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● Culture & Long-reads

O grande recuo: 2026 e o regresso dos chefes às DAO

Em 2026, uma vaga de DAO dissolveu-se, congelou votos ou entregou o tesouro a fundações e wrappers legais. A promessa de organizações sem chefes recua para algo que se parece com uma empresa.

Para perceber o que aconteceu à governação comunitária em 2026, convém começar pelo fim. A 29 de setembro, uma votação on-chain selou o encerramento ordenado da Balancer, um dos protocolos de exchange descentralizada mais antigos do Ethereum. A proposta passou com mais de 99% dos votos. O detalhe que resume uma década inteira não foi a percentagem, foi o número de carteiras que votaram: cerca de 42. Um protocolo que já movimentou milhares de milhões de dólares foi desligado por algumas dezenas de endereços.

A Balancer não é um caso isolado. Ao longo de 2026, uma série de organizações que nasceram a prometer o contrário, estruturas sem chefes, geridas por código e pelo voto de uma comunidade, fez exatamente o mesmo movimento: dissolveu-se, congelou a votação, entregou o tesouro a uma fundação com conselho de administração, ou escondeu-se dentro de um invólucro legal. Depois de anos a celebrar a assembleia como a forma final de organização cripto, o setor passou 2026 a desmontá-la.

Este texto é sobre esse recuo. Não sobre quem manda numa DAO (essa pergunta já foi respondida muitas vezes, e a resposta, baleias e delegados, não mudou), mas sobre algo mais estrutural: a própria ideia de governar uma rede por votação está a ser abandonada, minimizada ou domesticada. Em vez de mais democracia on-chain, 2026 trouxe fundações, advogados e a palavra que ninguém queria ouvir em 2021: chefe.

O ano em que as DAO começaram a fechar a porta

Convém definir o objeto antes de o enterrar. Uma DAO (organização autónoma descentralizada) é, na versão romântica, um grupo de pessoas que coordena recursos e decisões através de contratos inteligentes e de um token que dá direito a voto, sem empresa, sem administração, sem sede. A versão de 2021 prometia substituir o organigrama por software. A versão de 2026 descobriu que alguém tem de assinar contratos, pagar impostos, responder a reguladores e, sobretudo, impedir que o tesouro desapareça numa votação.

O resultado foi um ano de recuos em cadeia. A ApeCoin DAO, o braço comunitário do universo Bored Ape, foi formalmente dissolvida e substituída por uma empresa. A ENS, que gere os nomes .eth do Ethereum, entregou o controlo administrativo de um fundo de cerca de 65 milhões de dólares a uma fundação com conselho e diretor executivo. A Aave, o maior protocolo de crédito do setor, viu os seus três principais prestadores de serviços de governação saírem em protesto contra a concentração de poder. A Jupiter, na Solana, tinha já congelado a votação em 2025. E a Balancer, pura e simplesmente, fechou.

Nenhum destes movimentos foi um ataque. Foram decisões aprovadas pelas próprias comunidades, muitas vezes por maiorias esmagadoras. É esse o ponto desconfortável: a governação comunitária não foi derrubada por inimigos externos, foi desmontada pelos seus próprios participantes, que concluíram, voto após voto, que preferiam menos voto.

ProjetoO que mudou em 2026Nova estruturaO que fica para quem tem o token
BalancerEncerramento aprovado (29 set)Protocolo descontinuadoDistribuição proporcional do tesouro
ApeCoin, ApeCoDAO dissolvida (AIP-596)Empresa gerida pela Yuga LabsPerda dos direitos de governação
ENSFundo de ~65M$ para a fundação (11 ago)Fundação com conselho de 5 membrosNomear e destituir diretores
AaveSaída de ACI, BGD e Chaos LabsPoder concentrado na Aave LabsVoto on-chain cada vez mais formal
JupiterVotação congelada (2025)Retomada em 2026, tesouro fechado até 2027Voto suspenso e depois limitado
UniswapGovernação vira DUNA («DUNI»)Associação legal no WyomingMesmo voto, agora com corpo legal

Balancer: 42 carteiras votam o fim

A história da Balancer é a parábola perfeita do ano. Em novembro de 2025, o protocolo sofreu um exploit de cerca de 128 milhões de dólares (ao câmbio de outubro de 2026, cerca de 1,13 dólares por euro, à volta de 114 milhões de euros) que atingiu as suas pools estáveis na versão v2, segundo a Cointelegraph. A equipa tentou reestruturar, migrar liquidez para a v3 e recuperar receita. Não resultou.

