Restaking em 2026: Bitcoin, SSV e o fim da era dos pontos
O restaking já não é só sobre Ethereum. Bitcoin, via Babylon, e a SSV Network disputam espaço com o EigenCloud enquanto o setor tenta provar que o rendimento pós-pontos é real.
O restaking deixou de ser uma novidade de nicho para se tornar um dos temas mais debatidos do universo DeFi, mas 2026 tem sido um ano de contradições para o setor. Depois de o EigenLayer, agora rebatizado EigenCloud, ter levado o valor total bloqueado (TVL) a máximos históricos, esse número caiu de forma acentuada ao longo do ano, ao mesmo tempo que o Bitcoin, através do protocolo Babylon, e a SSV Network, com o seu modelo de Based Applications, se afirmam como alternativas sérias ao domínio quase exclusivo da Ethereum nesta narrativa. Este artigo faz um ponto de situação abrangente sobre o setor: o que mudou no EigenCloud, como funciona o restaking de Bitcoin, o que aconteceu no ataque de 292 milhões de dólares à Kelp DAO e porque é que, mais de três anos depois de Vitalik Buterin ter avisado para os riscos de sobrecarregar o consenso da Ethereum, a pergunta mais importante do setor continua a mesma: de onde vem, realmente, o rendimento do restaking?
O que é o restaking e porque o tema voltou a aquecer
No staking tradicional, quem bloqueia ETH, ou Bitcoin mais recentemente, recebe uma recompensa por ajudar a validar e proteger uma única rede. O restaking pega nesse mesmo capital já staked, seja ETH nativo, seja um token de liquid staking como o stETH, e permite que seja reutilizado para proteger serviços de terceiros conhecidos como AVS (Actively Validated Services): oráculos, pontes entre blockchains, camadas de disponibilidade de dados ou sequenciadores de rollups. Em troca de assumir condições de slashing adicionais, ou seja, o risco de perder parte do capital se o operador falhar ou agir de forma maliciosa, o utilizador recebe uma camada extra de rendimento.
O conceito foi criado pelo EigenLayer, fundado por Sreeram Kannan, e rapidamente se tornou um dos maiores fenómenos da Ethereum em 2024 e 2025. A lógica é simples de entender: em vez de cada novo protocolo ter de arrancar do zero com o seu próprio conjunto de validadores e o seu próprio token para garantir segurança económica, pode simplesmente alugar essa segurança ao imenso conjunto de ETH já staked na rede. Em 2026, esse modelo deixou de ser exclusivo da Ethereum: o Bitcoin ganhou o seu próprio mecanismo de restaking através do protocolo Babylon, e redes concorrentes como a SSV Network, a Symbiotic e a Karak disputam uma fatia cada vez mais competitiva do mesmo mercado.
EigenLayer tornou-se EigenCloud: o que mudou
A mudança de nome de EigenLayer para EigenCloud, feita pela Eigen Labs, não foi apenas cosmética. Além do restaking original, a empresa passa agora a vender a ideia de uma cloud verificável: serviços como o EigenDA (disponibilidade de dados), o EigenCompute e o EigenVerify, todos com garantias criptográficas em vez de confiança institucional. O slashing, ou seja, a possibilidade real de um operador perder capital por falhar nas suas obrigações, está ativo em mainnet desde 17 de abril de 2025, embora continue a ser opcional para cada AVS, segundo o próprio anúncio da EigenCloud. Atualmente, o ecossistema conta com cerca de 190 AVS em desenvolvimento, cerca de 40 já em mainnet, mais de 2.000 operadores e mais de 80.000 endereços a participar na rede.
