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● DeFi & On-chain

Rendimento real na Solana: muita receita, pouco para o token

A Solana é a rede número um em receita de aplicações, mas grande parte nunca chega a quem detém o token. Explicamos onde nasce o rendimento real e para onde vai.

A Solana lidera em receita, mas o rendimento chega ao token?

Em agosto de 2026, as aplicações construídas sobre a Solana geraram cerca de 143,23 milhões de dólares em receita, o equivalente a 38,1% dos 375,53 milhões que todas as aplicações de todas as blockchains faturaram nesse mês. Foi mais do que a Hyperliquid (55,6 milhões), a Ethereum (47,1 milhões) e a BNB Chain (34,7 milhões) somadas. E não foi um mês isolado: a Solana é a rede com mais receita de aplicações há nove trimestres seguidos.

E, no entanto, o SOL negoceia perto dos 106,85 euros (122,18 dólares), longe dos máximos, com uma capitalização a rondar os 71,8 mil milhões de dólares, segundo a CoinGecko. Aqui está a pergunta que qualquer investidor europeu devia fazer antes de perseguir os números: de toda esta receita, quanto chega, de facto, a quem detém o token? Se comprar SOL, jitoSOL, JUP ou RAY, recebe uma fatia deste dinheiro, ou está apenas a apostar que o preço sobe?

«Rendimento real» tornou-se um dos rótulos mais usados de 2026. A ideia é simples e boa: distinguir o rendimento que vem de receita verdadeira (comissões, juros, funding, MEV) do rendimento que vem apenas da impressão de novos tokens. A Solana é o melhor caso para testar o rótulo, porque reúne as duas coisas em simultâneo: é uma máquina de receita genuína e, ao mesmo tempo, uma das redes onde é mais fácil confundir inflação com rendimento. Vamos separar as duas.

Rendimento real: os dois testes que interessam

O conceito nasceu no mercado de baixa de 2022, quando protocolos como a GMX começaram a pagar aos detentores uma parte das comissões que cobravam, em vez de os remunerar apenas com emissões de token cada vez mais diluídas. A definição prática que usamos nesta série é a que resiste ao teste mais duro: um rendimento é real se sobrevivesse ao token a valer zero. Se a recompensa depende de o protocolo continuar a cunhar e a distribuir a sua própria moeda, não é rendimento, é diluição com outro nome.

Esse é o primeiro teste. Mas em 2026 já não chega, e a Solana explica porquê. O segundo teste é a subtração dos incentivos: mesmo quando existe receita real, é preciso descontar o que o protocolo gastou em emissões, airdrops e programas de pontos para a gerar. Um protocolo pode faturar muito e, ainda assim, distribuir mais tokens novos do que o valor que recompra. A receita é real; o efeito líquido para quem detém o token pode ser negativo. É a diferença entre uma empresa que dá lucro e uma empresa que dá lucro mas emite ações novas mais depressa do que as recompra.

Na prática, medir isto não exige fé, exige aritmética. Painéis como o da DefiLlama separam três números que soam parecidos mas não são: as comissões (o que os utilizadores pagam), a receita do protocolo (o que fica depois de pagar os fornecedores de liquidez) e a receita para os detentores (a fatia que efetivamente regressa ao token, via recompra ou distribuição). É este último número que interessa a quem compra o token, e é quase sempre o mais pequeno. Um protocolo pode faturar centenas de milhões e devolver ao detentor uma gota; a Solana está cheia de exemplos dos dois extremos.

Guardar estes dois testes na cabeça (sobrevive ao token a zero e desconta os incentivos) é o que permite ler a Solana sem cair na manchete dos 143 milhões. Na prática, levam a conclusões diferentes consoante a camada que se olha: a camada base, ou seja, o staking de SOL; as aplicações que usam a receita para recomprar o próprio token; e as aplicações que distribuem a receita diretamente a quem fornece capital. Comecemos pela base.

A camada base: o staking de SOL é sobretudo inflação

Quem faz staking de SOL vê um número apetecível: cerca de 6,06% ao ano, muito acima de qualquer depósito a prazo europeu. O problema é que grande parte desse número não é rendimento, é compensação por diluição. A Solana emite SOL novo para pagar os validadores, a uma taxa de inflação que ronda os 4,5% ao ano e desce segundo um calendário programado. Quem não faz staking vê a sua fatia da rede encolher a esse ritmo; quem faz staking recebe os 6% e, depois de descontar a diluição, fica com um rendimento real de aproximadamente 1,5%.

