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● DeFi & On-chain

A renda oculta do validador: MEV, relays e a aposta do ePBS

A cadeia do MEV termina no validador, que embolsa parte do valor que o relay lhe entrega. Com o ePBS a entrar na Sepolia, o protocolo tenta cortar o intermediário: quem ganha e quem perde?

Na tarde de 6 de outubro de 2026, a rede de testes Sepolia ativou o Glamsterdam, a maior reorganização do ciclo de produção de blocos da Ethereum desde a Fusão. O protagonista chama-se ePBS, a separação entre quem propõe e quem constrói o bloco, agora inscrita no próprio protocolo. A maior parte da cobertura sobre MEV olha para os predadores (os bots que fazem sandwich) ou para as vítimas (o retalho que paga a mais sem perceber). Este artigo olha para o outro extremo da cadeia: o validador que fica com uma fatia do valor, e a camada frágil, fora do protocolo, o relay, que esta atualização quer eliminar.

A ideia central é simples e pouco falada. Cada euro de MEV extraído na Ethereum percorre uma cadeia de abastecimento que termina sempre no mesmo sítio: o proposer, isto é, o validador sorteado para aquele slot. O protocolo paga a esse validador; tudo o que vem antes (searchers, builders, relays) é software opcional montado por fora. Por isso a pergunta «quem fica com o MEV» é, no fundo, uma pergunta sobre o rendimento do staking e sobre o relay, essa ponte de confiança que a Ethereum tolerou durante três anos. Com a ETH a cotar perto de 2.299,46 euros e uma capitalização a rondar os 281 mil milhões de euros, segundo a CoinGecko, falamos de uma base de rendimento que move milhares de milhões.

Vamos seguir o valor desde o searcher até à carteira do validador, mostrar quanto do chamado «rendimento de staking» é afinal MEV, explicar porque é que o relay é um risco e não um detalhe técnico, e ver o que o ePBS (a correr na Sepolia desde ontem) resolve e o que deixa por resolver. Para o lado da defesa de quem negoceia, remetemos para o nosso manual de defesa e os limites da ordem privada; aqui o foco é a ponta de cima da cadeia, onde o dinheiro assenta.

O que é o MEV, em três frases

MEV é o acrónimo de maximal extractable value, o valor extra que quem produz um bloco consegue captar ao escolher que transações entram e por que ordem. As formas clássicas são a arbitragem entre mercados, a liquidação de posições em protocolos de crédito e o sandwich, em que um bot compra imediatamente antes e vende imediatamente depois de uma ordem alheia para lhe raspar o preço. O termo nasceu no estudo Flash Boys 2.0 (2019), onde o «M» queria dizer miner; depois da Fusão, com os mineradores substituídos por validadores, passou a maximal, mas o mecanismo é o mesmo, segundo a documentação da Ethereum. Há anos que a comunidade fala de uma «floresta escura» onde qualquer transação visível no mempool pode ser atacada antes de confirmar.

A cadeia de abastecimento termina no proposer

O MEV moderno é uma linha de montagem com quatro papéis. O searcher corre algoritmos que detetam oportunidades (uma arbitragem, uma liquidação) e empacota-as numa transação ou num conjunto de transações. O builder recebe essas submissões de muitos searchers e monta o bloco mais valioso possível, ordenando tudo para maximizar o lucro. O relay faz de intermediário de confiança entre o builder e o validador. E o proposer, o validador sorteado para aquele slot, assina e publica o bloco que escolher.

A distinção decisiva é esta: só o proposer é um papel do protocolo. Searchers, builders e relays vivem todos fora da Ethereum, numa economia paralela que a rede nem conhece. A documentação da Ethereum ilustra-o com um exemplo simples: uma arbitragem num DEX que transforma 1.000 ETH em 1.045 ETH deixa 45 ETH em cima da mesa, e é por esse valor que searchers e builders competem num leilão cujo vencedor acaba por pagar ao proposer. Ou seja, o valor criado lá em baixo sobe pela cadeia e deságua na carteira do validador. É por isto que a pergunta «quem fica com o MEV» aterra sempre no mesmo sítio: no último elo, o único que o protocolo efetivamente remunera. Todos os outros elos existem porque conseguem extrair uma margem no caminho, e todos eles estão hoje sob pressão competitiva.