Em meados de setembro de 2026, Marcus Hardt, presidente executivo da Balancer Labs, publicou no fórum de governação uma proposta de encerramento ordenado. A justificação foi rara pela honestidade. «I underestimated how much the exploit would continue to limit adoption», escreveu Hardt, admitindo que subestimou o quanto o ataque continuaria a travar a adoção. E resumiu o problema de receita: «What did not come was enough revenue. Most of the protocol’s revenue still comes from v2, and v3 revenue has not grown to replace it.»

O plano prevê devolver aos detentores de BAL um tesouro avaliado em mais de 9 milhões de dólares (cerca de 8 milhões de euros), de forma proporcional e através da queima de tokens, a partir de maio de 2027; as pools passam a modo de levantamento a 30 de outubro, com até 400 mil dólares reservados para a transição. A votação no Snapshot decorreu entre 25 e 29 de setembro e fechou com 99,2% a favor, de um universo de cerca de 42 carteiras votantes.

Quarenta e duas carteiras. É aqui que a retórica de 2021 colide com a aritmética de 2026. Uma organização que se dizia governada por uma comunidade global foi encerrada por um número de participantes que caberia numa sala de reuniões. Não houve fraude nem ataque: houve apenas a constatação de que, quando chega a hora de decidir algo sério, a assembleia está praticamente vazia.

De ApeCoin a ApeCo: quando o fundador retoma o leme

Se a Balancer mostrou a saída pela porta do fim, a ApeCoin mostrou a saída pela porta do fundador. Em junho de 2025, Greg Solano, presidente executivo da Yuga Labs (a empresa por trás dos Bored Ape Yacht Club), apresentou uma proposta para desligar a ApeCoin DAO e transferir todos os seus ativos para uma nova entidade, a ApeCo, administrada pela própria Yuga, como noticiou The Block e a CoinDesk.

A linguagem de Solano foi um epitáfio. «ApeCoin DAO was a bold experiment, but one born of a different era», disse, descrevendo-a como uma experiência ousada mas de outra era. E foi mais longe: aquilo que começara com promessa, afirmou, «has devolved into sluggish, noisy, and often unserious governance theater», tinha degenerado em teatro de governação lento, ruidoso e pouco sério.

A proposta, a AIP-596, foi aprovada com mais de 99% dos votos. Com ela, a DAO foi formalmente dissolvida: acabaram as propostas, os votos, as eleições de conselho e os grupos de trabalho. Os detentores de APE deixaram de ter direitos de governação, e os ativos (o token, as reservas, a propriedade intelectual, os contratos, os domínios) passaram para uma empresa. A comunidade votou, por esmagadora maioria, para deixar de votar.

O caso ApeCoin é o arquétipo do «fundador-monarca» que atravessa todo o ano: o projeto nasce descentralizado por princípio, descobre que a descentralização é lenta e cara, e o fundador regressa para arrumar a casa. É um padrão que já vimos noutros cantos da cultura cripto, onde o construtor que entrega produto volta a ser o centro de gravidade do projeto, por muito que o discurso oficial fale em comunidade.

A fundação como novo centro: o caso ENS

Nem todos os recuos são tão abruptos como uma dissolução. O modelo mais comum em 2026 foi mais subtil: manter a DAO viva no papel, mas transferir o poder real para uma fundação profissionalizada. O exemplo mais claro é o da ENS, o serviço de nomes do Ethereum que transforma endereços ilegíveis em nomes .eth.

A 11 de agosto de 2026, uma proposta chamada «Next Era of ENS DAO» foi executada on-chain com cerca de 70% de apoio, segundo The Block. Passou a dar à ENS Foundation o controlo administrativo de um fundo (endowment) de aproximadamente 65 milhões de dólares (cerca de 58 milhões de euros) em ETH e stablecoins, acumulado a partir das taxas de registo dos nomes .eth. A fundação ganhou um diretor executivo a tempo inteiro, Alexander Urbelis, e um conselho de cinco membros que inclui o fundador da ENS, Nick Johnson, e três diretores independentes.

A justificação da própria ENS é, provavelmente, a frase que melhor define o ano. «A DAO, on its own, does not have the legal and operational capacity to act in many of the venues where that infrastructure now needs representation», lê-se na proposta: uma DAO, por si só, não tem capacidade legal nem operacional para agir nos fóruns onde a infraestrutura precisa agora de estar representada.

