Volume que mente: o open interest e a miragem dos perp DEX
Há um ano a DefiLlama apagou os volumes da Aster por suspeita de wash trading. O número que todas as exchanges exibem é o mais fácil de inflar; o open interest é o detetor de mentiras.
Abra o painel de qualquer corretora de criptomoedas e o primeiro número a saltar à vista é quase sempre o mesmo: o volume. Quantos milhões, ou milhares de milhões, de euros mudaram de mãos nas últimas 24 horas. É o número que ordena os rankings, que a imprensa cita, que atrai novos utilizadores e que serve de cartão de visita a qualquer plataforma. É também, por uma ironia pouco confortável, o número mais fácil de inflar que existe no mercado.
Hoje, a 9 de outubro de 2026, o mercado está bem mais calmo do que no frenesim do ano passado. O Bitcoin vale cerca de 73.645 euros (com o par EUR/USD perto de 1,13), segundo a CoinGecko, e o volume diário do conjunto do mercado é hoje uma fração do que foi no auge de 2025. Mas há quase exatamente um ano, em outubro de 2025, aconteceram duas coisas na mesma semana. A primeira é conhecida: a 10 e 11 de outubro, o mercado viveu o maior colapso da sua história, com cerca de 19 mil milhões de dólares em posições liquidadas em 24 horas, de acordo com o relatório da CoinGecko sobre esse dia. A segunda passou mais despercebida, mas é o tema deste artigo.
Poucos dias antes do crash, a 5 de outubro de 2025, a DefiLlama (o principal agregador de dados da DeFi) fez algo invulgar: retirou do seu site os volumes de perpétuos de uma das plataformas mais badaladas do momento, a Aster. Não houve ataque informático, nem insolvência, nem falência. Houve apenas uma suspeita desconfortável: o número que a Aster exibia podia, muito simplesmente, não ser verdadeiro. Um ano depois, vale a pena perceber porque é que o volume, a métrica que todos citam, é também a menos fiável; e qual é o número que, ao contrário dele, funciona como detetor de mentiras: o open interest.
O número que todos citam e quase ninguém verifica
Volume, no sentido mais simples, é a soma de tudo o que foi transacionado num período: todas as compras e vendas, somadas, ao longo de 24 horas, de uma semana ou de um mês. Parece objetivo, mas há um detalhe que muda tudo: na esmagadora maioria dos casos, é a própria exchange que reporta o seu volume. Não existe uma câmara de compensação central a auditar cada negócio, como acontece nos mercados de ações. Cada plataforma publica o seu número, e os agregadores (CoinGecko, CoinMarketCap, DefiLlama) tentam depois filtrar o que lhes parece artificial.
Isto importa porque o volume vale dinheiro. Um volume elevado empurra a plataforma para o topo dos rankings, atrai projetos que pagam para serem listados, convence os utilizadores de que ali há liquidez e alimenta a narrativa que faz subir o token da própria exchange. É um ciclo reflexivo: o número gera atenção, a atenção gera depósitos, os depósitos geram mais número. Quando um indicador tão central para o negócio é produzido por quem tem todo o interesse em inchá-lo, a tentação é óbvia.
Para o investidor de retalho, o perigo é concreto. Um volume elevado é lido, instintivamente, como sinal de segurança: se tanta gente negoceia ali, parece arriscado de menos ficar de fora. É exatamente esse reflexo que os números inchados exploram. A liquidez aparente convida a entrar com posições maiores do que a profundidade real do mercado aguenta, e a conta chega no primeiro movimento brusco, quando se descobre que, por trás do número, não estava ninguém disposto a ficar do outro lado.
Em 2026, a maior parte do volume cripto já nem sequer é à vista (spot): os perpétuos e outros derivados representam mais de 70% da atividade das exchanges centralizadas, segundo dados da CryptoQuant citados pela Cryptopolitan. E uma fatia crescente desse volume de derivados mudou-se para o mundo on-chain, para as chamadas perp DEX. É exatamente aí, na fronteira mais recente e menos vigiada do mercado, que a velha questão do volume falso ganhou nova vida.