Esta concentração de valor no último elo traz um risco que o estudo Flash Boys 2.0 já antecipava em 2019: se um bloco passado contiver MEV suficiente, um validador pode ser tentado a reorganizar a cadeia (um time-bandit reorg) para o reconstruir a seu favor, ameaçando a estabilidade do consenso. Foi precisamente para domar esta competição, mantendo-a fora do caminho do consenso, que o MEV-Boost e os relays surgiram como solução de recurso. Três anos depois, o remédio tornou-se ele próprio um problema de centralização, e é esse novelo que o Glamsterdam tenta desatar.

MEV-Boost: como o validador terceiriza o bloco

Construir o bloco mais lucrativo exige hardware, dados e algoritmos que a esmagadora maioria dos validadores não tem. A solução que se impôs chama-se MEV-Boost, um software da Flashbots que liga o validador a um mercado de builders através de relays. O fluxo é um leilão de propostas seladas: os builders enviam blocos e lances aos relays, o relay reencaminha ao validador apenas o cabeçalho da proposta mais alta, o validador assina esse cabeçalho às cegas (sem ver o conteúdo) e só então o relay liberta o corpo do bloco. Cerca de 88% dos blocos da Ethereum são hoje montados por esta via, segundo dados compilados pela KuCoin.

Para o validador, o lance vencedor entra como pagamento, somado às suas recompensas normais. Repare-se no pormenor que vai assombrar o resto do artigo: o proposer compromete-se a assinar antes de ver o corpo do bloco. Confia que o relay lhe revelará um bloco válido, correspondente ao cabeçalho assinado, e que não o deixará pendurado no último instante do slot. É esse ato de fé, repetido milhões de vezes por dia, que está no centro do problema de desenho que o ePBS vem tentar resolver.

Quanto do seu staking é, afinal, MEV?

O rendimento de um validador tem duas origens. A primeira é a emissão do protocolo (a chamada camada de consenso), relativamente estável, a rondar os 2,78% ao ano em 2026. A segunda é a camada de execução: as taxas de prioridade pagas pelos utilizadores mais o MEV captado via MEV-Boost. É esta segunda parcela que varia com a atividade da rede e que, em média, representou cerca de 7% do total das recompensas dos validadores no primeiro trimestre de 2026, com os restantes 93% a virem da emissão, de acordo com a KuCoin.

Em percentagem do total parece pouco, mas é enganador. Para quem corre um nó, o MEV-Boost acrescenta entre 10% e 30% à recompensa de base, ou seja, qualquer coisa entre 0,3 e 0,8 pontos percentuais de yield adicional, empurrando o rendimento integral para a faixa dos 3,3% a 3,8% ao ano. Para um operador profissional, é frequentemente a diferença entre a operação valer ou não valer a pena. O MEV, essa taxa invisível que o retalho paga transação a transação, financia discretamente uma parte substancial do que os stakers chamam «rendimento».

ComponenteOrigemPeso aproximado
Emissão (consenso)Protocolo~93% do total das recompensas
Taxas de prioridade + MEV (execução)Mercado / MEV-Boost~7% do total das recompensas
Uplift do MEV-Boost sobre a baseLeilão de builders+10% a +30% (cerca de 0,3 a 0,8 pp)
Yield integral típico (2026)Consenso + execução~3,3% a 3,8% ao ano
Composição aproximada do rendimento de um validador Ethereum em 2026. Fonte: KuCoin.

