h hoge.gg
Subscribe
BTC$67,432.18+2.34%ETH$3,521.44+1.08%SOL$178.62-0.62%BNB$612.30+0.41%XRP$0.6234-0.18%ADA$0.4521+3.12%DOGE$0.1623+1.86%AVAX$38.71-1.24%LINK$17.84+0.92%HOGE$0.00004120+4.21%
BTC$67,432.18+2.34%ETH$3,521.44+1.08%SOL$178.62-0.62%BNB$612.30+0.41%XRP$0.6234-0.18%ADA$0.4521+3.12%DOGE$0.1623+1.86%AVAX$38.71-1.24%LINK$17.84+0.92%HOGE$0.00004120+4.21%
● Markets

Volume que mente: o open interest e a miragem dos perp DEX

Há um ano a DefiLlama apagou os volumes da Aster por suspeita de wash trading. O número que todas as exchanges exibem é o mais fácil de inflar; o open interest é o detetor de mentiras.

Abra o painel de qualquer corretora de criptomoedas e o primeiro número a saltar à vista é quase sempre o mesmo: o volume. Quantos milhões, ou milhares de milhões, de euros mudaram de mãos nas últimas 24 horas. É o número que ordena os rankings, que a imprensa cita, que atrai novos utilizadores e que serve de cartão de visita a qualquer plataforma. É também, por uma ironia pouco confortável, o número mais fácil de inflar que existe no mercado.

Hoje, a 9 de outubro de 2026, o mercado está bem mais calmo do que no frenesim do ano passado. O Bitcoin vale cerca de 73.645 euros (com o par EUR/USD perto de 1,13), segundo a CoinGecko, e o volume diário do conjunto do mercado é hoje uma fração do que foi no auge de 2025. Mas há quase exatamente um ano, em outubro de 2025, aconteceram duas coisas na mesma semana. A primeira é conhecida: a 10 e 11 de outubro, o mercado viveu o maior colapso da sua história, com cerca de 19 mil milhões de dólares em posições liquidadas em 24 horas, de acordo com o relatório da CoinGecko sobre esse dia. A segunda passou mais despercebida, mas é o tema deste artigo.

Poucos dias antes do crash, a 5 de outubro de 2025, a DefiLlama (o principal agregador de dados da DeFi) fez algo invulgar: retirou do seu site os volumes de perpétuos de uma das plataformas mais badaladas do momento, a Aster. Não houve ataque informático, nem insolvência, nem falência. Houve apenas uma suspeita desconfortável: o número que a Aster exibia podia, muito simplesmente, não ser verdadeiro. Um ano depois, vale a pena perceber porque é que o volume, a métrica que todos citam, é também a menos fiável; e qual é o número que, ao contrário dele, funciona como detetor de mentiras: o open interest.

O número que todos citam e quase ninguém verifica

Volume, no sentido mais simples, é a soma de tudo o que foi transacionado num período: todas as compras e vendas, somadas, ao longo de 24 horas, de uma semana ou de um mês. Parece objetivo, mas há um detalhe que muda tudo: na esmagadora maioria dos casos, é a própria exchange que reporta o seu volume. Não existe uma câmara de compensação central a auditar cada negócio, como acontece nos mercados de ações. Cada plataforma publica o seu número, e os agregadores (CoinGecko, CoinMarketCap, DefiLlama) tentam depois filtrar o que lhes parece artificial.

Isto importa porque o volume vale dinheiro. Um volume elevado empurra a plataforma para o topo dos rankings, atrai projetos que pagam para serem listados, convence os utilizadores de que ali há liquidez e alimenta a narrativa que faz subir o token da própria exchange. É um ciclo reflexivo: o número gera atenção, a atenção gera depósitos, os depósitos geram mais número. Quando um indicador tão central para o negócio é produzido por quem tem todo o interesse em inchá-lo, a tentação é óbvia.

Para o investidor de retalho, o perigo é concreto. Um volume elevado é lido, instintivamente, como sinal de segurança: se tanta gente negoceia ali, parece arriscado de menos ficar de fora. É exatamente esse reflexo que os números inchados exploram. A liquidez aparente convida a entrar com posições maiores do que a profundidade real do mercado aguenta, e a conta chega no primeiro movimento brusco, quando se descobre que, por trás do número, não estava ninguém disposto a ficar do outro lado.