É o segundo teste aplicado à camada base: a receita bruta é elevada, mas o efeito líquido depois de subtrair as emissões é modesto. A comparação com a Ethereum é esclarecedora. O staking de ETH paga um nominal mais baixo, à volta de 2,7%, mas a emissão líquida da rede está perto de zero porque a queima de comissões compensa quase toda a nova emissão; o rendimento nominal e o real quase coincidem. Na Solana, o nominal impressiona e o real desilude.

RedeRendimento nominal do stakingInflação/emissão anualRendimento real aproximado
Solana (SOL)~6,06%~4,5% (a descer)~1,5%
Ethereum (ETH)~2,7%perto de 0% (a queima compensa)~2,7%
Rendimento nominal contra rendimento real na camada base. Fontes: datawallet, ethereum.org.

Há uma reforma em curso que muda esta conta. A proposta SIMD-411, apresentada em novembro de 2025 por programadores da Helius, duplica a velocidade de desinflação da rede, de 15% para 30% ao ano, e antecipa o piso final de 1,5% de inflação de 2032 para 2029. A modelação da Galaxy e da Helius, resumida pela 21Shares, aponta para um rendimento nominal a cair dos cerca de 6,4% de hoje para uns 5% no primeiro ano, 3,5% no segundo e 2,4% no terceiro. Parece mau para quem faz staking, mas é bom para o rendimento real: menos SOL novo significa menos diluição, portanto o nominal desce e o real sobe. É a própria rede a admitir que grande parte do rendimento atual é inflação.

Jito: quando o MEV torna o staking mais real

Se o staking simples de SOL é sobretudo inflação, o liquid staking com MEV é o contrário: adiciona receita verdadeira por cima da base. A Jito é o maior protocolo de liquid staking da Solana, com cerca de 14,5 milhões de SOL em depósito, o equivalente a uns 2,92 mil milhões de dólares, segundo a Solana Compass. O jitoSOL rende aproximadamente 7,2% a 7,8% ao ano, contra os 5,9% a 6,6% do staking nativo. Essa diferença de um a dois pontos não sai de emissões: vem de tips de MEV, o valor extraído da ordenação de transações dentro de cada bloco. É receita real, e o cliente de validação da Jito corre em cerca de 94% a 95% do stake, o que torna a captura de MEV uma característica estrutural da rede, não um extra ocasional.

A Jito foi ainda mais longe com o Block Assembly Marketplace, ou BAM, um mercado para a montagem de blocos que procura tornar a captura de MEV mais transparente e menos predatória para o utilizador comum. A ideia é transformar aquilo que durante anos foi uma taxa invisível, paga por quem via a sua ordem ser ultrapassada, numa fonte de receita partilhada e auditável. Para o rendimento real, o BAM importa porque profissionaliza a fonte: quanto mais estrutural e menos oportunista for o MEV, mais previsível é a receita que sustenta o jitoSOL e o JTO.

O token JTO também passa nos dois testes, ao contrário do que veremos noutros casos. Desde a proposta de governação JIP-24, em agosto de 2025, 100% das comissões do protocolo fluem para a tesouraria da DAO: o Block Engine gera cerca de 19 milhões de dólares por ano, o BAM outros 15 milhões e a comissão de liquid staking mais 9,4 milhões, um total acima de 30 milhões de dólares anuais de receita real. Se o preço do JTO fosse a zero amanhã, o MEV continuaria a ser capturado e a receita continuaria a existir. A ressalva, que retomamos mais à frente, é que o volume de MEV depende da atividade de negociação, e essa atividade na Solana é tudo menos estável.

Pump.fun: o rei da receita, financiado por memecoins

O maior contribuinte isolado para a receita da Solana não é uma corretora nem um mercado de crédito: é uma fábrica de memecoins. A Pump.fun gerou sozinha cerca de 58,2 milhões de dólares em agosto, mais de 40% de toda a receita das aplicações da rede, e chegou a ultrapassar a Hyperliquid em receita mensal. São comissões reais, pagas por quem cria e negoceia tokens; passam sem problemas no primeiro teste.

