Crédito sem colateral: a fronteira difícil do empréstimo on-chain
A DeFi sempre exigiu mais garantia do que o valor emprestado. Em 2026, protocolos como 3Jane, Maple, Huma e Wildcat tentam a proeza que rebentou o sector em 2022: emprestar sem colateral.
Durante quase toda a sua história, o crédito on-chain viveu com uma regra simples e humilhante: para pedir cem euros emprestado, é preciso depositar cento e cinquenta. A finança descentralizada resolveu o problema da confiança eliminando-a, exigindo sempre mais valor em garantia do que o montante do empréstimo. Funciona, e é uma engenharia notável, mas exclui exatamente quem mais precisa de crédito: quem ainda não tem o dinheiro. Em setembro de 2026, uma nova geração de protocolos volta a atacar o problema que fez explodir metade do sector em 2022, o de emprestar a quem não tem colateral suficiente.
Os nomes são poucos e as apostas são radicalmente diferentes. O 3Jane, apoiado pela Paradigm, abriu o seu mercado principal em novembro e oferece linhas de crédito em USDC sem qualquer garantia. A Maple recuperou de um desastre e gere hoje milhares de milhões de dólares, mas fê-lo abandonando quase por completo o empréstimo sem colateral. A Huma financia pagamentos transfronteiriços na Solana contra recebíveis futuros. A Wildcat deixa cada mutuário desenhar o seu próprio mercado, sem liquidações e sem rede de segurança. É a maior promessa por cumprir da DeFi e, também, o seu cemitério mais movimentado.
O muro dos 150%: porque a DeFi sempre emprestou a mais
Num mercado de crédito tradicional, um banco empresta com base na expectativa de que o devedor vai pagar. Analisa o rendimento, o histórico, o património, e muitas vezes aceita como garantia um bem que vale menos do que o empréstimo, como acontece numa hipoteca em que o valor em dívida excede o valor da casa nos primeiros anos. A DeFi fez o contrário. Protocolos como a Aave e a Morpho nunca conheceram o devedor, por isso exigem que ele deposite mais valor do que aquele que leva.
Quem quer pedir mil dólares em stablecoins deposita normalmente entre 1300 e 2000 dólares em ETH ou Bitcoin. Se o valor do colateral cair abaixo de um limiar, um bot liquida a posição em segundos, sem tribunais e sem cobradores. É o chamado empréstimo sobre-colateralizado, e é a base de praticamente todo o crédito on-chain que existe hoje: a categoria de lending ronda os 49 mil milhões de dólares em valor bloqueado, repartidos por mais de 500 protocolos, segundo a DefiLlama, com a Aave e a Morpho a dominarem. Quase tudo isto é sobre-colateralizado.
O modelo é elegante e seguro para o mutuante, mas é ineficiente em capital e circular: só pode pedir emprestado quem já é dono de ativos. Serve traders que querem alavancagem ou liquidez sem vender, não serve uma empresa que precisa de capital de tesouraria nem uma pessoa que quer antecipar um salário. A promessa de trazer o crédito real para a cadeia esbarra sempre no mesmo muro. Para o derrubar, é preciso fazer aquilo que a DeFi passou anos a evitar: voltar a confiar em alguém.
O que muda quando o colateral desaparece
Tirar o colateral da equação obriga a reintroduzir tudo o que a sobre-colateralização tornava desnecessário. Segundo a Chainlink, o empréstimo sem garantia total assenta em três pilares que a DeFi tratava como palavrões: identidade, avaliação de crédito e recurso legal. Alguém tem de saber quem é o mutuário, alguém tem de estimar a probabilidade de ele pagar, e alguém tem de ter forma de o obrigar a pagar se ele não o fizer.