Volume é um fluxo; open interest é um stock
Para perceber porque é que o volume engana e o open interest não, é preciso separar dois conceitos que muita gente confunde. O volume é um fluxo: mede a quantidade de contratos que trocaram de mãos ao longo de um período. O open interest é um stock: mede o valor nocional das posições que estão abertas num dado instante, ou seja, os contratos que ainda não foram fechados.
A analogia mais útil é a de um estádio. O volume é o número de pessoas que passaram pelos torniquetes à entrada: se alguém entra e sai dez vezes, conta dez vezes. O open interest é o número de lugares efetivamente ocupados neste momento. Pode haver uma multidão a entrar e a sair sem parar (volume altíssimo) e, ao mesmo tempo, poucas cadeiras ocupadas (open interest baixo). A razão entre os dois, o volume a dividir pelo open interest (aquilo a que se chama rotatividade), diz-nos quantas vezes a posição média foi aberta e fechada.
E aqui está o ponto decisivo: o wash trading (negociar contra si próprio, comprando e vendendo entre contas que a mesma pessoa controla) infla o volume de forma trivial, porque cada operação soma ao total. Mas quase não mexe no open interest, porque as posições abrem e fecham-se mutuamente e o saldo líquido fica perto de zero. Para fazer crescer o open interest de forma sustentada é preciso imobilizar capital real em margem. O volume pode ser encenado quase de graça; o open interest exige dinheiro parado. Por isso é tão mais difícil de falsear.
Um exemplo torna a ideia concreta. Imagine duas plataformas que anunciam, ambas, mil milhões de dólares de volume diário. Na primeira, há cem milhões em posições abertas: o capital girou dez vezes, um ritmo plausível para um mercado ativo. Na segunda, há apenas cinco milhões em posições abertas, ou seja, o mesmo euro teve de ser negociado duzentas vezes para produzir aquele número. A primeira parece um mercado; a segunda parece uma máquina de lavar. O volume é idêntico; a história que cada um conta, não.
| Dimensão | Volume | Open interest |
|---|---|---|
| O que mede | Total negociado num período | Posições abertas num instante |
| Tipo de grandeza | Fluxo (acumula no tempo) | Stock (fotografia do momento) |
| Efeito de uma ida e volta | Conta duas vezes | Volta a zero |
| Custo de inflar | Quase nulo (wash trading) | Elevado (exige margem imobilizada) |
| O que revela | Atividade e atenção | Convicção e capital comprometido |
Outubro de 2025: o dia em que a DefiLlama apagou a Aster
A Aster surgiu em setembro de 2025 e tornou-se, em semanas, o nome mais falado das perp DEX. É apoiada pela YZi Labs (a antiga Binance Labs) e foi publicamente promovida por Changpeng Zhao, o fundador da Binance, como relatou a DL News. Depois de uma fusão com a APX Finance, o seu token disparou mais de 2.000%, passando de cerca de 0,09 para mais de 2 dólares em três semanas, um ganho superior a 1.500% para quem entrou cedo, segundo a CoinDesk.
E o volume acompanhou. De acordo com a análise da 21Shares, a Aster saltou de cerca de mil milhões de dólares por dia, no final de setembro, para mais de 70 mil milhões, chegando a representar cerca de 70% do volume de todas as perp DEX. No conjunto, estas plataformas ultrapassavam os 100 mil milhões de dólares diários no início de outubro de 2025, numa altura em que a atenção do mercado estava toda ali, poucos dias antes do colapso que marcaria o fim do ciclo (um momento que revisitámos na retrospetiva de um ano sobre o recorde do Bitcoin).
Foi então que, a 5 de outubro, a DefiLlama agiu. O seu cofundador pseudónimo, conhecido como 0xngmi, anunciou que os volumes de perpétuos da Aster seriam retirados do site. A justificação foi direta, segundo o The Block: «A Aster não permite obter dados de nível mais baixo, como quem está a colocar e a preencher as ordens; por isso, até conseguirmos esses dados para verificar se há wash trading, os volumes de perpétuos da Aster ficam retirados.» O token caiu cerca de 10% nas horas seguintes. O próprio 0xngmi fez questão de esclarecer que nunca deteve ASTER nem HYPE, para afastar qualquer suspeita de interesse.