Parte do que sustenta estes números é a Pump.fun ter deixado de ser só uma rampa de lançamento. O PumpSwap, a sua própria corretora, passou a capturar o volume de negociação que antes fugia para outras plataformas depois de um token graduar, e um programa de partilha de receita com os criadores incentiva quem lança tokens a trazer o público consigo. É integração vertical à maneira das grandes plataformas de consumo: capturar o utilizador na origem e monetizá-lo em cada passo. Do ponto de vista do rendimento real, é receita genuína; do ponto de vista do risco, é a mesma aposta na permanência da febre especulativa, agora com mais alavancas.

A Pump.fun devolve parte disso ao token. Desde abril de 2026, 50% das comissões líquidas (da bonding curve, do PumpSwap e do Terminal) são usadas para comprar PUMP no mercado aberto, e 60% do que é comprado é queimado de forma permanente. Nesse mês houve ainda uma queima única de cerca de 370 milhões de dólares em PUMP, e o programa acumula mais de 300 milhões de dólares em recompras desde julho de 2025. É recompra financiada por receita verdadeira, portanto real. A pergunta não é se a receita existe; é se dura.

É aqui que o retrato fica menos lisonjeiro. A Pump.fun é a bolsa de casino da Solana; a sua receita sobe e desce com a febre especulativa das memecoins. Além disso, a percentagem que vai para recompra é uma decisão discricionária: já foi 100%, passou a 50% e pode voltar a mudar. Um rendimento que depende de uma frenesim de negociação e de uma escolha de tesouraria não é o mesmo que um cupão de um bilhete do tesouro. É real hoje; a questão é o que sobra num inverno de mercado.

A grande recaída: porque a receita da Solana é cíclica

A manchete da liderança em receita esconde um colapso na camada de base. Segundo a análise da 21Shares, a receita bruta da rede Solana no primeiro semestre de 2026 foi de cerca de 141 milhões de dólares, uma queda de 87,1% face aos 1,09 mil milhões do mesmo período de 2025. No mesmo intervalo, o peso das memecoins no volume à vista caiu de perto de 40% para 16%. Convém separar dois números que muitas vezes são baralhados: a receita das aplicações (as comissões das dApps, onde a Solana lidera) e a receita da rede (a camada base, que desabou). Ambas são reais; ambas são reféns do mesmo ciclo de especulação.

A parte animadora da mesma análise é que a Solana está a diversificar a base de receita para longe das memecoins. O volume migrou em parte para stablecoins, ativos do mundo real tokenizados e ações tokenizadas, categorias com procura menos dependente do humor do casino. O crédito garantido por ações tokenizadas e os produtos de ações on-chain são sinais de que uma parte da receita futura pode ser mais estável do que a que veio da última onda especulativa. Ainda é cedo para saber se a transição é rápida o suficiente para amortecer a próxima queda de volume, mas a direção é a certa.

Há um precedente que todos os veteranos de DeFi conhecem. A GMX foi a menina-dos-olhos do rendimento real em 2022, a pagar aos detentores uma fatia das comissões de perpétuos; quando o volume de negociação secou, a receita secou com ele. Rendimento real que não é durável é uma fotografia, não uma renda. Por isso o segundo teste tem um primo indispensável: não basta perguntar se a receita é real, é preciso perguntar se aguenta. Na Solana, a resposta honesta é que aguenta enquanto durar a frenesim, e saber ler o volume é meio caminho andado para não confundir um pico com uma tendência.

Raydium: taxas de swap que compram o próprio token

A Raydium, a mais antiga corretora descentralizada da Solana, usa um modelo mais limpo. Encaminha 12% de todas as comissões de swap para comprar RAY no mercado aberto, e ao longo do tempo já recomprou mais de 30% do RAY em circulação usando apenas as suas próprias comissões de negociação. Em agosto de 2026, o ritmo acelerou: cerca de 150 mil dólares em RAY em três dias, o valor mais alto desde o início do ano. O produto de ações tokenizadas xStocks movimentou 1,63 mil milhões de dólares no segundo trimestre, um sinal de que a receita começa a diversificar-se para além das memecoins.

Trata-se de recompra como acumulação de valor: o detentor não recebe um dividendo em dinheiro, mas a oferta em circulação encolhe, o que, tudo o resto igual, aumenta a fatia de cada token. Passa no primeiro teste, porque as comissões são reais. Mas guarde esta ressalva, porque a próxima secção vive dela: recomprar 30% da oferta parece muito e, ainda assim, não colocou o RAY nos máximos. Quando as emissões correm mais depressa do que as recompras, o teste da subtração de incentivos manda no resultado.