As técnicas variam. A delegação de crédito, que a própria Aave introduziu há anos, permite que um depositante ceda o seu poder de compra a uma parte de confiança, ficando com um juro mais alto em troca do risco. As estruturas em tranches dividem o capital em senior e junior, com a tranche junior a absorver as primeiras perdas em troca de mais rendimento, funcionando como um seguro interno. E a avaliação de risco passa a depender de dados: histórico on-chain, extratos bancários, scores de crédito tradicionais, faturas por cobrar. O problema, avisa a Chainlink, é que falta uma norma de identidade e de pontuação de crédito on-chain, e num ambiente pseudónimo o incumprimento não tem, por defeito, qualquer recurso.
Por outras palavras, o risco não desaparece, muda de sítio. No empréstimo sobre-colateralizado, o que pode falhar é o código, o oráculo ou a liquidação. No empréstimo sem garantia, o que pode falhar é a contraparte, e essa não se liquida com uma transação.
Maple: a lição de 2022 e a retirada que ainda ensina
Quem quiser perceber porque é que o crédito sem garantia é tão perigoso não precisa de teoria, basta olhar para a Maple. Em 2022, a plataforma era o rosto do empréstimo institucional sem colateral: fundos e mesas de trading pediam dezenas de milhões em stablecoins com base na reputação, avaliados por gestores de risco a que a Maple chamava delegados. Quando a FTX colapsou em novembro desse ano, a estrutura ruiu. A Orthogonal Trading entrou em incumprimento em cerca de 36 milhões de dólares de empréstimos e a Maple cortou relações, acusando-a de «material misrepresentations regarding their financial position», ou seja, de ter mentido sobre a sua exposição à exchange falida. Ao todo, os mutuantes perderam mais de 50 milhões de dólares.
A resposta da Maple foi drástica: recuar do modelo sem garantia. Como resumiu na altura Quinn Thompson, então responsável de crescimento da empresa, ao DL News, o problema era de rentabilidade dos próprios devedores: «You’re not good enough for un-collateralised, you don’t make enough money». A frase é brutal e resume a dificuldade do negócio: para justificar emprestar sem colateral, o mutuário tem de ser tão lucrativo que o prémio de risco compense, e poucos são.
Hoje a Maple é uma empresa diferente. Reconstruiu-se em torno do empréstimo sobre-colateralizado, com os mutuários a depositarem BTC, ETH, SOL ou XRP acima do valor do crédito, e apresenta números que envergonham a maioria da DeFi: cerca de 1,9 mil milhões de dólares em empréstimos ativos, mais de 15 mil milhões emprestados desde o início e uma taxa de reembolso acima de 99%, com mais de 100 milhões distribuídos em juros e a Cantor Fitzgerald entre os parceiros, segundo a Cryptonomist. O seu token de governação, o SYRUP, negoceia a cerca de 0,18 euros, com uma capitalização perto dos 210 milhões de euros e uma subida de mais de 40% no último mês.
A ironia é evidente: o maior mercado de crédito institucional on-chain construiu o seu sucesso a fugir do empréstimo sem garantia. O seu CEO, Sid Powell, resumiu a viragem numa frase que correu a indústria em declarações à CoinDesk: «DeFi is dead» enquanto categoria separada, argumentando que dentro de poucos anos as instituições deixarão de distinguir DeFi de finança tradicional e que os mercados on-chain acabarão por engolir Wall Street. Se ele tiver razão, o crédito sem colateral não será um produto cripto, será apenas crédito.
| Maple em 2026 | Valor |
|---|---|
| Empréstimos ativos | ~1,9 mil milhões USD |
| Total emprestado desde o início | mais de 15 mil milhões USD |
| Taxa de reembolso | acima de 99% |
| Juros distribuídos | mais de 100 milhões USD |
| Modelo atual | sobre-colateralizado (BTC, ETH, SOL, XRP) |
| Token SYRUP | ~0,18 EUR (cap. ~210 M EUR) |
3Jane: o cartão de crédito on-chain
Se a Maple é a prova de que o crédito sem garantia pode matar, o 3Jane é a aposta de que valia a pena tentar outra vez, agora com ferramentas melhores. Apoiado por uma ronda semente liderada pela Paradigm, o protocolo abriu o seu mercado principal em novembro de 2025 com mais de 50 milhões de dólares em ativos verificados, segundo a Phemex. O que oferece é essencialmente um cartão de crédito on-chain: linhas de crédito rotativas em USDC, sem colateral, para utilizadores dos Estados Unidos e, no futuro, para agentes de inteligência artificial.
