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● Predictions & Forecasts

A taxa invisível das L2: MEV e ordenação até 2027

A compressão levou as taxas das L2 para perto de zero, mas há uma segunda fatura que não aparece no recibo: o MEV. Eis a previsão de para onde vai o custo da ordenação até 2027.

O recibo mente por omissão. Quando envia uma transferência numa rollup da Ethereum em agosto de 2026, a carteira mostra um custo de gás de poucos milésimos de euro, muitas vezes abaixo de um cêntimo. É verdade, e é o resultado de dois anos de compressão agressiva das taxas. Mas o número que aparece no ecrã é apenas metade da conta. A outra metade, a que ninguém lhe apresenta, chama-se MEV: o valor que quem ordena as transações consegue extrair de si sem que perceba.

Esta é uma previsão sobre essa segunda fatura. A tese é simples: a taxa visível das Layer 2 já está praticamente resolvida, empurrada para um piso técnico pelas blobs e pelas próximas atualizações da Ethereum. A partir daqui, a variável que decide quanto uma L2 lhe custa de verdade deixa de ser o preço do gás e passa a ser quem controla a ordem das transações e quanto consegue cobrar por essa prioridade. É aí que se joga o próximo capítulo, e é aí que a Glamsterdam, que entra esta semana na fase final de testes públicos, muda o tabuleiro.

Ao longo deste artigo separamos o que a compressão já garantiu do que ela nunca vai apagar, e traçamos três cenários para o custo real de usar uma rollup até 2027.

A conta que não aparece no recibo

Vale a pena separar as duas metades da conta logo de início. A taxa visível de uma transação numa rollup tem duas componentes: a taxa base, que paga a publicação dos dados na Ethereum, e a taxa de prioridade, que paga a inclusão junto do sequenciador. Somadas, são hoje uma fração de cêntimo na maioria das L2. É este o número que a carteira lhe mostra e que domina todas as manchetes sobre taxas quase a zero.

A segunda metade é o MEV, sigla de Maximal Extractable Value. É o valor que um ator com poder para decidir a ordem das transações consegue capturar reorganizando, inserindo ou censurando operações num bloco. Quando um bot deteta a sua ordem de compra num DEX, compra imediatamente antes de si, deixa o seu preço subir e vende logo a seguir, a diferença que você perde é MEV. Não aparece como uma linha no recibo, mas sai do seu bolso na mesma, sob a forma de um preço de execução pior.

A diferença crucial para uma previsão de taxas é esta: a taxa visível responde à engenharia de dados e de execução, e essa engenharia está a resolver o problema depressa. O MEV responde a quem controla a ordenação, um problema de estrutura de poder que a compressão de custos não toca. Por outras palavras, é possível levar o gás quase a zero e continuar a ser sandwichado. É por isso que qualquer previsão honesta sobre o custo das L2 até 2027 tem de olhar para lá do recibo.

Como chegámos ao quase grátis

Para perceber porque a taxa visível deixou de ser a história, convém recapitular a velocidade da queda. Em março de 2024, a atualização Dencun introduziu as blobs (EIP-4844), um espaço de dados dedicado e barato para as rollups publicarem as suas transações. O custo de dados das L2 caiu mais de 90% de um dia para o outro. A Pectra (maio de 2025) e depois a Fusaka (3 de dezembro de 2025, com amostragem de disponibilidade de dados via PeerDAS) alargaram sucessivamente a capacidade de blobs, seguidas dos ajustes BPO1 e BPO2 no início de 2026.

O resultado é uma das descidas de preço mais rápidas alguma vez vistas em infraestrutura. Segundo dados da Token Terminal, a taxa média das três maiores L2 (Arbitrum, Base e Optimism) caiu 99,16%, de 0,180219 dólares no primeiro trimestre de 2024 para 0,001512 dólares no primeiro trimestre de 2026. Falamos de frações de milésimo de euro por transferência.