O relay é uma ponte de confiança

O relay é a peça mais estranha de toda a arquitetura. Senta-se entre o builder e o proposer, guarda o corpo completo do bloco, verifica se é válido e só o deve libertar depois de o proposer se comprometer. A confiança corre nos dois sentidos: o validador confia que o relay lhe dará um bloco válido e que não o reterá (sob pena de perder o slot e a respetiva recompensa); o builder confia que o relay não divulga nem rouba o seu bloco antes da hora. E, na maioria dos casos, o relay não cobra nada por isto, funcionando como um bem público financiado por entidades como a Flashbots.

É uma suposição de confiança fora da cadeia, aparafusada a uma cadeia que se vende como sem confiança. A forma do risco é exatamente a mesma que descrevemos a propósito da segurança das bridges: o código on-chain pode estar impecável, mas a falha mora na camada de confiança fora da cadeia e nas chaves de quem a opera. O mercado de relays é, além disso, concentrado: nas últimas 24 horas, o relay.ultrasound.money e o titanrelay.xyz processaram cada um cerca de um terço dos payloads, com o aestus.live e o bloxroute regulado a dividir quase todo o resto, segundo o relayscan.io. Poucos relays, muita confiança depositada e zero remuneração: é uma combinação instável, que resiste mais por inércia e boa vontade do que por desenho.

Abril de 2023: quando o relay falhou

Em 3 de abril de 2023 ficou claro o que acontece quando a ponte de confiança cede. Um validador explorou uma falha no mev-boost-relay (usado então pela maioria dos relays, incluindo o ultrasound) para desfazer os sandwiches de vários bots e ficar com cerca de 20 milhões de dólares. O mecanismo foi cirúrgico: o relay libertava o corpo do bloco assim que o proposer assinasse um cabeçalho, mas não verificava se esse cabeçalho era válido. O atacante assinou um cabeçalho inválido, recebeu na mesma o corpo com as transações dos bots, reconstruiu um bloco diferente que quebrava os sandwiches e embolsou o dinheiro, como reconstituiu a própria Flashbots no post-mortem do incidente.

A falha foi corrigida em dias, mas a lição ficou: o relay é um ponto único de confiança e de falha. O episódio abriu até um debate jurídico sobre se «o código é lei» também protege quem explora bots predadores, com o atacante a ser mais tarde acusado em tribunal nos Estados Unidos. Mais importante para a nossa história, tornou-se o argumento mais limpo a favor de tirar o relay do caminho crítico, que é precisamente o que o ePBS se propõe fazer. Durante três anos, a Ethereum correu com uma peça de infraestrutura cuja falha podia custar dezenas de milhões e que ninguém pagava para manter.

O oligopólio dos builders

Se o relay é frágil, a construção de blocos é concentrada ao ponto de parecer um oligopólio. Nas últimas 24 horas, um único builder, a Titan, montou cerca de metade de todos os blocos; a Quasar, uma entrante que disparou em 2026, ficou com cerca de um quinto; e a BuilderNet com outro sexto. Os três maiores juntam perto de 90% do mercado, segundo o relayscan.io.

BuilderQuota de blocos (24h)
Titan~51%
Quasar~23%
BuilderNet~16%
bombora~4%
Eureka~3%
Quota de mercado dos principais builders de Ethereum nas últimas 24 horas. Fonte: relayscan.io.

Vale a pena distinguir dois tipos de MEV, porque ajudam a explicar a concentração. O MEV atómico acontece todo dentro de uma só transação on-chain (por exemplo, uma arbitragem entre dois DEX) e é quase sem risco: se não for lucrativo, reverte. O MEV não atómico, como a arbitragem CEX-DEX, exige comprar num sítio e vender noutro, assumindo risco de inventário e de preço entre plataformas; é mais difícil, mais arriscado e, por isso, mais rentável para quem tem escala, capital e fluxo exclusivo. Foi este segundo tipo que mais cresceu e que empurrou o mercado para os grandes.