Em 2026, a maior parte do volume cripto já nem sequer é à vista (spot): os perpétuos e outros derivados representam mais de 70% da atividade das exchanges centralizadas, segundo dados da CryptoQuant citados pela Cryptopolitan. E uma fatia crescente desse volume de derivados mudou-se para o mundo on-chain, para as chamadas perp DEX. É exatamente aí, na fronteira mais recente e menos vigiada do mercado, que a velha questão do volume falso ganhou nova vida.

Volume é um fluxo; open interest é um stock

Para perceber porque é que o volume engana e o open interest não, é preciso separar dois conceitos que muita gente confunde. O volume é um fluxo: mede a quantidade de contratos que trocaram de mãos ao longo de um período. O open interest é um stock: mede o valor nocional das posições que estão abertas num dado instante, ou seja, os contratos que ainda não foram fechados.

A analogia mais útil é a de um estádio. O volume é o número de pessoas que passaram pelos torniquetes à entrada: se alguém entra e sai dez vezes, conta dez vezes. O open interest é o número de lugares efetivamente ocupados neste momento. Pode haver uma multidão a entrar e a sair sem parar (volume altíssimo) e, ao mesmo tempo, poucas cadeiras ocupadas (open interest baixo). A razão entre os dois, o volume a dividir pelo open interest (aquilo a que se chama rotatividade), diz-nos quantas vezes a posição média foi aberta e fechada.

E aqui está o ponto decisivo: o wash trading (negociar contra si próprio, comprando e vendendo entre contas que a mesma pessoa controla) infla o volume de forma trivial, porque cada operação soma ao total. Mas quase não mexe no open interest, porque as posições abrem e fecham-se mutuamente e o saldo líquido fica perto de zero. Para fazer crescer o open interest de forma sustentada é preciso imobilizar capital real em margem. O volume pode ser encenado quase de graça; o open interest exige dinheiro parado. Por isso é tão mais difícil de falsear.

Um exemplo torna a ideia concreta. Imagine duas plataformas que anunciam, ambas, mil milhões de dólares de volume diário. Na primeira, há cem milhões em posições abertas: o capital girou dez vezes, um ritmo plausível para um mercado ativo. Na segunda, há apenas cinco milhões em posições abertas, ou seja, o mesmo euro teve de ser negociado duzentas vezes para produzir aquele número. A primeira parece um mercado; a segunda parece uma máquina de lavar. O volume é idêntico; a história que cada um conta, não.

DimensãoVolumeOpen interest
O que medeTotal negociado num períodoPosições abertas num instante
Tipo de grandezaFluxo (acumula no tempo)Stock (fotografia do momento)
Efeito de uma ida e voltaConta duas vezesVolta a zero
Custo de inflarQuase nulo (wash trading)Elevado (exige margem imobilizada)
O que revelaAtividade e atençãoConvicção e capital comprometido

Outubro de 2025: o dia em que a DefiLlama apagou a Aster

A Aster surgiu em setembro de 2025 e tornou-se, em semanas, o nome mais falado das perp DEX. É apoiada pela YZi Labs (a antiga Binance Labs) e foi publicamente promovida por Changpeng Zhao, o fundador da Binance, como relatou a DL News. Depois de uma fusão com a APX Finance, o seu token disparou mais de 2.000%, passando de cerca de 0,09 para mais de 2 dólares em três semanas, um ganho superior a 1.500% para quem entrou cedo, segundo a CoinDesk.

E o volume acompanhou. De acordo com a análise da 21Shares, a Aster saltou de cerca de mil milhões de dólares por dia, no final de setembro, para mais de 70 mil milhões, chegando a representar cerca de 70% do volume de todas as perp DEX. No conjunto, estas plataformas ultrapassavam os 100 mil milhões de dólares diários no início de outubro de 2025, numa altura em que a atenção do mercado estava toda ali, poucos dias antes do colapso que marcaria o fim do ciclo (um momento que revisitámos na retrospetiva de um ano sobre o recorde do Bitcoin).