O maior contraste, porém, está no TVL. Depois de ter chegado a um máximo histórico próximo dos 19,7 mil milhões de dólares no início de 2026, o valor bloqueado no EigenCloud caiu de forma acentuada ao longo do ano; diferentes plataformas de dados, incluindo a DefiLlama, mostram uma tendência de queda consistente, ainda que apresentem números atuais bastante distintos entre si, uns a apontar para valores próximos dos 4 a 5 mil milhões de dólares, outros ainda acima dos 10 mil milhões, consoante a metodologia e a data de consulta. Essa própria discrepância é, em si, um sinal de como o setor continua volátil e difícil de medir com precisão. Já analisámos este colapso de TVL em detalhe em Restaking em 2026: o colapso do TVL e o novo mapa do setor. O token EIGEN negoceia, à data de publicação, a cerca de 0,20 euros, com uma capitalização de mercado de aproximadamente 150 milhões de euros, uma queda de cerca de 96% face ao máximo histórico de 5,65 dólares, atingido em dezembro de 2024, segundo dados da CoinGecko.
ELIP-012: a tentativa de ligar o token EIGEN ao uso real
Para tentar travar essa espiral, a Eigen Foundation aprovou, em dezembro de 2025, a proposta ELIP-012, também conhecida como Incentives Committee. O mecanismo substitui os antigos contratos TokenHopper e ActionGenerator por um novo EmissionsController, que emite EIGEN semanalmente através de uma função permissionless, acionável por qualquer participante. A grande mudança está em para onde vai essa emissão: em vez de recompensar de forma uniforme todo o capital staked, o novo modelo direciona os incentivos para stake produtivo, ou seja, capital que está efetivamente a proteger AVS já em funcionamento e a gerar receita, penalizando implicitamente os depósitos inativos.
O desenho também inclui uma taxa de 20% sobre as recompensas pagas pelos AVS ao stake subsidiado por incentivos, e canaliza 100% das receitas dos serviços de cloud, EigenAI, EigenCompute e EigenDA, líquidas dos custos dos operadores, para um contrato de recompra que reduz a oferta em circulação. A inflação mantém-se fixa em 7% ao ano, mais 1% discricionário para o ecossistema, com o Protocol Council a manter autoridade exclusiva sobre a taxa total. Ainda assim, mesmo depois desta reforma, dados agregados da DefiLlama sugerem que a receita real do protocolo continua próxima de zero face a um TVL medido em milhares de milhões, uma discrepância que ajuda a explicar porque é que o preço do EIGEN não acompanhou a escala do capital depositado.
Que serviços é que o restaking protege, na prática
A ideia de alugar segurança económica pode parecer abstrata, mas já existem AVS reais a operar com capital restaked. O EigenDA, o próprio serviço de disponibilidade de dados da EigenCloud, foi o primeiro a chegar à mainnet, em abril de 2024, e continua a liderar a maioria das tabelas de operadores por tempo de atividade. O Lagrange foi o primeiro AVS de conhecimento zero, usando comités de estado protegidos por ETH restaked para servir rollups otimistas. Já a Omni Network funciona como um hub de interoperabilidade, ligando diferentes rollups da Ethereum entre si através da mesma camada de segurança partilhada. Estes três exemplos ilustram bem a proposta original do restaking: reduzir drasticamente o custo de arranque de segurança para uma nova infraestrutura crítica.
- EigenDA: disponibilidade de dados, primeiro AVS em mainnet, abril de 2024
- Lagrange: comités de estado com prova de conhecimento zero para rollups otimistas
- Omni Network: hub de interoperabilidade entre rollups da Ethereum
Bitcoin entra no restaking: o caso Babylon
Até há pouco tempo, o restaking era uma conversa quase exclusivamente sobre Ethereum. Isso mudou com o protocolo Babylon, que permite a detentores de Bitcoin bloquear as suas moedas diretamente através dos mecanismos nativos de timelock do próprio Bitcoin, sem necessidade de wrapping nem de pontes para outra rede. O BTC assim bloqueado passa a proteger cadeias PoS que optam por integrar este modelo, chamadas Bitcoin Supercharged Networks. A mainnet Genesis e o token BABY foram lançados a 10 de abril de 2025, com um airdrop de 600 milhões de BABY, 6% da oferta, distribuído entre stakers da Fase 1, recompensas de staking base e bónus, detentores do NFT Pioneer Pass e contribuidores open source.