Jupiter: o paradoxo dos 70 milhões

Nenhum caso ilustra melhor o segundo teste do que a Jupiter. É a super-aplicação da Solana: o agregador que concentra mais de 90% do encaminhamento de ordens da rede, mais perpétuos, crédito, uma incubadora de tokens e uma carteira móvel. Gera cerca de 293 milhões de dólares em comissões anualizadas e uns 88 milhões de receita, segundo a DefiLlama. Tem dois canais de rendimento real, e a distinção entre eles é a lição de toda esta secção.

Convém dar à Jupiter o que é dela: a receita é das mais reais e diversificadas da rede. O agregador cobra uma comissão minúscula em cada ordem que encaminha e, como encaminha a esmagadora maioria das ordens da Solana, o efeito acumulado é enorme; a isto somam-se os perpétuos, o crédito e uma carteira móvel que trazem receita de fontes que não dependem só de memecoins. O problema nunca foi a qualidade da receita. Foi o desenho do token, que deixou os desbloqueios correr mais depressa do que qualquer recompra conseguia absorver.

O primeiro é direto: a JLP, a pool de liquidez que suporta os perpétuos, fica com 75% das comissões de negociação e de financiamento e distribui-as a quem fornece o capital. Quem entra na JLP recebe receita verdadeira, embora fique estruturalmente do lado oposto dos traders, um risco que detalhámos ao mapear o mercado de perps na Solana depois do hack da Drift. O segundo canal é indireto: o Litterbox Trust, ativo desde fevereiro de 2025, usa 50% das comissões do protocolo para comprar JUP e bloqueá-lo durante três anos.

E aqui está o paradoxo. A Jupiter gastou mais de 70 milhões de dólares em recompras de JUP em 2025 e, mesmo assim, o token está mais de 80% abaixo do seu máximo histórico, que rondou os 2 dólares. Porquê? Emissões. A oferta em circulação cresceu cerca de 150% desde o lançamento e chegou a desbloquear perto de 53 milhões de JUP por mês. As recompras, por maiores que fossem, retiraram do mercado uma fração do que os desbloqueios lá despejavam. A receita era real, a recompra era real, e o efeito líquido para o detentor foi negativo. É o teste da subtração de incentivos em estado puro.

O próprio cofundador da Jupiter, Siong Ong, admitiu o problema em público no início de 2026: «gastámos mais de 70 milhões em recompras no ano passado e o preço, claramente, não se mexeu muito», disse, chegando a propor que esses 70 milhões fossem antes usados em incentivos de crescimento para utilizadores, segundo a crypto.news. Anatoly Yakovenko, cofundador da Solana, foi na mesma direção noutra intervenção reportada pela BeInCrypto: argumentou que distribuir a receita diretamente pelos stakers seria mais eficaz do que recomprar o token, notando que as recompras compensavam apenas uma pequena parte dos desbloqueios. Duas vozes de dentro do ecossistema a dizer o mesmo: recompra não é rendimento se a máquina de emissão anda mais depressa.

Kamino e Meteora: a receita chega ao utilizador, não ao token

Há uma terceira categoria de protocolos na Solana em que o rendimento real é o mais inequívoco de todos e, ainda assim, quase não chega ao token: os que pagam diretamente a quem fornece capital. A Kamino é o maior mercado de crédito nativo da rede, com cerca de 1,38 mil milhões de dólares em TVL de empréstimo, o sétimo maior entre todos os protocolos de crédito de DeFi. Nos últimos trinta dias gerou 4,3 milhões de dólares em comissões, das quais 574 mil foram receita do protocolo, o que dá um anualizado de cerca de 76 milhões em comissões e 11 milhões de receita. A esmagadora maioria do rendimento não vai para um token de governação: vai para os depositantes, sob a forma de juro.

A Kamino é também o rosto da aproximação da Solana a Wall Street. Controla cerca de 82,6% do crédito garantido por ações tokenizadas na rede e reforçou a liderança com um cofundador da Yieldstreet como diretor executivo, num sinal claro de que quer captar capital institucional. Para o detentor do token KMNO, porém, a lição não muda: a receita cresce, mas o grosso dela continua a pagar aos depositantes e não ao token. Mais volume institucional torna o negócio mais robusto; não transforma automaticamente o token num instrumento de rendimento.