O coração do sistema é um algoritmo a que o protocolo chama 3CA. Segundo a análise da Leviathan News, ele combina dados on-chain, o histórico da carteira analisado por parceiros como a Cred Protocol e a Blockchain Bureau que cobrem mais de 500 milhões de endereços, com dados off-chain: a ligação da conta bancária via Plaid e o score de crédito tradicional, como o VantageScore 3.0 ou o FICO da TransUnion e da Equifax. O truque técnico está em usar essa informação sensível sem a expor. Através de provas zkTLS, geradas pelo protocolo Reclaim, o 3Jane consegue provar que um utilizador cumpre um critério, por exemplo «score acima de 700», sem colocar o número real na cadeia.
O 3CA devolve três parâmetros: um limite de crédito, um prémio de risco individual e uma taxa mínima de reembolso mensal, tal como um cartão. A Leviathan dá um exemplo concreto: um utilizador pode qualificar-se para uma linha de 50 000 dólares a 5% de taxa base mais 3% de prémio de risco, oito por cento no total, com um reembolso exigido de 5% do saldo por mês. A taxa base segue um modelo de curva adaptativa cujo mínimo acompanha a SOFR, a taxa de referência do dólar, que em setembro de 2026 rondava os 3,66%. Do lado de quem empresta, o capital divide-se em duas tranches, um token senior chamado USD3 e um token junior, o sUSD3, que absorve primeiro as perdas em troca de mais rendimento.
Como o 3Jane cobra uma dívida que não tem garantia
Aqui está o ponto que separa o 3Jane de tudo o que a DeFi fez antes. Sem colateral, não há liquidação: o protocolo não pode apreender nada quando alguém deixa de pagar. Então como se cobra? A resposta é desconfortavelmente familiar para qualquer banco: com contratos e cobradores.
O processo, descrito pela Leviathan, tem três fases. Primeiro, cada mutuário assina um acordo de crédito legalmente vinculativo, um Master Credit Agreement, que o obriga ao reembolso fora da cadeia. Segundo, em caso de falha, um mecanismo interno a que o protocolo chama Credit Slasher corta imediatamente o score do utilizador no 3Jane, bloqueando qualquer crédito futuro. Terceiro, para dívidas em atraso prolongado, o crédito é marcado como não produtivo e leiloado on-chain a agências de cobrança licenciadas nos Estados Unidos: a licitadora vencedora paga o montante para o pool, recuperando parte da perda para os mutuantes, e passa a ter o direito de perseguir a dívida no mundo real, com relatórios de crédito e, no limite, penhora de salário.
É um sistema engenhoso, mas expõe a fragilidade central do modelo. A execução legal só funciona bem para devedores nos Estados Unidos, onde as agências de cobrança operam; um mutuário noutra jurisdição pode simplesmente não pagar. Além disso, a recuperação através destas agências demora meses ou anos, criando um descasamento de liquidez entre quem quer levantar o seu dinheiro já e uma dívida que só entra a conta-gotas. Há ainda o risco de manipulação do algoritmo, com utilizadores a inflarem artificialmente o perfil antes de desaparecer, e o risco de incumprimentos correlacionados se a maioria dos mutuários for traders apanhados na mesma queda de mercado. Não surpreende que o protocolo tenha contratado a Hypernative para monitorização em tempo real, nem que restrinja o serviço, para já, a utilizadores norte-americanos.
Huma e o PayFi: emprestar contra o dinheiro a caminho
Nem todo o crédito sem colateral é uma aposta na reputação. A Huma Finance representa uma terceira via, a que chama PayFi, ou finança de pagamentos, e que resolve o problema da garantia de um modo diferente: emprestando contra dinheiro que já está a caminho. Em vez de exigir criptomoeda como penhor, financia recebíveis, faturas por cobrar, pagamentos transfronteiriços em curso, adiantamentos a exportadores que aguardam a confirmação de um envio.