Os números atuais são expressivos: segundo o próprio painel da Babylon Labs, o protocolo tem 56.853,16 BTC staked, o equivalente a um TVL de aproximadamente 4,9 mil milhões de euros, tornando-o o maior sistema de staking de Bitcoin por este critério. Já o token BABY negoceia a cerca de 0,011 euros, com uma capitalização de mercado à volta de 45,2 milhões de euros, muito abaixo do seu máximo histórico de 0,1661 dólares, atingido em abril de 2025; a diferença entre a capitalização do token e a escala do TVL subjacente é considerável, e vale a pena tratá-la com a devida cautela ao avaliar o valor real do ecossistema Babylon. Está também prevista uma futura integração com a Aave V4 que permitiria usar BTC nativo como colateral de empréstimo, ainda sem data confirmada, dependente do próprio calendário de lançamento da Aave V4 e da revisão de segurança do conector. Para empresas com tesourarias significativas em bitcoin, tema que já explorámos em Tesourarias cripto corporativas: o guia completo de 2026, este tipo de integração levanta uma questão cada vez mais frequente: vale a pena arriscar parte de reservas até agora inativas em troca de um rendimento adicional, ou o risco de contrato inteligente ainda não compensa?
SSV Network e as Based Applications: o outro caminho
Enquanto o EigenCloud e a Babylon dominam as manchetes, a SSV Network construiu, de forma mais discreta, a maior infraestrutura de Distributed Validator Technology (DVT) da Ethereum. Segundo o próprio painel da ssv.network, a rede tem mais de 7 milhões de ETH staked através da sua tecnologia, mais de 16 mil milhões de dólares em TVL, mais de 120.000 validadores e mais de 1.800 operadores; outras plataformas de dados apresentam números bastante mais baixos para estas mesmas métricas, pelo que vale a pena tratar este valor como a estimativa da própria equipa do projeto. Tecnicamente, a DVT divide a chave privada de um validador em vários fragmentos, distribuídos por quatro ou mais operadores que não confiam uns nos outros, usando partilha de segredo de Shamir, consenso IBFT e assinaturas de threshold BLS; nenhum operador isolado chega a deter a chave completa.
Em janeiro de 2025, a SSV Labs revelou a versão 2.0 da rede, batizada de Based Applications, ou bApps. O fundador e CEO da empresa, Alon Muroch, descreveu-o à Cointelegraph como o projeto mais ambicioso da empresa até à data, com potencial para mudar profundamente o mercado de restaking. Na prática, os validadores participam através de chaves de participação, nunca de chaves de levantamento, o que significa que os 32 ETH de capital principal nunca podem ser slashed; apenas capital delegado opcionalmente, em ERC-20 ou ETH, fica exposto a esse risco, com cada bApp a definir a sua própria tolerância através de um modelo de risco próprio.
Em termos de tokenomics, a SSV lançou a 29 de abril de 2026 o programa cSSV Genesis Boost: quem faz stake de SSV recebe cSSV, um token líquido não-rebasing, com recompensas denominadas em ETH através de um modelo de taxas em três níveis, F1, uma taxa fixa próxima de 1% do APR de staking em ETH, F2, por bApp, e F3, por transação na futura bApp chain. A rede conta ainda com um segundo cliente, o Anchor, construído pela Sigma Prime, a mesma equipa por trás do cliente Lighthouse, já em funcionamento em mainnet, financiado através da proposta de governação DIP-56 com 2,5 milhões de dólares ao longo de 24 meses. O token SSV negoceia atualmente a cerca de 1,75 euros, com uma capitalização de mercado próxima de 25,8 milhões de euros, uma queda de aproximadamente 97% face ao seu máximo histórico de 65,82 dólares, atingido em março de 2024, segundo a CoinGecko.
