criptoativos para a HOGE Wire.