Há um pormenor técnico que fecha esta porta: a Fusaka trouxe a EIP-7918, que fixa um piso para a taxa das blobs ancorado ao custo de execução da própria Ethereum (na prática, cerca de 1/16 desse custo). Ou seja, as blobs não podem cair para perto de zero de forma persistente. O analista conhecido como Kydo resumiu o efeito de forma memorável ao notar que a taxa base das blobs subiu cerca de 15 milhões de vezes depois da Fusaka, precisamente porque deixou de poder ficar colada ao mínimo absoluto (x.com/0xkydo). A leitura para uma previsão é clara: do lado dos dados, a compressão fácil já aconteceu.

Falta a execução, e é aí que entra a Glamsterdam. Entre as suas propostas está a EIP-7904, um reajuste dos preços de gás que várias fontes estimam poder reduzir as taxas de execução entre 70% e 78%, além de um objetivo de limite de gás de 200 milhões, cerca de três vezes o atual (The Defiant). Analisámos essa alavanca de execução em detalhe no artigo Depois dos blobs: a Glamsterdam e a próxima descida das taxas L2. O ponto para aqui é outro: mesmo somando dados e execução, a taxa visível converge para um valor tão pequeno que deixa de ser o que determina o custo de usar uma L2.

AlavancaEstado em 2026Efeito na taxa visívelEfeito no MEV / ordenação
Blobs (EIP-4844 até Fusaka/BPO)Ativo, com piso da EIP-7918Queda superior a 90% no custo de dadosNenhum
Reajuste de execução (EIP-7904)Em testnet (Glamsterdam)-70% a -78% na execução (projeção)Indireto
ePBS (EIP-7732)Em testnet (Glamsterdam)MarginalReestrutura quem capta o MEV na camada base
Ordenação / sequenciadorCentralizado na maioria das L2NenhumFonte principal do custo invisível

MEV: a mecânica de uma taxa que não vê

O termo MEV nasceu num artigo académico de 2019, o célebre Flash Boys 2.0, que descreveu como a capacidade de reordenar transações numa blockchain se traduz em lucro extraível. Seis anos depois, é uma indústria. As formas mais comuns são a arbitragem entre mercados (geralmente benigna e até útil para alinhar preços), o backrunning (colocar-se logo a seguir a uma transação relevante) e o sandwich, a mais predatória: comprar antes e vender depois da ordem da vítima, ficando com o deslizamento.

Um exemplo torna a mecânica tangível. Imagine que envia uma ordem para trocar 10.000 euros de uma stablecoin por um token menos líquido, com uma tolerância de deslizamento de 2%. Um bot vê a sua ordem no mempool, compra o token um instante antes, o que faz subir o preço, deixa a sua ordem executar-se a esse preço inflacionado e vende logo a seguir. Você recebe menos tokens do que receberia, e a diferença, que pode chegar às centenas de euros, vai para o bot. O gás que pagou por tudo isto foi um cêntimo; a verdadeira fatura foi o deslizamento capturado.

A escala é considerável e frequentemente subestimada, porque é invisível. A extração cumulativa de MEV na Ethereum já ultrapassou os mil milhões de dólares, e estimativas de 2026 apontam para 3 a 8 milhões de dólares extraídos por dia nos mercados DeFi mais ativos, o que projeta algo entre mil milhões e três mil milhões de dólares por ano retirados de quem negoceia em DEX e de mecanismos de liquidação (VaaSBlock). Só em ataques sandwich, as estimativas acumuladas rondam as centenas de milhões de dólares.

Convém não romantizar nem demonizar. Parte do MEV é o mecanismo que mantém os preços dos DEX alinhados com o resto do mercado, e nesse sentido é o custo de ter mercados eficientes. Mas a fatia predatória, o sandwich, é pura transferência de riqueza do utilizador comum para o operador mais rápido. Detalhámos as estratégias de extração e as defesas correspondentes em MEV em 2026: as estratégias de extração e defesa on-chain. Para efeitos desta previsão, o que interessa é que, à medida que a taxa de gás desaparece, esta é a componente de custo que fica de pé.