O motor desta concentração é a integração vertical. Em 2024, a Titan lançou o seu próprio relay, que só aceita os seus blocos, e a Flashbots alertou cedo para os riscos da integração vertical no MEV-Boost. Quando um builder é dono do relay e os melhores searchers lhe enviam fluxo em exclusivo, o mercado inclina-se e torna-se muito difícil para um novo builder competir. A estratégia dominante hoje, a arbitragem CEX-DEX (não atómica, entre uma corretora centralizada e um DEX), premeia precisamente quem tem fluxo exclusivo: um estudo apresentado na conferência AFT 2025 estimou 233,8 milhões de dólares captados em mais de sete milhões de arbitragens CEX-DEX por apenas 19 searchers em 19 meses, com os três maiores a abocanharem perto de três quartos do valor (arxiv.org).

A resposta coletiva a este risco chama-se BuilderNet: uma rede de construção operada por vários atores (Flashbots, Beaverbuild e Nethermind) dentro de ambientes de execução confiável (TEE), que devolve valor aos utilizadores em proporção do fluxo que enviam. No seu manifesto, a BuilderNet descreve o objetivo como dar aos searchers independentes os mesmos resultados financeiros e a mesma privacidade que hoje só os builders-searchers integrados conseguem. É uma tentativa de combater a concentração sem esperar pelo protocolo, e já representa cerca de um sexto dos blocos.

No fundo da cadeia, a história é de margens a encolher. A competição entre searchers é tão feroz que grande parte do valor que descobrem acaba entregue ao builder e, por via do leilão, ao proposer; os searchers ficam com uma fatia cada vez mais fina, a menos que tenham um acordo de exclusividade com um builder integrado. É esse o prémio da integração vertical e a razão por que a fronteira competitiva de 2026 se joga menos na deteção de oportunidades e mais em quem controla o fluxo de ordens.

Quem fica de fora: o solo staker e a variância

Há um perdedor silencioso nesta história: o solo staker. O MEV é irregular por natureza. Um validador individual propõe um bloco talvez uma vez a cada poucos meses, e quando a vez chega pode calhar um bloco gordo de MEV ou um bloco quase vazio. Essa variância brutal é um problema sério para quem tem um só validador. Os grandes operadores propõem milhares de blocos, pelo que a sorte se dilui na média; e correm configurações de MEV-Boost otimizadas, ligadas a muitos relays e builders ao mesmo tempo. O MEV, portanto, acumula-se de forma mais fiável nas mãos de quem é grande.

As respostas a esta injustiça acabam, ironicamente, por concentrar ainda mais. A Rocket Pool criou uma smoothing pool que junta as recompensas de execução de todos os participantes e as reparte de forma uniforme ao longo de ciclos de 28 dias; a Lido encaminha as recompensas de execução para um cofre partilhado por todo o protocolo. Ambas reduzem a variância do pequeno operador, mas fazem-no agrupando-o numa entidade grande. O resultado é um empurrão subtil do staking para os grandes operadores, o oposto do ideal de descentralização que o solo staking deveria servir.

Para o investidor de retalho, a forma mais comum de tocar nesta renda é indireta: através de tokens de liquid staking como o stETH ou o rETH, que embrulham as recompensas (MEV incluído) num ativo líquido. É cómodo, mas acrescenta uma camada de confiança: o utilizador conta com o protocolo de staking para captar e repassar o MEV de forma eficiente e honesta, e esses protocolos são, eles próprios, operadores de grande escala. A renda do validador chega assim ao retalho já filtrada por mais um intermediário, fechando o círculo: o MEV que o retalho paga enquanto negoceia regressa-lhe, diluído, enquanto faz staking.