Porque é que a sombra da Binance acendeu o alarme
O que levantou a suspeita não foi o tamanho do número, mas a sua forma. A DefiLlama notou que os volumes de perpétuos da Aster estavam quase perfeitamente correlacionados com os da Binance. A CoinDesk detalhou o caso do XRP: os perpétuos de XRP na Aster moviam-se quase ao tique com os da Binance, numa correlação perto de 1 para 1, enquanto os da Hyperliquid mostravam uma relação bem mais solta, à volta de 0,59. O XRP e o Ethereum eram, aliás, os grandes contribuidores para os números da Aster.
A lógica forense é simples. Dois mercados independentes, com participantes diferentes, não negoceiam em sincronia perfeita. Quando o volume de uma plataforma espelha o de outra tique a tique, há duas hipóteses: ou uma está a replicar artificialmente a atividade da outra, ou alguém está a reproduzir ordens de um lado para o outro para fabricar atividade. A DefiLlama admitiu que não conseguia distinguir entre as duas, precisamente porque não tinha acesso aos dados de quem colocava e preenchia cada ordem. Sem essa camada, não há como provar nem desmentir o wash trading; e, na dúvida, o agregador preferiu retirar o número a dar-lhe o selo de credível.
A decisão dividiu a comunidade. Os críticos acusaram a DefiLlama de centralizar o poder de decidir que números são verdadeiros, numa indústria que se diz descentralizada. Os defensores lembraram que a plataforma apenas aplicava o princípio básico de qualquer fonte de dados: não publicar aquilo que não consegue verificar. O episódio é menos sobre a Aster em concreto e mais sobre uma fragilidade estrutural de todo o mercado, que a Aster apenas tornou visível.
A economia do volume inflado: pontos, airdrops e reflexividade
Para perceber porque é que tanta plataforma teria incentivo a inflar o volume, basta olhar para o modelo de crescimento das perp DEX em 2026. Quase todas correm campanhas de pontos (points): o utilizador acumula pontos consoante o volume que negoceia, e esses pontos convertem-se, mais tarde, num airdrop do token da plataforma. O problema é evidente: se o sistema recompensa volume, então negociar contra si próprio, mesmo perdendo as comissões, pode compensar se o airdrop prometido for suficientemente grande. O protocolo acaba a pagar aos utilizadores para fabricarem o número que depois exibe ao mundo.
A análise da 21Shares, assinada pelo analista Karim AbdelMawla, apontava sinais clássicos nesse período: a razão entre volume e TVL (o valor total depositado na plataforma) ultrapassava os 70 para 1 na Aster, quando um intervalo saudável anda entre 3 e 7; o volume diário multiplicara por dez numa única semana; e o sistema de pontos «incentiva a repetição de negócios contra si próprio que inflacionam os volumes reportados». A conclusão de AbdelMawla era dura: tratava-se de «uma jogada de crescimento encenado, concebida para melhorar a aparência».
Este desenho criou uma classe inteira de utilizadores a que o mercado chama farmers: equipas que movem capital de plataforma em plataforma, maximizando volume para capturar o próximo airdrop e desaparecendo assim que o token é distribuído. Para a plataforma, é um dilema. Os pontos atraem atividade e manchetes, mas grande parte dessa atividade é mercenária e evapora-se no dia seguinte à distribuição. O volume que parecia tração acaba por ser aluguer de curto prazo, pago em tokens que diluem quem fica. Separar o que é adoção do que é apenas incentivo torna-se, assim, a tarefa central de quem analisa estes números.
O contraste com a Hyperliquid, nesse mesmo relatório, é instrutivo. A Hyperliquid gerou mais de 800 milhões de dólares em receita anualizada em 2025, recomprou mais de 715 milhões de dólares do seu token HYPE no mercado e distribuiu-o sem alocações a fundos de capital de risco. Quando a receita de comissões (que só existe se houver negócios genuínos a pagar taxas) sustenta o valor do token, o incentivo para encenar volume é menor: o número já tem um lastro económico. É a diferença entre uma casa que vive das comissões reais e outra que vive da própria narrativa.