Nas L2, quem ordena fica com o valor

Há uma diferença estrutural entre a Ethereum e as suas rollups que muda tudo neste tema. Na camada base, o MEV passa por um mercado competitivo: dezenas de construtores de blocos disputam a inclusão através do MEV-Boost, e cerca de 90% dos blocos são hoje construídos por essa via. Não é perfeito, mas há concorrência e alguma redistribuição do valor.

Nas L2, não. Em agosto de 2026, praticamente todas as grandes rollups continuam a operar com um sequenciador único e centralizado. A Base é operada exclusivamente pela Coinbase; a Arbitrum e a Optimism, por entidades ligadas às respetivas fundações e empresas de desenvolvimento. Um sequenciador malicioso não lhe pode roubar fundos, porque o sistema de provas impede isso, mas pode censurar transações e, sobretudo, pode capturar MEV apenas por controlar a ordem, sem nenhum dos mecanismos competitivos de leilão que a Ethereum foi desenvolvendo (VaaSBlock).

É esta a raiz do custo invisível. Quando um único ator decide a sequência das transações e não tem de partilhar esse poder com ninguém, o valor da ordenação acumula-se nele. A receita de sequenciamento da Base, por exemplo, situou-se na ordem das dezenas de milhões de dólares no primeiro semestre de 2026, e uma parte dela é exatamente valor de ordenação que, num sistema descentralizado, poderia voltar para o utilizador ou para o protocolo. Enquanto a taxa visível caía 99%, esta alavanca manteve-se praticamente intacta.

Existe uma alternativa estrutural a este monopólio da ordenação, e é importante para a previsão: as based rollups, que delegam a sequência de transações nos próprios proponentes da Ethereum em vez de um sequenciador próprio, e o sequenciamento partilhado, em que várias cadeias usam um conjunto comum e neutro de sequenciadores, como propõe a Espresso. Em qualquer dos casos, a promessa é a mesma: retirar a um único operador o poder de capturar MEV de forma discricionária. Nenhum destes modelos domina ainda em 2026, mas a direção em que forem adotados vai decidir se o custo invisível se concentra ou se dilui.

Timeboost: a Arbitrum pôs preço à prioridade

A Arbitrum foi a primeira grande L2 a transformar a ordenação num produto explícito. O seu mecanismo Timeboost cria uma via rápida: quem ganha um leilão selado de curta duração vê as suas transações processadas de imediato, enquanto todas as outras sofrem um atraso de 200 milissegundos. Por outras palavras, a prioridade deixou de ser primeiro a chegar, primeiro a ser servido, e passou a ter um preço de mercado.

Os números iniciais dizem muito sobre a dimensão desta fatura invisível. Nos primeiros meses, o Timeboost gerou perto de 3 milhões de dólares em receitas, das quais cerca de 97% fluíram para a tesouraria da Arbitrum DAO, chegando a representar quase metade das receitas da organização (DL News). Steven Goldfeder, cofundador da Offchain Labs, tem sido explícito sobre a intenção de capturar este valor: «à medida que a adoção empresarial acelera, a Arbitrum está pronta para captar receita» (crypto.news).

Mas há um reverso, e é aqui que a previsão fica interessante. Um estudo empírico publicado em 2026 analisou mais de 48,5 milhões de transações da via rápida e cerca de 494 mil leilões entre janeiro e abril de 2026, e concluiu que o controlo da via rápida está fortemente concentrado: três entidades ganharam 99,74% dos leilões. O mesmo estudo verificou que cerca de 30% das transações com prioridade acabam revertidas, sinal de que o mecanismo não elimina o spam (arxiv.org). Ou seja, pôr preço à ordenação tornou o custo auditável, mas não o eliminou nem o democratizou. E levanta uma questão de governação que os detentores de tokens não podem ignorar: quem decide o que fazer com esses milhões de receita de ordenação? É o tipo de tensão que explorámos em Governação comunitária: quem decide mesmo nas DAO em 2026.

ePBS: a Glamsterdam tenta arrumar a casa do MEV

É neste ponto que a atualização Glamsterdam, cuja fase final de testes públicos está a decorrer precisamente esta semana, se torna o acontecimento central de qualquer previsão sobre o MEV. A sua proposta de bandeira é a EIP-7732, ou Enshrined Proposer-Builder Separation (ePBS), que inscreve no próprio protocolo a separação entre quem constrói os blocos e quem os propõe (eips.ethereum.org).