Nem tudo foi entregue. Os detentores de token mantiveram o direito de nomear e destituir os diretores da fundação, a DAO continua a deter a maioria da oferta de ENS (54,6%) e a autoridade ao nível do protocolo, e as transações do fundo ficam sujeitas a um timelock (bloqueio temporal) de nove dias, cancelável por um conselho de segurança. É um recuo negociado, não uma rendição. Mas a direção é inequívoca: o dinheiro e as decisões do dia a dia saíram das mãos da multidão e entraram num conselho com nomes, morada e responsabilidade legal.

Aave e a guerra fria da governação

O caso da Aave mostra o mesmo movimento sem sequer precisar de uma votação para dissolver nada. Ao longo do primeiro trimestre de 2026, o maior protocolo de crédito descentralizado (com depósitos na ordem dos 26 a 27 mil milhões de dólares) viveu uma rutura interna que o setor apelidou de guerra civil.

O rastilho foi uma proposta, batizada «Aave Will Win», que pedia à DAO a aprovação de cerca de 51 milhões de dólares em stablecoins e 75 mil tokens AAVE para financiar o desenvolvimento da versão v4, muito ligada à Aave Labs e ao fundador Stani Kulechov, de acordo com a CoinDesk. A Aave Chan Initiative (ACI), liderada por Marc Zeller e um dos pilares da governação da Aave, pediu quatro condições antes de apoiar, entre elas um acompanhamento mais rigoroso dos marcos on-chain e limites ao voto em causa própria. As condições ficaram por responder.

O desfecho foi um êxodo. A BGD Labs, equipa de desenvolvimento, anunciou a saída em fevereiro; a ACI anunciou em março que não renovaria o contrato e faria um encerramento faseado; a Chaos Labs, gestora de risco, saiu pouco depois. Zeller foi direto sobre a causa: «The main spark is BGD leaving», disse, apontando como estopim a saída da BGD, e avisou que o mesmo poder de voto que aprova orçamentos também «could cancel any stream at any time», podia cancelar qualquer pagamento a qualquer momento.

A Aave v4 acabou por ser lançada na mainnet do Ethereum a 30 de março. A votação de governação ilustrou o problema melhor do que qualquer discurso: 100% a favor no Snapshot, mas apenas cerca de 60% on-chain, num clima de crise. O protocolo não se dissolveu nem criou uma fundação; simplesmente deixou que o poder gravitasse para a empresa que escreve o código. É a re-centralização por desgaste, não por decreto.

Jupiter e o cansaço da assembleia

A Solana teve o seu próprio aviso, e foi anterior a tudo isto. Em junho de 2025, a Jupiter, principal agregador de exchange da rede, suspendeu toda a votação da sua DAO. O motivo, nas palavras da própria equipa, foi uma «breakdown in trust», uma quebra de confiança entre a comunidade, os detentores e a equipa, agravada por aquilo a que chamaram cansaço da comunidade, como relatou a CoinDesk.

As queixas eram familiares: insiders a dominar as decisões (numa proposta recente, a carteira de uma única equipa representou mais de 4,5% de todos os votos). A Jupiter prometeu regressar «with a fresh approach that unifies, rather than divides», com uma abordagem renovada que une em vez de dividir. As recompensas de staking continuaram (50 milhões de JUP por trimestre) e os grupos de trabalho financiados mantiveram-se, mas o tesouro, apelidado de «Litterbox Trust», ficou fechado até 2027.

A votação acabou por regressar no início de 2026, de forma mais limitada. Mas o precedente ficou: um dos maiores projetos da Solana olhou para a sua própria democracia interna e decidiu que o melhor remédio, a curto prazo, era desligá-la. O cansaço da assembleia não é um problema cripto exótico; é o mesmo esgotamento que esvazia reuniões de condomínio em todo o mundo. A diferença é que, aqui, estava a gerir milhares de milhões.

Porque é que a democracia on-chain não escalou

Nada disto é acidente. A governação por token tinha, desde o início, um problema aritmético que a cultura preferiu ignorar enquanto os preços subiam. Um estudo da Chainalysis já em 2022 mostrava que, em dez das maiores DAO, menos de 1% dos detentores controlava cerca de 90% do poder de voto. A participação típica raramente passa dos 5% a 15%. A maioria dos tokens de governação nunca vota.

Quando quase ninguém vota, «descentralização» e «plutocracia» tornam-se a mesma coisa com dois nomes. Quem tem mais tokens decide; quem tem poucos, delega ou desiste. É a mesma lógica da urna que fica no retrovisor das decisões: a participação baixa não democratiza, concentra.