A Meteora conta a mesma história do lado da liquidez. As suas pools DLMM, com comissões dinâmicas que vão de 0,2% a 2% consoante a volatilidade do par, geriram cerca de 1,1 mil milhões de dólares em TVL, e as comissões que produzem vão para os fornecedores de liquidez, não para o detentor do token MET. É a forma mais saudável de rendimento real, porque paga a quem realmente arrisca capital, mas tem uma consequência importante para o investidor de retalho: comprar o token destes protocolos dá-lhe muito pouco do rendimento. Uma coisa é o rendimento do utilizador; outra, bem diferente, é o rendimento do token.

Recompra, distribuição ou emissão: quem recebe o quê

Depois de percorrer a rede, é possível arrumar tudo em três formas de o dinheiro (ou a nova oferta) lhe chegar. A primeira é a distribuição direta: juros, comissões de perpétuos ou de LP entregues a quem fornece capital (a JLP, a Jito, a Kamino, a Meteora). É a mais limpa, mas exige que se ponha capital a trabalhar. A segunda é a recompra, ou acumulação de valor: a receita compra o token no mercado e reduz a oferta, beneficiando o detentor de forma indireta (o Litterbox da Jupiter, a Pump.fun, a Raydium). É o mesmo modelo que a Uniswap adotou ao ligar o fee switch do UNI, e só funciona se a recompra for maior do que a emissão. A terceira é a emissão pura: não é receita nenhuma, e é o que compõe a maior parte do rendimento nominal do staking de SOL.

Vale a pena traçar o paralelo com a bolsa tradicional. A recompra de um token é o equivalente on-chain de uma empresa a recomprar as suas próprias ações: não põe dinheiro na sua conta, mas aumenta a sua participação relativa, e tem a vantagem de não gerar um facto tributário imediato como um dividendo geraria. A desvantagem é a mesma da bolsa: só realiza o ganho quando vende, e vende para dentro de uma procura que a própria recompra ajudou a criar. Se o mercado não acreditar na durabilidade da receita, a recompra sustenta o preço no curto prazo e pouco mais. Distribuir a receita diretamente, como faz a Jito, é mais transparente, mas expõe o número cru para todos verem.

ProtocoloComo a receita chega ao investidorQuem recebeSobrevive ao token a zero?
Staking de SOLEmissão (inflação)Validadores e stakersNão, é emissão
Jito (jitoSOL, JTO)MEV e comissões, 100% à DAOStakers e tesouraria da DAOSim
Kamino, MeteoraJuros e comissões de liquidezDepositantes e fornecedores de liquidezSim, mas ao utilizador
Jupiter (JLP)75% das comissões de perpétuosFornecedores da poolSim, mas ao utilizador
Jupiter (Litterbox), Pump.fun, RaydiumRecompra do próprio tokenDetentores (indireto)Sim, se recompra maior que emissão
Como a receita real de cada camada da Solana chega (ou não) a quem detém o token.

O mapa deixa claro o essencial: na Solana, quase toda a receita real que chega ao detentor de um token chega de forma indireta, através de recompras, e essas recompras competem com máquinas de emissão que muitas vezes correm mais depressa. Quem quer o rendimento sem o risco do token tem de descer até à camada de quem fornece capital. Quem compra o token está, na maioria dos casos, a fazer uma aposta de que a recompra vencerá a emissão.

A régua: medir tudo contra a taxa base

Nenhum destes rendimentos significa alguma coisa sem uma régua. A régua é a taxa sem risco, e a sua versão on-chain em 2026 são os bilhetes do tesouro norte-americano tokenizados: cerca de 14,69 mil milhões de dólares em valor distribuído, a render aproximadamente 3,53% ao ano. É o que se ganha sem fazer nada de arriscado. Qualquer estratégia da Solana só é interessante na medida em que bate este número por uma margem que compense o risco extra.

Há uma ironia nesta régua: quando a taxa base sobe, o vencedor não é nenhum protocolo da Solana, é a própria régua. Os bilhetes do tesouro tokenizados repassam a subida de juro assim que os títulos antigos vencem e são substituídos por novos, mais rendosos, sem risco de contrato inteligente nem de preço de token. Para uma parte crescente do capital dito de DeFi, a decisão racional em 2026 nem sequer é escolher entre protocolos da Solana: é comparar cada um deles com um cupão soberano que subiu e ficou mais difícil de bater. É contra este pano de fundo que a receita cíclica da rede tem de brilhar.