Um ano depois: a guerra dos perpétuos não parou
Passado um ano, a guerra das perp DEX continua, mas o equilíbrio de forças mudou. No conjunto, estas plataformas moveram cerca de 633 mil milhões de dólares em volume de perpétuos nos 30 dias até 3 de outubro de 2026, e cerca de 141 mil milhões apenas na última semana desse período, segundo os dados da DefiLlama. É já perto de um quinto a um quarto de todo o volume de derivados cripto, uma fatia que não para de crescer desde o início do ano, como a CoinDesk notava já em janeiro.
A Hyperliquid consolidou a liderança: cerca de 43,8 mil milhões de dólares em volume a sete dias (perto de 31% de todo o volume das perp DEX) e cerca de 217 mil milhões nos 30 dias. Atrás dela, a Aster somava cerca de 68 mil milhões no mesmo mês, a Lighter perto de 54 mil milhões e a edgeX cerca de 40 mil milhões. Os números absolutos são impressionantes; a questão, como vimos, é saber quanto deles corresponde a capital que ficou, e não apenas a capital que passou.
Vale a pena recordar que, ao contrário das exchanges centralizadas, as perp DEX liquidam tudo on-chain, o que em teoria deveria tornar os seus números auditáveis por qualquer pessoa. Na prática, porém, cada protocolo continua a reportar o seu próprio volume, e nem todos expõem os dados ao nível da ordem necessários para distinguir um negócio genuíno de um negócio entre carteiras da mesma mão. A transparência da liquidação não resolve, por si só, a questão da sinceridade; e é precisamente essa distinção que o resto deste artigo persegue.
| Perp DEX | Volume 30 dias (out. 2026) | Open interest | Leitura |
|---|---|---|---|
| Hyperliquid | 217 mil milhões USD | 8,27 mil milhões USD | Posições que ficam |
| Aster | 68 mil milhões USD | 1,39 mil milhões USD | Muito giro, pouco saldo |
| Lighter | 54 mil milhões USD | 0,82 mil milhões USD | Volume alto, OI baixo |
| edgeX | 40 mil milhões USD | n.d. | Em consolidação |
Dados: DefiLlama, instantâneo de 3 de outubro de 2026. Valores arredondados.
O detetor de mentiras: a razão entre volume e open interest
É quando se coloca o open interest ao lado do volume que a fotografia ganha nitidez. No mesmo instantâneo de 3 de outubro de 2026, a Hyperliquid apresentava cerca de 8,27 mil milhões de dólares de open interest, mais do que as três plataformas seguintes somadas: a Aster com 1,39 mil milhões, a Variational com 1,07 mil milhões, a Lighter com 0,82 mil milhões e a GRVT com 0,48 mil milhões. A Cryptopolitan registava ainda, a 6 de outubro, mais de 435 mil posições abertas na Hyperliquid, um crescimento de cerca de 115% desde o início do ano.
Faça-se agora a conta da rotatividade. A Aster moveu cerca de 68 mil milhões de volume num mês, mas segurava apenas 1,39 mil milhões em posições abertas: o capital passou pela porta dezenas de vezes. A Hyperliquid moveu cerca de 217 mil milhões, mas sobre uma base de 8,27 mil milhões de open interest: muito mais volume, sim, mas também muitíssimo mais capital efetivamente comprometido. A relação entre os dois é completamente diferente, e é essa relação, não o número cru, que distingue um mercado com gente dentro de um mercado onde a porta gira sozinha.
Não existe um valor mágico para esta rotatividade, mas a direção importa mais do que o nível absoluto. Um mercado onde o open interest cresce ao mesmo tempo que o volume está a atrair capital novo e a retê-lo; um mercado onde o volume explode mas o open interest fica estagnado está a gerar barulho sem substância. É por isso que os analistas sérios raramente citam o volume sozinho: colocam-no sempre ao lado do open interest e da sua variação, para distinguir uma subida alimentada por convicção de uma subida alimentada por mera rotação.