O modelo é curto e autoliquidável. Segundo a MEXC, as empresas pagam uma comissão diária, tipicamente entre 6 e 10 pontos base, para aceder a liquidez que aceleram um pagamento, e como esse capital é devolvido em um a cinco dias, o mesmo dinheiro pode ser reutilizado até cerca de 100 vezes por ano. A Huma 2.0 corre exclusivamente na Solana, aproveitando a finalidade sub-segundo para liquidar pagamentos em tempo real, 24 horas por dia. A rede, apoiada por parceiros como a Arf e a Geoswift, já processou vários milhares de milhões de dólares em volume, com mais de dois mil milhões em crédito originado para pagamentos, de acordo com a Messari.
O risco aqui é mais contido, porque o empréstimo se paga sozinho quando o recebível chega, mas não é nulo: se o pagador final falhar, ou se o originador do recebível for desonesto, o mutuante fica exposto sem colateral cripto para recuperar. O token HUMA reflete o ceticismo do mercado, negociando a cerca de 0,018 euros, com uma capitalização abaixo dos 31 milhões de euros, apesar do volume real que a rede movimenta. É um lembrete de que financiar a economia real e capturar valor num token são duas coisas distintas, um tema que atravessa toda a guerra do valor no crédito on-chain.
Wildcat: mercados de crédito à medida
No extremo oposto do 3Jane, que automatiza tudo, está a Wildcat, que automatiza o mínimo. É um protocolo de crédito na Ethereum onde o próprio mutuário define todos os parâmetros do mercado: a taxa de juro, o rácio de reservas, o prazo, o ciclo de levantamentos, os endereços autorizados a emprestar e as exigências de KYC. O protocolo não subscreve nada, não avalia risco e não liquida ninguém. Cada mutuante decide, por si, se confia no devedor.
A filosofia é assumidamente crua. Laurence Day, cofundador da Wildcat ao lado de Dillon Kellar, da Indexed Finance, e de Evgeny Gaevoy, da Wintermute, descreveu-a ao The Block como uma abordagem de mercado livre: «We’re not dictating what it is that people are allowed to borrow or what asset or what rate». O objetivo, disse, é trazer o máximo desta atividade de crédito para a cadeia, «so you can track who is borrowing, how much, and under what terms». Mas Day não esconde o perigo, e resume-o num aviso que devia estar afixado à entrada de todo o crédito sem garantia: «if you see something that’s a deal that looks too good to be true… it is».
A Wildcat lançou a versão 2 na mainnet da Ethereum em fevereiro de 2025 e levantou 3,5 milhões de dólares numa extensão de ronda semente liderada pela Robot Ventures, segundo o The Block. Dirige-se a profissionais, fundos, market makers e DAO, não a retalho, e os primeiros mercados mostram o prémio em jogo: um mercado de USDT aberto pela Rhino, na rede Plasma, paga aos mutuantes cerca de 10%. Sem liquidações e sem subscrição, esse juro é puro risco de contraparte.
Quatro modelos, quatro apostas no risco
Os quatro protocolos partilham o objetivo, emprestar sem exigir mais valor do que o crédito, mas resolvem o problema da confiança de formas quase opostas. A Maple confia em subscritores profissionais e em colateral líquido; o 3Jane confia num algoritmo e no sistema legal norte-americano; a Huma confia no fluxo de caixa de um pagamento que já existe; a Wildcat não confia em nada e obriga cada mutuante a decidir sozinho. Vale a pena colocá-los lado a lado.