| Protocolo | Token | Preço aproximado | Capitalização de mercado aproximada | Face ao máximo histórico |
|---|---|---|---|---|
| EigenCloud | EIGEN | 0,20 EUR | 150 milhões EUR | -95,9% |
| Babylon | BABY | 0,011 EUR | 45,2 milhões EUR | cerca de -92% |
| SSV Network | SSV | 1,75 EUR | 25,8 milhões EUR | -97% |
Tokens de restaking líquido: ether.fi, Renzo, Kelp DAO e Puffer
Uma peça essencial deste ecossistema são os LRT, ou liquid restaking tokens: em vez de deixar o capital preso durante o processo de restaking, protocolos como o ether.fi, a Renzo, a Kelp DAO e o Puffer emitem um token líquido que representa o depósito, permitindo reutilizá-lo noutras aplicações DeFi, como colateral de empréstimo ou em pools de liquidez. Essa reutilização, conhecida como rehypothecation, é ao mesmo tempo a maior vantagem competitiva dos LRT e a sua maior fonte de risco sistémico, como o mercado voltou a aprender à sua custa em abril de 2026.
O ether.fi, com o seu token eETH, continua a liderar claramente este segmento, com um TVL acima de 2,8 mil milhões de euros. Segue-se a Renzo, com o ezETH, com cerca de 1,7 mil milhões de euros, a Kelp DAO, com o rsETH recuperado para cerca de 1,3 mil milhões de euros depois do ataque de abril, e o Puffer, com o pufETH, próximo de 1,1 mil milhões de euros. Os rendimentos anuais históricos destes protocolos rondam, de forma ampla, os 8% a 12%, embora a variação seja significativa consoante o momento e os incentivos ativos em cada plataforma. Acompanhar de perto estes fluxos de capital, aliás, tornou-se uma prática comum entre analistas on-chain; já explicámos essa lógica em Whale alerts: o que os movimentos das baleias revelam, e o mesmo tipo de vigilância aplica-se a grandes entradas ou saídas de LRT, muitas vezes um sinal precoce de confiança ou de pânico no setor.
| LRT | Protocolo | TVL aproximado |
|---|---|---|
| eETH | ether.fi | mais de 2,8 mil milhões EUR |
| ezETH | Renzo | cerca de 1,7 mil milhões EUR |
| rsETH | Kelp DAO | cerca de 1,3 mil milhões EUR |
| pufETH | Puffer | cerca de 1,1 mil milhões EUR |
O ataque à Kelp DAO: 292 milhões de dólares e uma dívida incobrável na Aave
No sábado, 19 de abril de 2026, a Kelp DAO sofreu aquele que se tornaria um dos maiores exploits do ano. Um atacante explorou uma configuração vulnerável, do tipo 1 de 1, da ponte entre cadeias baseada em LayerZero e conseguiu cunhar, do nada, entre 116.500 e 117.132 rsETH, o equivalente a cerca de 292 milhões de dólares, sem alguma vez ter depositado o colateral correspondente. Não se tratou, portanto, de um roubo de fundos já depositados, mas sim de uma inflação artificial da oferta do token, na ordem dos 18%, segundo a reconstrução dos factos feita pela CoinDesk.
O atacante depositou de imediato esse rsETH fantasma como colateral na Aave V3 para pedir emprestado wETH, deixando a Aave com uma dívida incobrável estimada em 196 milhões de dólares. O impacto foi imediato: o TVL da Aave caiu de 26,4 mil milhões de dólares para cerca de 20 mil milhões num único fim de semana, e o token AAVE chegou a cair 16%, para 92 dólares. Este tipo de episódio, em que o custo de um ataque acaba por ser suportado por todo um ecossistema e não apenas pelo protocolo diretamente atingido, é precisamente o padrão que analisámos em A conta do post-mortem: quem paga quando a cripto é hackeada.
O fundador da Aave, Stani Kulechov, reagiu publicamente através da rede social X, em declarações citadas pela CoinDesk: «O rsETH foi congelado na Aave V3 e na Aave V4; o ativo não tem qualquer poder de empréstimo, uma medida devido ao exploit na ponte da Kelp DAO que ocorreu fora da Aave», e acrescentou: «A Aave é o trabalho da minha vida e estamos a trabalhar sem parar para encontrar o melhor desfecho possível para os utilizadores.» Kulechov chegou a comprometer-se pessoalmente com 5.000 ETH para ajudar a cobrir o défice.