A indústria de capital de risco, que financiou boa parte destas experiências, já admite o diagnóstico. Numa retrospetiva publicada pela Fortune em junho de 2026, Ali Yahya, sócio-geral da a16z crypto, foi contundente: «We spent the last 10 years rediscovering the hard way that direct democracy is a bad idea», passámos dez anos a redescobrir da pior maneira que a democracia direta é uma má ideia. No mesmo artigo, Jake Brukhman, da CoinFund, resumiu que a governação «proved to be almost everywhere else but the [block]chain», acabou por acontecer em todo o lado menos na própria cadeia; e Simon Hudson, do coletivo de arte Botto, recusou o obituário fácil: «Are they dead? Certainly not. Have a lot of people been burned by them? Oh yeah.»

A minimização da governação: menos votos, melhor?

Se a democracia direta falhou, qual é a alternativa que o setor está a adotar? Em grande medida, a resposta é contra-intuitiva: governar menos. A tese ganhou nome, «minimização da governação» (governance minimization), e um dos seus principais defensores é Miles Jennings, responsável jurídico da a16z crypto. A ideia é simples e radical: cada decisão humana sobre um protocolo é uma oportunidade de discriminar utilizadores e de minar a neutralidade credível do sistema, por isso deve ser reduzida ao mínimo indispensável.

«Minimizing governance calls for protocols to reduce their reliance on, and the power of, decentralized governance», escreve Jennings: minimizar a governação é reduzir a dependência e o poder da própria governação descentralizada. O argumento não é só filosófico, é competitivo: protocolos com governação desnecessária, defende, «would eventually succumb to competition given the costs imposed by unnecessary governance», acabariam por sucumbir à concorrência pelos custos que a governação inútil impõe.

Alguns projetos levaram a ideia ao extremo. A Liquity, um protocolo de empréstimos, eliminou toda a governação humana, deixando o sistema correr apenas com código imutável; a Reflexer seguiu um caminho semelhante com o seu guia de minimização da governação. Nestes casos, não há votos a comprar nem tesouros a esvaziar, porque não há praticamente nada para votar. É a resposta de engenharia ao problema cultural: se a assembleia é o ponto fraco, elimina-se a assembleia. Houve quem propusesse o contrário (mais mercado dentro do voto, através de experiências como a futarchy, em que mercados de previsão decidem no lugar de votos diretos), mas, em 2026, foi a minimização, e não a reinvenção, que ganhou tração.

Wrappers legais: a DAO arranja um corpo

Minimizar o voto resolve o lado técnico. Falta o lado terreno: contratos, impostos, tribunais. Para isso, 2026 consolidou uma segunda tendência: dar à DAO um corpo legal, um «wrapper».

O modelo mais comentado é a DUNA (Decentralized Unincorporated Nonprofit Association), uma figura criada pelo Wyoming e em vigor desde 1 de julho de 2024, que dá a uma associação descentralizada de pelo menos 100 membros existência legal, tratamento fiscal e responsabilidade limitada, sem destruir a estrutura de voto on-chain. O exemplo de maior peso chegou da Uniswap: em 2025, a governação da maior exchange descentralizada aprovou, com 99,9% de apoio e mais de 125 milhões de UNI a favor contra apenas 742 tokens contra, transformar-se numa DUNA do Wyoming batizada «DUNI».

Jennings, que ajudou a desenhar a figura, descreve-a como «the first and only legal structure to allow communities to govern the services they use», a primeira estrutura legal que permite a uma comunidade governar os serviços que usa e executar as suas decisões on-chain, protegendo ao mesmo tempo os membros de uma responsabilidade «potentially limitless», potencialmente ilimitada. Com um wrapper, uma DAO pode «contract with regular businesses and appear in court», contratar empresas e comparecer em tribunal, coisas que um contrato inteligente não faz.

Não é a única opção. As Ilhas Marshall reconhecem desde 2022 a DAO como uma LLC com personalidade jurídica própria; estruturas de fundação (o modelo que a ENS escolheu) são comuns para projetos maiores. A escolha deixou de ser «ter ou não ter» um wrapper e passou a ser «qual».