Hoje, os validadores dependem de relés externos, o MEV-Boost, para receber blocos já construídos, o que introduz confiança em infraestrutura fora do protocolo. Com a ePBS, o proponente compromete-se on-chain com a proposta de um construtor sem ver o conteúdo, e o construtor revela o bloco depois; a revelação atrasada reduz as janelas de manipulação. A CoinDesk descreveu a Glamsterdam como a atualização que procura corrigir a justiça do MEV, eliminando os relés de confiança (CoinDesk). Fontes técnicas estimam que a ePBS possa reduzir as perdas por MEV até 70%, embora convenha tratar esse número como projeção e não como facto consolidado.

O calendário importa para a previsão. A Glamsterdam bifurcou na testnet Sepolia a 3 de agosto e está agendada para a Hoodi a 17 de agosto de 2026; a ativação na mainnet aponta para o final do ano, com várias fontes a apontar setembro, mas sem data definitiva enquanto a estabilidade entre clientes não for confirmada. Um aviso importante: a ePBS resolve o MEV na camada base da Ethereum, não dentro das L2. As rollups terão de importar a lógica, e é aí que a fronteira permanece aberta.

Porquê esta ressalva? Porque uma rollup produz os seus próprios blocos através do sequenciador, e não através do mercado de construtores da Ethereum. A ePBS arruma a camada base, mas uma L2 com sequenciador centralizado continua a poder ordenar como entender, mesmo depois da Glamsterdam. O ganho para as L2 será indireto e voluntário: poderão adotar mercados de construção internos, ligar-se a redes de sequenciamento partilhado ou tornar-se based rollups para herdar as garantias da L1. A previsão depende, portanto, menos do calendário da Ethereum e mais das escolhas de arquitetura de cada rollup.

FOCIL e a fronteira seguinte: a Hegota

Se a ePBS trata de quem constrói os blocos, falta a outra metade do problema: garantir que ninguém é deixado de fora. É essa a missão da FOCIL, ou Fork-choice enforced Inclusion Lists, formalizada na EIP-7805. O mecanismo é elegante: a cada slot, um comité de 16 validadores escolhidos de forma pseudoaleatória compõe listas de inclusão, com um limite de 8 kilobytes cada, e o proponente do bloco é obrigado a incluir as transações dessas listas.

O efeito prático é retirar a um único construtor o poder de censurar. Num mundo onde o MEV empurra para a centralização da construção de blocos, a FOCIL é o contrapeso que garante que a sua transação entra, mesmo que não seja lucrativa para quem constrói. É, no fundo, uma defesa contra a versão mais perigosa do custo invisível: não pagar mais, mas simplesmente não conseguir passar.

Aqui é essencial não baralhar o calendário, porque a imprensa fá-lo frequentemente. A FOCIL não faz parte da Glamsterdam. Foi selecionada como funcionalidade de bandeira da Hegota, a atualização que se seguirá à Glamsterdam, previsivelmente já em 2027. Para a previsão, isto significa que a sequência de defesa do MEV se desdobra em duas fases: primeiro a ePBS reorganiza a construção (Glamsterdam), depois a FOCIL blinda a inclusão (Hegota). Só com as duas é que a camada base fica verdadeiramente arrumada, e só depois disso as L2 poderão herdar o modelo completo.

As defesas ao nível da aplicação

Enquanto o protocolo não resolve o problema por inteiro, a defesa mais eficaz contra o MEV em 2026 vive na camada das aplicações, e é aqui que o utilizador tem escolhas reais. A ideia comum é retirar a sua transação do mempool público, onde os bots a veem, antes de ela ser executada.