| Protocolo | Mutuário típico | Garantia | Quem avalia o risco | Mecanismo de incumprimento |
|---|---|---|---|---|
| Maple | Instituições, fundos, mesas | Sobre-colateral (BTC, ETH, SOL) | Subscritores da Maple | Liquidação do colateral |
| 3Jane | Retalho dos EUA, agentes de IA | Nenhuma (score de crédito) | Algoritmo 3CA + dados zkTLS | Contrato legal + leilão a cobradores |
| Huma | Empresas de pagamentos | Recebíveis futuros | Originadores parceiros | O próprio pagamento liquida o crédito |
| Wildcat | Fundos, market makers, DAO | Nenhuma (à medida) | O próprio mutuante | Sem liquidação; risco total de contraparte |
A lista não é nova nem exaustiva. A geração anterior tentou o mesmo e tropeçou: a Goldfinch, a TrueFi e a Clearpool foram pioneiras no crédito on-chain sem garantia entre 2021 e 2023, e várias acabaram por migrar para ativos do mundo real ou reduzir a ambição depois de incumprimentos. O que mudou em 2026 são as ferramentas, as provas de conhecimento zero, os oráculos de identidade, os mercados isolados ao estilo Morpho e a entrada de instituições reguladas, não a natureza do risco.
O problema que nenhum código resolve: a execução
Por baixo de todas estas arquiteturas está a mesma pergunta sem resposta bonita: o que acontece quando alguém, simplesmente, não paga? No mundo sobre-colateralizado, a resposta é trivial, o protocolo vende o colateral. No mundo sem garantia, a resposta depende de coisas que a blockchain não controla, um contrato, um tribunal, uma agência de cobrança, a vontade de pagar de um devedor que já tem o dinheiro na mão.
Este é o incumprimento estratégico, e é o inimigo natural do crédito sem colateral. Um mutuário racional que não espere consequências tem todos os incentivos para desaparecer com o empréstimo, sobretudo se estiver numa jurisdição onde a cobrança não chega. Mesmo quando a execução funciona, ela é lenta, e essa lentidão cria um descasamento perigoso: os depositantes querem liquidez imediata, mas o dinheiro em incumprimento pode levar anos a regressar, se é que regressa. Foi exatamente esse tipo de descasamento, agravado por exposição escondida, que transformou o incumprimento da Orthogonal num rombo para os depositantes da Maple em 2022.
Há ainda o risco de concentração. Se um pool de crédito sem garantia estiver cheio de traders parecidos, uma única queda de mercado pode desencadear incumprimentos em cadeia, precisamente quando a liquidez é mais necessária. A promessa da transparência on-chain ajuda, porque se vê em tempo real quem deve o quê, mas ver o incêndio não é o mesmo que o apagar. No fim, o crédito sem garantia devolve à DeFi o problema que ela nasceu para eliminar: a necessidade de confiar, e de fazer cumprir essa confiança.
Quem paga mais e porquê: a tabela de rendimentos
Para o mutuante, a atração é óbvia: o crédito sem garantia paga mais. A questão é perceber se paga o suficiente para compensar o risco extra, e comparar sempre com a alternativa segura. Em 2026, a taxa sem risco não é zero. A SOFR ronda os 3,66% em dólares e a taxa de depósito do Banco Central Europeu está nos 2,25% desde 17 de junho, segundo o próprio BCE. Qualquer rendimento on-chain tem de ser lido contra esse chão que subiu.
| Onde está o dinheiro | Modelo | Rendimento indicativo | Risco dominante |
|---|---|---|---|
| Aave / Morpho (stablecoins) | Sobre-colateralizado | Próximo da taxa overnight | Contrato, oráculo, liquidação |
| syrupUSDC (Maple) | Institucional, colateralizado | Na ordem dos 4% a 5% | Crédito institucional |
| Huma (PayFi) | Recebíveis, curto prazo | Variável, curto prazo | Contraparte, pagador final |
| Wildcat (ex. Rhino/USDT) | Sem colateral, à medida | ~10% | Contraparte total |
| 3Jane (USD3 / sUSD3) | Sem garantia, retalho | Acima do curto prazo | Incumprimento e execução |
A leitura é simples e implacável: cada ponto percentual acima da taxa sem risco é um pagamento por assumir risco. Os cerca de 4% a 5% do syrupUSDC pagam risco de crédito institucional com colateral por trás. Os cerca de 10% de um mercado da Wildcat pagam a possibilidade de o devedor, sem colateral nenhum, simplesmente não pagar. Não há almoços grátis; há apenas contas que ainda não venceram. Note-se, ainda, que quase todo este crédito é denominado em stablecoins, o que sobrepõe o risco do emitente da moeda ao risco de crédito do próprio empréstimo.