Do outro lado do balcão estão os fornecedores de liquidez dos AMM, que são a imagem ao espelho do validador: enquanto o proposer recebe MEV, o LP paga-o sob a forma de LVR (perda face ao reequilíbrio), o lucro que os arbitradores lhe extraem sempre que o preço de mercado se move e a pool fica desatualizada. É a mesma pergunta que explorámos em quem paga a liquidez: no fim das contas, o MEV redistribui valor dos LPs e dos traders para cima, para searchers, builders e, no último elo, o proposer.

ePBS: o protocolo absorve a separação

É aqui que entra o Glamsterdam. A sua peça central, o ePBS (enshrined proposer-builder separation, definido na EIP-7732), inscreve no próprio protocolo a separação entre quem propõe e quem constrói o bloco, removendo a necessidade do middleware de confiança, isto é, o MEV-Boost e os relays. Em vez de assinar às cegas um cabeçalho que um relay promete honrar, o proposer passa a inscrever no bloco de consenso o compromisso de um builder com um payload; o builder revela depois esse payload; e o próprio protocolo trata do pagamento ao proposer, segundo a documentação da Ethereum.

Tecnicamente, o Glamsterdam introduz um Payload Timeliness Committee e uma lógica de dois prazos, em que os validadores atestam separadamente o consenso e a entrega atempada do payload. Isto alarga a janela de propagação de cerca de 2 para cerca de 9 segundos, dando folga à rede. A atualização traz ainda as block-level access lists (EIP-7928), um mapa das dependências de dados de cada transação que permite execução em paralelo e também ajuda os builders, além de várias reprecificações de gas. Na Sepolia, os validadores puderam até sinalizar um limite de gas opcional de 200 milhões, mais do triplo do teto anterior de cerca de 60 milhões, num teste que não compromete a mainnet, segundo a Crypto Briefing.

Para a nossa história, o essencial é um só: o relay sai do caminho crítico. A classe de ataque de abril de 2023 (o relay a revelar o corpo com base num cabeçalho não verificado) deixa de ser possível, porque passa a ser o protocolo, e não uma ponte de confiança externa, a mediar a revelação e o pagamento. Os builders continuam a existir e a competir; a ponte de confiança, não. É a maior correção estrutural à economia do MEV desde que o MEV-Boost apareceu.

Porque é que o ePBS não chega

Nem o próprio criador da Ethereum acha que o ePBS resolve tudo. Num plano divulgado em março de 2026, Vitalik Buterin argumentou que criar um mercado de builders não impede que um punhado deles domine, censure transações ou extraia lucros desproporcionados; comoditizar o builder exige mais camadas, noticiou a CoinDesk. Dito de outra forma, o ePBS arruma o relay, mas não o oligopólio de builders que vimos na tabela acima.

As camadas que Buterin propõe são três. O «Big FOCIL» estende as inclusion lists da EIP-7805, em que um comité aleatório de validadores força a inclusão de transações, ao ponto de reduzir o papel do builder a pouco mais do que ordenar o MEV e calcular o estado, comoditizando-o. Os mempools encriptados escondem as transações até à finalização, matando o MEV tóxico (o front-running e o sandwich) na origem, por não haver nada visível para atacar. E o encaminhamento anónimo tapa a observação das transações por intermediários na camada de rede. Nenhuma destas peças faz parte do Glamsterdam: a FOCIL ficou de fora quando o ePBS foi escolhido como cabeça de cartaz, pelo que a metade anticensura do plano anda atrasada em relação à metade da separação. Enquanto não chega, quem acompanha a censura ao nível dos relays pode fazê-lo em plataformas como o MEV Watch, que mede a quota de relays que filtram transações por conformidade com listas de sanções desde 2022.

O calendário: de Sepolia à mainnet

A Sepolia ativou o Glamsterdam em 6 de outubro de 2026, às 13:53:36 UTC, na época 353.024, combinando a parte de execução (Amsterdam) com a de consenso (Gloas). É o primeiro teste público de uma mudança tão profunda que já foi descrita, em termos de reescrita do protocolo, como algo próximo do fim das atualizações «normais». A seguir virá a rede de testes Hoodi, sem data marcada, e só depois a mainnet, esperada para o quarto trimestre de 2026 mas ainda sem calendário fechado, como sublinha a Crypto Briefing.