EstruturaOndeProtege os membros?Mantém voto on-chain?Exemplo
DUNA (associação sem fins lucrativos)Wyoming (EUA)SimSimUniswap («DUNI»)
DAO LLCIlhas MarshallSim (forma de LLC)SimVários protocolos
FundaçãoJurisdições como CaimãoSimParcial (o conselho decide)ENS
Empresa tradicionalVariávelSimNão (fim da DAO)ApeCo (ex-ApeCoin)
Sem wrapperNenhumaNãoSimRisco estilo Ooki

O fantasma do Ooki: quando o wrapper deixou de ser opcional

Porquê esta corrida a figuras jurídicas? A resposta tem nome de processo: Ooki DAO. Em junho de 2023, um tribunal federal da Califórnia deu razão à CFTC (o regulador norte-americano dos derivados) e condenou a Ooki DAO ao pagamento de 643.542 dólares, encerrando o seu site. O detalhe demolidor não foi a multa, foi a fundamentação: o tribunal considerou a DAO uma «unincorporated association» e uma «person» à luz da lei, ou seja, uma associação sem personalidade jurídica cujos membros votantes podiam, em teoria, responder pessoalmente pelas suas decisões.

Traduzido: numa DAO sem wrapper, votar pode não ser um ato simbólico, pode ser assumir responsabilidade pessoal ilimitada pelos atos da organização. É a diferença entre ser sócio de uma cooperativa registada e ser co-responsável por uma sociedade de facto. Depois de Ooki, a pergunta deixou de ser teórica para qualquer comunidade que gerisse dinheiro a sério.

Este medo explica muito do recuo de 2026. Uma fundação com conselho e diretor executivo não é só mais eficiente, é alguém a quem o regulador pode telefonar e o tribunal pode intimar. A responsabilidade, que a utopia prometera dissolver no código, teve de voltar a ter um rosto.

Roubo legal: o voto que ainda esvazia tesouros

Há ainda uma razão mais crua para fechar a assembleia: enquanto esteve aberta, serviu de porta de assalto. O ataque de governação, usar o próprio mecanismo de voto para roubar o tesouro, foi um dos formatos mais eficientes da cripto nos últimos anos, e não exige sequer violar o código.

O caso mais recente e mais claro foi o da BonkDAO, em julho de 2026. Um atacante gastou cerca de 4,4 milhões de dólares a comprar BONK suficiente para atingir o quórum, fez passar uma proposta maliciosa numa votação com apenas sete carteiras (de mais de 18 mil membros) e saiu, de forma perfeitamente legal, com cerca de 4,43 biliões de BONK, à volta de 20 milhões de dólares (cerca de 18 milhões de euros). Não havia timelock nem multisig para o travar.

Não foi o primeiro. Em 2024, o grupo apelidado de «Golden Boys» fez passar na Compound uma proposta que desviava 499 mil tokens COMP (cerca de 24 milhões de dólares) para um cofre que controlavam, contra a vontade da comunidade (foi mais tarde revertida por acordo). Em 2022, a Beanstalk perdeu 182 milhões de dólares num ataque com um empréstimo-relâmpago (flash loan) que comprou maioria de voto em segundos. E o caso Mango Markets mostrou o quão incerta é a lei: a condenação do seu autor foi anulada em 2025, com o tribunal a notar que o protocolo era «permissionless» e automático.

Para uma comunidade, a lição é dura: um tesouro de milhões governado por uma assembleia vazia é um alvo, não uma democracia. O fundador que desaparece com o dinheiro é um risco conhecido; o atacante que compra o voto e esvazia o cofre à luz do dia é o mesmo risco, apenas com melhor advogado. Fechar o voto, ou protegê-lo com timelocks e conselhos de segurança, deixou de ser paranoia e passou a ser gestão de risco.

Portugal, a CMVM e a DAO sem dono

E em Portugal, onde fica tudo isto? Numa zona cinzenta que a regulação europeia só agora começa a iluminar. A MiCA, o regulamento de mercados de criptoativos da União Europeia, está em plena aplicação, e o período transitório para os antigos prestadores portugueses (VASP) terminou a 1 de julho de 2026, ao abrigo da Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025. Em Portugal, a supervisão de conduta cabe à CMVM, enquanto o registo dos prestadores de serviços de criptoativos (CASP) e as regras das stablecoins envolvem também o Banco de Portugal.

O problema é que a MiCA regula prestadores de serviços e emitentes, não o desenho de governação de um protocolo. Uma exchange descentralizada ou um protocolo de crédito podem funcionar sem uma empresa por trás; e uma DAO «pura», sem entidade legal, cai num vazio. Quem responde quando uma votação aprova algo ilegal? O precedente Ooki sugere uma resposta incómoda para os detentores: eventualmente, os próprios votantes. É precisamente esse risco que empurra os projetos para os wrappers; a MiCA lida com a entidade registada, mas a DAO sem corpo fica exposta aos regimes gerais, como a responsabilidade civil ou a manipulação de mercado.