Depois do choque: como a Kelp DAO reconstruiu a confiança
A resposta ao ataque envolveu uma coligação pouco comum de protocolos concorrentes entre si, apelidada informalmente de DeFi United, com contribuições superiores a 300 milhões de dólares vindas de nomes como a Lido, o ether.fi e a Consensys, além da própria Aave. Cerca de 117.132 rsETH foram queimados na rede Arbitrum, e o lastro do token foi restaurado através de um multisig dedicado, o Aave Recovery Guardian.
Como consequência direta do incidente, a Kelp DAO migrou a sua ponte de LayerZero OFT para o Chainlink CCIP, passando a exigir quatro atestadores independentes e 64 confirmações de bloco antes de qualquer transferência ser validada, um endurecimento considerável face à configuração original. Vale notar que a LayerZero contestou publicamente a responsabilidade pelo incidente, argumentando tratar-se de uma escolha de configuração da própria Kelp DAO, e não uma falha do protocolo base, uma disputa que continua sem resolução clara meses depois. Do lado dos números, a recuperação foi notável: a capitalização de mercado associada ao rsETH subiu para cerca de 1,3 mil milhões de euros, acima do valor depositado antes do ataque, próximo dos 650 milhões de euros, sinal de que a confiança dos utilizadores, pelo menos em termos de capital novo, regressou com força.
Symbiotic, Karak e a corrida por um TVL cada vez mais disputado
O EigenCloud está longe de ser o único ator relevante no restaking em Ethereum. A Symbiotic, com mainnet ativa desde 28 de janeiro de 2025, aposta num modelo mais flexível: aceita qualquer colateral em ERC-20, não apenas ETH ou derivados, tem slashing ativo desde o primeiro dia e permite escolher entre diferentes resolvers para disputas, incluindo a UMA, a Kleros ou comités próprios. A empresa captou 29 milhões de dólares numa ronda Series A liderada pela Pantera em abril de 2025, mas continua, surpreendentemente, sem um token público confirmado mais de dois anos depois do lançamento, apesar de já ter angariado 34,8 milhões de dólares no total; lançou recentemente um novo produto, o Liquid Lane, a 2 de junho de 2026.
A Karak posiciona-se como o terceiro grande nome do setor, ainda que com um TVL substancialmente mais baixo e sem uma listagem pública amplamente líquida do seu token, apesar de uma TGE anunciada em novembro de 2024. Em conjunto, Symbiotic e Karak ilustram um ponto importante: a fuga de capital do restaking em 2026 não é um problema exclusivo do EigenCloud, mas sim uma tendência transversal a todo o setor, à medida que o mercado se torna mais cético quanto à sustentabilidade dos rendimentos oferecidos.
De onde vem o rendimento, realmente
Depois da euforia inicial em torno de pontos, promessas implícitas de futuros airdrops que impulsionaram milhares de milhões de dólares em depósitos ao longo de 2024 e 2025, 2026 tornou-se o ano em que o setor foi forçado a responder a uma pergunta bem mais incómoda: de onde vem, de facto, o rendimento do restaking? Na prática, existem quatro fontes possíveis, e nem todas são iguais em termos de sustentabilidade. A primeira é o rendimento nativo do staking em ETH, atualmente na casa dos 2,7% a 2,8% ao ano, que serve de base a qualquer estratégia de restaking. A segunda é a emissão de novos tokens, EIGEN, SSV, BABY, que dilui os detentores existentes independentemente de haver ou não receita real por trás. A terceira, os já mencionados pontos, perdeu grande parte da sua força como mecanismo de captação ao longo de 2026, à medida que os primeiros ciclos de airdrops ficaram aquém das expectativas. A quarta, e a mais desejável do ponto de vista estrutural, é a receita real gerada pelos próprios AVS, ainda comparativamente reduzida face à escala do capital depositado.