E a régua endureceu. A Reserva Federal subiu os juros para o intervalo de 3,75% a 4,00% a 16 de setembro, a primeira subida desde julho de 2023, enquanto a taxa de depósito do Banco Central Europeu está nos 2,50%. Os dois bancos centrais apertaram ao mesmo tempo. O presidente da Fed, Kevin Warsh, avisou no seu discurso de Jackson Hole que «a estabilidade de preços não se concretiza sozinha, nem a inflação regressa necessariamente à média», segundo a transcrição oficial. Por outras palavras, a base não está a cair; pode ainda estar a subir, o mesmo pano de fundo que explica como o Bitcoin subiu contra a Fed.

Com a régua na mão, o retrato fica frio. O rendimento real do staking de SOL, uns 1,5%, fica abaixo da taxa base. O jitoSOL, com o MEV por cima, bate-a com folga, mas carrega o risco de preço do SOL e a ciclicalidade do próprio MEV. E os tokens de recompra não oferecem rendimento fixo nenhum: só realiza valor se a recompra vencer a emissão e se vender para dentro da procura que ela cria.

Ativo ou estratégiaRendimento aproximadoContra a taxa base (~3,53%)Risco principal
Bilhetes do tesouro tokenizados~3,53%é a réguaEmitente e custódia
Staking de SOL (real)~1,5%abaixoInflação e preço do SOL
jitoSOL (com MEV)~7,2% a 7,8%acimaPreço do SOL, ciclicalidade do MEV
Recompra (JUP, PUMP, RAY)sem rendimento fixoindefinidoEmissão pode anular; preço do token
Os rendimentos da Solana medidos contra a taxa sem risco on-chain. Fontes: app.rwa.xyz, DefiLlama, datawallet.

O euro contra o dólar: a armadilha cambial

Há uma camada de risco que nenhuma tabela de APY mostra e que o investidor português sente na pele: o câmbio. Quase todos estes rendimentos são denominados em dólares (os bilhetes do tesouro, o crédito em USDC) ou em SOL, um ativo correlacionado com o dólar. O EUR/USD está em 1,1392, perto do valor mais baixo em dois meses, com o dólar sustentado pela expectativa de novas subidas da Fed; o euro perdeu cerca de 2,23% num mês.

A conta é impiedosa. Se perseguir um rendimento de 3,5% em dólares e o euro se valorizar 5% contra o dólar ao longo do ano, o movimento cambial apaga mais do que um ano inteiro de rendimento. Para um leitor da zona euro, a verdadeira taxa sem risco não é os 3,875% da Fed, é os 2,50% do BCE. E cobrir o risco cambial não resolve: pela paridade coberta de juro, o custo da cobertura é mais ou menos igual à diferença de taxas entre a Fed e o BCE, cerca de 1,3 a 1,5 pontos, o que puxa o rendimento em dólares de volta para perto da base europeia. Não há almoço grátis.

Movimento do EUR/USD no anoEfeito cambial sobre 3,5% em dólaresResultado em euros
Euro estávelnenhum+3,5%
Euro cai 5% (dólar forte)+5,0%+8,5%
Euro sobe 3,5%-3,5%~0%
Euro sobe 5%-5,0%-1,5%
Como o câmbio EUR/USD transforma um rendimento de 3,5% em dólares para um investidor em euros (exemplo ilustrativo).

Riscos e a lista de verificação em seis perguntas

A história do rendimento real da Solana tem riscos que lhe são próprios. O primeiro é a ciclicalidade: a receita alimentada por memecoins pode secar, como já secou 87% num ano ao nível da rede. O segundo é a discricionariedade das recompras: a percentagem das comissões que compra o token não é uma obrigação contratual, é uma decisão que depende de quem manda numa DAO, e pode ser cortada ou suspensa. O terceiro é o que a Jupiter ensinou: as emissões podem correr mais depressa do que as recompras. Junte-se a isto o risco de contrato inteligente, o risco de oráculo, a volatilidade do preço do SOL e a concentração (a Pump.fun sozinha vale cerca de 40% da receita das aplicações), e percebe-se que a liderança em receita não é sinónimo de rendimento seguro.