Foi então que, a 5 de outubro, a DefiLlama agiu. O seu cofundador pseudónimo, conhecido como 0xngmi, anunciou que os volumes de perpétuos da Aster seriam retirados do site. A justificação foi direta, segundo o The Block: «A Aster não permite obter dados de nível mais baixo, como quem está a colocar e a preencher as ordens; por isso, até conseguirmos esses dados para verificar se há wash trading, os volumes de perpétuos da Aster ficam retirados.» O token caiu cerca de 10% nas horas seguintes. O próprio 0xngmi fez questão de esclarecer que nunca deteve ASTER nem HYPE, para afastar qualquer suspeita de interesse.

Porque é que a sombra da Binance acendeu o alarme

O que levantou a suspeita não foi o tamanho do número, mas a sua forma. A DefiLlama notou que os volumes de perpétuos da Aster estavam quase perfeitamente correlacionados com os da Binance. A CoinDesk detalhou o caso do XRP: os perpétuos de XRP na Aster moviam-se quase ao tique com os da Binance, numa correlação perto de 1 para 1, enquanto os da Hyperliquid mostravam uma relação bem mais solta, à volta de 0,59. O XRP e o Ethereum eram, aliás, os grandes contribuidores para os números da Aster.

A lógica forense é simples. Dois mercados independentes, com participantes diferentes, não negoceiam em sincronia perfeita. Quando o volume de uma plataforma espelha o de outra tique a tique, há duas hipóteses: ou uma está a replicar artificialmente a atividade da outra, ou alguém está a reproduzir ordens de um lado para o outro para fabricar atividade. A DefiLlama admitiu que não conseguia distinguir entre as duas, precisamente porque não tinha acesso aos dados de quem colocava e preenchia cada ordem. Sem essa camada, não há como provar nem desmentir o wash trading; e, na dúvida, o agregador preferiu retirar o número a dar-lhe o selo de credível.

A decisão dividiu a comunidade. Os críticos acusaram a DefiLlama de centralizar o poder de decidir que números são verdadeiros, numa indústria que se diz descentralizada. Os defensores lembraram que a plataforma apenas aplicava o princípio básico de qualquer fonte de dados: não publicar aquilo que não consegue verificar. O episódio é menos sobre a Aster em concreto e mais sobre uma fragilidade estrutural de todo o mercado, que a Aster apenas tornou visível.

A economia do volume inflado: pontos, airdrops e reflexividade

Para perceber porque é que tanta plataforma teria incentivo a inflar o volume, basta olhar para o modelo de crescimento das perp DEX em 2026. Quase todas correm campanhas de pontos (points): o utilizador acumula pontos consoante o volume que negoceia, e esses pontos convertem-se, mais tarde, num airdrop do token da plataforma. O problema é evidente: se o sistema recompensa volume, então negociar contra si próprio, mesmo perdendo as comissões, pode compensar se o airdrop prometido for suficientemente grande. O protocolo acaba a pagar aos utilizadores para fabricarem o número que depois exibe ao mundo.

A análise da 21Shares, assinada pelo analista Karim AbdelMawla, apontava sinais clássicos nesse período: a razão entre volume e TVL (o valor total depositado na plataforma) ultrapassava os 70 para 1 na Aster, quando um intervalo saudável anda entre 3 e 7; o volume diário multiplicara por dez numa única semana; e o sistema de pontos «incentiva a repetição de negócios contra si próprio que inflacionam os volumes reportados». A conclusão de AbdelMawla era dura: tratava-se de «uma jogada de crescimento encenado, concebida para melhorar a aparência».

Este desenho criou uma classe inteira de utilizadores a que o mercado chama farmers: equipas que movem capital de plataforma em plataforma, maximizando volume para capturar o próximo airdrop e desaparecendo assim que o token é distribuído. Para a plataforma, é um dilema. Os pontos atraem atividade e manchetes, mas grande parte dessa atividade é mercenária e evapora-se no dia seguinte à distribuição. O volume que parecia tração acaba por ser aluguer de curto prazo, pago em tokens que diluem quem fica. Separar o que é adoção do que é apenas incentivo torna-se, assim, a tarefa central de quem analisa estes números.