Quando a garantia é a reputação, o risco muda de sítio
Vale a pena resistir à tentação de dizer que o crédito sem garantia é mais perigoso do que o sobre-colateralizado. Não é mais perigoso, é perigoso de outra maneira, e é essa distinção que qualquer depositante deve interiorizar antes de comparar rendimentos.
O crédito sobre-colateralizado concentra o risco na infraestrutura. O que pode correr mal é técnico: um oráculo manipulado, um parâmetro mal calibrado por um curador, uma ponte comprometida. Foi esse mundo que produziu os grandes desastres recentes da DeFi, dos ataques a oráculos ao crédito malparado que nasce de falhas de código e não de contrapartes. O crédito sem garantia inverte a equação. A infraestrutura pode ser impecável, os contratos podem ser perfeitos, e ainda assim o mutuante perde tudo se o devedor decidir não pagar. O risco é humano, e o humano não se audita como se audita um smart contract.
Por isso a batalha decisiva não é sobre taxas nem sobre tokens, é sobre quem fica com o juro e quem fica com a perda quando a confiança falha. Nos modelos com tranches, como o do 3Jane, a tranche junior existe precisamente para absorver o primeiro golpe e proteger os depositantes mais avessos ao risco. Perceber onde se está nessa cascata, e se o prémio compensa a posição, é a única pergunta que interessa.
Regulação: sem colateral, o crédito aproxima-se do banco
Quanto mais a DeFi se parece com crédito a sério, mais atrai o olhar dos reguladores. O quadro europeu, o MiCA, regula os prestadores de serviços de criptoativos e a emissão de tokens, mas não a concessão de crédito nem os protocolos DeFi verdadeiramente autónomos. Um relatório conjunto da EBA e da ESMA ao abrigo do artigo 142 chegou mesmo a classificar a DeFi como um nicho no panorama financeiro, e a Comissão Europeia não a colocou como prioridade. Traduzindo: quem interage diretamente com estes protocolos não tem supervisor, nem fundo de garantia de depósitos por trás. Se o crédito não for pago, não há Estado que reembolse.
Só que o crédito sem colateral a pessoas empurra o problema para outro campo, o do crédito ao consumo, e aí a Europa está prestes a apertar. A nova diretiva do crédito ao consumo, a CCD2 (Diretiva (UE) 2023/2225), aplica-se a partir de 20 de novembro de 2026 e alarga o âmbito a formas de crédito de menor montante e curto prazo que antes escapavam, como salienta a análise da Abreu Advogados. Um cartão de crédito on-chain que chegue a consumidores europeus dificilmente ficaria de fora. Não é por acaso que o 3Jane se limita, por agora, a utilizadores dos Estados Unidos: a geografia da execução legal coincide com a geografia da regulação que quer evitar.
Em Portugal, a concessão de crédito é matéria do Banco de Portugal, que também supervisiona o registo dos prestadores de serviços e as stablecoins, enquanto a CMVM cuida da conduta de mercado; o enquadramento nacional assenta na Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, com o período transitório dos VASP a terminar a 1 de julho de 2026. A isto soma-se a DORA, o regulamento de resiliência operacional que já reescreve a forma como se faz a autópsia de qualquer falha. Para quem quiser acompanhar os prazos, o calendário regulatório da cripto até 2027 mostra que a janela de ambiguidade está a fechar-se depressa.
Como avaliar um mercado de crédito sem colateral
Para quem pondera depositar, o crédito sem garantia exige um tipo de diligência diferente do habitual na DeFi. Não basta ler o código; é preciso avaliar pessoas, contratos e jurisdições. Uma lista mínima de perguntas antes de comprometer capital:
- Quem é o mutuário? Uma instituição identificada, um utilizador anónimo com score, uma empresa com recebíveis? O risco muda por completo.