Já no outono de 2025, a 21Shares fazia a mesma leitura: a Hyperliquid tinha cerca de 13,5 mil milhões de dólares de open interest contra apenas 3 mil milhões da Aster, apesar de a Aster exibir muito mais volume. O open interest é, por isso, a métrica preferida de quem quer ler o posicionamento real do mercado, e é a espinha dorsal de qualquer leitura séria do painel de derivados, como explicámos no guia sobre como ler o painel cripto em 2026. Em conjunto com a taxa de financiamento (o funding), que revela de que lado está a pressão e quanto custa mantê-la, forma o conjunto de sinais que o volume sozinho nunca dá; um tema que aprofundámos a propósito do dólar sintético que vive dos perpétuos.
Volume verdadeiro ou encenado: uma grelha de leitura
Nenhum indicador isolado prova wash trading, mas o cruzamento de vários levanta (ou afasta) a suspeita com razoável segurança. A grelha seguinte resume os sinais que analistas e agregadores usam para distinguir volume genuíno de volume encenado.
| Sinal | Saudável | Bandeira vermelha |
|---|---|---|
| Volume / open interest | Rotatividade moderada | Volume enorme, open interest minúsculo |
| Volume / TVL (nas DEX) | Entre 3 e 7 para 1 | Acima de 70 para 1 |
| Correlação com outra venue | Solta e variável | Quase 1 para 1, tique a tique |
| Concentração por par | Distribuída | Tudo em dois ou três pares |
| Receita de comissões | Proporcional ao volume | Volume alto, receita irrisória |
| Subidas de volume | Graduais | Saltos de dez vezes numa semana |
O que importa não é decorar limiares, mas perceber a ideia: o volume genuíno deixa rasto noutros indicadores, enquanto o volume encenado aparece sozinho, desligado de tudo o resto. Se o número dispara mas o open interest não sobe, se a plataforma arrecada milhares de milhões de volume mas quase nenhuma comissão, se toda a atividade se concentra em dois pares que copiam outra bolsa, então há motivo para desconfiar. É esse o espírito do Trust Score da CoinGecko, que pondera a profundidade do livro de ordens e outros sinais em vez de aceitar o volume declarado pelo seu valor facial.
O problema não nasceu na DeFi: as CEX e o volume que se reporta a si próprio
Seria injusto apontar o dedo apenas às perp DEX. O volume inflado é um dos pecados originais do mercado cripto, e começou nas exchanges centralizadas. Em março de 2019, num estudo entregue ao regulador norte-americano, a SEC, a gestora Bitwise concluiu que cerca de 95% do volume de Bitcoin à vista reportado era fictício: dos cerca de 6 mil milhões de dólares diários que os agregadores mostravam, apenas perto de 273 milhões correspondiam a negócios reais, e das 81 exchanges analisadas só dez tinham volume genuíno, segundo a CNBC. O episódio marcou a indústria e deu origem às primeiras tentativas de pontuar a fiabilidade das plataformas.
É dessa herança que nasce o Trust Score da CoinGecko, que deixou de pesar o tráfego do site (um mau indicador, agora que quase tudo é feito por telemóvel e por API) e passou a privilegiar a profundidade do livro de ordens e o volume verificável. A mudança de método é uma admissão implícita: o volume declarado, por si só, não vale muito. A diferença, em 2026, é que o palco se deslocou. Onde antes era uma exchange centralizada a inflar um número num servidor fechado, agora é um protocolo on-chain a fazê-lo à vista de todos, com o combustível adicional das campanhas de pontos.
Os métodos para apanhar volume falso também amadureceram. Além da profundidade do livro e da relação com o open interest, os investigadores usam testes estatísticos sobre a distribuição dos dígitos dos negócios (a chamada lei de Benford) e procuram aglomerados suspeitos em números redondos, padrões que o comportamento humano genuíno raramente produz. Nenhum teste é definitivo por si só, mas a acumulação de sinais vermelhos, como aconteceu no caso da Aster, é o que acaba por levar um agregador a agir.