O contraste com a Hyperliquid, nesse mesmo relatório, é instrutivo. A Hyperliquid gerou mais de 800 milhões de dólares em receita anualizada em 2025, recomprou mais de 715 milhões de dólares do seu token HYPE no mercado e distribuiu-o sem alocações a fundos de capital de risco. Quando a receita de comissões (que só existe se houver negócios genuínos a pagar taxas) sustenta o valor do token, o incentivo para encenar volume é menor: o número já tem um lastro económico. É a diferença entre uma casa que vive das comissões reais e outra que vive da própria narrativa.

Um ano depois: a guerra dos perpétuos não parou

Passado um ano, a guerra das perp DEX continua, mas o equilíbrio de forças mudou. No conjunto, estas plataformas moveram cerca de 633 mil milhões de dólares em volume de perpétuos nos 30 dias até 3 de outubro de 2026, e cerca de 141 mil milhões apenas na última semana desse período, segundo os dados da DefiLlama. É já perto de um quinto a um quarto de todo o volume de derivados cripto, uma fatia que não para de crescer desde o início do ano, como a CoinDesk notava já em janeiro.

A Hyperliquid consolidou a liderança: cerca de 43,8 mil milhões de dólares em volume a sete dias (perto de 31% de todo o volume das perp DEX) e cerca de 217 mil milhões nos 30 dias. Atrás dela, a Aster somava cerca de 68 mil milhões no mesmo mês, a Lighter perto de 54 mil milhões e a edgeX cerca de 40 mil milhões. Os números absolutos são impressionantes; a questão, como vimos, é saber quanto deles corresponde a capital que ficou, e não apenas a capital que passou.

Vale a pena recordar que, ao contrário das exchanges centralizadas, as perp DEX liquidam tudo on-chain, o que em teoria deveria tornar os seus números auditáveis por qualquer pessoa. Na prática, porém, cada protocolo continua a reportar o seu próprio volume, e nem todos expõem os dados ao nível da ordem necessários para distinguir um negócio genuíno de um negócio entre carteiras da mesma mão. A transparência da liquidação não resolve, por si só, a questão da sinceridade; e é precisamente essa distinção que o resto deste artigo persegue.

Perp DEXVolume 30 dias (out. 2026)Open interestLeitura
Hyperliquid217 mil milhões USD8,27 mil milhões USDPosições que ficam
Aster68 mil milhões USD1,39 mil milhões USDMuito giro, pouco saldo
Lighter54 mil milhões USD0,82 mil milhões USDVolume alto, OI baixo
edgeX40 mil milhões USDn.d.Em consolidação

Dados: DefiLlama, instantâneo de 3 de outubro de 2026. Valores arredondados.

O detetor de mentiras: a razão entre volume e open interest

É quando se coloca o open interest ao lado do volume que a fotografia ganha nitidez. No mesmo instantâneo de 3 de outubro de 2026, a Hyperliquid apresentava cerca de 8,27 mil milhões de dólares de open interest, mais do que as três plataformas seguintes somadas: a Aster com 1,39 mil milhões, a Variational com 1,07 mil milhões, a Lighter com 0,82 mil milhões e a GRVT com 0,48 mil milhões. A Cryptopolitan registava ainda, a 6 de outubro, mais de 435 mil posições abertas na Hyperliquid, um crescimento de cerca de 115% desde o início do ano.

Faça-se agora a conta da rotatividade. A Aster moveu cerca de 68 mil milhões de volume num mês, mas segurava apenas 1,39 mil milhões em posições abertas: o capital passou pela porta dezenas de vezes. A Hyperliquid moveu cerca de 217 mil milhões, mas sobre uma base de 8,27 mil milhões de open interest: muito mais volume, sim, mas também muitíssimo mais capital efetivamente comprometido. A relação entre os dois é completamente diferente, e é essa relação, não o número cru, que distingue um mercado com gente dentro de um mercado onde a porta gira sozinha.

Não existe um valor mágico para esta rotatividade, mas a direção importa mais do que o nível absoluto. Um mercado onde o open interest cresce ao mesmo tempo que o volume está a atrair capital novo e a retê-lo; um mercado onde o volume explode mas o open interest fica estagnado está a gerar barulho sem substância. É por isso que os analistas sérios raramente citam o volume sozinho: colocam-no sempre ao lado do open interest e da sua variação, para distinguir uma subida alimentada por convicção de uma subida alimentada por mera rotação.