As mempools cifradas escondem o conteúdo das transações até já ser tarde para as atacar. Os sistemas baseados em intenções, como o CoWSwap ou o UniswapX, não enviam uma ordem para o livro, enviam um desejo (trocar X por pelo menos Y) que é depois satisfeito por agentes que competem entre si, absorvendo o deslizamento em vez de o entregar a um bot. Serviços como o Flashbots Protect encaminham as transações por vias privadas, e a arquitetura SUAVE, também da Flashbots, ambiciona separar a função de leilão de fluxo de ordens de qualquer cadeia individual, criando uma camada de coordenação partilhada, embora o seu desenvolvimento ainda seja mais visão do que produto (VaaSBlock).

Há ainda a via da arquitetura. Algumas plataformas optam por controlar a própria ordenação para neutralizar o MEV predatório, um caminho seguido de forma agressiva no mundo dos derivados on-chain, como analisámos em Perp DEX: a guerra on-chain que a Hyperliquid está a vencer. A lição transversal é a mesma que a VaaSBlock resume bem: o utilizador que faz uma troca na Uniswap em 2026 paga menos ao MEV do que em 2021, e isso é progresso, mas não é proteção. A previsão para 2027 depende de quanto desta defesa migra do nível opcional da aplicação para o nível garantido do protocolo.

O MEV e a acumulação de valor da ETH

Há uma dimensão macro que liga tudo isto ao preço da própria ETH. Durante anos, a tese de valor da Ethereum assentou na queima de taxas: cada transação na camada base destruía ETH, tornando o ativo deflacionário sob procura elevada. As L2 partiram esse elo, porque movem a atividade para fora da camada base e pagam quantias relativamente modestas pelas blobs.

Os números da Fidelity Digital Assets ilustram o desequilíbrio: ao longo do ano anterior, a Base pagou cerca de 5,2 milhões de dólares em taxas de blobs à Ethereum, mas gerou perto de 94 milhões de dólares em receita de utilizadores (Fidelity Digital Assets). A diferença é margem que fica na L2. E é precisamente aqui que o MEV se cruza com a acumulação de valor: à medida que o custo de dados desce até ao piso e a execução fica barata, a margem que sobra concentra-se cada vez mais na ordenação, ou seja, no MEV. A pergunta de mil milhões deixa de ser quanto custa o gás e passa a ser quem fica com o valor da ordenação: o operador do sequenciador, a DAO, o utilizador ou os detentores de ETH.

Esta é a mesma batalha que descrevemos, pelo lado dos dados, em Blobs, Celestia e EigenDA: quem decide as taxas L2 até 2027. Vista pelo lado do MEV, a conclusão converge: a compressão não faz o custo desaparecer, apenas o desloca para camadas onde é mais difícil de ver e de medir. Para quem investe em ETH ou em tokens de L2, perceber para onde vai essa margem é mais importante do que celebrar a queda da taxa visível.

Será o MEV manipulação de mercado? O ângulo da CMVM

Para um leitor português, há uma pergunta incómoda por baixo de tudo isto: se um bot deteta a minha ordem, se antecipa e me faz pagar mais, isso não é manipulação de mercado? Nos mercados tradicionais, o front-running é ilegal e severamente punido. On-chain, vive numa zona cinzenta.

O enquadramento europeu é o MiCA, cujo Título VI trata precisamente do abuso de mercado: proibição de uso de informação privilegiada, de divulgação ilícita e de manipulação de mercado em criptoativos admitidos à negociação em plataformas de CASP. Em Portugal, a supervisão da conduta de mercado cabe à CMVM, com o Banco de Portugal a cuidar dos aspetos prudenciais e das stablecoins, no quadro da Lei n.o 69/2025, que transpôs o regime e cujo período transitório terminou a 1 de julho de 2026 (Diário da República).