É precisamente esta quarta fonte que a ELIP-012, o modelo de taxas F1, F2 e F3 da SSV e o desenho mais simples da Babylon tentam, cada um à sua maneira, tornar mais robusta. A pressão de diluição continua real: eventos de vesting programados libertam regularmente novos tokens no mercado, independentemente do nível de receita gerada nesse momento. Olhando para o conjunto do setor em meados de 2026, o quadro que emerge é o de um mercado a tentar amadurecer: o rendimento está a tornar-se mais honesto, mais ligado ao uso real da infraestrutura, mas continua, na generalidade dos protocolos, mais dependente de emissões do que de receita de taxas efetivamente cobrada.
O aviso que Vitalik Buterin fez em 2023
Antes de o restaking se tornar um fenómeno de milhares de milhões de dólares, Vitalik Buterin já tinha alertado para os seus riscos estruturais. No ensaio Don’t overload Ethereum’s consensus, publicado a 21 de maio de 2023, o cofundador da Ethereum escreveu: «Qualquer alargamento das funções do consenso da Ethereum aumenta os custos, a complexidade e os riscos de operar um validador.» O argumento central é que, quanto mais responsabilidades forem empilhadas sobre o mesmo conjunto de validadores, maior a fragilidade do consenso social que sustenta toda a rede, e maior o risco de a comunidade se sentir pressionada a resgatar um protocolo restaked considerado demasiado importante para falhar.
Sreeram Kannan, cofundador da EigenLayer e da Eigen Labs, respondeu diretamente a esta crítica numa entrevista à CoinDesk, em setembro de 2023: «Vejo o restaking como um risco menor do que o liquid staking», argumentou, acrescentando que «tudo o que o restaking pode fazer, o liquid staking já o consegue fazer». Kannan alertou ainda contra a suposição de que qualquer protocolo seria automaticamente resgatado pela comunidade Ethereum em caso de falha catastrófica, uma vez que a rede sempre teria a opção de simplesmente fazer fork e seguir em frente sem esse protocolo.
Três anos depois, o ataque à Kelp DAO deu um exemplo bem concreto do tipo de risco de contágio que Buterin descrevia de forma mais abstrata: um LRT foi aceite como colateral por outro protocolo sem que o risco da ponte subjacente fosse devidamente avaliado, e o resultado foi uma dívida incobrável de quase 200 milhões de dólares fora do controlo direto de qualquer uma das partes.
Portugal, a CMVM e o fim do regime transitório do MiCA
Para investidores em Portugal, este debate ganha uma camada adicional de relevância regulatória. O regime transitório do MiCA para prestadores de serviços de ativos digitais terminou a 1 de julho de 2026, ao abrigo da Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro, em vigor desde 27 de dezembro de 2025. Em Portugal, o Banco de Portugal é responsável pela supervisão prudencial e pela autorização como CASP, prestador de serviços de ativos criptográficos, enquanto a CMVM trata da supervisão comportamental e da deteção de abuso de mercado, nos termos dos Títulos II e VI do MiCA.
Este enquadramento tem implicações diretas para quem participa em restaking. O staking ou restaking prestado de forma custodiada, isto é, através de uma plataforma centralizada que gere o processo em nome do utilizador, tende a cair dentro do âmbito de supervisão CASP. Já a interação direta com contratos inteligentes de protocolos como o EigenCloud, a Babylon ou a SSV Network, sem intermediário centralizado, situa-se em grande medida fora do perímetro do MiCA, o que significa, na prática, ausência de teste de adequação, de fundo de compensação ou de qualquer via de recurso junto da CMVM em caso de perda. As contraordenações por incumprimento classificam-se como muito graves, com coimas entre 25.000 e 5.000.000 de euros, segundo análise da CMS Law. Vale ainda recordar que os derivados cripto, como futuros e perpétuos, continuam a ser regulados pela DMIF II e não pelo MiCA, que abrange apenas ativos cripto à vista e os respetivos prestadores de serviços.
Para quem prefere um caminho mais regulado, produtos como os ETF de Ethereum com staking incorporado, lançados nos Estados Unidos ao longo de 2026, representam uma alternativa institucional ao restaking direto, ainda que com uma estrutura de custos e de exposição bastante diferente; já explorámos essa dinâmica em ETF de Bitcoin e Ethereum: por dentro dos fluxos que movem o mercado.