Já no outono de 2025, a 21Shares fazia a mesma leitura: a Hyperliquid tinha cerca de 13,5 mil milhões de dólares de open interest contra apenas 3 mil milhões da Aster, apesar de a Aster exibir muito mais volume. O open interest é, por isso, a métrica preferida de quem quer ler o posicionamento real do mercado, e é a espinha dorsal de qualquer leitura séria do painel de derivados, como explicámos no guia sobre como ler o painel cripto em 2026. Em conjunto com a taxa de financiamento (o funding), que revela de que lado está a pressão e quanto custa mantê-la, forma o conjunto de sinais que o volume sozinho nunca dá; um tema que aprofundámos a propósito do dólar sintético que vive dos perpétuos.

Volume verdadeiro ou encenado: uma grelha de leitura

Nenhum indicador isolado prova wash trading, mas o cruzamento de vários levanta (ou afasta) a suspeita com razoável segurança. A grelha seguinte resume os sinais que analistas e agregadores usam para distinguir volume genuíno de volume encenado.

SinalSaudávelBandeira vermelha
Volume / open interestRotatividade moderadaVolume enorme, open interest minúsculo
Volume / TVL (nas DEX)Entre 3 e 7 para 1Acima de 70 para 1
Correlação com outra venueSolta e variávelQuase 1 para 1, tique a tique
Concentração por parDistribuídaTudo em dois ou três pares
Receita de comissõesProporcional ao volumeVolume alto, receita irrisória
Subidas de volumeGraduaisSaltos de dez vezes numa semana

O que importa não é decorar limiares, mas perceber a ideia: o volume genuíno deixa rasto noutros indicadores, enquanto o volume encenado aparece sozinho, desligado de tudo o resto. Se o número dispara mas o open interest não sobe, se a plataforma arrecada milhares de milhões de volume mas quase nenhuma comissão, se toda a atividade se concentra em dois pares que copiam outra bolsa, então há motivo para desconfiar. É esse o espírito do Trust Score da CoinGecko, que pondera a profundidade do livro de ordens e outros sinais em vez de aceitar o volume declarado pelo seu valor facial.

O problema não nasceu na DeFi: as CEX e o volume que se reporta a si próprio

Seria injusto apontar o dedo apenas às perp DEX. O volume inflado é um dos pecados originais do mercado cripto, e começou nas exchanges centralizadas. Em março de 2019, num estudo entregue ao regulador norte-americano, a SEC, a gestora Bitwise concluiu que cerca de 95% do volume de Bitcoin à vista reportado era fictício: dos cerca de 6 mil milhões de dólares diários que os agregadores mostravam, apenas perto de 273 milhões correspondiam a negócios reais, e das 81 exchanges analisadas só dez tinham volume genuíno, segundo a CNBC. O episódio marcou a indústria e deu origem às primeiras tentativas de pontuar a fiabilidade das plataformas.

É dessa herança que nasce o Trust Score da CoinGecko, que deixou de pesar o tráfego do site (um mau indicador, agora que quase tudo é feito por telemóvel e por API) e passou a privilegiar a profundidade do livro de ordens e o volume verificável. A mudança de método é uma admissão implícita: o volume declarado, por si só, não vale muito. A diferença, em 2026, é que o palco se deslocou. Onde antes era uma exchange centralizada a inflar um número num servidor fechado, agora é um protocolo on-chain a fazê-lo à vista de todos, com o combustível adicional das campanhas de pontos.

Os métodos para apanhar volume falso também amadureceram. Além da profundidade do livro e da relação com o open interest, os investigadores usam testes estatísticos sobre a distribuição dos dígitos dos negócios (a chamada lei de Benford) e procuram aglomerados suspeitos em números redondos, padrões que o comportamento humano genuíno raramente produz. Nenhum teste é definitivo por si só, mas a acumulação de sinais vermelhos, como aconteceu no caso da Aster, é o que acaba por levar um agregador a agir.