Convém gerir expectativas quanto a datas. Os programadores de base têm sido claros em priorizar a correção do ePBS sobre o calendário, pelo que um deslize para o início de 2027 não seria surpresa. E o limite de gas de 200 milhões testado na Sepolia é apenas um sinal opcional dos validadores, não um compromisso para a mainnet. O que está em jogo não é a velocidade, é a solidez de um mecanismo que vai mediar todo o valor que passa pela rede; um erro aqui não falha um swap, falha a produção de blocos.

Solana: sem mempool global, mas com Jito

A Solana resolve o mesmo problema por um caminho oposto. Não tem mempool global, pelo que o MEV acontece na ordenação feita pelo líder do slot e no leilão de pacotes (bundles) e gorjetas (tips) gerido pela Jito, fora da cadeia. O cliente Jito-Solana corria mais de 95% do stake ativo no início de 2026, e o seu Block Assembly Marketplace (BAM) chegou a cerca de 33% do stake, repartido por 378 validadores, segundo a Solana Compass.

Indicador Jito (Solana)Valor
Stake no cliente Jito-Solana>95% do stake ativo
Quota do BAM no stake~33% (378 validadores)
Receita de tips (TOV), 2T 2026~9,9 M USD (queda de 50%)
JitoSOL em stake~14,5 M SOL
Yield JitoSOL vs base~7,2 a 7,8% vs ~5,9 a 6,6%
A economia de MEV da Solana através da Jito. Fonte: Solana Compass (dados do segundo trimestre de 2026).

Os números também mostram o ciclo a arrefecer: a receita de tips (TOV) caiu cerca de 50% para 9,9 milhões de dólares no segundo trimestre de 2026, e a receita de protocolo da Jito recuou 45%, para 1,28 milhões. Em vez de uma solução de protocolo, a Solana apostou no social e no fora da cadeia: em 2024, a Solana Foundation expulsou mais de 30 validadores do seu programa de delegação por correrem mempools de sandwich, e Tim Garcia, responsável de Relações com Validadores, descreveu a posição como final, segundo o CryptoSlate. Com a SOL a cotar 104,50 euros, é um modelo de governação, não de engenharia de consenso, e depende de a fundação continuar a ter mão sobre o programa.

A CMVM, o MiCA e o buraco por baixo da infraestrutura

Para o leitor português, a pergunta inevitável é: pode a CMVM fazer algo quanto a isto? Em teoria, o regime de abuso de mercado do MiCA (o Título VI, que cobre o uso de informação privilegiada, a divulgação ilícita e a manipulação) e as regras de conduta da CMVM alcançam um CASP (prestador de serviços de criptoativos) que faça front-running aos próprios clientes. O Banco de Portugal regista os CASP, e o regime transitório dos antigos VASP portugueses termina a 1 de julho de 2026, ao abrigo da Lei n.º 69/2025.

O problema é que quase nada do MEV cabe nesse perímetro. Um bot anónimo que faz sandwich num DEX sem licença, um builder como a Titan, um relay operado por uma fundação: nenhum é um CASP nem um emitente. E a questão que o ePBS levanta não é sequer de abuso de mercado, é de concentração de infraestrutura: um oligopólio de builders capaz de censurar transações é um problema de resiliência e de concorrência que a lei de abuso de mercado não foi feita para resolver. A CMVM, a AMF francesa e a FMA austríaca já defenderam supervisão direta da ESMA sobre os grandes CASP, mas um builder dominante não é CASP nenhum, nem tem morada conhecida na União Europeia.