O problema é de alcance. As regras de abuso de mercado do MiCA foram desenhadas para atores identificáveis a operar em plataformas reguladas, não para a ordenação permissionless e pseudónima de um sequenciador ou de um construtor de blocos. As orientações da ESMA sobre abuso de mercado ao abrigo do MiCA, cuja última parte se aplica a partir de 28 de julho de 2026, dificilmente alcançam um bot anónimo que faz sandwich numa pool da Uniswap. Por outras palavras, o MEV é, hoje, uma taxa que nenhum regulador cobra nem proíbe de forma eficaz. É por isso que a solução tem sido técnica (ePBS, FOCIL, mempools cifradas) e não jurídica. Para a previsão, isto reforça a tese: não conte com a CMVM para lhe devolver o MEV; conte com a engenharia.

Três cenários para o custo invisível até 2027

Juntando as peças, dá para desenhar três cenários para o custo real de usar uma L2 até 2027, entendendo custo real como a soma da taxa visível com o custo de ordenação suportado pelo utilizador médio que negoceia em DEX.

Cenário até 2027Taxa visível (transferência)Custo de ordenação / MEVQuem capta o valor
Compressão total (otimista)Abaixo de 0,001 eurosRedistribuído e minimizado (ePBS, FOCIL, mempools cifradas)O utilizador retém a maior parte
Base (mais provável)Cerca de 0,001 a 0,005 eurosPersistente, mas auditável (leilões tipo Timeboost)Sequenciador e DAO
Captura (pessimista)Cerca de 0,003 eurosOpaco e concentradoOperador do sequenciador

O cenário base é o mais provável precisamente porque a ePBS entra em cena na camada base já em finais de 2026, mas a sua adoção pelas L2 é gradual e os leilões de ordenação, à la Timeboost, tendem a espalhar-se antes de serem descentralizados. Vitalik Buterin enquadrou este período como uma revisão profunda do protocolo, a que chamou Lean Ethereum, descrevendo-a como «a terceira grande iteração da Ethereum» depois da Merge, com quase todas as peças principais do protocolo a serem substituídas ao longo «dos próximos cinco anos» (The Defiant). Nessa reescrita cabe também a forma como o valor da ordenação é distribuído, o que torna o cenário otimista plausível, mas não antes de 2027.

O que muda para o utilizador português

O que fazer com esta informação, na prática? Para quem usa L2 sobretudo para transferir stablecoins ou fazer pagamentos, a boa notícia é que o MEV quase não o afeta: uma transferência simples não tem deslizamento para extrair. O custo invisível concentra-se em quem negoceia em DEX, faz trocas de volume ou interage com protocolos de empréstimo e liquidação.

Um exemplo prático: para enviar remessas para fora da zona euro através de uma stablecoin numa L2, o MEV é irrelevante e o custo real resume-se à fração de cêntimo do gás, o que torna estas redes muito competitivas face às transferências bancárias tradicionais. Já para quem faz staking, fornece liquidez ou negoceia semanalmente em DEX, o MEV pode facilmente superar, ao longo de um ano, tudo o que se poupou na compressão das taxas visíveis. A regra é simples: quanto mais complexa e sensível ao preço for a operação, mais atenção merece a taxa invisível.

Para esses, há passos concretos. Usar agregadores e DEX baseados em intenções (o tipo de plataforma que absorve o deslizamento por si) em vez de enviar ordens diretas para o livro. Ativar um RPC privado, como o Flashbots Protect, para que a transação não passe pelo mempool público. Desconfiar de tolerâncias de deslizamento elevadas, que são um convite ao sandwich. E, ao escolher em que L2 operar, olhar não só para a taxa anunciada, mas para o modelo de ordenação: um sequenciador com leilão transparente e receita que reverte para a comunidade é preferível a um sequenciador opaco, mesmo que a taxa visível seja idêntica.

Vale a pena lembrar o enquadramento local: as mais-valias em cripto continuam sujeitas às regras portuguesas, e operar através de plataformas registadas junto das autoridades competentes é o caminho prudente agora que o período transitório do MiCA terminou. A taxa invisível não muda a sua obrigação declarativa; muda apenas quanto rende, de verdade, cada operação.