«On-chain» não é sinónimo de honesto
Existe um mito persistente de que, por ser on-chain, o volume das DEX é automaticamente verificável e, portanto, honesto. É meia verdade. A cadeia garante que a transação aconteceu e que a liquidação é pública; não garante que a transação foi economicamente genuína. Nada impede uma mesma entidade de controlar várias carteiras e de negociar entre elas, criando volume real do ponto de vista técnico e totalmente vazio do ponto de vista económico. Foi precisamente isto que a DefiLlama não conseguiu excluir no caso da Aster: via as transações, mas não via quem estava dos dois lados de cada negócio.
A transparência da blockchain prova a existência de um movimento, não a sua sinceridade. E, à medida que a liquidez migra para livros de ordens on-chain e para mecanismos automáticos de criação de mercado, a questão de quem efetivamente fornece essa liquidez (e com que incentivos) torna-se central, um tema que abordámos ao analisar quem paga a liquidez na guerra de desenho dos AMM. Ser capaz de auditar cada transação não serve de nada se não for possível identificar quem a origina; e, em muitas perp DEX, essa última camada continua fora de alcance.
O que o volume migrado diz sobre o mercado de 2026
A migração do volume não é um detalhe técnico; muda a forma como o preço se forma. Com os derivados a valerem mais de 70% da atividade e com uma parte crescente desse volume a acontecer em perp DEX, é cada vez mais nos perpétuos, e não no mercado à vista, que o preço é efetivamente descoberto. O spot tornou-se, em muitos momentos, o reflexo do que acontece nos derivados, e não o contrário; a cauda a abanar o cão, uma dinâmica que já descrevemos em detalhe sobre o peso dos derivados sobre o mercado à vista.
Ao mesmo tempo, o volume total encolheu face ao pico do ano passado. Nas exchanges centralizadas, o volume caiu cerca de 48% desde o máximo de outubro de 2025, de mais de 8 biliões para cerca de 4,3 biliões de dólares, segundo dados da CryptoQuant citados pela Cryptopolitan, com a Binance a manter cerca de 32% do spot e 40% dos perpétuos. Num mercado mais magro, a tentação de inflar números para parecer maior do que se é só aumenta. E se o preço de referência que alimenta liquidações e oráculos depender cada vez mais de meia dúzia de plataformas de derivados, então a honestidade do volume dessas plataformas deixa de ser um problema de curiosos e passa a ser um problema de todos.
Há ainda um risco menos visível. Os oráculos que alimentam os contratos de empréstimo e as liquidações em toda a DeFi bebem, em última instância, dos preços formados nestas mesmas plataformas. Se o volume que dá peso a um preço de referência for em parte artificial, então a própria base sobre a qual milhões de posições são liquidadas fica contaminada. Foi essa a lição de vários episódios de manipulação de oráculos: não é preciso mover o mercado inteiro, basta mover o pedaço fino que o oráculo observa. A qualidade do volume deixa, assim, de ser uma questão estética e passa a ser uma questão de segurança sistémica.
Portugal, a CMVM e o livro que ninguém controla
Do ponto de vista regulatório, há uma distinção que muitos investidores desconhecem: os perpétuos e outros derivados cripto não caem sob o regulamento MiCA, que trata dos ativos à vista e dos prestadores de serviços (as CASP). Os derivados são instrumentos financeiros ao abrigo da DMIF II (a MiFID II), supervisionados pelo regulador de mercado nacional. Em Portugal, isso significa a CMVM na vertente de conduta e abuso de mercado, enquanto o Banco de Portugal trata da autorização e do registo das CASP.
Isto tem consequências práticas. A ESMA impõe limites de alavancagem no retalho para estes produtos (no caso das criptomoedas, tão baixos como 2 para 1), e o Título VI do MiCA, que cobre o abuso de mercado, estende-se explicitamente ao wash trading e à manipulação, dentro e fora da plataforma. Em Portugal, a Lei n.º 69/2025 prevê coimas até 5 milhões de euros, conforme publicado no Diário da República.