Para não se perder, seis perguntas resolvem quase tudo antes de pôr um euro a trabalhar:

  • A recompensa é receita verdadeira ou são emissões? Sobreviveria com o token a valer zero?
  • Depois de subtrair emissões, airdrops e pontos, o efeito líquido para o detentor é positivo?
  • O rendimento chega-me como utilizador (juro, comissão de liquidez) ou apenas de forma indireta, via recompra?
  • A recompra é maior do que a emissão, ou os desbloqueios anulam-na, como aconteceu com o JUP?
  • A receita é durável ou depende da frenesim de memecoins que pode virar num trimestre?
  • Depois do câmbio EUR/USD e da taxa base do BCE, ainda compensa o risco?

CMVM, Banco de Portugal e o enquadramento fiscal

Do lado europeu, a regra de ouro é que os tokens e as plataformas são supervisionados, mas os protocolos, na sua maioria, não. Ao abrigo do MiCA, as stablecoins não podem pagar juro (artigo 40.o para as fichas referenciadas a ativos e artigo 50.o para as fichas de moeda eletrónica), e é por isso que o rendimento vive nos wrappers e nos protocolos de DeFi, nunca na própria stablecoin. Quem cobra o cupão dos bilhetes do tesouro que estão por trás de muitas destas moedas é o emitente, não o portador.

Em Portugal, a Lei n.o 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, reparte a supervisão: o Banco de Portugal fica com as stablecoins e o registo de prestadores, a CMVM com a conduta de mercado e o abuso de mercado, com coimas que podem chegar aos 5 milhões de euros. Um pormenor decisivo para este tema: os derivados de criptoativos, incluindo os perpétuos que financiam a JLP e a Hyperliquid, são instrumentos financeiros ao abrigo da DMIF II (MiFID II), supervisionados pelo regulador de mercados e fora do MiCA. A fronteira foi traçada pela ESMA a 19 de março de 2025. Como boa parte do rendimento real da Solana nasce de comissões de perpétuos, a moldura que se aplica muda consoante a fonte.

Quanto a impostos, e isto não é aconselhamento fiscal, o quadro português trata de forma diferente as várias fontes. As recompensas de staking tendem a cair na Categoria E, tributadas a 28% no momento em que são recebidas, sem qualquer isenção por prazo de detenção. As mais-valias na alienação caem na Categoria G, também a 28%, com a isenção para ativos detidos há mais de 365 dias, isenção que não se aplica ao que for qualificado como rendimento. Os tokens de recompra e os wrappers que acumulam valor internamente vivem numa zona cinzenta, e a posição da Autoridade Tributária sobre ativos que capitalizam sem distribuição ainda não está fechada. Na dúvida, vale a pena falar com um profissional antes de assumir o regime mais favorável.

Perguntas frequentes

O que é rendimento real na DeFi?

Rendimento real é o rendimento que vem de receita verdadeira de um protocolo, como comissões, juros, funding ou MEV, e não da emissão de novos tokens. O teste prático é simples: um rendimento é real se sobrevivesse ao token do protocolo a valer zero.

O staking de SOL é rendimento real?

Em parte. O staking de SOL paga cerca de 6% ao ano em termos nominais, mas a inflação da rede ronda os 4,5%, pelo que o rendimento real, depois de descontar a diluição, fica em torno de 1,5%. A maior parte do número que se vê é compensação por diluição, não rendimento novo.

A Solana é a rede com mais receita de aplicações em 2026?

Sim. Em agosto de 2026 as aplicações da Solana geraram cerca de 143 milhões de dólares, 38,1% de toda a receita de aplicações de todas as blockchains, mais do que a Hyperliquid, a Ethereum e a BNB Chain somadas, e a rede lidera esta métrica há nove trimestres seguidos.

A recompra de um token conta como rendimento real?

Só condicionalmente. Uma recompra financiada por receita real reduz a oferta e beneficia o detentor de forma indireta, mas apenas se a recompra for maior do que a emissão de novos tokens. A Jupiter gastou mais de 70 milhões de dólares em recompras em 2025 e o preço não subiu, porque os desbloqueios despejaram mais tokens do que os que foram retirados.

Como são tributados os rendimentos de cripto da Solana em Portugal?

Não é aconselhamento fiscal, mas em Portugal as recompensas de staking tendem a cair na Categoria E, tributadas a 28% no momento em que são recebidas, enquanto as mais-valias na alienação caem na Categoria G, a 28%, com isenção para ativos detidos há mais de 365 dias. Os tokens de recompra e os wrappers que capitalizam valor vivem numa zona cinzenta ainda por esclarecer.

Por Yuki Tanaka, redação da HOGE Wire.

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