Para o investidor português, isto cruza-se com outra frente: a aproximação da MiCA ao crédito DeFi, que tenta responder exatamente à pergunta de quem é o responsável por um protocolo como a Aave quando não há balcão nem administrador. Enquanto essa resposta não chega, a regra prática é simples: um token de governação comprado numa exchange portuguesa dá, quase sempre, menos poder e mais risco do que a palavra «governação» faz supor.

O que isto quer dizer para quem detém um token de governação

Para quem investe, o recuo de 2026 tem consequências concretas. Um token de governação foi muitas vezes vendido como se fosse uma ação de uma empresa cripto, com direito de voto e de influência. A realidade de 2026 é mais modesta, e vale a pena lê-la antes de comprar.

  • Separe o voto do valor: a maioria dos tokens de governação não dá direito a receita nem a dividendos, só a votar em decisões que quase ninguém acompanha. Voto não é propriedade.
  • Veja quem controla o tesouro: uma fundação com conselho, um multisig de cinco pessoas ou uma empresa (como a ApeCo) decidem mais do que a sua votação. Procure o número de signatários e o timelock.
  • Conte os votantes, não os detentores: um projeto com milhões de carteiras mas 42 votantes é governado por 42 pessoas. A participação real diz mais do que o marketing.
  • Procure o wrapper: uma DAO com estrutura legal (DUNA, LLC das Marshall, fundação) protege os membros; uma DAO «pura» pode expô-lo ao risco de responsabilidade estilo Ooki.
  • Desconfie da palavra «comunidade»: cada vez mais, o poder real está na equipa que escreve o código e no capital que entra por produtos institucionais, incluindo ETF e staking de Ethereum, e não na assembleia.

Nada disto significa que as DAO morreram. Como lembrou Simon Hudson, muita gente levou com elas na cabeça, mas o modelo não desapareceu; está a mudar de forma. O que morreu, em 2026, foi a ilusão de que uma rede financeira séria podia ser gerida como uma assembleia de bairro permanente, aberta, voluntária e sem responsáveis. No lugar dessa ilusão ficaram fundações, wrappers e, sim, chefes. Menos romântico, talvez mais honesto.

Perguntas frequentes

O que é a minimização da governação numa DAO?

É a ideia, defendida por nomes como Miles Jennings da a16z crypto, de que um protocolo deve tomar o menor número possível de decisões por voto. Em vez de votar tudo, limita a governação a parâmetros essenciais ou elimina-a por completo, deixando o sistema correr com código imutável, como fez a Liquity.

Porque é que tantas DAO adotaram wrappers legais em 2025 e 2026?

Sobretudo por medo de responsabilidade. Depois de um tribunal norte-americano tratar a Ooki DAO como uma associação sem personalidade jurídica cujos membros podiam responder pessoalmente, estruturas como a DUNA do Wyoming ou a LLC das Ilhas Marshall passaram a ser vistas como proteção essencial, permitindo à DAO assinar contratos, pagar impostos e comparecer em tribunal.

Comprar um token de governação dá-me poder real sobre o projeto?

Raramente tanto quanto parece. Estudos mostram que menos de 1% dos detentores controla cerca de 90% do voto na maioria das DAO, e a participação típica fica entre 5% e 15%. Na prática, o poder está concentrado em grandes detentores, equipas e, cada vez mais, fundações.

As DAO estão a desaparecer?

Não exatamente; estão a mudar de forma. Em 2026, casos como a Balancer (encerramento), a ApeCoin (transformada na empresa ApeCo) e a ENS (fundo entregue a uma fundação) mostram um recuo da gestão por voto, mas o modelo continua vivo noutros projetos, agora com mais estrutura legal e menos democracia direta.

Como trata a regulação portuguesa uma DAO?

A MiCA, aplicável em Portugal com supervisão da CMVM e registo de CASP junto do Banco de Portugal, regula prestadores de serviços e emitentes de criptoativos, não o desenho de governação de um protocolo. Uma DAO sem entidade legal fica numa zona cinzenta e expõe-se aos regimes gerais; é um dos motivos que leva os projetos a adotar wrappers legais.

Marcus Okafor escreve sobre cultura cripto e grandes temas na HOGE Wire.

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