Sinais a vigiar nos próximos meses

Uma previsão só vale se disser o que a pode confirmar ou desmentir. Eis os sinais concretos a seguir nos próximos meses:

  • O resultado da bifurcação Hoodi a 17 de agosto e a fixação (ou não) de uma data de mainnet para a Glamsterdam.
  • A passagem do Timeboost da Arbitrum de operador único para sequenciamento multiparte com receita partilhada, prometida para o final de 2026.
  • Sinais de que a lógica da ePBS começa a ser importada pelas L2, e não apenas aplicada na camada base.
  • O avanço da FOCIL rumo à Hegota, como garantia de resistência à censura.
  • A adoção de mempools cifradas e de DEX baseados em intenções como predefinição, e não como opção avançada.
  • Qualquer incidente que exponha a infraestrutura de MEV como superfície de ataque, um risco já visível em 2026.

Se a maioria destes sinais evoluir no sentido da descentralização e da transparência, o cenário otimista ganha força. Se o Timeboost continuar concentrado em três mãos e as L2 mantiverem sequenciadores opacos, prepare-se para o cenário de captura.

O veredicto

A pergunta que dá origem a esta série, até onde podem cair as taxas das L2, tem uma resposta quase entediante em 2026: já caíram quase tudo o que podiam cair no que toca à taxa visível. O piso técnico da EIP-7918 e o reajuste de execução da Glamsterdam garantem frações de cêntimo, e o debate sobre mais um zero à direita é, para o utilizador comum, irrelevante.

A pergunta que interessa para 2027 é outra: quem fica com o valor da ordenação. É essa a taxa que a compressão não apaga, porque não é um problema de engenharia de dados, é um problema de poder sobre a sequência das transações. A Glamsterdam, com a ePBS, dá o primeiro passo sério para o resolver na camada base, e a Hegota, com a FOCIL, dará o segundo. Mas nas L2, onde vive a maioria da atividade, o custo invisível continua entregue a sequenciadores centralizados e a leilões concentrados. Até que isso mude, a resposta honesta para quanto custa uma L2 não é o número no recibo. É o número que ninguém lhe mostra.

Perguntas Frequentes

O que é o MEV e porque é considerado uma taxa nas L2?

O MEV (Maximal Extractable Value) é o valor que quem ordena as transações consegue extrair reorganizando, inserindo ou censurando operações num bloco. Não aparece no recibo, mas sai do bolso do utilizador sob a forma de um pior preço de execução, sobretudo em ataques sandwich em DEX, funcionando na prática como uma segunda taxa que a compressão do gás não elimina.

A compressão das taxas das L2 já terminou?

Do lado da taxa visível, praticamente. As blobs levaram o custo de dados ao piso técnico da EIP-7918 e a Glamsterdam deverá reduzir ainda a execução, mas a queda média de 99,16% desde 2024 já aconteceu. O que continua por resolver é o custo de ordenação (o MEV), que a compressão de dados e execução não toca.

O que é a ePBS da Glamsterdam e como muda o MEV?

A ePBS (EIP-7732) inscreve no protocolo da Ethereum a separação entre quem constrói e quem propõe os blocos, eliminando os relés de confiança do MEV-Boost. Estima-se que possa reduzir as perdas por MEV até 70% na camada base, embora seja uma projeção; as L2 terão ainda de adotar a lógica para beneficiarem dela.

O Timeboost da Arbitrum é bom ou mau para o utilizador?

É ambíguo. Torna a ordenação transparente e canaliza cerca de 97% da receita para a Arbitrum DAO, mas um estudo de 2026 mostrou que três entidades ganharam 99,74% dos leilões e que cerca de 30% das transações prioritárias são revertidas, sinal de concentração e de spam. Põe preço à prioridade, mas não a democratiza.

Como me posso proteger do MEV numa L2 em 2026?

Use DEX baseados em intenções (como o CoWSwap ou o UniswapX) e agregadores em vez de enviar ordens diretas, ative um RPC privado como o Flashbots Protect, evite tolerâncias de deslizamento elevadas e prefira L2 com modelos de ordenação transparentes. Transferências simples de stablecoins praticamente não são afetadas.

Por Priya Reddy, editora sénior da HOGE Wire, especializada em infraestrutura e escalabilidade da Ethereum.

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