«On-chain» não é sinónimo de honesto

Existe um mito persistente de que, por ser on-chain, o volume das DEX é automaticamente verificável e, portanto, honesto. É meia verdade. A cadeia garante que a transação aconteceu e que a liquidação é pública; não garante que a transação foi economicamente genuína. Nada impede uma mesma entidade de controlar várias carteiras e de negociar entre elas, criando volume real do ponto de vista técnico e totalmente vazio do ponto de vista económico. Foi precisamente isto que a DefiLlama não conseguiu excluir no caso da Aster: via as transações, mas não via quem estava dos dois lados de cada negócio.

A transparência da blockchain prova a existência de um movimento, não a sua sinceridade. E, à medida que a liquidez migra para livros de ordens on-chain e para mecanismos automáticos de criação de mercado, a questão de quem efetivamente fornece essa liquidez (e com que incentivos) torna-se central, um tema que abordámos ao analisar quem paga a liquidez na guerra de desenho dos AMM. Ser capaz de auditar cada transação não serve de nada se não for possível identificar quem a origina; e, em muitas perp DEX, essa última camada continua fora de alcance.

O que o volume migrado diz sobre o mercado de 2026

A migração do volume não é um detalhe técnico; muda a forma como o preço se forma. Com os derivados a valerem mais de 70% da atividade e com uma parte crescente desse volume a acontecer em perp DEX, é cada vez mais nos perpétuos, e não no mercado à vista, que o preço é efetivamente descoberto. O spot tornou-se, em muitos momentos, o reflexo do que acontece nos derivados, e não o contrário; a cauda a abanar o cão, uma dinâmica que já descrevemos em detalhe sobre o peso dos derivados sobre o mercado à vista.

Ao mesmo tempo, o volume total encolheu face ao pico do ano passado. Nas exchanges centralizadas, o volume caiu cerca de 48% desde o máximo de outubro de 2025, de mais de 8 biliões para cerca de 4,3 biliões de dólares, segundo dados da CryptoQuant citados pela Cryptopolitan, com a Binance a manter cerca de 32% do spot e 40% dos perpétuos. Num mercado mais magro, a tentação de inflar números para parecer maior do que se é só aumenta. E se o preço de referência que alimenta liquidações e oráculos depender cada vez mais de meia dúzia de plataformas de derivados, então a honestidade do volume dessas plataformas deixa de ser um problema de curiosos e passa a ser um problema de todos.

Há ainda um risco menos visível. Os oráculos que alimentam os contratos de empréstimo e as liquidações em toda a DeFi bebem, em última instância, dos preços formados nestas mesmas plataformas. Se o volume que dá peso a um preço de referência for em parte artificial, então a própria base sobre a qual milhões de posições são liquidadas fica contaminada. Foi essa a lição de vários episódios de manipulação de oráculos: não é preciso mover o mercado inteiro, basta mover o pedaço fino que o oráculo observa. A qualidade do volume deixa, assim, de ser uma questão estética e passa a ser uma questão de segurança sistémica.

Portugal, a CMVM e o livro que ninguém controla

Do ponto de vista regulatório, há uma distinção que muitos investidores desconhecem: os perpétuos e outros derivados cripto não caem sob o regulamento MiCA, que trata dos ativos à vista e dos prestadores de serviços (as CASP). Os derivados são instrumentos financeiros ao abrigo da DMIF II (a MiFID II), supervisionados pelo regulador de mercado nacional. Em Portugal, isso significa a CMVM na vertente de conduta e abuso de mercado, enquanto o Banco de Portugal trata da autorização e do registo das CASP.

Isto tem consequências práticas. A ESMA impõe limites de alavancagem no retalho para estes produtos (no caso das criptomoedas, tão baixos como 2 para 1), e o Título VI do MiCA, que cobre o abuso de mercado, estende-se explicitamente ao wash trading e à manipulação, dentro e fora da plataforma. Em Portugal, a Lei n.º 69/2025 prevê coimas até 5 milhões de euros, conforme publicado no Diário da República.