- Há mesmo garantia ou não? Muitos produtos ditos institucionais são, na verdade, sobre-colateralizados; confirme antes de assumir que está a correr risco de crédito puro.
- Existe capital de primeira perda? Uma tranche junior, um fundo do próprio protocolo ou capital dos gestores alinha incentivos e protege os depositantes senior.
- Como se cobra um incumprimento? Contrato legal, agência de cobrança, apenas reputação? E funciona na jurisdição do devedor?
- Qual é a liquidez real? Consegue levantar quando quiser, ou fica preso enquanto uma dívida em atraso é recuperada ao longo de meses?
- Há concentração? Um punhado de grandes mutuários, ou muitos parecidos, transforma um incumprimento num problema sistémico.
- Quem monitoriza e quem auditou? Vigilância em tempo real, como a da Hypernative, e auditorias sérias não eliminam o risco, mas reduzem as surpresas.
Acima de tudo, lembre-se da regra que atravessa toda esta reportagem: um protocolo de crédito não é um banco. Não há garantia de depósitos, não há credor de último recurso, e quando a dívida não é paga, a perda é sua. O crédito sem colateral pode muito bem ser o futuro do empréstimo on-chain, o passo que finalmente liga a DeFi à economia real. Mas será um futuro construído sobre a mesma matéria-prima frágil de sempre, a confiança, e a história de 2022 lembra o que acontece quando ela se esgota.
Perguntas frequentes
O que é um empréstimo sem colateral (sub-colateralizado) na DeFi?
É crédito on-chain em que o mutuário não deposita garantia superior ao valor emprestado, ou não deposita garantia nenhuma. Em vez de colateral, o protocolo apoia-se em identidade, histórico de crédito, reputação on-chain ou contratos legais para avaliar o risco. Ao contrário da Aave ou da Morpho, que exigem sempre mais valor do que emprestam, protocolos como o 3Jane, a Maple e a Wildcat tentam emprestar com base na capacidade de reembolso do devedor.
Porque é que a Maple abandonou o crédito sem garantia?
Em 2022, a Maple perdeu mais de 50 milhões de dólares quando mutuários institucionais como a Orthogonal Trading entraram em incumprimento após o colapso da FTX. A empresa concluiu que emprestar sem colateral a mesas de trading era demasiado arriscado e reconstruiu-se em torno de empréstimos sobre-colateralizados, com BTC, ETH e outros ativos líquidos acima do valor do crédito. Desde então diz não ter registado qualquer perda de capital.
Como é que o 3Jane cobra uma dívida sem garantia?
O 3Jane faz o mutuário assinar um acordo de crédito legalmente vinculativo, corta o seu score interno em caso de incumprimento e, para dívidas em atraso prolongado, leiloa o crédito on-chain a agências de cobrança licenciadas nos Estados Unidos, que passam a ter o direito de cobrar fora da cadeia. É por isso que, para já, o serviço está limitado a utilizadores norte-americanos, onde essa execução legal funciona de forma eficaz.
O crédito sem colateral rende mais? Porquê?
Tipicamente sim. Enquanto o rendimento de stablecoins na Aave ou na Morpho tende a acompanhar a taxa de curtíssimo prazo, produtos de crédito sem garantia total podem pagar bastante mais, como os cerca de 10% de um mercado da Wildcat. Esse juro extra é, na prática, o prémio de risco de crédito: o pagamento por assumir a hipótese de o devedor não pagar, sem colateral para recuperar a perda.
A regulação europeia cobre o empréstimo cripto sem garantia?
O MiCA regula prestadores de serviços e a emissão de criptoativos à vista, não a concessão de crédito nem os protocolos DeFi autónomos, e não existe fundo de garantia de depósitos. Mas quando o crédito sem colateral chega a consumidores, aproxima-se da atividade bancária: a nova diretiva europeia do crédito ao consumo, a CCD2, aplica-se a partir de 20 de novembro de 2026, e em Portugal a concessão de crédito é matéria do Banco de Portugal, com a CMVM na conduta de mercado.
Por Yuki Tanaka, HOGE Wire