Mas há um problema de fundo que a regulação ainda não resolveu: como se supervisiona um livro de ordens que ninguém controla? Uma perp DEX é, no limite, um conjunto de contratos inteligentes sem custódia e sem uma entidade central responsável. Não há uma CASP óbvia para licenciar, nem um diretor de conformidade a quem pedir contas. A própria ESMA, numa advertência conjunta das autoridades europeias, voltou a alertar os investidores de retalho para os riscos destes mercados. O perímetro do regulador acaba onde começa o código; e é exatamente nessa zona cinzenta que o volume mais difícil de verificar prospera.
Como ler o volume sem ser enganado
Se há uma lição a retirar do episódio da Aster e do ano que se seguiu, é que o volume deve ser tratado como aquilo que é: um número de marketing, até prova em contrário. Isso não significa ignorá-lo, mas lê-lo em contexto, sempre cruzado com indicadores mais difíceis de fabricar.
- Compare sempre o volume com o open interest: se o volume dispara mas as posições abertas não acompanham, desconfie.
- Nas DEX, olhe para a razão entre volume e TVL; valores muito acima de uma dezena para um são um alerta.
- Verifique se a receita de comissões é proporcional ao volume: um mar de volume com um fio de receita não faz sentido económico.
- Desconfie de volumes que copiam, tique a tique, os de outra plataforma, e de atividade concentrada em dois ou três pares.
- Dê preferência a dados de agregadores que filtram o volume declarado (DefiLlama, Trust Score da CoinGecko) em vez do número exibido pela própria plataforma.
- Lembre-se de que campanhas de pontos e expetativas de airdrop inflam o volume por desenho; durante essas campanhas, o número vale ainda menos.
No fundo, a regra é a mesma que vale para qualquer métrica cripto: nenhum número conta a história sozinho. O volume diz-nos onde está a atenção; o open interest diz-nos onde está o dinheiro. E quando os dois contam histórias diferentes, é quase sempre o segundo que diz a verdade.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre volume e open interest?
O volume é um fluxo: mede tudo o que foi negociado num período e soma cada compra e venda, pelo que uma posição aberta e fechada conta duas vezes. O open interest é um stock: mede o valor das posições que estão abertas num dado momento. Por isso o volume pode ser inflado por negócios artificiais sem custo real, enquanto o open interest exige capital imobilizado em margem e é muito mais difícil de falsear.
O que é wash trading e porque acontece nos perp DEX?
Wash trading é negociar contra si próprio, comprando e vendendo entre contas que a mesma entidade controla, para criar a ilusão de atividade. Nos perp DEX acontece sobretudo por causa das campanhas de pontos, que recompensam o volume negociado com futuros airdrops de tokens; isso dá um incentivo direto a gerar volume artificial, mesmo pagando comissões, na expetativa de receber um airdrop maior.
Porque é que a DefiLlama retirou os volumes da Aster?
A 5 de outubro de 2025, a DefiLlama retirou os volumes de perpétuos da Aster porque estes estavam quase perfeitamente correlacionados com os da Binance, movendo-se quase ao tique no caso de pares como o XRP. O agregador não tinha acesso aos dados de quem colocava e preenchia as ordens, pelo que não conseguia verificar se havia wash trading; na dúvida, optou por não publicar o número até poder confirmá-lo.
O volume on-chain é mais fiável do que o das exchanges centralizadas?
Nem sempre. A blockchain torna cada transação pública e auditável, mas não revela se foi economicamente genuína: uma entidade pode negociar entre carteiras que controla e gerar volume real do ponto de vista técnico e vazio do ponto de vista económico. Sem acesso à identidade de quem está dos dois lados de cada ordem, o volume on-chain pode ser tão enganador como o de uma exchange centralizada.
Como tratam a CMVM e a MiCA os perpétuos e o wash trading?
Os perpétuos são instrumentos financeiros ao abrigo da DMIF II (MiFID II) e não do MiCA, pelo que são supervisionados pela CMVM na vertente de conduta, enquanto o Banco de Portugal trata do registo das CASP. O Título VI do MiCA proíbe o wash trading e a manipulação, dentro e fora da plataforma, e a Lei n.º 69/2025 prevê coimas até 5 milhões de euros em Portugal; a dificuldade está em aplicar estas regras a protocolos sem custódia e sem uma entidade central responsável.
Por Liam Brennan, editor de mercados da HOGE Wire.