Mas há um problema de fundo que a regulação ainda não resolveu: como se supervisiona um livro de ordens que ninguém controla? Uma perp DEX é, no limite, um conjunto de contratos inteligentes sem custódia e sem uma entidade central responsável. Não há uma CASP óbvia para licenciar, nem um diretor de conformidade a quem pedir contas. A própria ESMA, numa advertência conjunta das autoridades europeias, voltou a alertar os investidores de retalho para os riscos destes mercados. O perímetro do regulador acaba onde começa o código; e é exatamente nessa zona cinzenta que o volume mais difícil de verificar prospera.

Como ler o volume sem ser enganado

Se há uma lição a retirar do episódio da Aster e do ano que se seguiu, é que o volume deve ser tratado como aquilo que é: um número de marketing, até prova em contrário. Isso não significa ignorá-lo, mas lê-lo em contexto, sempre cruzado com indicadores mais difíceis de fabricar.

  • Compare sempre o volume com o open interest: se o volume dispara mas as posições abertas não acompanham, desconfie.
  • Nas DEX, olhe para a razão entre volume e TVL; valores muito acima de uma dezena para um são um alerta.
  • Verifique se a receita de comissões é proporcional ao volume: um mar de volume com um fio de receita não faz sentido económico.
  • Desconfie de volumes que copiam, tique a tique, os de outra plataforma, e de atividade concentrada em dois ou três pares.
  • Dê preferência a dados de agregadores que filtram o volume declarado (DefiLlama, Trust Score da CoinGecko) em vez do número exibido pela própria plataforma.
  • Lembre-se de que campanhas de pontos e expetativas de airdrop inflam o volume por desenho; durante essas campanhas, o número vale ainda menos.

No fundo, a regra é a mesma que vale para qualquer métrica cripto: nenhum número conta a história sozinho. O volume diz-nos onde está a atenção; o open interest diz-nos onde está o dinheiro. E quando os dois contam histórias diferentes, é quase sempre o segundo que diz a verdade.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre volume e open interest?

O volume é um fluxo: mede tudo o que foi negociado num período e soma cada compra e venda, pelo que uma posição aberta e fechada conta duas vezes. O open interest é um stock: mede o valor das posições que estão abertas num dado momento. Por isso o volume pode ser inflado por negócios artificiais sem custo real, enquanto o open interest exige capital imobilizado em margem e é muito mais difícil de falsear.

O que é wash trading e porque acontece nos perp DEX?

Wash trading é negociar contra si próprio, comprando e vendendo entre contas que a mesma entidade controla, para criar a ilusão de atividade. Nos perp DEX acontece sobretudo por causa das campanhas de pontos, que recompensam o volume negociado com futuros airdrops de tokens; isso dá um incentivo direto a gerar volume artificial, mesmo pagando comissões, na expetativa de receber um airdrop maior.

Porque é que a DefiLlama retirou os volumes da Aster?

A 5 de outubro de 2025, a DefiLlama retirou os volumes de perpétuos da Aster porque estes estavam quase perfeitamente correlacionados com os da Binance, movendo-se quase ao tique no caso de pares como o XRP. O agregador não tinha acesso aos dados de quem colocava e preenchia as ordens, pelo que não conseguia verificar se havia wash trading; na dúvida, optou por não publicar o número até poder confirmá-lo.

O volume on-chain é mais fiável do que o das exchanges centralizadas?

Nem sempre. A blockchain torna cada transação pública e auditável, mas não revela se foi economicamente genuína: uma entidade pode negociar entre carteiras que controla e gerar volume real do ponto de vista técnico e vazio do ponto de vista económico. Sem acesso à identidade de quem está dos dois lados de cada ordem, o volume on-chain pode ser tão enganador como o de uma exchange centralizada.

Como tratam a CMVM e a MiCA os perpétuos e o wash trading?

Os perpétuos são instrumentos financeiros ao abrigo da DMIF II (MiFID II) e não do MiCA, pelo que são supervisionados pela CMVM na vertente de conduta, enquanto o Banco de Portugal trata do registo das CASP. O Título VI do MiCA proíbe o wash trading e a manipulação, dentro e fora da plataforma, e a Lei n.º 69/2025 prevê coimas até 5 milhões de euros em Portugal; a dificuldade está em aplicar estas regras a protocolos sem custódia e sem uma entidade central responsável.

Por Liam Brennan, editor de mercados da HOGE Wire.

Share 𝕏 Post Telegram