O que vigiar na segunda metade de 2026
Vários desenvolvimentos vão determinar se o restaking consegue, de facto, provar que o seu rendimento é sustentável na segunda metade de 2026. Entre os mais relevantes:
- Se o mecanismo de recompra da ELIP-012 consegue, na prática, reduzir a pressão de venda sobre o EIGEN à medida que mais receita de cloud é gerada
- Se a integração da Aave V4 com BTC nativo via Babylon avança para produção, o que poderia abrir uma nova fonte de procura para o restaking de Bitcoin
- Se a SSV Network consegue finalmente popular o seu marketplace de bApps com aplicações externas reais, além dos exemplos internos já existentes
- Se a Symbiotic e a Karak avançam, depois de mais de dois anos, para o lançamento de tokens públicos plenamente líquidos
- Como reagem a CMVM e os restantes reguladores europeus a eventuais casos de incumprimento agora que o período transitório do MiCA terminou
No fundo, o setor está a ser forçado a escolher entre duas narrativas: ou o restaking amadurece para um modelo assente em receita real e sustentável, à semelhança do que a ELIP-012, o modelo F1, F2 e F3 da SSV e o desenho mais simples da Babylon tentam construir, ou continua a depender sobretudo de emissões de token e de expectativas especulativas, um padrão que a experiência de 2024 e 2025 já mostrou ser difícil de sustentar a longo prazo.
Perguntas Frequentes
O que é restaking em criptomoedas?
Restaking é o processo de reutilizar capital já staked, seja ETH nativo, um token de liquid staking ou Bitcoin, para também proteger serviços de terceiros conhecidos como AVS, Actively Validated Services, como oráculos, pontes entre blockchains ou camadas de disponibilidade de dados. Em troca de assumir condições de slashing adicionais, o utilizador recebe uma camada extra de rendimento além da recompensa normal de staking.
Qual a diferença entre staking, liquid staking e restaking?
O staking tradicional bloqueia capital para proteger uma única rede em troca de uma recompensa. O liquid staking emite um token negociável que representa esse depósito, resolvendo o problema da liquidez. O restaking reutiliza esse capital para também proteger outros serviços além da rede original, assumindo riscos adicionais em troca de rendimento adicional.
O restaking ainda vale a pena depois do colapso do TVL em 2026?
Depende do protocolo. Grande parte da queda de TVL registada em 2026 reflete a saída de capital especulativo atraído por pontos e expectativas de airdrop, não necessariamente uma falha do modelo em si. Protocolos que redesenharam os seus incentivos para premiar stake ligado a receita real tendem a oferecer um rendimento mais sustentável, ainda que mais modesto do que no pico especulativo.
O que aconteceu no ataque à Kelp DAO?
A 19 de abril de 2026, um atacante explorou uma falha na ponte entre cadeias da Kelp DAO, baseada em LayerZero, e cunhou cerca de 292 milhões de dólares em rsETH sem depositar colateral, usando esse token como colateral na Aave para pedir empréstimos. Isso deixou uma dívida incobrável de cerca de 196 milhões de dólares, mais tarde coberta por uma coligação de protocolos parceiros, incluindo Lido, ether.fi, Consensys e a própria Aave.
O restaking de Bitcoin através da Babylon é seguro?
O modelo da Babylon evita alguns riscos clássicos do restaking em Ethereum, já que o BTC é bloqueado diretamente através dos mecanismos nativos de timelock do Bitcoin, sem necessidade de wrapping ou de pontes entre cadeias, uma das principais fontes de exploits no setor, incluindo o próprio caso Kelp DAO. Ainda assim, continua a ser um sistema relativamente recente e experimental, com riscos próprios ligados aos contratos inteligentes das cadeias PoS que protege e à governação do próprio protocolo, pelo que deve ser avaliado com a mesma cautela que qualquer infraestrutura DeFi em fase inicial de maturação.
Artigo da redação da HOGE Wire.