O reflexo da finança tradicional mostra o limite. A União Europeia proibiu o pagamento por fluxo de ordens (PFOF) para o retalho, via artigo 39.º-A do MiFIR, com efeito a 30 de junho de 2026, precisamente porque é um custo de execução escondido num intermediário identificável. O MEV é o PFOF da cripto, mas com uma diferença fatal: on-chain, o intermediário muitas vezes nem tem nome nem morada. É a mesma opacidade que torna difícil medir o volume de balcão (OTC) que alimenta a arbitragem CEX-DEX; o regulador age quando há um intermediário a quem apontar, e boa parte do MEV foi desenhada precisamente para não o haver.

O que isto significa para quem detém ETH

Para quem faz staking, a mensagem é dupla. Uma fatia do seu rendimento é MEV, e quanto dela fica consigo depende da configuração do seu operador e do mecanismo de smoothing que use. O ePBS não aumenta o MEV total disponível, mas deve tornar a sua captura mais justa e, sobretudo, eliminar o risco de relay que abril de 2023 expôs de forma tão cara.

Para os fornecedores de liquidez, a posição é a oposta: estão do lado que paga, via LVR, e dependem de mecanismos ao nível da aplicação para recuperar parte do que perdem. Para quem negoceia, a defesa continua a passar por RPC privados e leilões de fluxo de ordens (MEV Blocker, CoW, MEV-Share) até os mempools encriptados chegarem, um tema que tratámos a fundo no manual de defesa. E para ler o painel de forma informada, vale a pena cruzar estes sinais com o posicionamento em derivados, já que grande parte do MEV atual nasce precisamente da arbitragem entre o mercado spot e os perpétuos.

O que vigiar nos próximos meses: a data da fork na Hoodi, o calendário da mainnet, se a FOCIL segue o ePBS, o índice de concentração dos builders no relayscan e a quota da BuilderNet. A floresta escura não está a ser desbravada; o protocolo está apenas a tentar garantir que a última clareira, o bloco do proposer, pertence a todos e não a uma ponte de confiança ou a um único builder. É uma aposta técnica com consequências económicas para toda a gente que detém, faz staking ou negoceia ETH.

Perguntas frequentes

O que é o MEV no staking de Ethereum?

MEV é o valor extra que um proposer capta ao escolher a ordem das transações de um bloco. Através do MEV-Boost, esse valor chega ao validador como parte do rendimento: as recompensas de execução, que incluem taxas de prioridade e MEV, representaram cerca de 7% do total e acrescentam entre 10% e 30% à recompensa de base.

O que é o ePBS do Glamsterdam?

O ePBS é a separação entre proposer e builder inscrita no protocolo, definida na EIP-7732. Inscreve no consenso o compromisso do builder e remove o middleware de confiança (MEV-Boost e relays). Está ativo na rede de testes Sepolia desde 6 de outubro de 2026, com a mainnet esperada para o quarto trimestre de 2026, ainda sem data marcada.

Porque é que os relays de MEV-Boost são um risco?

O relay é um intermediário de confiança, não remunerado, que guarda o bloco completo entre o builder e o validador. Em abril de 2023, um validador explorou uma falha num relay para roubar cerca de 20 milhões de dólares a bots de sandwich. Os relays também podem censurar transações e ficar offline; o ePBS tira-os do caminho crítico.

O solo staker ganha menos MEV?

Em média não ganha menos, mas sofre muito mais variância, porque propõe blocos raramente. Os grandes operadores diluem a sorte na média e correm configurações otimizadas, e as smoothing pools (Rocket Pool, cofre da Lido) uniformizam os pagamentos agrupando os pequenos. O efeito é empurrar o staking para os grandes operadores.

A CMVM pode regular o MEV?

A CMVM pode alcançar um CASP que faça front-running aos clientes, ao abrigo do Título VI do MiCA sobre abuso de mercado. Mas os bots anónimos e os builders em DEX sem licença ficam fora do perímetro dos CASP. O problema maior é a concentração de builders, que a lei de abuso de mercado não foi desenhada para tratar.

Mariana Osório cobre infraestrutura DeFi e microestrutura de mercado na HOGE Wire.

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